RECORDEM, COMPANHEIROS: O ANARQUISMO NÃO SE VOTA, SE CONSTRÓI NAS RUAS!

Mais um ano de 2026 se anuncia, e com ele a velha farsa eleitoral que a cada quatro anos tenta nos convencer de que a mudança vem das urnas. Mas nós, anarquistas, não esquecemos: o Estado é o nosso inimigo. Não importa se vista a camisa vermelha, azul ou verde; não importa o nome do ditador de plantão ou do “representante do povo”. O Estado é a espinha dorsal da opressão, a máquina que monopoliza a violência legal, que prende, explora, mata e decide quem vive e quem morre. Participar do jogo eleitoral é dar legitimidade a essa máquina assassina. É reconhecer que alguns seres humanos têm o direito de comandar os outros. E isso, companheiros, é a própria negação do anarquismo.

Não se deixem enganar pelas promessas de “mudança pela política”. Cada voto depositado na urna é um tijolo que reforça os muros da prisão que nos contém. Quando vocês entram na cabine de votação, estão dizendo ao sistema: “Aceito suas regras, aceito seus mestres, aceito que minha liberdade seja representada por um ladrão de terno”. Lembrem-se: toda eleição é uma cerimônia de legitimação da dominação. Os candidatos não são porta-vozes do povo — são capatazes do capital, da propriedade privada e da ordem estabelecida. E ao votar, vocês se tornam cúmplices dessa farsa, alimentando a ilusão de que a opressão pode ser humanizada. Ela não pode. Ela só pode ser destruída.

Nós não queremos reformar o Estado. Queremos extingui-lo. A história já nos mostrou: anarquistas que se renderam à lógica eleitoral abandonaram a essência da luta. Não existe “voto anarquista”, assim como não existe “cadeia anarquista” ou “exército anarquista”. O que existe é a ação direta, a autogestão, a organização de baixo para cima, sem patrões nem governantes. Quando boicotamos as eleições, estamos dizendo não apenas “não voto”, mas sim “não reconheço sua autoridade”. Cada eleição que ignoramos é um golpe na imagem de que o Estado é necessário. Cada hora que deixamos de gastar em comícios ou propagandas eleitorais é uma hora a mais dedicada à construção de redes de apoio mútuo, ocupações, cooperativas e assembléias populares.

Este ano de 2026, os donos do poder tentarão de novo nos chamar para o teatro. As telas se encherão de promessas, os debates fingirão debate, e os cofres públicos serão saqueados para financiar mentiras. Mas nós, que sabemos que a liberdade não se mendiga nem se vota, vamos responder com desobediência. Vamos recusar a urna como recusamos a algema. Vamos rir dos que nos chamam de “alienados” — alienado é quem entrega sua vontade a um pedaço de papel. A nossa pátria é o mundo, e nosso governo é a solidariedade horizontal entre iguais. Não queremos representantes, queremos ação. Não queremos promessas, queremos práticas libertárias.

Portanto, companheiros, quando setembro de 2026 chegar e os meios de comunicação bradarem sobre a “importância do voto consciente”, mantenham-se firmes. Boicotem as eleições. Façam campanha anti-eleitoral nos bairros, nos sindicatos, nas escolas. Digam em alto e bom som: o anarquismo é antiestatal ou não é nada. E que os candidatos, os juízes eleitorais e os políticos de todas as faixas saibam: nossa luta não é por uma vaga no parlamento. Nossa luta é pela abolição de todo o parlamento, de toda a cadeia de comando, de toda a hierarquia. Enquanto eles contam votos, nós plantaremos árvores, ocuparemos terras, criaremos bibliotecas populares, montaremos hortas comunitárias, organizaremos defesas mútuas. Esse é o caminho. Não atrás de um governante. Mas ao lado dos nossos iguais. Viva a luta antiestatal! Abaixo as eleições! O futuro é autogestionário ou não será.

Liberto Herrera.

Español:

RECUERDEN, COMPAÑEROS: ¡EL ANARQUISMO NO SE VOTA, SE CONSTRUYE EN LAS CALLES!

Otro año 2026 se anuncia, y con él la vieja farsa electoral que cada cuatro años intenta convencernos de que el cambio viene de las urnas. Pero nosotros, anarquistas, no olvidamos: el Estado es nuestro enemigo. No importa si se vista de camisa roja, azul o verde; no importa el nombre del dictador de turno o del “representante del pueblo”. El Estado es la columna vertebral de la opresión, la máquina que monopoliza la violencia legal, que encarcela, explota, mata y decide quién vive y quién muere. Participar en el juego electoral es dar legitimidad a esa máquina asesina. Es reconocer que algunos seres humanos tienen el derecho de mandar sobre otros. Y eso, compañeros, es la propia negación del anarquismo.

No se dejen engañar por las promesas de “cambio a través de la política”. Cada voto depositado en la urna es un ladrillo que refuerza los muros de la prisión que nos contiene. Cuando entran en la cabina de votación, le están diciendo al sistema: “Acepto tus reglas, acepto tus amos, acepto que mi libertad sea representada por un ladrón de traje”. Recuerden: toda elección es una ceremonia de legitimación de la dominación. Los candidatos no son portavoces del pueblo — son capataces del capital, de la propiedad privada y del orden establecido. Y al votar, se vuelven cómplices de esa farsa, alimentando la ilusión de que la opresión puede ser humanizada. No puede. Solo puede ser destruida.

Nosotros no queremos reformar el Estado. Queremos extinguirlo. La historia ya nos ha mostrado: los anarquistas que se rindieron a la lógica electoral abandonaron la esencia de la lucha. No existe el “voto anarquista”, como no existe la “cárcel anarquista” ni el “ejército anarquista”. Lo que existe es la acción directa, la autogestión, la organización de abajo hacia arriba, sin patrones ni gobernantes. Cuando boicoteamos las elecciones, no solo decimos “no voto”, sino “no reconozco tu autoridad”. Cada elección que ignoramos es un golpe a la imagen de que el Estado es necesario. Cada hora que dejamos de gastar en mítines o propaganda electoral es una hora más dedicada a construir redes de apoyo mutuo, ocupaciones, cooperativas y asambleas populares.

Este año 2026, los dueños del poder intentarán nuevamente llamarnos al teatro. Las pantallas se llenarán de promesas, los debates fingirán debate, y las arcas públicas serán saqueadas para financiar mentiras. Pero nosotros, que sabemos que la libertad no se mendiga ni se vota, responderemos con desobediencia. Rechazaremos la urna como rechazamos las esposas. Nos reiremos de quienes nos llaman “alienados” — alienado es quien entrega su voluntad a un pedazo de papel. Nuestra patria es el mundo, y nuestro gobierno es la solidaridad horizontal entre iguales. No queremos representantes, queremos acción. No queremos promesas, queremos prácticas libertarias.

Por lo tanto, compañeros, cuando llegue septiembre de 2026 y los medios de comunicación clamen sobre la “importancia del voto consciente”, manténganse firmes. Boicoteen las elecciones. Hagan campaña antielectoral en los barrios, en los sindicatos, en las escuelas. Digan alto y claro: el anarquismo es antiestatal o no es nada. Y que los candidatos, los jueces electorales y los políticos de toda calaña sepan: nuestra lucha no es por un escaño en el parlamento. Nuestra lucha es por la abolición de todo el parlamento, de toda la cadena de mando, de toda jerarquía. Mientras ellos cuentan votos, nosotros plantaremos árboles, ocuparemos tierras, crearemos bibliotecas populares, montaremos huertas comunitarias, organizaremos defensas mutuas. Ese es el camino. No detrás de un gobernante. Sino al lado de nuestros iguales. ¡Viva la lucha antiestatal! ¡Abajo las elecciones! El futuro es autogestionario o no será.

Liberto Herrera.

English:

REMEMBER, COMRADES: ANARCHISM IS NOT VOTED, IT IS BUILT IN THE STREETS!

Another year 2026 is announced, and with it the old electoral farce that every four years tries to convince us that change comes from the ballot box. But we anarchists have not forgotten: the State is our enemy. It doesn’t matter if it wears a red, blue, or green shirt; it doesn’t matter the name of the current dictator or the “people’s representative.” The State is the backbone of oppression, the machine that monopolizes legal violence, that imprisons, exploits, kills, and decides who lives and who dies. Participating in the electoral game is giving legitimacy to that murderous machine. It is acknowledging that some human beings have the right to rule over others. And that, comrades, is the very negation of anarchism.

Do not be fooled by promises of “change through politics.” Every vote cast in the ballot box is a brick that reinforces the prison walls that contain us. When you enter the voting booth, you are telling the system: “I accept your rules, I accept your masters, I accept that my freedom be represented by a suited thief.” Remember: every election is a ceremony legitimizing domination. Candidates are not spokespeople for the people — they are foremen for capital, private property, and the established order. And by voting, you become complicit in that farce, feeding the illusion that oppression can be humanized. It cannot. It can only be destroyed.

We do not want to reform the State. We want to abolish it. History has already shown us: anarchists who surrendered to electoral logic abandoned the essence of struggle. There is no such thing as an “anarchist vote,” just as there is no “anarchist prison” or “anarchist army.” What exists is direct action, self-management, organization from below, without bosses or rulers. When we boycott elections, we are saying not only “I don’t vote,” but “I do not recognize your authority.” Every election we ignore is a blow to the image that the State is necessary. Every hour we don’t waste on rallies or electoral propaganda is one more hour dedicated to building mutual aid networks, occupations, cooperatives, and popular assemblies.

This year 2026, the powers that be will try once more to summon us to their theater. Screens will fill with promises, debates will feign debate, and public coffers will be looted to finance lies. But we, who know that freedom is neither begged for nor voted for, will respond with disobedience. We will refuse the ballot box just as we refuse the handcuffs. We will laugh at those who call us “alienated” — the alienated one is the one who hands over their will to a piece of paper. Our homeland is the world, and our government is horizontal solidarity among equals. We do not want representatives, we want action. We do not want promises, we want libertarian practices.

Therefore, comrades, when September 2026 arrives and the media cries out about the “importance of conscious voting,” remain steadfast. Boycott the elections. Run anti-electoral campaigns in neighborhoods, unions, and schools. Say it loud and clear: anarchism is anti-state or it is nothing. And let the candidates, electoral judges, and politicians of all stripes know: our struggle is not for a seat in parliament. Our struggle is for the abolition of all parliament, of the entire chain of command, of all hierarchy. While they count votes, we will plant trees, occupy land, create popular libraries, set up community gardens, organize mutual defense. That is the path. Not behind a ruler. But alongside our equals. Long live the anti-state struggle! Down with elections! The future is self-managed or it will not be.

Liberto Herrera.

O 1º de Maio horizontal da UAF e FACA

Companheirxs da União Anarquista Federal (UAF) e da Federação Anarquista Capixaba (FACA), meu punho cerrado e meu coração em chamas vão para vocês neste Primeiro de Maio que ainda ecoa nas ruas!

Enquanto os sindicalistas de mesa e os políticos de gabinete negociavam migalhas nos palanques oficiais, vocês fizeram o que sempre fez a classe que se nega a ser rebanho: desceram aos territórios, sujaram as botas na lama da luta e ocuparam as esquinas com bandeiras negras e vermelhas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, passando por cada cidade de interior onde o giz e a coragem escrevem “propriedade é roubo”, vocês demonstraram que o Primeiro de Maio só tem sentido quando é feito por aqueles que constroem o mundo com as próprias mãos — não por seus patrões ou seus capatazes. Não foi um desfile, foi uma trincheira. E é assim que se forja a revolução: na rua, na fábrica, na escola ocupada, no beco onde a polícia teme entrar.

Quero destacar a decisão acertada de levar a propaganda libertária exatamente para onde ela mais incomoda: os bairros operários, as periferias, os assentamentos, os portões das unidades fabris. Enquanto certas esquerdas se contentam em ocupar apenas as redes digitais ou os palcos institucionais, a UAF e a FACA entenderam que a ideia anarquista só floresce no suor, na fome e na revolta concreta.

Mais de catorze cidades em quatro estados — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia — viram a insurreição silenciosa das assembleias de bairro, das panfletagens relâmpago, das faixas amarradas a viadutos e das rodas de conversa. Em cada roda, em cada palavra, plantou-se a semente do contra-poder: a autogestão, o apoio mútuo, a recusa da representação. Isso é estar entre os explorados e oprimidos — não de cima para baixo, mas lado a lado, ombro a ombro, sem vanguardas nem messias.

O Primeiro de Maio anarquista não é data comemorativa; é data de combate. E a lição que fica, companheirxs, é que não se espera o “momento certo” nem se depende de nenhuma conjuntura favorável. Faz-se a ação direta aqui, agora, com o que se tem. As ações descentralizadas em mais de catorze cidades mostram o poder da horizontalidade: não há centro que comande, nem liderança que decida — há apenas a chama que se espalha por contágio.

Que sirva de exemplo para todxs aqueles que ainda acreditam que o anarquismo é utopia: utopia é acreditar que o Estado vai acabar com a exploração. O que vimos foi a potência real de pessoas comuns — metalúrgicos, professores precarizados, entregadores, estudantes, mães solo, camponeses sem terra — construindo a rebelião no cotidiano. Isso, sim, é a Internacional na prática.

Por fim, um chamado: que este Primeiro de Maio não acabe nunca. Que as rodas da FACA e os núcleos da UAF se multipliquem em cada esquina, cada fábrica, cada latifúndio, cada cozinha comunitária. Que a Bahia, o Espírito Santo, o Rio e Minas sejam apenas o começo. Que venham o Pará, o Ceará, o Rio Grande do Sul, o sertão e a periferia de todas as capitais. O anarquismo não se pede licença para existir. Existimos na fuga da cadeia, na greve selvagem, na ocupação de terra, na escola livre.

Parabéns a todxs que sujaram as mãos de tinta, de piche e de esperança. Sigamos em frente: nem de joelhos diante do patrão, nem de costas para a luta. A revolução é como um incêndio — não se negocia com as chamas. E vocês provaram que o Primeiro de Maio ainda é nosso, inteiramente nosso, sem bandeiras nacionais nem hinos de caserna. Até a vitória e que a terra seja de quem trabalha!

Liberto Herrera, um punho entre muitos.

Español

El 1º de Mayo horizontal de la UAF y la FACA

Compañerxs de la Unión Anarquista Federal (UAF) y de la Federación Anarquista Capixaba (FACA), ¡mi puño cerrado y mi corazón en llamas van para ustedes en este Primero de Mayo que aún resuena en las calles!

Mientras los sindicalistas de mesa y los políticos de despacho negociaban migajas en los palcos oficiales, ustedes hicieron lo que siempre ha hecho la clase que se niega a ser rebaño: bajaron a los territorios, ensuciaron sus botas en el barro de la lucha y ocuparon las esquinas con banderas negras y rojas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, pasando por cada ciudad del interior donde la tiza y el coraje escriben “la propiedad es robo”, demostraron que el Primero de Mayo solo tiene sentido cuando lo hacen aquellos que construyen el mundo con sus propias manos —no sus patrones ni sus capataces. No fue un desfile, fue una trinchera. Y así es como se forja la revolución: en la calle, en la fábrica, en la escuela ocupada, en el callejón donde la policía teme entrar.

Quiero destacar la acertada decisión de llevar la propaganda libertaria exactamente a donde más incomoda: los barrios obreros, las periferias, los asentamientos, las puertas de las fábricas. Mientras ciertas izquierdas se contentan con ocupar solo las redes digitales o los escenarios institucionales, la UAF y la FACA entendieron que la idea anarquista solo florece en el sudor, el hambre y la revuelta concreta.

Más de catorce ciudades en cuatro estados —Minas Gerais, Río de Janeiro, Espírito Santo y Bahía— vieron la insurrección silenciosa de las asambleas de barrio, los panfleteos relámpago, las pancartas atadas a los viaductos y los círculos de conversación. En cada círculo, en cada palabra, se sembró la semilla del contrapoder: la autogestión, el apoyo mutuo, el rechazo de la representación. Eso es estar entre los explotados y oprimidos —no de arriba abajo, sino lado a lado, hombro con hombro, sin vanguardias ni mesías.

El Primero de Mayo anarquista no es fecha conmemorativa; es fecha de combate. Y la lección que queda, compañerxs, es que no se espera el “momento correcto” ni se depende de ninguna coyuntura favorable. Se hace la acción directa aquí, ahora, con lo que se tiene. Las acciones descentralizadas en más de catorce ciudades muestran el poder de la horizontalidad: no hay centro que mande, ni liderazgo que decida —hay solo la llama que se propaga por contagio.

Que sirva de ejemplo para todes aquellos que aún creen que el anarquismo es utopía: utopía es creer que el Estado va a acabar con la explotación. Lo que vimos fue la potencia real de personas comunes —metalúrgicos, docentes precarizados, repartidores, estudiantes, madres solteras, campesinos sin tierra— construyendo la rebelión en lo cotidiano. Eso, sí, es la Internacional en la práctica.

Finalmente, un llamado: que este Primero de Mayo no termine nunca. Que los círculos de la FACA y los núcleos de la UAF se multipliquen en cada esquina, cada fábrica, cada latifundio, cada cocina comunitaria. Que Bahía, Espírito Santo, Río y Minas sean solo el comienzo. Que vengan Pará, Ceará, Río Grande del Sur, el sertón y la periferia de todas las capitales. El anarquismo no pide permiso para existir. Existimos en la fuga de la cárcel, en la huelga salvaje, en la ocupación de tierra, en la escuela libre.

Felicidades a todes que ensuciaron sus manos de tinta, de brea y de esperanza. Sigamos adelante: ni de rodillas ante el patrón, ni de espaldas a la lucha. La revolución es como un incendio —no se negocia con las llamas. Y ustedes demostraron que el Primero de Mayo sigue siendo nuestro, enteramente nuestro, sin banderas nacionales ni himnos de cuartel. ¡Hasta la victoria y que la tierra sea de quien la trabaja!

Liberto Herrera, un puño entre muchos.


English

The Horizontal May 1st of the UAF and FACA

Comrades of the Federal Anarchist Union (UAF) and the Capixaba Anarchist Federation (FACA), my clenched fist and my heart on fire go out to you on this First of May that still echoes in the streets!

While the union bureaucrats and office politicians were negotiating crumbs from official stages, you did what the class that refuses to be livestock has always done: you went down to the territories, muddied your boots in the mire of struggle, and occupied street corners with black and red flags. From Contagem to Vitória, from Cachoeiro de Itapemirim to Salvador, passing through every inland town where chalk and courage write “property is theft,” you demonstrated that May Day only makes sense when it is carried out by those who build the world with their own hands — not by their bosses or their overseers. It was not a parade; it was a trench. And that is how revolution is forged: in the street, in the factory, in the occupied school, in the alley where the police fear to tread.

I want to highlight the wise decision to take libertarian propaganda exactly where it causes the most discomfort: working-class neighborhoods, the peripheries, settlements, the gates of factories. While certain leftists are content with occupying only digital networks or institutional stages, the UAF and FACA understood that the anarchist idea only flourishes in sweat, hunger, and concrete revolt.

More than fourteen cities across four states — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, and Bahia — witnessed the silent insurrection of neighborhood assemblies, lightning leafleting, banners tied to overpasses, and discussion circles. In every circle, in every word, the seed of counter-power was planted: self-management, mutual aid, the rejection of representation. That is what it means to be among the exploited and oppressed — not from above, but side by side, shoulder to shoulder, without vanguards or messiahs.

Anarchist May Day is not a celebratory date; it is a date of combat. And the lesson that remains, comrades, is that one does not wait for the “right moment” nor depend on any favorable conjuncture. One does direct action here, now, with what one has. The decentralized actions in over fourteen cities show the power of horizontality: there is no center that commands, no leadership that decides — there is only the flame that spreads by contagion.

Let this serve as an example to all those who still believe anarchism is a utopia: utopia is believing that the State will end exploitation. What we saw was the real power of ordinary people — metalworkers, precarious teachers, delivery workers, students, single mothers, landless peasants — building rebellion in daily life. That, indeed, is the International in practice.

Finally, a call: may this First of May never end. May FACA’s circles and UAF’s nuclei multiply on every corner, every factory, every large estate, every community kitchen. Let Bahia, Espírito Santo, Rio, and Minas be just the beginning. Let Pará, Ceará, Rio Grande do Sul, the backlands, and the peripheries of all capitals come forth. Anarchism does not ask permission to exist. We exist in the escape from prison, in the wildcat strike, in land occupation, in the free school.

Congratulations to all who dirtied their hands with ink, with pitch, and with hope. Let us move forward: neither on our knees before the boss, nor turning our backs on the struggle. Revolution is like a fire — you do not negotiate with flames. And you have proven that May Day is still ours, entirely ours, without national flags or barrack anthems. Until victory and may the land belong to those who work it!

Liberto Herrera, one fist among many.

Sempre haikais II

O decreto impresso
amarela no sol—a rua
escreve com giz novo.

*

Pelos fios do poder,
os pardais tecem ninhos
de desobediência.

*

O canhão enrouquece.
No silêncio, cresce o murmúrio
das assembleias.

Liberto Herrera.

Vida precária, punho erguido: organizar ou morrer

Chega.

Chega de esperar o salvador de paletó, o sindicato de mãos dadas com o patrão, o político que vai nos dar a mão enquanto a outra nos apunhala pelas costas. Chega de assistir, de lamentar, de compartilhar artigo de opinião e achar que isso é luta. A passividade é o nosso verdadeiro algoz. Ela é a saliva que lubrifica a guilhotina.

Olhem ao redor. A precarização não é acidente, é projeto. Seu salário que não dá pra carne, seu aluguel que come três quartos do mês, seu tempo de vida trocado por migalhas e um atestado de burnout – tudo arquitetado. As guerras não são loucura de poucos: são negócio. Cada bomba que explode longe é financiada pelos mesmos bancos que te negam crédito, pelos mesmos fundos que compram sua dívida, pelos mesmos governos que nos chamam de “ameaça” quando pegamos numa bandeira negra.

E a decadência burguesa? Olhem para o espetáculo. Celebridades vendendo ansiedade como estilo de vida, influenciadores pregando resiliência pra quem não tem o que comer, uma cultura que transforma desespero em entretenimento. O inimigo não está apenas na fábrica, no quartel ou no palácio. Ele está dentro da nossa cabeça quando acreditamos que “não tem jeito”, que “é assim mesmo”, que o máximo que podemos fazer é votar e rezar.

Mentira.

A resposta não virá de cima. Nunca veio. Virá de nós, dos nossos punhos suados, das nossas costas doloridas, das nossas noites em claro costurando lona para barricada ou imprimindo panfleto na gráfica do companheiro que arrisca o couro. A resposta é luta. E luta sem organização é espasmo.

Por isso, para o Primeiro de Maio de 2026, não quero ver bandeira institucional hasteada por burocrata de gravata. Quero ver assembleia no bairro, piquete na porta do armazém que explora, greve geral começando às 6h da manhã. Quero ver o trabalho parado, a produção interrompida, o silêncio ensurdecedor das máquinas que só se calam quando nós mandamos. Quero ver os precarizados – entregadores, terceirizados, intermitentes, os “sem-direitos” – descobrindo que o poder está na rua, não no aplicativo.

Organização não é burocracia. É reconhecer o companheiro do lado, saber em quem confiar quando o gás lacrimogêneo descer. É ter um plano, um fundo de resistência, uma gráfica, um telégrafo humano. É aprender com os que vieram antes – os anarquistas que tombaram nas fábricas, nos campos, nas guerras civis – e aplicar ao nosso tempo. O inimigo tem inteligência artificial e satélite. Nós temos o que ele nunca terá: a certeza de que a terra é de quem nela põe os pés e o suor.

1º de Maio de 2026: vamos parar o mundo. Não com pedido, não com abaixo-assinado, não com marcha light autorizada pela prefeitura. Vamos parar com ação direta. O dia em que nenhum caminhão circular, nenhum lixo for coletado, nenhuma aula for dada, nenhum prato for lavado no restaurante. O dia em que a burguesia olhar pela janela e ouvir o silêncio da produção parada – o barulho mais aterrorizante que existe pra quem vive de explorar.

A precarização da vida só vence quando aceitamos migalhas em troca de sossego. As guerras só continuam enquanto a classe trabalhadora se mata entre si por bandeirinhas. A decadência só é suportável enquanto nos anestesiamos com consumo e futilidade.

Nosso grito não é por “inclusão” no sistema. Nosso grito é pelo fim do sistema.

Organizar ou ser aniquilado. Lutar ou apodrecer.

Dia 1º de Maio de 2026, a terra treme. E não será terremoto. Serão nossas botas no asfalto.

Vidas precárias, nenhum minuto a mais de passividade. Às ruas, companheiros. O futuro não espera – ele se toma.

Liberto Herrera.

Español:

Vida precaria, puño en alto: organizarse o morir

Basta.

Basta de esperar al salvador de corbata, al sindicato de manos dadas con el patrón, al político que nos dará la mano mientras la otra nos apuñala por la espalda. Basta de mirar, de lamentarse, de compartir artículos de opinión y creer que eso es lucha. La pasividad es nuestra verdadera verdugo. Es la saliva que lubrica la guillotina.

Miren a su alrededor. La precarización no es un accidente, es un proyecto. Su salario que no alcanza para carne, su alquiler que devora tres cuartas partes del mes, su tiempo de vida cambiado por migajas y un certificado de agotamiento laboral: todo diseñado. Las guerras no son locura de unos pocos: son negocio. Cada bomba que estalla lejos es financiada por los mismos bancos que le niegan crédito, por los mismos fondos que compran su deuda, por los mismos gobiernos que nos llaman “amenaza” cuando empuñamos una bandera negra.

¿Y la decadencia burguesa? Miren el espectáculo. Celebridades vendiendo ansiedad como estilo de vida, influencers predicando resiliencia para quien no tiene qué comer, una cultura que transforma la desesperación en entretenimiento. El enemigo no está solo en la fábrica, en el cuartel o en el palacio. Está dentro de nuestra cabeza cuando creemos que “no hay solución”, que “es así nomás”, que lo máximo que podemos hacer es votar y rezar.

Mentira.

La respuesta no vendrá de arriba. Nunca vino. Vendrá de nosotros, de nuestros puños sudados, de nuestras espaldas doloridas, de nuestras noches en vela cosiendo lona para la barricada o imprimiendo panfletos en la gráfica del compañero que arriesga el pellejo. La respuesta es lucha. Y lucha sin organización es espasmo.

Por eso, para el Primero de Mayo de 2026, no quiero ver bandera institucional izada por burócratas de corbata. Quiero ver asamblea en el barrio, piquete en la puerta del depósito que explota, huelga general empezando a las 6 de la mañana. Quiero ver el trabajo parado, la producción interrumpida, el silencio ensordecedor de las máquinas que solo callan cuando nosotros lo ordenamos. Quiero ver a los precarizados —repartidores, tercerizados, intermitentes, los “sin derechos”— descubriendo que el poder está en la calle, no en la aplicación.

Organización no es burocracia. Es reconocer al compañero de al lado, saber en quién confiar cuando el gas lacrimógeno baje. Es tener un plan, un fondo de resistencia, una imprenta, un telégrafo humano. Es aprender de los que vinieron antes —los anarquistas que cayeron en las fábricas, en los campos, en las guerras civiles— y aplicarlo a nuestro tiempo. El enemigo tiene inteligencia artificial y satélites. Nosotros tenemos lo que él nunca tendrá: la certeza de que la tierra es de quien pone los pies y el sudor en ella.

1º de Mayo de 2026: vamos a parar el mundo. No con un pedido, no con una petición de firmas, no con una marcha light autorizada por la alcaldía. Vamos a pararlo con acción directa. El día en que ningún camión circule, ninguna basura sea recolectada, ninguna clase sea dada, ningún plato sea lavado en el restaurante. El día en que la burguesía mire por la ventana y escuche el silencio de la producción detenida —el ruido más aterrador que existe para quien vive de explotar.

La precarización de la vida solo vence cuando aceptamos migajas a cambio de tranquilidad. Las guerras solo continúan mientras la clase trabajadora se mata entre sí por banderitas. La decadencia solo es soportable mientras nos anestesian con consumo y frivolidad.

Nuestro grito no es por “inclusión” en el sistema. Nuestro grito es por el fin del sistema.

Organizarse o ser aniquilados. Luchar o pudrirse.

Día 1º de Mayo de 2026, la tierra tiembla. Y no será un terremoto. Serán nuestras botas sobre el asfalto.

Vidas precarias, ni un minuto más de pasividad. ¡A las calles, compañeros! El futuro no espera — se toma.

Liberto Herrera.

English:

Precarious life, fist raised: organize or die

Enough.

Enough of waiting for the savior in a tie, the union hand in hand with the boss, the politician who offers a hand while stabbing us in the back with the other. Enough of watching, lamenting, sharing opinion pieces and calling that struggle. Passivity is our true executioner. It is the saliva that greases the guillotine.

Look around. Precarization is not an accident – it’s a project. Your wage that won’t buy meat, your rent that eats three-quarters of your month, your lifetime traded for crumbs and a burnout certificate – all of it designed. Wars are not the madness of a few: they are business. Every bomb that explodes far away is financed by the same banks that deny you credit, by the same funds that buy your debt, by the same governments that call us a “threat” when we raise the black flag.

And bourgeois decadence? Look at the spectacle. Celebrities selling anxiety as a lifestyle, influencers preaching resilience to those with nothing to eat, a culture that turns despair into entertainment. The enemy is not only in the factory, the barracks, or the palace. He is inside our heads when we believe that “there’s no way out”, that “that’s just how it is”, that the most we can do is vote and pray.

Lie.

The answer will not come from above. It never has. It will come from us, from our sweaty fists, from our aching backs, from our sleepless nights sewing tarp for the barricade or printing flyers at the comrade’s shop who risks their hide. The answer is struggle. And struggle without organization is a mere spasm.

That is why, for May Day 2026, I don’t want to see an institutional flag raised by bureaucrats in ties. I want to see a neighborhood assembly, a picket line at the door of the warehouse that exploits, a general strike starting at 6 AM. I want to see work stopped, production halted, the deafening silence of machines that only shut up when we command them. I want to see the precarious workers – delivery drivers, outsourced workers, gig workers, the “rightless” – discovering that power lies in the street, not in the app.

Organization is not bureaucracy. It is recognizing the comrade next to you, knowing who to trust when the tear gas comes down. It is having a plan, a solidarity fund, a printing press, a human telegraph. It is learning from those who came before – the anarchists who fell in factories, in fields, in civil wars – and applying it to our own time. The enemy has artificial intelligence and satellites. We have what he will never have: the certainty that the land belongs to those who put their feet and sweat on it.

May 1st, 2026: we will stop the world. Not with a request, not with a petition, not with a police-approved march. We will stop it with direct action. The day when no truck moves, no trash is collected, no class is taught, no dish is washed in the restaurant. The day when the bourgeoisie looks out the window and hears the silence of halted production – the most terrifying sound that exists for those who live by exploitation.

The precarization of life only wins when we accept crumbs in exchange for quiet. Wars only continue while the working class kills each other over little flags. Decadence is only bearable as long as we are numbed with consumption and frivolity.

Our cry is not for “inclusion” in the system. Our cry is for the end of the system.

Organize or be annihilated. Fight or rot.

May Day 2026, the earth shakes. And it will not be an earthquake. It will be our boots on the asphalt.

Precarious lives, not one more minute of passivity. To the streets, comrades. The future does not wait – it is taken.

Liberto Herrera.


Agir hoje para não obedecer amanhã: a força cotidiana da autonomia

A autonomia não é uma promessa distante, uma miragem que surgirá no horizonte depois da revolução. Ela se faz no suor do agora, no gesto cotidiano de recusar as amarras que nos sufocam. Enquanto muitos se perdem na ilusão de que a transformação social é um evento futuro — uma grande noite em que, finalmente, tomaremos o poder —, nós, anarquistas, sabemos que o amanhã é moldado pelas mãos que ousam construir hoje. A autonomia não é herança que se recebe; é conquista que se tece na desobediência de cada instante. Esperar é consentir. Agir é existir.

A história nos mostra que as mudanças radicais nunca foram decretadas de cima para baixo, mas brotaram das trincheiras da vida real. As fábricas recuperadas, os hortos comunitários, as escolas livres, as redes de apoio mútuo: todas essas sementes de emancipação não aguardaram a permissão de um Estado ou a data marcada por uma vanguarda. Elas surgiram quando pessoas comuns, cansadas da espera, disseram “basta” e estenderam as mãos para construir o novo sob os escombros do velho. É nesse terreno — áspero, imediato, imperfeito — que a autonomia deixa de ser ideia e se torna força viva.

Dizer que agimos “enquanto esperamos” a grande transformação é um contrassenso perigoso. É justamente o contrário: são as práticas autônomas de hoje que forjam a subjetividade rebelde de amanhã. Se nos acostumamos a delegar, a obedecer, a adiar a nossa potência, estaremos apenas reproduzindo dentro do movimento a mesma lógica de dominação que dizemos combater. A autonomia não é um ponto de chegada; é um método. Cada vez que decidimos coletivamente sobre nossas vidas, cada vez que rompemos com a lógica do consumo e da hierarquia, estamos antecipando o mundo que queremos ver. E nessa antecipação, criamos as condições materiais e subjetivas que tornam a revolução não apenas possível, mas inevitável.

Acreditar que a liberdade plena só virá depois de uma “tomada do poder” é cair na armadilha do pensamento autoritário. Para o anarquismo, os meios e os fins são indissociáveis. Se usamos meios autoritários, hierárquicos ou adiamos a liberdade para um futuro incerto, jamais chegaremos a um resultado libertário. Por isso, a construção da autonomia é uma militância de todos os dias. É no presente que forjamos a confiança mútua, a solidariedade concreta e a capacidade de autogestão. É agora que ensaiamos, erramos, aprendemos e fortalacemos os laços que farão frente ao leviatã quando ele tremer.

Não há transformação social sem sujeitos transformados, e esses sujeitos não nascem da noite para o dia. Eles são forjados na prática incessante da autonomia: na vizinha que organiza com as outras a segurança do beco contra a violência policial, no coletivo que ocupa um prédio abandonado e decide em assembleia os rumos da moradia, nos trabalhadores que retomam os meios de produção sem pedir licença ao patrão. Cada ato de recusa e criação é uma célula do novo mundo. E quanto mais células formamos, mais o corpo social adoece de liberdade, até que a estrutura do poder já não tenha onde se sustentar.

Portanto, camaradas, deixemos de lado a ansiedade pelo “grande dia” e concentremos nossa fúria criadora no que podemos fazer com as mãos, agora, neste chão que pisamos. A autonomia não é um prêmio para os que souberem esperar; é uma ferramenta para os que se recusam a esperar. Cada hora vivida em autogestão é uma hora de revolução real. Cada laço horizontal que tecemos é uma derrota para a lógica da dominação. Não construímos autonomia para a revolução: construímos autonomia como a própria revolução em movimento. O amanhã que queremos já começou — e começa agora, na coragem de quem decide ser, hoje, o agente da sua própria vida.

Liberto Herrera.

ESPAÑOL:

Actuar hoy para no obedecer mañana: la fuerza cotidiana de la autonomía

La autonomía no es una promesa lejana, un espejismo que aparecerá en el horizonte después de la revolución. Se forja en el sudor del ahora, en el gesto cotidiano de rechazar las cadenas que nos asfixian. Mientras muchos se pierden en la ilusión de que la transformación social es un evento futuro —una gran noche en la que, finalmente, tomaremos el poder—, nosotros, los anarquistas, sabemos que el mañana se moldea con las manos que se atreven a construir hoy. La autonomía no es herencia que se recibe; es conquista que se teje en la desobediencia de cada instante. Esperar es consentir. Actuar es existir.

La historia nos muestra que los cambios radicales nunca fueron decretados desde arriba, sino que brotaron de las trincheras de la vida real. Las fábricas recuperadas, las huertas comunitarias, las escuelas libres, las redes de apoyo mutuo: todas esas semillas de emancipación no esperaron el permiso de un Estado ni la fecha marcada por una vanguardia. Surgieron cuando personas comunes, hartas de esperar, dijeron “basta” y tendieron las manos para construir lo nuevo sobre los escombros de lo viejo. Es en ese terreno —áspero, inmediato, imperfecto— donde la autonomía deja de ser idea y se convierte en fuerza viva.

Decir que actuamos “mientras esperamos” la gran transformación es un contrasentido peligroso. Es justamente al revés: son las prácticas autónomas de hoy las que forjan la subjetividad rebelde de mañana. Si nos acostumbramos a delegar, a obedecer, a aplazar nuestra potencia, estaremos reproduciendo dentro del movimiento la misma lógica de dominación que decimos combatir. La autonomía no es un punto de llegada; es un método. Cada vez que decidimos colectivamente sobre nuestras vidas, cada vez que rompemos con la lógica del consumo y la jerarquía, estamos anticipando el mundo que queremos ver. Y en esa anticipación, creamos las condiciones materiales y subjetivas que hacen que la revolución no solo sea posible, sino inevitable.

Creer que la libertad plena solo llegará después de una “toma del poder” es caer en la trampa del pensamiento autoritario. Para el anarquismo, los medios y los fines son indisociables. Si usamos medios autoritarios, jerárquicos o aplazamos la libertad para un futuro incierto, jamás alcanzaremos un resultado libertario. Por eso, la construcción de la autonomía es una militancia de cada día. Es en el presente donde forjamos la confianza mutua, la solidaridad concreta y la capacidad de autogestión. Es ahora donde ensayamos, erramos, aprendemos y fortalecemos los lazos que harán frente al Leviatán cuando este tiemble.

No hay transformación social sin sujetos transformados, y esos sujetos no nacen de la noche a la mañana. Se forjan en la práctica incesante de la autonomía: en la vecina que organiza con otras la seguridad del callejón contra la violencia policial, en el colectivo que ocupa un edificio abandonado y decide en asamblea los rumbos de la vivienda, en los trabajadores que retoman los medios de producción sin pedir permiso al patrón. Cada acto de rechazo y creación es una célula del mundo nuevo. Y cuantas más células formamos, más enferma el cuerpo social de libertad, hasta que la estructura del poder ya no tiene dónde sostenerse.

Por tanto, camaradas, dejemos de lado la ansiedad por el “gran día” y concentremos nuestra furia creadora en lo que podemos hacer con las manos, ahora, en este suelo que pisamos. La autonomía no es un premio para quienes saben esperar; es una herramienta para quienes se niegan a esperar. Cada hora vivida en autogestión es una hora de revolución real. Cada lazo horizontal que tejemos es una derrota para la lógica de la dominación. No construimos autonomía para la revolución: construimos autonomía como la propia revolución en movimiento. El mañana que queremos ya comenzó —y comienza ahora, en la valentía de quien decide ser, hoy, el agente de su propia vida.

Liberto Herrera.

ENGLISH:

Act today so as not to obey tomorrow: the everyday force of autonomy

Autonomy is not a distant promise, a mirage that will appear on the horizon after the revolution. It is forged in the sweat of the now, in the everyday gesture of refusing the chains that suffocate us. While many get lost in the illusion that social transformation is a future event—a great night when we will finally seize power—we anarchists know that tomorrow is shaped by the hands that dare to build today. Autonomy is not an inheritance to be received; it is a conquest woven through the disobedience of every moment. To wait is to consent. To act is to exist.

History shows us that radical changes have never been decreed from above; they have sprung from the trenches of real life. Reclaimed factories, community gardens, free schools, mutual aid networks: all these seeds of emancipation did not wait for permission from a state or a date set by a vanguard. They arose when ordinary people, tired of waiting, said “enough” and reached out their hands to build the new upon the ruins of the old. It is on this ground—rough, immediate, imperfect—that autonomy ceases to be an idea and becomes a living force.

To say that we act “while we wait” for the great transformation is a dangerous contradiction. It is precisely the opposite: it is today’s autonomous practices that forge the rebellious subjectivity of tomorrow. If we become accustomed to delegating, obeying, postponing our power, we will be reproducing within the movement the very logic of domination we claim to fight. Autonomy is not a destination; it is a method. Every time we make collective decisions about our lives, every time we break with the logic of consumption and hierarchy, we are anticipating the world we want to see. And in that anticipation, we create the material and subjective conditions that make revolution not only possible, but inevitable.

Believing that full freedom will only come after a “seizure of power” is to fall into the trap of authoritarian thinking. For anarchism, means and ends are inseparable. If we use authoritarian, hierarchical means or postpone freedom for an uncertain future, we will never achieve a libertarian outcome. That is why the construction of autonomy is a day‑to‑day militancy. It is in the present that we forge mutual trust, concrete solidarity, and the capacity for self‑management. It is now that we rehearse, err, learn, and strengthen the bonds that will stand up to Leviathan when it trembles.

There is no social transformation without transformed subjects, and such subjects are not born overnight. They are forged in the relentless practice of autonomy: in the neighbor who organizes with others to secure the alley against police violence, in the collective that occupies an abandoned building and decides by assembly the direction of housing, in the workers who take back the means of production without asking the boss for permission. Every act of refusal and creation is a cell of the new world. And the more cells we form, the more the social body sickens with freedom, until the structure of power has no ground left to stand on.

Therefore, comrades, let us set aside the anxiety for the “great day” and focus our creative fury on what we can do with our hands, now, on this ground we stand on. Autonomy is not a prize for those who know how to wait; it is a tool for those who refuse to wait. Every hour lived in self‑management is an hour of real revolution. Every horizontal bond we weave is a defeat for the logic of domination. We do not build autonomy for the revolution: we build autonomy as the revolution itself in motion. The tomorrow we want has already begun—and it begins now, in the courage of those who decide to be, today, the agents of their own lives.

Liberto Herrera.

Sempre haikais

O Estado é mito
que o vento leva—ficam
nossas mãos nuas, sós.

*

A cerca caída:
o gado bebe no rio
que não tem dono.

*

Sem rei, sem profeta,
a seara balança ao vento—
livre e desgrenhada.

Liberto Herrera.

Entre chantagens e canhões

Diante do recente impasse entre Donald Trump e a OTAN, o que se descortina não é um conflito entre “isolacionismo” e “aliança”, mas a nudez do sistema de Estados operando em sua lógica mais primária: a disputa por hegemonia pelo uso da força, a militarização de rotas comerciais como extensão natural da política imperial e a total instrumentalização de vidas humanas em nome de interesses geopolíticos. Para uma perspectiva anarquista e antiguerra, cada elemento desse contexto — desde o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã até a ameaça de Washington de abandonar o tratado do Atlântico Norte — não passa de mais um ato do mesmo espetáculo em que o Estado se revela como a principal fonte de violência organizada, e a “segurança” invocada por ambos os lados é, na prática, a segurança dos mercados e das cadeias de comando, nunca a das populações que pagarão o preço com seus corpos e territórios.

O Estreito de Ormuz, hoje bloqueado pelo Irã, é o ponto onde se materializa a disputa entre duas facções estatais pelo controle do fluxo energético global. A exigência de Trump para que a OTAN envie navios de guerra a fim de “garantir a livre navegação” nada tem a ver com princípios de liberdade; trata-se de impor, por meio de canhões e mísseis, a circulação ininterrupta do petróleo que alimenta a máquina de guerra e o capitalismo ocidental. Quando o ministro da defesa alemão, Boris Pistorius, declara que “essa guerra não é nossa, nós não a queremos”, não está ecoando qualquer sentimento pacifista — está apenas demarcando o limite tático de sua própria burguesia nacional, disposta a lucrar com a instabilidade sem necessariamente assumir os custos diretos de um confronto no Golfo. A recusa europeia não é uma vitória contra a guerra; é um cálculo de riscos dentro da mesma lógica imperialista que, décadas atrás, levou Alemanha e outros países da OTAN a participar de bombardeios na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque.

A ameaça de Trump de retirar os Estados Unidos da OTAN, por sua vez, escancara o que sempre esteve por trás das alianças militares: não há compromisso com valores comuns, há apenas conveniência estratégica. O presidente norte-americano considera a aliança uma “via de mão única” porque, em sua visão, os europeus não estariam arcando com a parte que lhes cabe no serviço de manutenção da ordem imperial global. Mas a chantagem da saída não representa um movimento antiguerra; ao contrário, revela que Washington quer a liberdade de agir unilateralmente, sem ter que negociar com sócios menores que agora ousam dizer “não”. É a política de gangues em sua forma mais explícita: ou se alinham à ofensiva contra o Irã, ou os EUA retiram sua “proteção” — como se a presença de 84 mil militares e dezenas de bases em solo europeu fosse um favor altruísta, e não a infraestrutura que permite projetar poder sobre o Oriente Médio, a África e a Ásia Central.

O emaranhado jurídico que envolveria uma eventual retirada formal dos EUA ilustra perfeitamente como o Estado, mesmo em suas disputas internas de competência entre Congresso e Presidência, não possui freios substantivos que o impeçam de continuar sua trajetória bélica. A seção 1250A da Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2024 proíbe o presidente de abandonar a OTAN sem aprovação de dois terços do Senado — uma amarra legal que, para os anarquistas, apenas formaliza a divisão de tarefas entre as facções da classe dominante. Enquanto isso, um parecer do Departamento de Justiça de 2020 sustenta que o presidente tem autoridade exclusiva para rescindir tratados, e a Suprema Corte tem consistentemente ampliado os poderes executivos. Trump já retirou os EUA de cinco tratados internacionais, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), sempre com a certeza de que a máquina estatal não se autolimita. Mesmo que o Artigo 13 do tratado da OTAN preveja um ano de espera após a notificação, o que se desenharia seria uma batalha judicial onde o desfecho importa menos do que o fato incontornável: o Estado encontra sempre um meio legal ou extralegal para fazer valer sua vontade armada.

No entanto, a retirada formal talvez nem seja necessária. O que Trump e seus estrategistas já ensaiam é o esvaziamento da aliança por dentro — uma estratégia que remete ao precedente francês de 1966, quando o governo de Charles de Gaulle retirou a França da estrutura militar integrada da OTAN, mantendo-se formalmente no tratado, mas causando um caos logístico que levou anos para ser contornado. A repetição desse cenário implicaria a retirada unilateral de tropas, a desobediência ao Artigo 5º (o coração da “defesa coletiva”) e o fechamento ou redução de bases que funcionam como verdadeiros nós arteriais do poder militar estadunidense. Apenas na Alemanha, a base de Ramstein abriga mais de 16 mil militares, civis e contratados, sendo o principal centro de comando aéreo da OTAN fora dos EUA. Na Ilha Terceira, nos Açores, a base das Lajes continua sendo um ponto de reabastecimento estratégico no meio do Atlântico, essencial para qualquer deslocamento de aeronaves entre a América e a Eurásia. Na Itália e no Reino Unido, outras bases garantem o suporte para caças, transporte aéreo e reabastecimento em voo.

A retirada ou o enfraquecimento desse dispositivo não representaria, sob nenhum aspecto, um desarmamento. Tratar-se-ia apenas de uma reconfiguração que, como mostrou a experiência francesa, gera imensos transtornos logísticos, mas nunca dissolve a capacidade de intervenção. A dependência americana das bases europeias é tanta que, sem elas, a ponte aérea transatlântica entraria em colapso: aeronaves como o F-15E, com raio de combate de cerca de 1.300 km, simplesmente não teriam como operar no Oriente Médio e na Ásia Central sem escalas e reabastecimento em solo europeu. Tanques aéreos, cadeias logísticas de munições, equipamentos pesados e até o sistema de evacuação médica — cujo centro nervoso está em Ramstein — ficariam seriamente comprometidos. O fato de os próprios planejadores militares americanos reconhecerem esses prejuízos demonstra o quanto a “segurança nacional” dos EUA é, na verdade, uma estrutura de ocupação global que exige a submissão de territórios alheios para se sustentar.

Sob a ótica anarquista, contudo, o mais revelador nessa crise é o modo como o debate público reduz toda a questão a um cálculo de eficiência militar ou a uma disputa entre “globalistas” e “isolacionistas”, quando a verdadeira questão deveria ser: por que ainda toleramos que um punhado de Estados decida, com navios de guerra e bombardeiros, quem pode ou não navegar por um estreito, quem pode ou não extrair petróleo, quem pode ou não existir? O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã é um ato de coerção estatal; a ameaça de enviar uma frota da OTAN é outro. Nenhum dos dois lados representa a vontade popular, nenhum dos dois defende a livre circulação de pessoas, nenhum dos dois coloca a inviolabilidade da vida acima das cotas de exportação de hidrocarbonetos. O que está em jogo é a continuidade de um sistema no qual o acesso a recursos é garantido pela capacidade de infligir morte, e no qual a geopolítica é simplesmente a continuação da guerra por outros meios — ou, como já se disse, a guerra é a continuação da política por outros meios.

Por fim, a história nos mostra que nenhuma aliança militar se dissolve sem deixar rastros de destruição, e nenhum Estado abdica de sua violência fundante. A saída dos EUA da OTAN, mesmo que viesse a ocorrer, não significaria o fim das intervenções americanas; apenas deslocaria os eixos de intervenção, provavelmente reforçando o caráter unilateral e ainda mais desregulado da política externa. E a permanência, com ou sem Trump, significará a manutenção de uma estrutura que já matou centenas de milhares de pessoas no Oriente Médio, nos Bálcãs, no norte da África, sempre sob o pretexto de “defender” valores que, na prática, se resumem à subordinação econômica e militar. Para quem se coloca do lado das populações que sofrem com bloqueios, bombardeios e ocupações, a única posição coerente é a recusa absoluta a essa lógica: não à OTAN, não ao unilateralismo estadunidense, não ao militarismo iraniano, mas à própria existência de alianças bélicas e Estados armados. A crise no Estreito de Ormuz é apenas mais um sintoma de que, enquanto existirem Estados, existirão conflitos armados; e enquanto existirem tratados como o da OTAN, existirão estruturas institucionalizadas para perpetuar a guerra, seja em nome da “livre navegação”, da “defesa coletiva” ou de qualquer outra fórmula que tente maquiar o poder de matar em massa como um interesse legítimo.

Liberto Herrera.

ESPANÕL

Entre chantajes y cañones

Ante el reciente impasse entre Donald Trump y la OTAN, lo que se vislumbra no es un conflicto entre “aislacionismo” y “alianza”, sino la desnudez del sistema de Estados operando en su lógica más primaria: la disputa por la hegemonía mediante el uso de la fuerza, la militarización de rutas comerciales como extensión natural de la política imperial y la total instrumentalización de vidas humanas en nombre de intereses geopolíticos. Para una perspectiva anarquista y antiguerra, cada elemento de este contexto —desde el cierre del Estrecho de Ormuz por parte de Irán hasta la amenaza de Washington de abandonar el tratado del Atlántico Norte— no es más que un acto más del mismo espectáculo en el que el Estado se revela como la principal fuente de violencia organizada, y la “seguridad” invocada por ambos bandos es, en la práctica, la seguridad de los mercados y de las cadenas de mando, nunca la de las poblaciones que pagarán el precio con sus cuerpos y territorios.

El Estrecho de Ormuz, hoy bloqueado por Irán, es el punto donde se materializa la disputa entre dos facciones estatales por el control del flujo energético global. La exigencia de Trump para que la OTAN envíe buques de guerra a fin de “garantizar la libre navegación” nada tiene que ver con principios de libertad; se trata de imponer, por medio de cañones y misiles, la circulación ininterrumpida del petróleo que alimenta la máquina de guerra y el capitalismo occidental. Cuando el ministro de defensa alemán, Boris Pistorius, declara que “esta guerra no es nuestra, nosotros no la queremos”, no está haciendo eco de ningún sentimiento pacifista —solo está demarcando el límite táctico de su propia burguesía nacional, dispuesta a lucrar con la inestabilidad sin necesariamente asumir los costos directos de un enfrentamiento en el Golfo. El rechazo europeo no es una victoria contra la guerra; es un cálculo de riesgos dentro de la misma lógica imperialista que, décadas atrás, llevó a Alemania y otros países de la OTAN a participar en bombardeos en Yugoslavia, Afganistán e Irak.

La amenaza de Trump de retirar a Estados Unidos de la OTAN, a su vez, deja al descubierto lo que siempre estuvo detrás de las alianzas militares: no hay compromiso con valores comunes, solo hay conveniencia estratégica. El presidente estadounidense considera la alianza una “vía de un solo sentido” porque, en su visión, los europeos no estarían asumiendo la parte que les corresponde en el servicio de mantenimiento del orden imperial global. Pero el chantaje de la salida no representa un movimiento antiguerra; al contrario, revela que Washington quiere la libertad de actuar unilateralmente, sin tener que negociar con socios menores que ahora se atreven a decir “no”. Es la política de pandillas en su forma más explícita: o se alinean con la ofensiva contra Irán, o EE.UU. retira su “protección” —como si la presencia de 84 mil militares y decenas de bases en suelo europeo fuera un favor altruista, y no la infraestructura que permite proyectar poder sobre Oriente Medio, África y Asia Central.

El embrollo jurídico que implicaría una eventual retirada formal de EE.UU. ilustra perfectamente cómo el Estado, incluso en sus disputas internas de competencia entre Congreso y Presidencia, no posee frenos sustanciales que le impidan continuar su trayectoria bélica. La sección 1250A de la Ley de Autorización de Defensa Nacional de 2024 prohíbe al presidente abandonar la OTAN sin la aprobación de dos tercios del Senado —un amarre legal que, para los anarquistas, solo formaliza la división de tareas entre las facciones de la clase dominante. Mientras tanto, un dictamen del Departamento de Justicia de 2020 sostiene que el presidente tiene autoridad exclusiva para rescindir tratados, y la Corte Suprema ha ampliado consistentemente los poderes ejecutivos. Trump ya retiró a EE.UU. de cinco tratados internacionales, como el Tratado de Fuerzas Nucleares de Alcance Intermedio (INF), siempre con la certeza de que la máquina estatal no se autolimita. Incluso si el Artículo 13 del tratado de la OTAN prevé un año de espera tras la notificación, lo que se dibujaría sería una batalla judicial donde el desenlace importa menos que el hecho incontornable: el Estado encuentra siempre un medio legal o extralegal para hacer valer su voluntad armada.

Sin embargo, la retirada formal quizás ni siquiera sea necesaria. Lo que Trump y sus estrategas ya ensayan es el vaciamiento de la alianza desde dentro —una estrategia que remite al precedente francés de 1966, cuando el gobierno de Charles de Gaulle retiró a Francia de la estructura militar integrada de la OTAN, manteniéndose formalmente en el tratado, pero causando un caos logístico que llevó años ser contrarrestado. La repetición de este escenario implicaría la retirada unilateral de tropas, la desobediencia al Artículo 5 (el corazón de la “defensa colectiva”) y el cierre o reducción de bases que funcionan como verdaderos nudos arteriales del poder militar estadounidense. Solo en Alemania, la base de Ramstein alberga a más de 16 mil militares, civiles y contratistas, siendo el principal centro de mando aéreo de la OTAN fuera de EE.UU. En la Isla Terceira, en las Azores, la base de Las Lajes sigue siendo un punto de reabastecimiento estratégico en medio del Atlántico, esencial para cualquier desplazamiento de aeronaves entre América y Eurasia. En Italia y el Reino Unido, otras bases garantizan el soporte para cazas, transporte aéreo y reabastecimiento en vuelo.

La retirada o el debilitamiento de este dispositivo no representaría, bajo ningún aspecto, un desarme. Se trataría solo de una reconfiguración que, como mostró la experiencia francesa, genera inmensos trastornos logísticos, pero nunca disuelve la capacidad de intervención. La dependencia estadounidense de las bases europeas es tal que, sin ellas, el puente aéreo transatlántico colapsaría: aeronaves como el F-15E, con un radio de combate de unos 1.300 km, simplemente no podrían operar en Oriente Medio y Asia Central sin escalas y reabastecimiento en suelo europeo. Tanques aéreos, cadenas logísticas de municiones, equipos pesados e incluso el sistema de evacuación médica —cuyo centro neurálgico está en Ramstein— quedarían seriamente comprometidos. El hecho de que los propios planificadores militares estadounidenses reconozcan estos perjuicios demuestra cuánto la “seguridad nacional” de EE.UU. es, en realidad, una estructura de ocupación global que exige la sumisión de territorios ajenos para sostenerse.

Bajo la óptica anarquista, sin embargo, lo más revelador en esta crisis es el modo en que el debate público reduce toda la cuestión a un cálculo de eficiencia militar o a una disputa entre “globalistas” e “aislacionistas”, cuando la verdadera cuestión debería ser: ¿por qué todavía toleramos que un puñado de Estados decida, con buques de guerra y bombarderos, quién puede o no navegar por un estrecho, quién puede o no extraer petróleo, quién puede o no existir? El cierre del Estrecho de Ormuz por Irán es un acto de coerción estatal; la amenaza de enviar una flota de la OTAN es otro. Ninguno de los dos bandos representa la voluntad popular, ninguno defiende la libre circulación de personas, ninguno pone la inviolabilidad de la vida por encima de las cuotas de exportación de hidrocarburos. Lo que está en juego es la continuidad de un sistema en el que el acceso a los recursos está garantizado por la capacidad de infligir muerte, y en el que la geopolítica es simplemente la continuación de la guerra por otros medios —o, como ya se dijo, la guerra es la continuación de la política por otros medios.

Finalmente, la historia nos muestra que ninguna alianza militar se disuelve sin dejar rastros de destrucción, y ningún Estado abdica de su violencia fundante. La salida de EE.UU. de la OTAN, incluso si llegara a ocurrir, no significaría el fin de las intervenciones estadounidenses; solo desplazaría los ejes de intervención, probablemente reforzando el carácter unilateral y aún más desregulado de la política exterior. Y la permanencia, con o sin Trump, significará el mantenimiento de una estructura que ya ha matado a cientos de miles de personas en Oriente Medio, los Balcanes, el norte de África, siempre bajo el pretexto de “defender” valores que, en la práctica, se resumen a la subordinación económica y militar. Para quienes se colocan del lado de las poblaciones que sufren bloqueos, bombardeos y ocupaciones, la única posición coherente es el rechazo absoluto a esta lógica: no a la OTAN, no al unilateralismo estadounidense, no al militarismo iraní, sino a la propia existencia de alianzas bélicas y Estados armados. La crisis en el Estrecho de Ormuz es solo un síntoma más de que, mientras existan Estados, existirán conflictos armados; y mientras existan tratados como el de la OTAN, existirán estructuras institucionalizadas para perpetuar la guerra, ya sea en nombre de la “libre navegación”, de la “defensa colectiva” o de cualquier otra fórmula que intente maquillar el poder de matar en masa como un interés legítimo.

Liberto Herrera.

ENGLISH

Between Blackmail and Cannons

Faced with the recent impasse between Donald Trump and NATO, what unfolds is not a conflict between “isolationism” and “alliance,” but rather the nakedness of the system of states operating in its most primal logic: the struggle for hegemony through the use of force, the militarization of trade routes as a natural extension of imperial policy, and the total instrumentalization of human lives in the name of geopolitical interests. From an anarchist and anti-war perspective, each element of this context—from Iran’s closure of the Strait of Hormuz to Washington’s threat to abandon the North Atlantic Treaty—is nothing more than another act in the same spectacle in which the state reveals itself as the primary source of organized violence, and the “security” invoked by both sides is, in practice, the security of markets and chains of command, never that of the populations who will pay the price with their bodies and territories.

The Strait of Hormuz, currently blockaded by Iran, is the point where the dispute between two state factions for control of global energy flows materializes. Trump’s demand that NATO send warships to “guarantee free navigation” has nothing to do with principles of freedom; it is about imposing, through cannons and missiles, the uninterrupted flow of oil that fuels the war machine and Western capitalism. When German Defense Minister Boris Pistorius declares that “this war is not ours, we do not want it,” he is not echoing any pacifist sentiment—he is merely demarcating the tactical limit of his own national bourgeoisie, willing to profit from instability without necessarily bearing the direct costs of a confrontation in the Gulf. The European refusal is not a victory against war; it is a risk calculation within the same imperialist logic that, decades ago, led Germany and other NATO countries to participate in bombings in Yugoslavia, Afghanistan, and Iraq.

Trump’s threat to withdraw the United States from NATO, in turn, lays bare what has always been behind military alliances: there is no commitment to common values, only strategic convenience. The U.S. president considers the alliance a “one-way street” because, in his view, Europeans are not bearing their share in the task of maintaining the global imperial order. But the blackmail of withdrawal does not represent an anti-war movement; on the contrary, it reveals that Washington wants the freedom to act unilaterally, without having to negotiate with smaller partners who now dare to say “no.” It is gang politics in its most explicit form: either they align with the offensive against Iran, or the U.S. withdraws its “protection”—as if the presence of 84,000 troops and dozens of bases on European soil were an altruistic favor, and not the infrastructure that allows projecting power over the Middle East, Africa, and Central Asia.

The legal entanglement that would surround a potential formal U.S. withdrawal perfectly illustrates how the state, even in its internal jurisdictional disputes between Congress and the Presidency, lacks substantive brakes to prevent it from continuing its warlike trajectory. Section 1250A of the National Defense Authorization Act for 2024 prohibits the president from abandoning NATO without the approval of two-thirds of the Senate—a legal constraint that, for anarchists, merely formalizes the division of tasks among factions of the ruling class. Meanwhile, a 2020 Department of Justice opinion holds that the president has exclusive authority to rescind treaties, and the Supreme Court has consistently expanded executive powers. Trump has already withdrawn the U.S. from five international treaties, such as the Intermediate-Range Nuclear Forces (INF) Treaty, always with the certainty that the state apparatus does not self-limit. Even if Article 13 of the NATO treaty provides for a one-year waiting period after notification, what would unfold is a legal battle where the outcome matters less than the unavoidable fact: the state always finds a legal or extralegal means to enforce its armed will.

However, formal withdrawal may not even be necessary. What Trump and his strategists are already rehearsing is the hollowing out of the alliance from within—a strategy that harks back to the French precedent of 1966, when Charles de Gaulle’s government withdrew France from NATO’s integrated military structure, formally remaining in the treaty but causing logistical chaos that took years to resolve. The repetition of this scenario would imply the unilateral withdrawal of troops, disobedience to Article 5 (the heart of “collective defense”), and the closure or reduction of bases that function as true arterial nodes of U.S. military power. In Germany alone, Ramstein Air Base hosts over 16,000 military personnel, civilians, and contractors, serving as the main NATO air command center outside the U.S. On Terceira Island in the Azores, Lajes Field remains a strategic refueling point in the middle of the Atlantic, essential for any aircraft movement between the Americas and Eurasia. In Italy and the United Kingdom, other bases provide support for fighters, air transport, and aerial refueling.

The withdrawal or weakening of this apparatus would not represent, in any way, disarmament. It would merely be a reconfiguration that, as the French experience showed, generates immense logistical disruptions but never dissolves the capacity for intervention. U.S. dependence on European bases is so great that without them, the transatlantic air bridge would collapse: aircraft like the F-15E, with a combat radius of about 1,300 kilometers, simply could not operate in the Middle East and Central Asia without stopovers and refueling on European soil. Aerial tankers, logistics chains for munitions, heavy equipment, and even the medical evacuation system—whose nerve center is at Ramstein—would be severely compromised. The fact that U.S. military planners themselves acknowledge these drawbacks demonstrates how much U.S. “national security” is, in reality, a structure of global occupation that requires the subjugation of foreign territories to sustain itself.

From the anarchist perspective, however, the most revealing aspect of this crisis is how public debate reduces the entire issue to a calculation of military efficiency or a dispute between “globalists” and “isolationists,” when the real question should be: why do we still tolerate that a handful of states decide, with warships and bombers, who can or cannot navigate a strait, who can or cannot extract oil, who can or cannot exist? Iran’s closure of the Strait of Hormuz is an act of state coercion; the threat to send a NATO fleet is another. Neither side represents the popular will, neither defends the free movement of people, neither places the inviolability of life above hydrocarbon export quotas. What is at stake is the continuity of a system in which access to resources is guaranteed by the capacity to inflict death, and in which geopolitics is simply the continuation of war by other means—or, as it has been said, war is the continuation of politics by other means.

Finally, history shows us that no military alliance dissolves without leaving traces of destruction, and no state abdicates its foundational violence. The U.S. exit from NATO, even if it were to occur, would not mean the end of American interventions; it would merely shift the axes of intervention, likely reinforcing the unilateral and even more unregulated character of foreign policy. And staying in, with or without Trump, will mean maintaining a structure that has already killed hundreds of thousands of people in the Middle East, the Balkans, North Africa, always under the pretext of “defending” values that, in practice, boil down to economic and military subordination. For those who side with the populations suffering from blockades, bombings, and occupations, the only coherent position is the absolute refusal of this logic: not to NATO, not to U.S. unilateralism, not to Iranian militarism, but to the very existence of war alliances and armed states. The crisis in the Strait of Hormuz is just another symptom that as long as states exist, armed conflicts will exist; and as long as treaties like NATO exist, there will be institutionalized structures to perpetuate war, whether in the name of “free navigation,” “collective defense,” or any other formula that tries to disguise the power to kill en masse as a legitimate interest.

Liberto Herrera.


A “Paz” que Alimenta a Guerra: Os 15 Pontos da Rendição Iraniana e o Espetáculo da Diplomacia Imperial

Enquanto o mundo assiste atônito à escalada no Golfo Pérsico, no contexto da guerra do Irã, o presidente estadunidense Donald Trump anuncia, em 24 de março de 2026, que seu governo “negocia ativamente” com o Irã para encerrar o conflito. Simultaneamente, o Pentágono desloca milhares de paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada e duas unidades expedicionárias de fuzileiros navais – tropas especializadas em assaltos anfíbios e tomada de território – para o Oriente Médio. O cenário é conhecido: a mão que se estende para um “acordo” é a mesma que empunha a baioneta; a diplomacia serve de vitrine para a preparação da guerra.

O conteúdo do chamado “plano de paz” foi vazado pelo New York Times e expõe a natureza real da proposta. São quinze exigências que equivalem a uma rendição completa da soberania iraniana:

  • Desmantelamento total de qualquer capacidade nuclear, incluindo o encerramento de todas as instalações de enriquecimento de urânio em território iraniano;
  • Entrega à AIEA de 450 quilos de urânio já enriquecido a 60%;
  • Acesso irrestrito a qualquer instalação, sem direito a recusa de inspeções;
  • Abandono de aliados regionais (Hezbollah, Hamas, milícias no Iraque e na Síria);
  • Entrega do Estreito de Ormuz como “corredor livre” – ou seja, sob controle da marinha estadunidense;
  • Limitação do programa de mísseis a um alcance meramente defensivo, definido unilateralmente pelos EUA.

Em troca, o governo Trump oferece o levantamento de sanções econômicas – as mesmas que já estrangulam a população iraniana há anos – e uma vaga “assistência” para um programa nuclear civil supervisionado por Washington. Como cereja no bolo, propõe-se um cessar-fogo de um mês, tempo mais que suficiente para os EUA concluírem o reposicionamento militar enquanto a imprensa global noticia “esforços de paz”.

O Irã, que já foi bombardeado pelos EUA em duas ocasiões enquanto negociava, nega qualquer negociação direta. Admite apenas contatos indiretos via intermediários. E com razão: como um país pode sentar-se à mesa com um império que já o atacou sob a bandeira da diplomacia, e que agora movimenta 8 mil soldados adicionais – somando mais de 50 mil efetivos na região – com capacidade de tomar a ilha de Kharg, gargalo de 90% das exportações de petróleo iranianas?

A Casa Branca, sem pudor, admite planejar “mais semanas de guerra”. O Pentágono já prepara pedido de 200 bilhões de dólares ao Congresso para custear a escalada. O preço do petróleo dispara, a crise no Estreito de Ormuz afeta mais de mil navios, e os mercados globais oscilam ao sabor das notícias fabricadas sobre “negociações”.

Diante disso, a dúvida que a grande mídia coloca – “o plano é um esforço genuíno de paz ou uma cortina de fumaça para preparar um ataque?” – parte de uma falsa premissa. Pois a verdade é muito mais profunda e incômoda: nem o Estado nem o capitalismo têm qualquer interesse genuíno na paz. A guerra é o oxigênio de ambos.

Para o capitalismo, a guerra significa contratos bilionários para a indústria bélica, controle de rotas de energia, especulação financeira com os preços do petróleo e a abertura de novos mercados para o capital estadunidense. O primeiro semestre deste conflito já consumiu 11 bilhões de dólares – dinheiro que sai dos impostos, alimenta acionistas de armamentos e nunca retorna em forma de saúde, educação ou moradia para os povos.

Para o Estado, a guerra é a justificativa suprema para expandir seus poderes de vigilância, controle social e repressão. É o Estado em sua forma mais nua: imposição de fronteiras pela força, disciplina militar, fabricação de inimigos internos e externos. O mesmo Estado que agora se apresenta como “mediador da paz” é o mesmo que, sistematicamente, impede qualquer movimento popular de construir alternativas horizontais de convivência.

A verdade, meus camaradas, está na simultaneidade dos movimentos: enquanto Trump declara “negociações”, seus generais posicionam tropas anfíbias. Enquanto o New York Times divulga “planos de paz”, o Pentágono planeja tomar ilhas. Não há contradição aqui – há complementaridade. A diplomacia imperial nunca é alternativa à guerra; é apenas a guerra com outra vestimenta, usada para ganhar tempo, dividir o inimigo e apresentar à opinião pública a falsa imagem de que “tudo foi tentado”.

A resposta do Irã – que se recusa a negociar sob a mira de fuzis – é um gesto de dignidade que deveria nos inspirar. Mas não nos enganemos: a resistência de um Estado teocrático contra outro Estado imperial não representa uma saída para os povos. Trocaria apenas de carcereiro.

A lição que tiramos, como militantes antiguerra e antiestado, é clara: nenhuma paz virá de cima. Nem Trump, nem o Pentágono, nem os aiatolás, nem qualquer outra figura de autoridade nos libertarão da guerra, porque a guerra é o modo de existência do poder. Enquanto houver Estados armados, enquanto houver capital acumulado pela exploração, a guerra será sempre o desfecho inevitável das contradições que eles mesmos criam.

A única resposta que vale a pena, diante desse espetáculo de hipocrisia, é a construção de uma solidariedade internacional que recuse tanto o imperialismo estadunidense quanto o autoritarismo iraniano – que coloque no centro a vida das pessoas, a autogestão dos territórios, a recusa em servir a qualquer máquina de guerra. Pois se o Estado e o capital se alimentam da guerra, nós nos alimentamos da esperança de um mundo onde não haja nem uns nem outros.

Enquanto isso, mantenhamos os olhos abertos: quando o Império fala em “paz”, é porque está a ponto de dar o golpe.

Liberto Herrera.

Español:

La “Paz” que Alimenta la Guerra: Los 15 Puntos de la Rendición Iraní y el Espectáculo de la Diplomacia Imperial

Mientras el mundo observa atónito la escalada en el Golfo Pérsico, el presidente estadounidense Donald Trump anuncia, el 24 de marzo, que su gobierno “negocia activamente” con Irán para poner fin al conflicto. Simultáneamente, el Pentágono desplaza miles de paracaidistas de la 82ª División Aerotransportada y dos unidades expedicionarias de infantes de marina –tropas especializadas en asaltos anfibios y toma de territorio– hacia Oriente Medio. El escenario es conocido: la mano que se extiende para un “acuerdo” es la misma que empuña la bayoneta; la diplomacia sirve de vitrina para la preparación de la guerra.

El contenido del llamado “plan de paz” fue filtrado por el New York Times y expone la naturaleza real de la propuesta. Son quince exigencias que equivalen a una rendición completa de la soberanía iraní:

  • Desmantelamiento total de cualquier capacidad nuclear, incluyendo el cierre de todas las instalaciones de enriquecimiento de uranio en territorio iraní;
  • Entrega al OIEA de 450 kilos de uranio ya enriquecido al 60%;
  • Acceso irrestricto a cualquier instalación, sin derecho a rechazar inspecciones;
  • Abandono de aliados regionales (Hezbolá, Hamás, milicias en Irak y Siria);
  • Entrega del estrecho de Ormuz como “corredor libre” –es decir, bajo control de la marina estadounidense;
  • Limitación del programa de misiles a un alcance meramente defensivo, definido unilateralmente por EE.UU.

A cambio, el gobierno Trump ofrece el levantamiento de las sanciones económicas –las mismas que ya llevan años estrangulando a la población iraní– y una vaga “asistencia” para un programa nuclear civil supervisado por Washington. Como cereza del pastel, se propone un alto el fuego de un mes, tiempo más que suficiente para que EE.UU. complete el reposicionamiento militar mientras la prensa global difunde “esfuerzos de paz”.

Irán, que ya fue bombardeado por EE.UU. en dos ocasiones mientras negociaba, niega cualquier negociación directa. Admite solo contactos indirectos a través de intermediarios. Y con razón: ¿cómo puede un país sentarse en la mesa con un imperio que ya lo ha atacado bajo la bandera de la diplomacia, y que ahora moviliza 8 mil soldados adicionales –sumando más de 50 mil efectivos en la región– con capacidad para tomar la isla de Jark, el cuello de botella del 90% de las exportaciones de petróleo iraníes?

La Casa Blanca, sin pudor, admite planear “más semanas de guerra”. El Pentágono ya prepara una solicitud de 200 mil millones de dólares al Congreso para costear la escalada. El precio del petróleo se dispara, la crisis en el estrecho de Ormuz afecta a más de mil barcos, y los mercados globales oscilan al compás de las noticias fabricadas sobre “negociaciones”.

Ante esto, la duda que los grandes medios plantean –“¿el plan es un esfuerzo genuino de paz o una cortina de humo para preparar un ataque?”– parte de una falsa premisa. Porque la verdad es mucho más profunda e incómoda: ni el Estado ni el capitalismo tienen ningún interés genuino en la paz. La guerra es el oxígeno de ambos.

Para el capitalismo, la guerra significa contratos multimillonarios para la industria armamentística, control de rutas energéticas, especulación financiera con los precios del petróleo y la apertura de nuevos mercados para el capital estadounidense. El primer semestre de este conflicto ya consumió 11 mil millones de dólares –dinero que sale de los impuestos, alimenta a los accionistas de armamentos y nunca regresa en forma de salud, educación o vivienda para los pueblos.

Para el Estado, la guerra es la justificación suprema para expandir sus poderes de vigilancia, control social y represión. Es el Estado en su forma más desnuda: imposición de fronteras por la fuerza, disciplina militar, fabricación de enemigos internos y externos. El mismo Estado que ahora se presenta como “mediador de la paz” es el mismo que, sistemáticamente, impide que cualquier movimiento popular construya alternativas horizontales de convivencia.

La verdad, camaradas, está en la simultaneidad de los movimientos: mientras Trump declara “negociaciones”, sus generales posicionan tropas anfibias. Mientras el New York Times difunde “planes de paz”, el Pentágono planea tomar islas. No hay contradicción aquí –hay complementariedad. La diplomacia imperial nunca es alternativa a la guerra; es solo la guerra con otro atuendo, usada para ganar tiempo, dividir al enemigo y presentar a la opinión pública la falsa imagen de que “todo se ha intentado”.

La respuesta de Irán –que se niega a negociar bajo la mira de los fusiles– es un gesto de dignidad que debería inspirarnos. Pero no nos engañemos: la resistencia de un Estado teocrático contra otro Estado imperial no representa una salida para los pueblos. Solo cambiaría de carcelero.

La lección que extraemos, como militantes antiguerra y antiestado, es clara: ninguna paz vendrá desde arriba. Ni Trump, ni el Pentágono, ni los ayatolás, ni ninguna otra figura de autoridad nos liberarán de la guerra, porque la guerra es el modo de existencia del poder. Mientras haya Estados armados, mientras haya capital acumulado por la explotación, la guerra será siempre el desenlace inevitable de las contradicciones que ellos mismos crean.

La única respuesta que vale la pena, ante este espectáculo de hipocresía, es la construcción de una solidaridad internacional que rechace tanto el imperialismo estadounidense como el autoritarismo iraní –que ponga en el centro la vida de las personas, la autogestión de los territorios, la negativa a servir a cualquier máquina de guerra. Porque si el Estado y el capital se alimentan de la guerra, nosotros nos alimentamos de la esperanza de un mundo donde no haya ni unos ni otros.

Mientras tanto, mantengamos los ojos abiertos: cuando el Imperio habla de “paz”, es porque está a punto de dar el golpe.

Liberto Herrera.

English

The “Peace” That Feeds War: The 15 Points of Iranian Surrender and the Spectacle of Imperial Diplomacy

As the world watches the escalation in the Persian Gulf in astonishment, U.S. President Donald Trump announces on March 24 that his government is “actively negotiating” with Iran to end the conflict. Simultaneously, the Pentagon deploys thousands of paratroopers from the 82nd Airborne Division and two Marine expeditionary units—troops specialized in amphibious assaults and territorial seizure—to the Middle East. The scenario is a familiar one: the hand extended for an “agreement” is the same hand that grips the bayonet; diplomacy serves as a storefront for the preparation of war.

The content of the so-called “peace plan” was leaked by the New York Times and lays bare the true nature of the proposal. It consists of fifteen demands that amount to a complete surrender of Iranian sovereignty:

  • Total dismantlement of any nuclear capacity, including the shutdown of all uranium enrichment facilities on Iranian soil;
  • Delivery to the IAEA of 450 kilograms of uranium already enriched to 60%;
  • Unrestricted access to any facility, with no right to refuse inspections;
  • Abandonment of regional allies (Hezbollah, Hamas, militias in Iraq and Syria);
  • Ceding the Strait of Hormuz as a “free corridor”—in other words, under U.S. naval control;
  • Limitation of the missile program to a range deemed merely defensive, defined unilaterally by the U.S.

In exchange, the Trump administration offers the lifting of economic sanctions—the very same sanctions that have been strangling the Iranian population for years—and a vague “assistance” package for a civilian nuclear program supervised by Washington. As a cherry on top, it proposes a one‑month ceasefire, more than enough time for the U.S. to complete its military repositioning while the global press broadcasts “peace efforts.”

Iran, which has already been bombed by the U.S. on two occasions while negotiating, denies any direct talks. It admits only to indirect contacts through intermediaries. And rightly so: how can a country sit at the table with an empire that has already attacked it under the banner of diplomacy, and that is now moving 8,000 additional troops—bringing the total to more than 50,000 in the region—with the capacity to seize Kharg Island, the bottleneck through which 90% of Iran’s oil exports pass?

The White House, without shame, admits it is planning for “more weeks of war.” The Pentagon is already preparing a request for $200 billion from Congress to fund the escalation. Oil prices spike, the crisis in the Strait of Hormuz affects over a thousand ships, and global markets swing to the rhythm of manufactured news about “negotiations.”

Faced with this, the question posed by the mainstream media—“is the plan a genuine peace effort or a smoke screen to prepare an attack?”—rests on a false premise. Because the truth is far deeper and more uncomfortable: neither the State nor capitalism has any genuine interest in peace. War is the oxygen of both.

For capitalism, war means billion‑dollar contracts for the arms industry, control over energy routes, financial speculation on oil prices, and the opening of new markets for U.S. capital. The first half of this conflict has already consumed $11 billion—money that comes from taxes, feeds weapons shareholders, and never returns in the form of health, education, or housing for ordinary people.

For the State, war is the supreme justification for expanding its powers of surveillance, social control, and repression. It is the State in its most naked form: the imposition of borders by force, military discipline, the fabrication of internal and external enemies. The same State that now presents itself as a “mediator for peace” is the same State that systematically prevents any popular movement from building horizontal alternatives for coexistence.

The truth, comrades, lies in the simultaneity of the moves: while Trump declares “negotiations,” his generals position amphibious troops. While the New York Times publicizes “peace plans,” the Pentagon plans to seize islands. There is no contradiction here—there is complementarity. Imperial diplomacy is never an alternative to war; it is simply war in a different costume, used to buy time, divide the enemy, and present the public with the false image that “everything has been tried.”

Iran’s response—its refusal to negotiate at gunpoint—is a gesture of dignity that should inspire us. But let us not be deceived: the resistance of a theocratic State against an imperial State does not represent a way out for ordinary people. It would only change the jailer.

The lesson we draw, as anti‑war and anti‑state militants, is clear: no peace will come from above. Neither Trump, nor the Pentagon, nor the ayatollahs, nor any other figure of authority will free us from war, because war is the mode of existence of power. As long as there are armed States, as long as there is capital accumulated through exploitation, war will always be the inevitable outcome of the contradictions they themselves create.

The only response worth pursuing, in the face of this spectacle of hypocrisy, is the construction of an international solidarity that rejects both U.S. imperialism and Iranian authoritarianism—one that places at its center people’s lives, territorial self‑management, and the refusal to serve any war machine. For if the State and capital feed on war, we feed on the hope of a world in which neither exists.

In the meantime, let us keep our eyes open: when the Empire speaks of “peace,” it is because it is about to strike.

Liberto Herrera.


A corrente que prende Maja em Budapeste é a mesma que nos acorrenta a todos: internacionalizar a luta ou morreremos um a um

A  recente condenação da camarada antifascista Maja a oito anos de prisão na Hungria não é um caso isolado, nem um erro judicial. É a face visível de uma engrenagem continental de repressão que opera para criminalizar e esmagar qualquer movimento que ouse enfrentar o avanço fascista. O que vimos em Budapeste foi um julgamento-espetáculo, onde Maja foi tratada como um troféu de guerra, exibida com correntes e coleiras para servir de exemplo aterrorizante. A mensagem dos governos e suas polícias é clara: a solidariedade entre os povos e a luta antifascista serão pagas com a tortura do isolamento e o apodrecimento em celas – vide Alfredo Cospito. Mas se a nossa resposta for apenas local, estaremos jogando o jogo deles.

A repressão que atinge Maja começou muito antes de sua extradição clandestina. Ela foi gestada nas marchas neonazistas em homenagem à Waffen-SS na Hungria, protegidas por um regime de extrema-direita. Quando antifascistas, em legítima defesa da memória e da humanidade, reagiram à apologia do nazismo, desencadeou-se uma caçada internacional. Mandados de prisão, perseguições públicas e a colaboração ativa entre as polícias alemã e húngara provam o que sempre denunciamos: o Estado não é neutro. Ele é o comitê central para gerir os negócios da burguesia e, hoje, para gerir também a contenção violenta de quem se levanta contra o ódio.

A extradição de Maja, num “operação de sombra e nevoeiro”, foi um sequestro orquestrado por autoridades que se dizem defensoras do “Estado de Direito”. Até mesmo o Tribunal Constitucional Federal alemão apontou a ilegalidade do ato, mas a lei burguesa é apenas mais uma ferramenta que se descarta quando o alvo é um inimigo de classe. Maja está há dois anos em confinamento solitário, submetida a revistas íntimas humilhantes e comida podre, porque o sistema sabe que não basta prender: é preciso quebrar o espírito de quem luta. Eles a chamam de terrorista para justificar a própria barbárie.

Diante disso, a nossa posição não pode ser a de esperar por julgamentos justos ou pela boa vontade de tribunais burgueses. A justiça que condena Maja é a mesma que absolve policiais assassinos e financia regimes xenófobos. Aprendemos com a história que o fascismo não se derrota com apelos à razão das elites, mas com a força organizada das ruas. O protesto relâmpago em Bremen, no dia 4 de março de 2026, é um grito que precisa se multiplicar: ocupar as ruas sem pedir licença, furar o cerco da mídia e mostrar que, enquanto um só companheiro estiver acorrentado, a nossa luta não terá descanso.

A resposta deve ser tão internacional quanto a repressão que nos ataca. Se os governos da Alemanha e Hungria articulam-se para sequestrar e condenar uma antifascista, a nossa resistência precisa construir pontes que atravessem todas as fronteiras. Não basta acompanhar o caso de Maja à distância, com tristeza ou solidariedade passiva. É preciso transformar a nossa revolta em ação coordenada: pressionar embaixadas, denunciar nos locais de trabalho e estudo, e, acima de tudo, fortalecer as redes que conectam as lutas de Lisboa a Budapeste, de Macau a São Paulo. O inimigo tem o poder dos Estados; nós temos a capacidade de tecer alianças que eles jamais conseguirão controlar totalmente.

Que a imagem de Maja acorrentada se transforme em combustível para a nossa organização. Cada dia de sua prisão injusta é um dia a mais para mostrarmos que o fascismo não passará e que o anticapitalismo é a trincheira necessária para derrotá-lo de vez. A liberdade de Maja é a nossa liberdade. E ela virá não da misericórdia dos algozes, mas da pressão implacável de uma classe que se reconhece unida na luta. Liberdade para Maja e para todos os presos políticos! Que os nazistas e seus cúmplices nos governos preparem-se: não terão sossego enquanto houver um antifascista atrás das grades. A nossa resposta será a greve, o protesto e a solidariedade sem fronteiras.

English:

The chain that binds Maja in Budapest is the same one that chains us all: internationalize the struggle or we will die one by one

The recent conviction of comrade antifascist Maja to eight years in prison in Hungary is not an isolated case, nor a miscarriage of justice. It is the visible face of a continental machinery of repression that operates to criminalize and crush any movement that dares to confront the fascist advance. What we saw in Budapest was a show trial, where Maja was treated as a trophy of war, displayed with chains and collars to serve as a terrifying example. The message from governments and their police forces is clear: solidarity among peoples and the antifascist struggle will be paid for with the torture of isolation and rotting in cells – see Alfredo Cospito. But if our response is only local, we will be playing their game.

The repression that hits Maja began long before her clandestine extradition. It was nurtured in the neo-Nazi marches honoring the Waffen-SS in Hungary, protected by a far-right regime. When antifascists, in legitimate defense of memory and humanity, reacted to the apology of Nazism, an international manhunt was unleashed. Arrest warrants, public persecutions, and the active collaboration between the German and Hungarian police prove what we have always denounced: the State is not neutral. It is the central committee for managing the affairs of the bourgeoisie and, today, also for managing the violent containment of those who rise up against hatred.

Maja’s extradition, in a “night and fog operation,” was a kidnapping orchestrated by authorities who claim to be defenders of the “Rule of Law.” Even the German Federal Constitutional Court pointed out the illegality of the act, but bourgeois law is just another tool that is discarded when the target is a class enemy. Maja has been in solitary confinement for two years, subjected to humiliating strip searches and rotten food, because the system knows that arresting is not enough: the spirit of those who fight must be broken. They call her a terrorist to justify their own barbarism.

Faced with this, our position cannot be to wait for fair trials or the goodwill of bourgeois courts. The justice that condemns Maja is the same that acquits murderous police officers and finances xenophobic regimes. We have learned from history that fascism is not defeated by appeals to the reason of the elites, but by the organized strength of the streets. The lightning protest in Bremen, on March 4, 2026, is a cry that needs to multiply: occupy the streets without asking permission, break through the media siege, and show that as long as a single comrade is in chains, our struggle will have no rest.

The response must be as international as the repression that attacks us. If the governments of Germany and Hungary join forces to kidnap and convict an antifascist, our resistance must build bridges that cross all borders. It is not enough to follow Maja’s case from a distance, with sadness or passive solidarity. We must transform our outrage into coordinated action: pressure embassies, denounce it in workplaces and schools, and above all, strengthen the networks that connect the struggles from Lisbon to Budapest, from Macau to São Paulo. The enemy has the power of states; we have the capacity to weave alliances that they will never be able to fully control.

May the image of Maja in chains turn into fuel for our organization. Each day of her unjust imprisonment is one more day to show that fascism shall not pass and that anti-capitalism is the necessary trench to defeat it for good. Maja’s freedom is our freedom. And it will come not from the mercy of the executioners, but from the relentless pressure of a class that recognizes itself united in struggle. Freedom for Maja and for all political prisoners! Let the Nazis and their accomplices in governments prepare: they will have no peace as long as there is an antifascist behind bars. Our response will be strike, protest, and solidarity without borders.

Español:


La cadena que sujeta a Maja en Budapest es la misma que nos encadena a todos: internacionalizar la lucha o moriremos uno a uno

La reciente condena de la compañera antifascista Maja a ocho años de prisión en Hungría no es un caso aislado, ni un error judicial. Es la cara visible de un engranaje continental de represión que opera para criminalizar y aplastar cualquier movimiento que ose enfrentar el avance fascista. Lo que vimos en Budapest fue un juicio-espectáculo, donde Maja fue tratada como un trofeo de guerra, exhibida con cadenas y collares para servir de ejemplo aterrador. El mensaje de los gobiernos y sus policías es claro: la solidaridad entre los pueblos y la lucha antifascista se pagarán con la tortura del aislamiento y el pudrimiento en celdas – véase Alfredo Cospito. Pero si nuestra respuesta es solo local, estaremos jugando su juego.

La represión que golpea a Maja comenzó mucho antes de su extradición clandestina. Fue gestada en las marchas neonazis en homenaje a las Waffen-SS en Hungría, protegidas por un régimen de extrema derecha. Cuando antifascistas, en legítima defensa de la memoria y la humanidad, reaccionaron a la apología del nazismo, se desencadenó una cacería internacional. Órdenes de arresto, persecuciones públicas y la colaboración activa entre las policías alemana y húngara prueban lo que siempre denunciamos: el Estado no es neutral. Es el comité central para gestionar los negocios de la burguesía y, hoy, para gestionar también la contención violenta de quienes se levantan contra el odio.

La extradición de Maja, en una “operación de noche y niebla”, fue un secuestro orquestado por autoridades que se dicen defensoras del “Estado de Derecho”. Incluso el Tribunal Constitucional Federal alemán señaló la ilegalidad del acto, pero la ley burguesa es solo una herramienta más que se desecha cuando el objetivo es un enemigo de clase. Maja lleva dos años en confinamiento solitario, sometida a humillantes requisas íntimas y comida podrida, porque el sistema sabe que no basta con arrestar: hay que quebrar el espíritu de quien lucha. La llaman terrorista para justificar su propia barbarie.

Ante esto, nuestra posición no puede ser esperar juicios justos o la buena voluntad de tribunales burgueses. La justicia que condena a Maja es la misma que absuelve a policías asesinos y financia regímenes xenófobos. Aprendimos de la historia que el fascismo no se derrota con apelaciones a la razón de las élites, sino con la fuerza organizada de las calles. La protesta relámpago en Bremen, el 4 de marzo de 2026, es un grito que necesita multiplicarse: ocupar las calles sin pedir permiso, romper el cerco mediático y mostrar que, mientras un solo compañero esté encadenado, nuestra lucha no tendrá descanso.

La respuesta debe ser tan internacional como la represión que nos ataca. Si los gobiernos de Alemania y Hungría se articulan para secuestrar y condenar a una antifascista, nuestra resistencia necesita construir puentes que atraviesen todas las fronteras. No basta con seguir el caso de Maja a distancia, con tristeza o solidaridad pasiva. Hay que transformar nuestra rabia en acción coordinada: presionar embajadas, denunciar en los lugares de trabajo y estudio, y, sobre todo, fortalecer las redes que conectan las luchas de Lisboa a Budapest, de Macao a São Paulo. El enemigo tiene el poder de los Estados; nosotros tenemos la capacidad de tejer alianzas que ellos jamás podrán controlar totalmente.

Que la imagen de Maja encadenada se transforme en combustible para nuestra organización. Cada día de su prisión injusta es un día más para demostrar que el fascismo no pasará y que el anticapitalismo es la trinchera necesaria para derrotarlo de una vez. La libertad de Maja es nuestra libertad. Y vendrá no de la misericordia de los verdugos, sino de la presión implacable de una clase que se reconoce unida en la lucha. ¡Libertad para Maja y para todos los presos políticos! Que los nazis y sus cómplices en los gobiernos se preparen: no tendrán descanso mientras haya un antifascista tras las rejas. Nuestra respuesta será la huelga, la protesta y la solidaridad sin fronteras.