A Máquina de Moer Gente: O Terror de Estado no Brasil Império (1700-1900)

Se o sangue colonial, como citado em nosso artigo anterior, secou como cimento, o Império e a República Nascente fizeram dele tinta para escrever novas leis de extermínio. De 1700 a 1900, o Estado brasileiro — agora travestido de monarquia “civilizada” — não abandonou o terror: refinou-o. Cada massacre datado nesta era é um elo na corrente de um projeto genocida que atravessa reinados, impérios e repúblicas. A violência não é acidente: é o motor da dominação.

Recordamos, por exemplo, o massacre dos Botocudos (1808-1830), que fora ordenado pelo próprio Príncipe Regente D. João VI, o extermínio em Minas Gerais e Espírito Santo usou fome, varíola e fuzis para “limpar” terras para o café. Tribos inteiras viram seus filhos trucidados sob o decreto imperial que pagava por cabeça indígena cortada.

Já em 25 de outubro de 1820 ocorre o massacre do Rodeador: 91 camponeses sebastianistas degolados em Pernambuco por tropas do governo. Seu crime? Sonhar com um reino sem reis.

Em 25 de janeiro de 1835 se dá a sangrenta repressão dos Malês: Após a revolta negra em Salvador, o Estado fuzilou 70 africanos e deportou 500. Corpos foram arrastados por cavalos nas ruas — espetáculo de terror para as senzalas.

O mito da “transição pacífica” da colônia ao império é uma mentira ensopada em sangue. Na Cabanagem (1835-1840), no Pará, 30 mil caboclos, indígenas e negros foram caçados como animais por tropas do Império. Mataram 30% da população regional. Oficiais do governo registravam: “É preciso varrer esta raça“. Não houve independência para os de baixo: só trocaram o chicote de Lisboa pelo do Rio de Janeiro.

E quando a República chegou, em 1889, trouxe consigo o mesmo veneno. O Massacre de Canudos (1893-1897) já fermentava nos campos da Bahia: 25 mil sertanejos exterminados pelo Exército “moderno”. Mas isso é história para outro capítulo — fiquemos com os números até 1900: cada década deste século teve seu genocídio catalogado. A máquina de moer gente não parou; acelerou com novas tecnologias de morte e a mesma velha desculpa: “progresso“, “ordem“, “civilização“.

Este registro histórico (1700-1900) desmonta a farsa da evolução política brasileira. O terror não mudou de dono — mudou de farda. Se no século XVI os bandeirantes agiam por contratos reais, no XIX eram as Forças Armadas do Império que assinavam ordens de extermínio. O Estado no Brasil, seja monárquico ou republicano, mantém a mesma função: patrocinar o massacre para proteger a propriedade, o latifúndio e o poder branco. Enquanto houver um único alicerce erguido sobre ossadas, nossa memória será arma. Aos anarquistas cabe lembrar: só se destrói o monstro conhecendo suas entranhas. E elas continuam expostas, de 1500 a 1900 — e além.

Liberto Herrera*.

*Artigo publicado em agosto de 2025.

Sangue como Cimento: O Terror de Estado na Forja do Brasil Colonial

O Brasil não nasceu — foi esquartejado à força. Desde os primeiros golpes do machado colonizador, o Estado revelou sua verdadeira face: um monstro devorador de povos, erguido sobre ossadas. Os massacres que mancharam este solo, e aqui, nesta primeira parte, nos limitaremos até por volta do ano de 1700, não foram “excessos” da colonização, mas seu método fundamental. Cada chacina foi um ato político: o Estado colonial, braço armado da Coroa e da Igreja, demonstrava aos explorados que a resistência seria afogada em sangue. O terror não era falha do sistema; era o sistema funcionando.

Vejam o genocídio indígena! Os Caetés trucidados em 1556 por “vingar” a morte de um bispo canibal — hipocrisia sagrada! — foram apenas o ensaio. A “guerra justa”, doutrina perversa abençoada por teólogos e reis, transformou o extermínio em política de Estado. Tupinambás, Guaianases, milhares de povos livres: caíam sob o fogo cruzado dos canhões e das cruzes. Entre 1500 e 1700, mais de mil povos foram reduzidos a 260. Isto não é tragédia; é projeto. O Estado, com sua máquina de moer corpos, limpou o terreno, como até hoje o faz, para o saque.

E os negros escravizados? Palmares grita a resposta. Quando Zumbi ergueu a liberdade nas serras, o Estado contratou bandidos — os bandeirantes — para esmagar o quilombo em 1694. O massacre foi meticuloso: crianças, velhos, guerreiros, todos convertidos em “lição” para quem ousasse sonhar com autonomia. Nas senzalas, a violência era rotina: revolta no Engenho Santana? 40 corpos pendurados como bandeiras do terror. O Estado não “combatia o crime”; fabricava o medo para manter a engrenagem da exploração.

Até os colonos pobres sentiram o punho de ferro. Cunhaú e Uruaçu (1645) provam: quando camponeses e indígenas se misturavam sob o mesmo teto de resistência, o Estado agiu com ferocidade calculada. 150 mortos em igrejas — degolados como animais — por suspeita de solidariedade aos holandeses. Não importava a bandeira: importava esmagar qualquer núcleo de autonomia popular. O poder, seja português ou flamengo, sempre escolheu o massacre como pedagogia.

Este pequeno recorte histórico lança luz para desnudar a mentira fundacional do Brasil: o Estado nunca foi “protetor”. Foi e é um carcereiro, um algoz, um incendiário de esperanças. Sua “ordem” nasceu do genocídio indígena, da tortura africana, do terror aplicado como agente de amálgama social. Enquanto os poderosos erguiam igrejas com o ouro roubado, o sangue dos massacres secava no chão como cimento. Reconhecer esta história não é nostalgia — é armar o espírito. A única resposta à violência de Estado, ontem e hoje, é a organização horizontal, a desobediência radical e a luta por um território sem amos, sem massacres, sem o espectro do Leviatã colonial que ainda nos assombra.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em agosto de 2025.

O PL da Morte e a Máquina Capitalista de Destruição

Irmãs e irmãos, abram os olhos: esse tal “PL da Devastação”, não é um simples projeto de lei – é mais uma legalização do ecocídio. Aprovado na calada da noite por um Congresso obviamente fascista, ele não existe para “agilizar processos”, mas para abrir caminho livre à pilhagem capitalista, com um alvo claro: o petróleo da Foz do Amazonas.

O capitalismo não erra, não vacila – ele avança com precisão assassina. Enquanto o planeta sangra, as corporações esfregam as mãos. A Amazônia, uma das últimas fronteiras de resistência, está na mira. A Licença Ambiental Especial (LAE) é a arma perfeita: um carimbo verde para que a Petrobrás e suas sócias internacionais transformem manguezais e territórios sagrados em poços de petróleo. Doze meses para decidir o destino de um ecossistema milenar? Isso não é eficiência – é um tiro na nuca da natureza.

E não se iludam com a farsa da “regulação”. O Estado não é mediador, é cúmplice. O licenciamento virou uma piada macabra: agora, os próprios destruidores podem autodeclarar que seu projeto é “seguro”. O agronegócio, a mineração, as petrolíferas – todos ganham carta branca para saquear, enquanto órgãos como o ICMBio e a Funai são amarrados e amordaçados. Terras indígenas não homologadas? Áreas de proteção? Tudo vira zona de sacrifício no altar do lucro.

Eles sabem que o petróleo na Foz do Amazonas é a gota d’água. Sabem que um vazamento ali seria uma sentença de morte para ecossistemas inteiros. Mas não importa. O capitalismo não tem ética, não tem futuro – só tem sede infinita de acumulação. E quando o colapso vier, quem pagará? Os povos da floresta, os pobres das periferias, os que sempre foram tratados como descartáveis.

Mas nós não somos descartáveis. E não vamos assistir de braços cruzados. Se o Estado entrega a Amazônia de bandeja, nossa resposta tem que ser direta e sem perdão: ocupação, resistência, sabotagem. Não há mais tempo para petições ou diálogo com esse sistema podre. Eles declararam guerra – e guerra não se vence com discursos.

A hora é agora. Ou matamos o capitalismo, ou ele mata tudo.

Pela Terra Livre – até a última consequência.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito e publicado originalmente em julho de 2025.

A Justiça Burguesa e a Farsa do Combate ao Fascismo: O Caso Carla Zambelli

A recente fuga de Carla Zambelli para a Europa, após sua condenação pelo STF por crimes como invasão ao CNJ e perseguição armada a um homem, expõe a fragilidade da justiça burguesa diante do fascismo. Enquanto o Estado se gaba de punições exemplares, a deputada bolsonarista escapa impune, protegida por sua cidadania italiana e pela estrutura de poder transnacional que sempre acolheu reacionários. A justiça capitalista, burocrática e seletiva, não passa de um teatro para legitimar a ordem vigente, incapaz de tocar nos verdadeiros pilares do fascismo/capitalismo: a propriedade privada, o autoritarismo estatal e a violência institucionalizada.

O caso Zambelli revela a cumplicidade histórica entre Estado e fascismo. Apesar de condenada, ela operou livremente dentro das instituições, usando seu mandato para ataques ao Judiciário e à democracia burguesa, até que a pressão popular a tornou inconveniente. O STF, que agora a persegue, é o mesmo que tolerou seu projeto autoritário enquanto servia aos interesses da elite. A justiça burguesa só age quando o fascismo ameaça desequilibrar seu próprio jogo de poder, nunca quando oprime os de baixo. A prisão de Zambelli seria, no máximo, um acerto de contas entre facções dominantes, não um freio ao avanço reacionário.

A falência do sistema penal fica ainda mais clara ao vermos a deputada se declarar “intocável” na Itália, onde promete articular a extrema-direita europeia. Enquanto o Estado brasileiro se perderá em pedidos de extradição e burocracias da Interpol, o fascismo se reorganiza em escala global, aproveitando-se das mesmas fronteiras e acordos que o capitalismo criou para proteger seus interesses. As leis, feitas para manter a dominação de classe, são inúteis contra quem as usa como arma. Zambelli não é uma exceção, mas a regra: o fascismo sempre encontra brechas no sistema que supostamente o condena.

Portanto, a solução não está em confiar nas instituições, mas em destruí-las. A história mostra que o fascismo só é derrotado pela ação direta dos oprimidos, não por decretos presidenciais ou decisões judiciais. Movimentos anarquistas, como os que combateram Mussolini na Itália ou Franco na Espanha, entenderam que o Estado jamais será aliado nessa luta. Zambelli fugiu, mas sua ameaça permanece porque o fascismo é estrutural — e só cairá quando o povo, organizado ocupar ruas, fábricas e terras, desmontando o aparato que alimenta a reação.

Enquanto a esquerda institucional pede mais leis e mais STF, nós, anarquistas, lembramos: o fascismo é filhote do capital e do Estado. Zambelli é só mais um sintoma. A verdadeira resistência virá de baixo, sem partidos, sem polícia, sem hierarquias. Que sua fuga seja o último aviso: a justiça dos ricos nunca nos salvará. Só a revolução social, horizontal e libertária, erradicará o fascismo da Terra.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito em 2025, por ocasião a hoje ex-deputada federal Carla Zambelli.

Do Irã ao Brasil: Nem Bombas, Nem Tanques! Pela Desmilitarização e Autogestão!

Como anarquista, é impossível não ecoar e fortalecer o grito dos diversos coletivos iranianos neste momento: a guerra e o militarismo são ferramentas de dominação que esmagam os povos em benefício de Estados e capitalistas.

O recente aumento dos gastos militares do Brasil — que superou R$ 142 bilhões em 2025, enquanto serviços públicos definham — expõe a hipocrisia de um governo que prioriza tanques em vez de pão, fuzis em vez de escolas. Essa lógica perversa, igual à denunciada pelos camaradas no Irã, sacrifica vidas trabalhadoras no altar do lucro e do controle estatal.

Assim como os ataques israelenses ao Irã, o complexo industrial-militar brasileiro serve aos interesses imperialistas globais. Nosso governo financia a indústria da morte ao comprar armas dos EUA e Europa, enquanto apoia tacitamente genocídios como o de Gaza. Cada avião de caça comprado com nosso suor poderia alimentar milhões, curar enfermos ou libertar terras indígenas. A “segurança nacional” que propagandeiam é, na verdade, segurança da burguesia contra o povo explorado.

A classe trabalhadora brasileira, tal como a iraniana, é duplamente vitimizada: pela repressão interna e pela cumplicidade de nosso Estado com guerras externas. Enquanto o orçamento militar cresce, assistimos à criminalização de movimentos sociais, à violência policial nas periferias e ao desmonte da previdência social. Os R$ 20 bilhões destinados a novos blindados em 2025 são um roubo descarado — poderiam erradicar a fome que atinge 33 milhões de brasileiros.

Rejeitamos a ilusão de que governos ou instituições internacionais trarão paz. A ONU acoberta massacres, e o Estado brasileiro, seja sob qual bandeira for, mantém uma máquina de opressão. Nossa luta é pela autogestão popular, pela solidariedade direta entre explorados, como nas ocupações de terra e nas greves selvagens. O exemplo das mobilizações “Mulher, Vida, Liberdade” no Irã nos inspira: só a ação direta desarma os poderosos.

Exigimos o fim imediato dos investimentos bélicos e a redistribuição desses recursos às comunidades. Que os quartéis virem cooperativas; as fábricas de armas, escolas livres. Nossa paz não virá de generais ou diplomatas, mas da organização horizontal, do apoio mútuo e da insurreição permanente contra este sistema que nos mata por lucro. Nem Irã, nem Israel, nem Brasil: nenhuma pátria vale um só trabalhador morto!

Pela desmilitarização do mundo!
Pela revolução social!

Liberto Herrera.

Camarada, nenhuma igreja irá te salvar — e nem quer.

Desde que o primeiro padre ergueu um altar, a religião tem sido o braço espiritual da opressão. Igrejas, mesquitas, sinagogas — todas são máquinas de controle, vestidas de virtude, que vendem promessas de paraíso em troca da tua submissão aqui e agora. Enquanto você espera ou reza por um milagre, os mesmos líderes que te cobram dízimos abraçam políticos, abençoam exércitos e lucram com a miséria alheia. A cruz, a estrela, o crescente: símbolos que unem tronos e altares há séculos. Salvação? Só existe na luta coletiva contra esses parasitas de batina.

Irmão, você acha mesmo que um deus que permite fome, guerras e exploração vai te dar justiça? A teologia é a cortina de fumaça perfeita para manter o pobre de joelhos, esperando uma recompensa pós-morte enquanto o patrão rouba seu salário agora. Os mesmos que condenam o pecado do homem pobre são cúmplices do pecado maior: a propriedade privada, a desigualdade, a dominação. Nenhum sermão apaga o sangue nas mãos da Igreja (seja ela qual for!) — da Inquisição às ditaduras.

Todavia, veja: anticlericalismo não é ódio à fé, é ódio à hierarquia. Padres, pastores, gurus — todos se intitulam intermediários do divino, mas só intermediaram mesmo é o teu medo. Transformam tua revolta em culpa, tua fome em resignação, teu corpo em pecado. Enquanto isso, abusam, acumulam riquezas e ditam moralidades convenientes aos poderosos. Quer espiritualidade? Olha para o fogo da solidariedade, não para a cinza dos rituais.

A libertação não vem de um deus que castiga, mas da multidão que se organiza. Queima os confessionários, ocupa os templos, transforma a caridade em ação direta! Nossa “salvação” está nas ruas, nas greves, nas redes de apoio mútuo que construímos sem patrões, sem polícia e sem padres. A verdadeira fé é acreditar no poder do povo — e nenhum milagre é maior que uma revolução.

Camarada, para de olhar pro céu. O inferno já é aqui — e só nós podemos extingui-lo. Nem deus, nem mestre: luta! 

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente em 2025.

Para Além das Datas Simbólicas

Sabemos, ou deveríamos saber, que o anarquismo não se resume apenas a bandeiras erguidas em datas históricas ou discursos inflamados em praças públicas.

A essência anarquista está na ruptura diária com as estruturas de opressão, na construção de relações horizontais que subvertam a lógica do capital e do Estado. Por mais que o Primeiro de Maio simbolize a resistência operária, reduzir a luta libertária a manifestações pontuais é perpetuar uma armadilha: a de confinar a revolução a gestos simbólicos, enquanto o sistema segue intacto em sua capacidade de reproduzir injustiças. Se queremos que o anarquismo volte a ser uma força transformadora, é preciso transbordar os círculos militantes e enraizar práticas libertárias no cotidiano, atingindo quem vive sob o peso alienante do “trabalho-morto” e da vida controlada.

A potência do anarquismo sempre esteve em sua capacidade de questionar não apenas o Estado ou o patrão, mas a própria organização da vida. Isso exige ir além dos palanques eventuais e ocupar os espaços invisíveis do dia a dia: os lares, os bairros, os locais de trabalho. Quando uma vizinhança se organiza para criar uma horta comunitária, quando trabalhadores improvisam redes de apoio mútuo para enfrentar demissões, ou quando mulheres compartilham saberes sobre autocuidado e autonomia corporal, ali está o germe da anarquia. São gestos que desmontam a dependência do poder hierárquico e revelam que outra sociabilidade é possível — uma que não depende de datas no calendário para existir.

O desafio, dessa forma, é romper a bolha militante. Muitas vezes, o discurso anarquista torna-se hermético, restrito a quem já domina suas bandeiras e jargões. Para dialogar com o “indivíduo médio”, é preciso traduzir a crítica anticapitalista em linguagens acessíveis, vinculadas às urgências concretas. Como convencer alguém sobre a necessidade de autogestão se não mostrarmos como ela pode resolver problemas imediatos, como a falta de creches ou o preço abusivo do aluguel? A propaganda pela ação, tão cara ao anarquismo clássico, só ganha sentido quando as pessoas veem na prática que a solidariedade direta é mais eficaz que a espera por políticas estatais.

Não se trata de abandonar as grandes mobilizações, mas de compreender que a revolução é um processo contínuo, alimentado por microações cotidianas. O Estado e o capital mantêm seu domínio não apenas pela repressão, mas pela naturalização de relações autoritárias em todos os âmbitos — da família ao local de trabalho. Combater isso demanda que o anarquismo infiltre-se nas brechas do ordinário: nas conversas de bar, nas assembleias de condomínio, nas redes sociais. É nos pequenos atos — como organizar um mutirão para consertar um posto de saúde abandonado ou questionar o machismo em um churrasco de família — que se mina a legitimidade das estruturas de poder.

Se o anarquismo deseja ser ameaçador, precisa deixar de ser visto como uma utopia distante e tornar-se uma prática palpável. Isso exige coragem para ocupar espaços considerados “apolíticos” e transformá-los em trincheiras de luta. Enquanto nos limitarmos a atos simbólicos, o sistema seguirá nos tolerando como folclore rebelde. Mas se transbordarmos para o cotidiano, mostrando que a autogestão, o apoio mútuo e a ação direta resolvem problemas reais, seremos perigosos. Afinal, nenhum poder sobrevive quando o povo descobre que não precisa dele para viver — e viver com dignidade.

Liberto Herrera

Crime e Estado: amigos íntimos

A notícia divulgada pela mídia burguesa brasileira de que policiais estão sendo investigados por envolvimento com o PCC (Primeiro Comando da Capital) evidencia uma verdade frequentemente mascarada: o vínculo profundo e estrutural entre o Estado, o crime organizado e o capitalismo.

A polícia, que oficialmente deveria servir à “segurança pública”, na prática, atua como um braço armado de proteção aos interesses das elites, enquanto reproduz as dinâmicas de violência e corrupção que caracterizam o sistema capitalista. A relação promíscua entre agentes do Estado e organizações criminosas não é uma aberração ou exceção; é, sim, uma manifestação do funcionamento sistêmico de um modelo econômico e político que legitima e se alimenta do crime.

No capitalismo, a linha entre a “lei” e o “crime” é constantemente borrada. O mesmo sistema que criminaliza a pobreza e marginaliza trabalhadores precarizados, principalmente os pretos, sustenta estruturas que permitem a lavagem de dinheiro, a corrupção e a exploração violenta, seja por meio de organizações criminosas como o PCC, seja por corporações que exploram mão de obra de forma análoga à escravidão. A polícia, longe de ser uma entidade neutra, funciona como agente desse ciclo, seja pela repressão aos pobres, seja pela aliança com as máfias para lucrar com o controle territorial e econômico. Assim, o crime não é um desvio, mas um elemento intrínseco do próprio sistema que se organiza para concentrar poder e riquezas.

O Estado, enquanto sustentáculo do capitalismo, também é cúmplice nesse cenário. A legalidade estatal é utilizada para proteger privilégios e interesses corporativos, enquanto a ilegalidade, frequentemente atribuída ao crime organizado, opera como uma extensão das mesmas dinâmicas de exploração. Não é por acaso que esquemas de corrupção, como os relatados na operação contra policiais suspeitos de envolvimento com o PCC, envolvam diretamente aqueles que deveriam “combater” o crime. O Estado e as máfias são, de fato, duas faces de uma mesma moeda, promovendo e perpetuando a desigualdade e a violência de maneiras complementares.

A denúncia dessa ligação estrutural entre o Estado, o crime e o capitalismo é essencial para entender que a repressão e as operações policiais não têm como objetivo eliminar o crime, mas reorganizar suas hierarquias e fluxos de poder. Qualquer solução que busque superar essas contradições não virá do próprio aparato estatal, mas da construção de alternativas coletivas e anticapitalistas, baseadas na autogestão, na solidariedade e na luta contra todas as formas de opressão. Sem romper com o capitalismo e seu braço armado, o Estado, continuaremos reféns de um sistema que normaliza o crime como parte de sua lógica interna.

Liberto Herrera.

A Ilusão da Divisão: Esquerda e Direita no Capitalismo Brasileiro

A dicotomia esquerda versus direita, tão presente no debate político burguês brasileiro, frequentemente mascara uma realidade mais complexa e interligada. A afirmação de que, no atual sistema capitalista “democrático” brasileiro, ambos os espectros ideológicos acabam no fim por convergir, especialmente na hora de apoiar determinados candidatos, encontra respaldo em diversos fatores. Vejamos alguns:

Nas eleições ocorridas neste ano de 2024, dos 85 candidatos no país que tinham no seu palanque tanto o PT (Partido dos Trabalhadores), do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quanto o PL (Partido Liberal), do ex-presidente Jair Bolsonaro, 58 conseguiram se eleger prefeitos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Somente este fato aponta que as supostas divergências entre ambos os espectros políticos não são tão grandes assim quando o tema é a disputa pelo poder do Estado. Apesar de PARECEREM inimigos, Lula e Bolsonaro formam alianças sem qualquer pudor para alcançar dividendos políticos mútuos.

Registre-se que o sistema político brasileiro, marcado por uma forte personalização da política e por um sistema partidário fragmentado, favorece a formação de alianças pragmáticas, nas quais as ideologias de fundo sempre são secundárias em relação aos interesses imediatos. Essa dinâmica permite que tanto partidos de “esquerda” quanto de direita se unam em torno de candidaturas que prometam benefícios concretos a seus partidos, independentemente da orientação ideológica declarada.

Ademais, a própria dinâmica do capitalismo, com sua busca incessante por acumulação de capital e sua tendência a concentrar riqueza, exerce pressão sobre os partidos políticos, independentemente de sua posição no espectro ideológico. A necessidade de atrair investimentos e garantir a estabilidade econômica muitas vezes leva tanto a “esquerda” quanto a direita a adotarem políticas econômicas convergentes, com ênfase na redução de gastos públicos e na flexibilização das leis trabalhistas. Assim, no contexto brasileiro, onde o oportunismo político é regra suprema, as fronteiras entre esses espectros ideológicos se tornam ainda mais fluidas, permitindo que partidos e candidatos se apropriem de discursos e propostas que transcendem as divisões tradicionais entre esquerda e direita.

Os fatos acima citados deixam claro para nós, explorados e oprimidos, que o caminho para a liberdade e justiça não passa pela disputa do poder do Estado, braço simbiótico do Capital. Ao contrário, entender que todos os partidos políticos, no discurso e/ou na prática cotidiana, são defensores do Estado e do Capitalismo e que, portanto, devem ser enfrentados, combatidos e repelidos do tecido social é um grande passo na longa jornada da emancipação humana.

Liberto Herrera*.

*Texto produzido originalmente em novembro de 2024.

Alienação e a Decadência sob a Lente das Apostas: Um Reflexo da Sociedade Brasileira

A revelação de que beneficiários do Bolsa Família direcionaram bilhões de reais para casas de apostas (as famigeradas Bets) em um único mês expõe um sintoma profundo da sociedade capitalista brasileira: a alienação e a decadência. Esse dado alarmante, longe de ser um mero detalhe estatístico, revela um quadro mais amplo de uma população marginalizada, presa a um sistema que a mantém em um ciclo de precariedade, ilusão e dependência.

A aposta, enquanto prática, representa uma tentativa desesperada de escapar da realidade, uma busca ilusória por uma mudança de status social instantânea. No contexto do Bolsa Família, programa brasileiro destinado a mitigar a fome e a pobreza, essa prática revela uma profunda desconfiança no sistema e na possibilidade de uma mobilidade social real. Os beneficiários, pessoas em situação de pobreza, ao invés de utilizarem os recursos para investir em educação, saúde ou compra de alimentos básicos, veem nas apostas uma falsa promessa de enriquecimento rápido, perpetuando assim um ciclo de dependência e vulnerabilidade.

Essa realidade é um reflexo da lógica do capitalismo neoliberal, que incentiva o individualismo exacerbado, a competição desenfreada e a busca incessante por prazeres imediatos. A propaganda massiva das casas de apostas, que prometem a vida dos sonhos com um simples clique, encontra um terreno fértil em uma sociedade marcada pelas desigualdades e pela falta de perspectivas de futuro.

A alienação, nesse contexto, não é uma escolha individual, mas sim um produto de um sistema que molda as consciências e as necessidades. Os trabalhadores em situação de extrema pobreza, ao invés de ser visto como sujeitos de direitos e protagonista de suas próprias histórias, são transformados em alvo de um mercado que lucra com suas dificuldades.

É urgente, a partir de nosso espectro anarquista, que promovamos debates e reflexões sobre as causas profundas desse problema, que vão além da mera regulamentação estatal das casas de apostas. É preciso trabalharmos para reconstruir a consciência de classe entre os explorados e oprimidos, para que possam entender e, depois, combater esse ciclo vicioso de alienação, construindo uma sociedade mais justa e igualitária – que por consequência há de ser erigida sobre os escombros do Capital e do Estado.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente em dezembro de 2024.