A Fúria Necessária

Não vos venho trazer flores nem ilusões. Venho falar da verdade que muitos camaradas preferem adoçar para não assustar os recém-chegados: a repressão não é um acidente de percurso na luta anarquista; ela é a sua sombra inevitável, o eco metálico que a nossa ação provoca nas engrenagens do Leviatã. Quem sonha com uma revolução sem cicatrizes, sem sangue e sem cadeias, está a sonhar com uma aventura ou uma festa, não com a destruição da ordem burguesa. A tese que vos trago é dura, mas necessária: a repressão é inerente à nossa luta porque o poder não cede o seu espólio sem violência; ainda assim, mesmo que o terreno esteja minado, mesmo que as probabilidades sejam de aniquilamento, a luta deve prosseguir por todos os meios possíveis. A tensão entre a ordem burguesa e o mundo novo que carregamos em nossas entranhas não é um mal-entendido que se resolva com diálogos de salão; é um antagonismo ontológico, uma contradição irreconciliável. E é precisamente da superação violenta e radical dessa ordem que a vitória libertária há de surgir — o que, por sua vez, nos conduz, inexoravelmente, de volta ao fogo da resistência.

Comecemos pelo óbvio que os acadêmicos e os reformistas se recusam a ver: o Estado burguês não é uma entidade neutra, um mero árbitro de conflitos sociais. Ele é a comissão executiva dos exploradores, o guarda-costas armado da propriedade privada e das hierarquias que dela emanam. A sua essência é a coerção monopolizada. A lei que ele aplica não é a justiça; é a codificação da espoliação. Quando nos organizamos em conselhos livres, quando ocupamos terras e fábricas, quando recusamos a obediência e a servidão voluntária, não estamos a fazer um pedido de mudança; estamos a desferir um golpe na própria base de sua legitimidade. A reação do Estado a esse golpe não pode ser outra senão a repressão. Não é um “risco” calculado; é uma certeza física, como a queda de um corpo. A história está repleta de exemplos — desde a Comuna de Paris, afogada em sangue, até a Ucrânia Livre, esmagada pelo exército vermelho e pelos brancos; desde os mártires de Chicago até as celas de prisão que abrigam os camaradas de hoje. A repressão não é o “preço” a pagar; ela é a resposta natural do sistema à nossa existência.

Neste ponto, muitos se acovardam. Dizem: “O terreno é desfavorável. A burguesia está fortalecida. O proletariado está atomizado. Esperemos o momento oportuno.” Que covardia disfarçada de pragmatismo! Quando, pergunto eu, o terreno foi favorável para os oprimidos? Quando é que os donos do mundo se sentaram à mesa e disseram: “Agora estamos frágeis, podem atacar”? O terreno desfavorável é o único terreno que a classe trabalhadora conhece. A fábrica é desfavorável, a mina é desfavorável, o gueto é desfavorável. A história não é uma escada rolante que nos leva suavemente à liberdade; é um abismo que só se transpõe com um salto — e o salto exige pernas fortes, mesmo que o chão trema. Esperar por condições ideais é esperar pela morte da nossa própria iniciativa. É entregar ao inimigo o monopólio do tempo. A luta não se faz quando a vitória é certa; faz-se porque a vitória precisa ser conquistada, e a única maneira de torná-la possível é travá-la, agora, com as ferramentas que temos, mesmo que sejam apenas as nossas mãos nuas e a nossa vontade inquebrantável.

Agora, detenhamo-nos sobre essa tensão inevitável. O que é a ordem burguesa senão um sistema de mediações hierárquicas — o patrão sobre o operário, o homem sobre a mulher, o branco sobre o negro, o burocrata sobre o cidadão? É uma teia de comandos e obediências que se reproduz diariamente nas escolas, nas igrejas, nos quartéis e nos parlamentos. O anarquismo, em sua essência, é a negação absoluta dessa mediação. Nós não queremos reformar a cadeia, queremos quebrá-la. Não queremos um patrão mais humano, queremos a autogestão. Não queremos um Estado mais paternalista, queremos a federação livre de comunas. Essa negação não é uma abstração filosófica; ela se traduz em atos concretos: a desobediência, a greve selvagem, a sabotagem, a expropriação. Cada um desses atos colide frontalmente com o código penal burguês, com a sua polícia e com os seus exércitos. A tensão, portanto, é uma guerra de movimento perpétuo.

E é nesse embate, nessa dialética violenta, que reside a nossa esperança. Porque a superação da ordem burguesa não virá de um voto, nem de uma declaração da ONU, nem de um manifesto pacífico que pede gentilmente que os opressores se convertam. A superação virá da crise, do choque, do momento em que a repressão do Estado se torna tão brutal, tão descarnada, que o véu da legalidade se rasga e as massas veem o tigre por trás da máscara. É a repressão que educa as massas na escola da necessidade. É a violência policial que radicaliza o operário moderado. É a prisão do militante que inspira a rebelião da vizinhança. Nesse sentido, a repressão é uma faca de dois gumes: o inimigo a usa para nos imolar, mas nós a usamos como uma forja que tempera a nossa determinação e revela a verdadeira face do poder. Quanto mais o Estado aperta o cerco, mais ele demonstra que não tem argumentos, apenas balas. E quando uma estrutura só tem balas para oferecer, a sua queda é apenas uma questão de tempo e de fúria acumulada.

Mas atenção: essa vitória libertária, que emerge da superação da ordem, não é um ponto de chegada estático, um paraíso onde os problemas se dissolvem. Ela é um processo contínuo de auto-emancipação. E é precisamente por isso que a luta, e todos os meios possíveis para travá-la, se tornam a categoria central da nossa existência. Defender que a luta deve prosseguir “por todos os meios possíveis” não é um apelo cego à violência; é o reconhecimento de que, numa guerra de extermínio contra a nossa humanidade, temos o direito moral e histórico de usar todas as armas disponíveis. Se o Estado usa a leis para nos prender, usemos a ilegalidade para expropriar o que foi roubado. Se o Estado usa a mídia para mentir, usemos a palavra impressa e a ação direta para desmascarar. Se o Estado usa as balas, usemos as barricadas. A ética do oprimido não pode ser a ética do opressor. Enquanto eles têm a propriedade, nós temos a fome; enquanto eles têm o exército, nós temos o número; enquanto eles têm a tecnologia da vigilância, nós temos a solidariedade orgânica das ruas. A luta por todos os meios significa utilizar a greve geral como arma política, a ocupação como ato de justiça distributiva, a sabotagem como interrupção do lucro, e a insurreição popular como o momento culminante em que o povo, armado com a sua própria coragem, toma para si os destinos da vida social.

Reconheçamos, no entanto, a dureza do caminho. As derrotas são amargas. As fileiras se diminuem. Os camaradas tombam. E o terreno, muitas vezes, parece mais estéril do que nunca. A pergunta que ecoa nos porões das delegacias e nos exílios forçados é: “Por que continuar?” A resposta é tão simples quanto absoluta: porque parar é aceitar a morte em vida. Porque a interrupção da luta não é uma trégua; é uma derrota definitiva que consagra a ordem burguesa como eterna. A continuidade da resistência, mesmo em terreno árido, é a única garantia de que a chama não se apaga. Cada ato de rebeldia, por menor que seja, é uma negação prática do “fim da história” proclamado pelos ideólogos do capital. Quando um grupo de trabalhadores ocupa uma fábrica falida, mesmo que despejados no dia seguinte, eles plantaram uma semente: a semente da autogestão possível. Quando um bairro se organiza em milícias populares para enfrentar a repressão policial, mesmo que massacrados, eles escreveram uma página na memória coletiva que nenhum juiz pode apagar. A luta não se justifica apenas pela vitória final; ela se justifica pela dignidade que confere a cada instante da resistência. A vitória libertária virá, mas virá como um corolário de inúmeras batalhas perdidas, de inúmeros mártires, de inúmeros “fracassos” que, somados, constroem a subjetividade revolucionária.

Esta é a dialética cruel que nos move: a ordem burguesa não pode coexistir com a liberdade anárquica. Ela a perseguirá, a caluniará e a esmagará com todas as suas forças. Mas, ao fazer isso, ela gera o seu próprio antídoto. Ela unifica os dispersos, ela radicaliza os moderados, ela prova a sua própria incapacidade de resolver as crises que ela mesma cria. A superação, portanto, não é uma fuga da realidade; é um mergulho nela até ao fundo, até ao ponto em que a tensão se rompe e o novo emerge das cinzas do velho. E esse novo mundo — a sociedade federada, igualitária e livre — não será construído com preces, mas com os escombros do edifício derrubado.

Por fim, caros camaradas, não nos enganemos com o canto da sereia do realismo político. O realismo burguês é a aceitação da servidão. O nosso realismo é a consciência da força do inimigo aliada à certeza da nossa necessidade de o destruir. A repressão está aí, nos porões, nas delegacias, nos canhões. Mas a nossa vontade de resistir também está aí, nas oficinas, nos campos, nos bairros periféricos. Que a repressão nos encontre de pé. Que o terreno desfavorável nos encontre em movimento. Que a tensão nos encontre na trincheira. Porque a vitória libertária não é um prêmio para os prudentes; é uma conquista para os audazes. É a superação da ordem burguesa que nos trará a alvorada, mas essa superação exige que cada um de nós, agora, neste instante, empunhe a sua ferramenta, a sua palavra, o seu punho ou a sua inteligência para golpear as cadeias.

A luta continua. Não porque temos esperança de um amanhã fácil, mas porque o hoje, sem luta, é insuportável. Não porque o futuro nos garante o triunfo, mas porque o presente nos exige a rebeldia. A repressão é inerente, o terreno é hostil, a tensão é absoluta. Mas a resistência é a nossa essência. E enquanto houver um único explorado, uma única mulher oprimida, um único trabalhador acorrentado, haverá um anarquista a plantar a dinamite da liberdade. Avante, pois. A vitória é o próprio caminho, e o caminho é a luta até ao fim.

Liberto Herrera.

CASTELLANO:

La Furia Necesaria

No vengo a traeros flores ni ilusiones. Vengo a hablaros de la verdad que muchos camaradas prefieren endulzar para no asustar a los recién llegados: la represión no es un accidente de trayecto en la lucha anarquista; es su sombra inevitable, el eco metálico que nuestra acción provoca en los engranajes del Leviatán. Quien sueña con una revolución sin cicatrices, sin sangre y sin cadenas, está soñando con una aventura o una fiesta, no con la destrucción del orden burgués. La tesis que os traigo es dura, pero necesaria: la represión es inherente a nuestra lucha porque el poder no cede su botín sin violencia; aun así, aunque el terreno esté minado, aunque las probabilidades sean de aniquilamiento, la lucha debe proseguir por todos los medios posibles. La tensión entre el orden burgués y el mundo nuevo que llevamos en nuestras entrañas no es un malentendido que se resuelva con diálogos de salón; es un antagonismo ontológico, una contradicción irreconciliable. Y es precisamente de la superación violenta y radical de ese orden de donde ha de surgir la victoria libertaria — lo que, a su vez, nos conduce, inexorablemente, de vuelta al fuego de la resistencia.

Comencemos por lo obvio que los académicos y los reformistas se niegan a ver: el Estado burgués no es una entidad neutra, un mero árbitro de conflictos sociales. Es la comisión ejecutiva de los explotadores, el guardaespaldas armado de la propiedad privada y de las jerarquías que de ella emanan. Su esencia es la coerción monopolizada. La ley que aplica no es la justicia; es la codificación del despojo. Cuando nos organizamos en consejos libres, cuando ocupamos tierras y fábricas, cuando rehusamos la obediencia y la servidumbre voluntaria, no estamos haciendo una petición de cambio; estamos asestando un golpe en la base misma de su legitimidad. La reacción del Estado a ese golpe no puede ser otra que la represión. No es un “riesgo” calculado; es una certeza física, como la caída de un cuerpo. La historia está repleta de ejemplos — desde la Comuna de París, ahogada en sangre, hasta la Ucrania Libre, aplastada por el ejército rojo y los blancos; desde los mártires de Chicago hasta las celdas de prisión que albergan a los camaradas de hoy. La represión no es el “precio” a pagar; es la respuesta natural del sistema a nuestra existencia.

En este punto, muchos se acobardan. Dicen: “El terreno es desfavorable. La burguesía está fortalecida. El proletariado está atomizado. Esperemos el momento oportuno.” ¡Qué cobardía disfrazada de pragmatismo! ¿Cuándo, pregunto yo, fue el terreno favorable para los oprimidos? ¿Cuándo es que los dueños del mundo se sentaron a la mesa y dijeron: “Ahora estamos débiles, pueden atacar”? El terreno desfavorable es el único terreno que conoce la clase trabajadora. La fábrica es desfavorable, la mina es desfavorable, el gueto es desfavorable. La historia no es una escalera mecánica que nos lleve suavemente a la libertad; es un abismo que solo se traspona con un salto — y el salto exige piernas fuertes, aunque el suelo tiemble. Esperar condiciones ideales es esperar la muerte de nuestra propia iniciativa. Es entregar al enemigo el monopolio del tiempo. La lucha no se libra cuando la victoria es segura; se libra porque la victoria debe ser conquistada, y la única manera de hacerla posible es librarla, ahora, con las herramientas que tenemos, aunque sean solo nuestras manos desnudas y nuestra voluntad inquebrantable.

Ahora, detengámonos en esa tensión inevitable. ¿Qué es el orden burgués sino un sistema de mediaciones jerárquicas — el patrón sobre el obrero, el hombre sobre la mujer, el blanco sobre el negro, el burócrata sobre el ciudadano? Es una telaraña de mandatos y obediencias que se reproduce diariamente en las escuelas, en las iglesias, en los cuarteles y en los parlamentos. El anarquismo, en su esencia, es la negación absoluta de esa mediación. Nosotros no queremos reformar la cadena, queremos romperla. No queremos un patrón más humano, queremos la autogestión. No queremos un Estado más paternalista, queremos la federación libre de comunas. Esa negación no es una abstracción filosófica; se traduce en actos concretos: la desobediencia, la huelga salvaje, el sabotaje, la expropiación. Cada uno de esos actos choca frontalmente con el código penal burgués, con su policía y con sus ejércitos. La tensión, por tanto, es una guerra de movimiento perpetuo.

Y es en ese embate, en esa dialéctica violenta, donde reside nuestra esperanza. Porque la superación del orden burgués no vendrá de un voto, ni de una declaración de la ONU, ni de un manifiesto pacífico que pide amablemente a los opresores que se conviertan. La superación vendrá de la crisis, del choque, del momento en que la represión del Estado se vuelve tan brutal, tan descarnada, que el velo de la legalidad se rasga y las masas ven al tigre detrás de la máscara. Es la represión la que educa a las masas en la escuela de la necesidad. Es la violencia policial la que radicaliza al obrero moderado. Es la prisión del militante la que inspira la rebelión del vecindario. En ese sentido, la represión es un arma de doble filo: el enemigo la usa para inmolaros, pero nosotros la usamos como una forja que templa nuestra determinación y revela el verdadero rostro del poder. Cuanto más aprieta el cerco el Estado, más demuestra que no tiene argumentos, solo balas. Y cuando una estructura solo tiene balas para ofrecer, su caída es solo cuestión de tiempo y de furia acumulada.

Pero atención: esa victoria libertaria, que emerge de la superación del orden, no es un punto de llegada estático, un paraíso donde los problemas se disuelven. Es un proceso continuo de autoemancipación. Y es precisamente por eso que la lucha, y todos los medios posibles para librarla, se convierten en la categoría central de nuestra existencia. Defender que la lucha debe proseguir “por todos los medios posibles” no es un llamamiento ciego a la violencia; es el reconocimiento de que, en una guerra de exterminio contra nuestra humanidad, tenemos el derecho moral e histórico de usar todas las armas disponibles. Si el Estado usa las leyes para encarcelarnos, usemos la ilegalidad para expropiar lo que fue robado. Si el Estado usa los medios para mentir, usemos la palabra impresa y la acción directa para desenmascarar. Si el Estado usa las balas, usemos las barricadas. La ética del oprimido no puede ser la ética del opresor. Mientras ellos tienen la propiedad, nosotros tenemos el hambre; mientras ellos tienen el ejército, nosotros tenemos el número; mientras ellos tienen la tecnología de la vigilancia, nosotros tenemos la solidaridad orgánica de las calles. La lucha por todos los medios significa utilizar la huelga general como arma política, la ocupación como acto de justicia distributiva, el sabotaje como interrupción del beneficio, y la insurrección popular como el momento culminante en que el pueblo, armado con su propio coraje, toma para sí los destinos de la vida social.

Reconozcamos, sin embargo, la dureza del camino. Las derrotas son amargas. Las filas se disminuyen. Los camaradas caen. Y el terreno, a menudo, parece más estéril que nunca. La pregunta que resuena en los sótanos de las comisarías y en los exilios forzados es: “¿Por qué continuar?” La respuesta es tan simple como absoluta: porque parar es aceptar la muerte en vida. Porque la interrupción de la lucha no es una tregua; es una derrota definitiva que consagra el orden burgués como eterno. La continuidad de la resistencia, incluso en terreno árido, es la única garantía de que la llama no se apague. Cada acto de rebeldía, por pequeño que sea, es una negación práctica del “fin de la historia” proclamado por los ideólogos del capital. Cuando un grupo de trabajadores ocupa una fábrica en quiebra, aunque sean desalojados al día siguiente, han plantado una semilla: la semilla de la autogestión posible. Cuando un barrio se organiza en milicias populares para enfrentar la represión policial, aunque sean masacrados, han escrito una página en la memoria colectiva que ningún juez puede borrar. La lucha no se justifica solo por la victoria final; se justifica por la dignidad que confiere a cada instante de la resistencia. La victoria libertaria vendrá, pero vendrá como un corolario de innumerables batallas perdidas, de innumerables mártires, de innumerables “fracasos” que, sumados, construyen la subjetividad revolucionaria.

Esta es la dialéctica cruel que nos mueve: el orden burgués no puede coexistir con la libertad anárquica. La perseguirá, la calumniará y la aplastará con todas sus fuerzas. Pero, al hacer eso, genera su propio antídoto. Unifica a los dispersos, radicaliza a los moderados, prueba su propia incapacidad para resolver las crisis que ella misma crea. La superación, por tanto, no es una huida de la realidad; es una inmersión en ella hasta el fondo, hasta el punto en que la tensión se rompe y lo nuevo emerge de las cenizas de lo viejo. Y ese mundo nuevo — la sociedad federada, igualitaria y libre — no será construido con plegarias, sino con los escombros del edificio derrumbado.

Finalmente, queridos camaradas, no nos engañemos con el canto de sirena del realismo político. El realismo burgués es la aceptación de la servidumbre. Nuestro realismo es la conciencia de la fuerza del enemigo aliada a la certeza de nuestra necesidad de destruirlo. La represión está ahí, en los sótanos, en las comisarías, en los cañones. Pero nuestra voluntad de resistir también está ahí, en los talleres, en los campos, en los barrios periféricos. Que la represión nos encuentre de pie. Que el terreno desfavorable nos encuentre en movimiento. Que la tensión nos encuentre en la trinchera. Porque la victoria libertaria no es un premio para los prudentes; es una conquista para los audaces. Es la superación del orden burgués la que nos traerá el alba, pero esa superación exige que cada uno de nosotros, ahora, en este instante, empuñe su herramienta, su palabra, su puño o su inteligencia para golpear las cadenas.

La lucha continúa. No porque tengamos esperanza de un mañana fácil, sino porque el hoy, sin lucha, es insoportable. No porque el futuro nos garantice el triunfo, sino porque el presente nos exige la rebeldía. La represión es inherente, el terreno es hostil, la tensión es absoluta. Pero la resistencia es nuestra esencia. Y mientras haya un solo explotado, una sola mujer oprimida, un solo trabajador encadenado, habrá un anarquista plantando la dinamita de la libertad. Adelante, pues. La victoria es el propio camino, y el camino es la lucha hasta el final.

Liberto Herrera.


ENGLISH:

The Necessary Fury

I do not come to bring you flowers or illusions. I come to speak to you of the truth that many comrades prefer to sweeten so as not to frighten the newcomers: repression is not a mishap along the anarchist struggle; it is its inevitable shadow, the metallic echo that our action provokes in the gears of the Leviathan. Whoever dreams of a revolution without scars, without blood and without chains, is dreaming of an adventure or a party, not of the destruction of the bourgeois order. The thesis I bring you is harsh, but necessary: repression is inherent to our struggle because power does not relinquish its spoils without violence; even so, even if the ground is mined, even if the odds are annihilation, the struggle must continue by all possible means. The tension between the bourgeois order and the new world we carry in our guts is not a misunderstanding to be resolved with parlor-room dialogues; it is an ontological antagonism, an irreconcilable contradiction. And it is precisely from the violent and radical overcoming of that order that the libertarian victory shall emerge — which, in turn, leads us, inexorably, back into the fire of resistance.

Let us begin with the obvious that academics and reformists refuse to see: the bourgeois State is not a neutral entity, a mere arbiter of social conflicts. It is the executive committee of the exploiters, the armed bodyguard of private property and the hierarchies that emanate from it. Its essence is monopolized coercion. The law it enforces is not justice; it is the codification of plunder. When we organize ourselves into free councils, when we occupy lands and factories, when we refuse obedience and voluntary servitude, we are not making a request for change; we are striking at the very foundation of its legitimacy. The State’s reaction to that blow can be nothing other than repression. It is not a calculated “risk”; it is a physical certainty, like the fall of a body. History is replete with examples — from the Paris Commune, drowned in blood, to Free Ukraine, crushed by the Red Army and the Whites; from the martyrs of Chicago to the prison cells that house today’s comrades. Repression is not the “price” to be paid; it is the system’s natural response to our existence.

At this point, many lose their nerve. They say: “The terrain is unfavorable. The bourgeoisie is strengthened. The proletariat is atomized. Let us wait for the opportune moment.” What cowardice disguised as pragmatism! When, I ask, was the terrain favorable for the oppressed? When did the owners of the world sit down at the table and say, “Now we are fragile, you may attack”? The unfavorable terrain is the only terrain the working class has ever known. The factory is unfavorable, the mine is unfavorable, the ghetto is unfavorable. History is not an escalator smoothly carrying us to freedom; it is an abyss that can only be crossed with a leap — and the leap requires strong legs, even if the ground trembles. Waiting for ideal conditions is waiting for the death of our own initiative. It is handing over to the enemy the monopoly on time. The struggle is not waged when victory is certain; it is waged because victory must be won, and the only way to make it possible is to wage it, now, with the tools we have, even if they are only our bare hands and our unbreakable will.

Now, let us dwell on this inevitable tension. What is the bourgeois order but a system of hierarchical mediations — the boss over the worker, man over woman, white over black, the bureaucrat over the citizen? It is a web of commands and obediences that reproduces itself daily in schools, churches, barracks, and parliaments. Anarchism, in its essence, is the absolute negation of that mediation. We do not want to reform the chain; we want to break it. We do not want a more humane boss; we want self-management. We do not want a more paternalistic State; we want the free federation of communes. This negation is not a philosophical abstraction; it translates into concrete acts: disobedience, wildcat strikes, sabotage, expropriation. Each of these acts collides head-on with the bourgeois penal code, with its police, and with its armies. The tension, therefore, is a perpetual war of movement.

And it is in this clash, in this violent dialectic, that our hope resides. Because the overcoming of the bourgeois order will not come from a vote, nor from a UN declaration, nor from a peaceful manifesto kindly asking the oppressors to convert. The overcoming will come from the crisis, from the shock, from the moment when the State’s repression becomes so brutal, so stark, that the veil of legality tears and the masses see the tiger behind the mask. It is repression that educates the masses in the school of necessity. It is police violence that radicalizes the moderate worker. It is the militant’s imprisonment that inspires the neighborhood’s rebellion. In this sense, repression is a double-edged sword: the enemy uses it to immolate us, but we use it as a forge that tempers our determination and reveals the true face of power. The more the State tightens the siege, the more it demonstrates that it has no arguments, only bullets. And when a structure has only bullets to offer, its fall is merely a matter of time and accumulated fury.

But beware: this libertarian victory, which emerges from the overcoming of the order, is not a static endpoint, a paradise where problems dissolve. It is a continuous process of self-emancipation. And it is precisely for this reason that the struggle, and all possible means of waging it, become the central category of our existence. Arguing that the struggle must continue “by all possible means” is not a blind call to violence; it is the recognition that, in a war of extermination against our humanity, we have the moral and historical right to use all available weapons. If the State uses laws to imprison us, let us use illegality to expropriate what was stolen. If the State uses the media to lie, let us use the printed word and direct action to expose it. If the State uses bullets, let us use barricades. The ethics of the oppressed cannot be the ethics of the oppressor. While they have property, we have hunger; while they have the army, we have numbers; while they have surveillance technology, we have the organic solidarity of the streets. The struggle by all means means using the general strike as a political weapon, occupation as an act of distributive justice, sabotage as an interruption of profit, and popular insurrection as the culminating moment in which the people, armed with their own courage, take into their own hands the destinies of social life.

Let us recognize, however, the harshness of the path. Defeats are bitter. The ranks thin out. Comrades fall. And the terrain often seems more barren than ever. The question that echoes in the basements of police stations and in forced exiles is: “Why continue?” The answer is as simple as it is absolute: because stopping is accepting death in life. Because the interruption of the struggle is not a truce; it is a definitive defeat that consecrates the bourgeois order as eternal. The continuity of resistance, even on arid ground, is the only guarantee that the flame does not go out. Each act of rebellion, however small, is a practical negation of the “end of history” proclaimed by the ideologues of capital. When a group of workers occupies a bankrupt factory, even if evicted the next day, they have planted a seed: the seed of possible self-management. When a neighborhood organizes itself into popular militias to confront police repression, even if massacred, they have written a page in the collective memory that no judge can erase. The struggle is not justified solely by the final victory; it is justified by the dignity it confers on every moment of resistance. The libertarian victory will come, but it will come as a corollary of countless lost battles, countless martyrs, countless “failures” which, added together, construct the revolutionary subjectivity.

This is the cruel dialectic that moves us: the bourgeois order cannot coexist with anarchic freedom. It will pursue it, slander it, and crush it with all its might. But in doing so, it generates its own antidote. It unifies the scattered, it radicalizes the moderate, it proves its own inability to resolve the crises it itself creates. The overcoming, therefore, is not an escape from reality; it is a dive into it, to the very bottom, to the point where the tension breaks and the new emerges from the ashes of the old. And this new world — the federated, egalitarian, and free society — will not be built with prayers, but with the rubble of the toppled edifice.

Finally, dear comrades, let us not deceive ourselves with the siren song of political realism. Bourgeois realism is the acceptance of servitude. Our realism is the awareness of the enemy’s strength allied with the certainty of our need to destroy it. Repression is there, in the basements, in the police stations, in the cannons. But our will to resist is also there, in the workshops, in the fields, in the peripheral neighborhoods. Let repression find us on our feet. Let the unfavorable terrain find us in motion. Let the tension find us in the trench. Because libertarian victory is not a prize for the prudent; it is a conquest for the audacious. It is the overcoming of the bourgeois order that will bring us the dawn, but this overcoming demands that each one of us, now, in this instant, wield our tool, our word, our fist, or our intelligence to strike the chains.

The struggle continues. Not because we hope for an easy tomorrow, but because today, without struggle, is unbearable. Not because the future guarantees us triumph, but because the present demands rebellion from us. Repression is inherent, the terrain is hostile, the tension is absolute. But resistance is our essence. And as long as there is a single exploited person, a single oppressed woman, a single chained worker, there will be an anarchist planting the dynamite of freedom. Forward, then. Victory is the very path, and the path is the struggle to the end.

Liberto Herrera.

LIBERDADE CONTRA TODA TIRANIA: AS POSIÇÕES DE EDGAR RODRIGUES DIANTE DO FASCISMO, DO NAZISMO, DO MARXISMO AUTORITÁRIO E DAS FORMAS GERAIS DE DOMINAÇÃO

Resumo: Este artigo analisa as posições antiautoritárias do historiador, arquivista e militante anarquista Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, diante do fascismo, do nazismo, do salazarismo, do franquismo, do bolchevismo e de outras formas de poder concentrado. Mediante revisão bibliográfica e análise qualitativa de obras selecionadas, argumenta-se que sua crítica não se limitou a regimes específicos, mas partiu de um princípio ético e político geral: nenhuma promessa de ordem, grandeza nacional ou emancipação social legitima a supressão da liberdade, a violência estatal, o partido único, o culto ao chefe ou a subordinação dos trabalhadores. A experiência pessoal sob a ditadura portuguesa e a repressão sofrida no Brasil contribuíram para transformar a denúncia do autoritarismo em eixo permanente de sua produção. O artigo distingue as formações históricas do fascismo, do nazismo e dos regimes marxistas-leninistas, evitando equiparações simplificadoras, mas sustenta que Rodrigues identificou corretamente um problema comum: a conversão de pessoas e movimentos em instrumentos de aparelhos hierárquicos. Conclui-se que sua defesa intransigente da liberdade, associada à autogestão, ao federalismo, à solidariedade e ao humanismo, permanece pedra angular para a construção de um mundo novo.

1 INTRODUÇÃO

A liberdade ocupa na obra de Edgar Rodrigues uma posição que não pode ser reduzida a tema entre outros. Ela funciona como critério de julgamento da história, das instituições e dos projetos revolucionários. Governos, partidos, sindicatos, igrejas e movimentos são avaliados segundo sua capacidade de ampliar a autonomia das pessoas ou, ao contrário, de submetê-las a chefes, burocracias e aparelhos coercitivos. Por isso, sua crítica ao fascismo e ao nazismo não aparece isolada de sua oposição ao salazarismo, ao franquismo, ao Estado Novo brasileiro, às ditaduras militares e às experiências políticas inspiradas no bolchevismo.

Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, nasceu em Angeiras, no norte de Portugal, em 12 de março de 1921, e viveu no Brasil desde 1951 até sua morte, no Rio de Janeiro, em 14 de maio de 2009. Filho de militante anarco-sindicalista perseguido pelo regime português, conheceu desde cedo a prisão política, a censura, o sindicalismo corporativo e a vigilância. Já no Brasil, participou de redes libertárias, colaborou com a imprensa anarquista, ajudou a fundar o Centro de Estudos Professor José Oiticica e foi preso durante a ditadura civil-militar (Addor, 2012; Ferreira, 2014a; 2014b).

O problema deste artigo pode ser formulado nos seguintes termos: como Rodrigues articulou sua oposição ao fascismo, ao nazismo, ao marxismo autoritário e ao autoritarismo em geral, e que concepção positiva de liberdade emerge dessa recusa? A hipótese defendida é que sua obra apresenta um antiautoritarismo coerente, construído pela combinação entre experiência biográfica, memória das lutas operárias e adesão ao anarquismo. Essa coerência não significa ausência de tensões. Em determinados momentos, sua linguagem polemiza de maneira ampla com o marxismo e aproxima regimes diferentes sob a categoria moral da ditadura. A análise científica deve reconhecer tal simplificação sem perder de vista a questão central por ele formulada: uma transformação social que destrói a liberdade reproduz, sob novos símbolos, a lógica da dominação.

A perspectiva adotada, obviamente, é simpatizante das ideias libertárias de Rodrigues. Essa posição não implica repetir todas as suas formulações, nem dispensar a distinção entre contextos históricos. Significa considerar seriamente seu princípio de que o fim emancipador não autoriza meios autoritários. Tal princípio questiona tanto a ordem capitalista e nacionalista quanto a pretensão de vanguardas que se atribuem o direito de governar em nome do proletariado. Em uma época marcada pela renovação de extremismos, pela normalização da violência política e pela concentração de decisões, essa crítica conserva força sociológica e ética.

2 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

A pesquisa é bibliográfica e qualitativa. O núcleo documental inclui O retrato da ditadura portuguesa (1962), Violência, autoridade & humanismo (1974), Deus Vermelho (1978), Nacionalismo e cultura social (1972), Novos rumos (1978), Resistência anarco-sindicalista à ditadura em Portugal (1922-1939) (1981), A oposição libertária à ditadura (1939-1974) (1982), Entre ditaduras (1993), Diga não à violência (1995) e Lembranças incompletas (2007). Essas obras permitem acompanhar a passagem da denúncia imediata das ditaduras para uma reflexão mais ampla sobre autoridade, Estado, partido e violência.

Como bibliografia crítica, destacam-se a tese de Carlos Augusto Addor (2012), que reconstrói a relação entre memória, história e anarquismo na produção de Rodrigues, e os estudos de José Maria Carvalho Ferreira (2014a; 2014b), que analisam sua trajetória entre Portugal e Brasil. Também são utilizados o levantamento bibliográfico publicado pela revista Verve (2009) e o texto de Adelaide Gonçalves e Allyson Bruno (2002), importantes para dimensionar o caráter militante, documental e humanista da obra.

Também se adota uma precaução terminológica. Fascismo, nazismo e marxismo não designam fenômenos equivalentes. O fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão foram movimentos e regimes ultranacionalistas, hierárquicos, militaristas e antidemocráticos; o nazismo acrescentou uma política racial genocida como fundamento do Estado. O marxismo, por sua vez, constitui uma tradição intelectual e política heterogênea, que inclui correntes democráticas, revolucionárias, críticas e autoritárias. Quando Rodrigues identifica marxismo e bolchevismo ou utiliza a expressão fascismo vermelho, sua formulação deve ser entendida como posição anarquista contra o partido-Estado e não como demonstração de identidade histórica entre todos esses fenômenos.

Essa ressalva não elimina a pertinência de sua comparação moral. Rodrigues perguntava menos se as ideologias possuíam a mesma genealogia e mais se os regimes concretos concentravam poder, eliminavam dissidências, controlavam sindicatos, perseguiam opositores e convertiam a população em objeto de administração. O conceito unificador é, portanto, o autoritarismo: uma relação social na qual poucos decidem, muitos obedecem e a coerção substitui a participação. É nesse nível que sua crítica pode ser reconstruída com maior consistência.

3 EXPERIÊNCIA DA DITADURA E FORMAÇÃO ANTIAUTORITÁRIA

O antiautoritarismo de Rodrigues não nasceu apenas da leitura de clássicos libertários. Sua formação ocorreu no interior de uma família trabalhadora atingida pela ditadura portuguesa instaurada após o golpe de 1926 e consolidada pelo Estado Novo de Salazar. A prisão do pai, a perseguição aos sindicatos livres e a destruição da imprensa operária tornaram o poder estatal uma presença cotidiana. Addor (2012) mostra que essas experiências alimentaram no jovem Antônio Francisco Correia uma desconfiança duradoura em relação a qualquer autoridade e uma aspiração igualmente duradoura por justiça e liberdade.

O regime salazarista reorganizou o mundo do trabalho segundo princípios corporativos. Sindicatos autônomos foram fechados ou obrigados a integrar estruturas reconhecidas pelo Estado; dirigentes foram presos, deportados ou submetidos à clandestinidade; a PIDE transformou a vigilância em método permanente. Para Rodrigues, a violência da ditadura não se limitava à ação policial. Ela alcançava a fome, o medo, o silêncio, a escola, a imprensa e as possibilidades de associação. O autoritarismo era um sistema de vida, não apenas um conjunto de leis de exceção.

Essa compreensão aparece em seus primeiros livros, definidos por ele como livros de combate. Na Inquisição de Salazar, A fome em Portugal, O retrato da ditadura portuguesa e Portugal Hoy buscavam informar leitores estrangeiros, apoiar perseguidos e romper o isolamento imposto pelo regime. Em O retrato da ditadura portuguesa, Rodrigues descreveu a ditadura como um mal coletivo, organizado em toda a estrutura do governo, e registrou prisões, espancamentos, assassinatos, colonialismo e atuação da polícia política (Rodrigues, 1962; Addor, 2012).

A emigração para o Brasil confirmou que o autoritarismo não pertencia a um único país. Rodrigues encontrou uma sociedade marcada pela herança escravista, por desigualdades profundas e pela memória do Estado Novo varguista. Em 1969, o Centro de Estudos Professor José Oiticica foi fechado, materiais foram apreendidos e militantes, entre eles Rodrigues, foram presos e processados. A continuidade entre salazarismo e repressão brasileira reforçou sua percepção de que Estados de diferentes discursos recorrem a procedimentos semelhantes quando temem a organização autônoma.

4 FASCISMO E SALAZARISMO: O PODER ORGANIZADO PARA A DOMINAÇÃO

A crítica de Rodrigues ao fascismo parte da recusa do nacionalismo, do corporativismo e do culto à autoridade. O fascismo promete superar conflitos sociais mediante a unidade da nação, mas essa unidade é produzida pela supressão das organizações independentes e pela subordinação dos trabalhadores ao Estado. Sindicatos deixam de ser instrumentos de luta e tornam-se órgãos de disciplina; a desigualdade de classes é preservada, enquanto a propaganda proclama harmonia entre patrões e empregados. Para um anarcossindicalista, esse arranjo representa a negação completa da autonomia operária.

O salazarismo ofereceu a Rodrigues a experiência mais próxima desse mecanismo. A legislação corporativa portuguesa destruiu a Confederação Geral do Trabalho e substituiu o sindicalismo livre por sindicatos nacionais. Em sua reconstrução histórica, a polícia, a censura e a administração econômica formavam uma mesma arquitetura. O regime pretendia ordenar a sociedade de cima para baixo, atribuindo a cada grupo uma função e retirando das pessoas o direito de contestar a ordem. A paz fascista era, assim, a imobilidade garantida pela força.

Essa posição explica sua atenção à Revolução Espanhola e à resistência de anarquistas portugueses. A experiência espanhola demonstrava, em sua leitura, que trabalhadores eram capazes de organizar coletividades, serviços e milícias sem depender de uma autoridade central absoluta. A derrota diante do franquismo, apoiado pelo fascismo italiano e pelo nazismo alemão, foi interpretada como tragédia internacional, agravada pelos conflitos e pela repressão no próprio campo republicano. A liberdade não era um luxo a ser adiado até depois da guerra, mas o conteúdo social da luta contra Franco.

5 NAZISMO, RACISMO, GUERRA E DESTRUIÇÃO DA PESSOA

Rodrigues criticou o nazismo como forma extrema de tirania, militarismo e desumanização. Embora sua produção tenha dedicado mais espaço ao salazarismo e ao franquismo, a Alemanha nazista aparece como parte do conjunto de experiências totalitárias combatidas pelos libertários. O culto a Hitler, a mobilização integral da sociedade, a perseguição aos opositores e a transformação da guerra em destino nacional condensavam tudo o que o anarquismo recusava: obediência, hierarquia, disciplina compulsória e sacrifício do indivíduo ao Estado.

O elemento racial torna o nazismo particularmente radical. A pessoa deixa de valer por sua humanidade e passa a ser classificada por origem, sangue e utilidade para a comunidade nacional. Judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, eslavos e opositores políticos foram submetidos a exclusão, deportação, trabalho forçado e extermínio. Mesmo quando Rodrigues não desenvolve uma teoria sistemática do racismo, seu princípio igualitário – sintetizado pela ideia de que um homem vale um homem – contradiz frontalmente qualquer hierarquia racial ou biológica (Addor, 2012).

A crítica libertária ao nazismo também é antimilitarista. A guerra exige centralização, segredo, comando e disponibilidade dos corpos para fins definidos por governos. O soldado ideal é aquele que obedece; o cidadão ideal do regime totalitário é aquele que transforma ordens em convicções. Rodrigues valorizava campanhas contra o serviço militar obrigatório e registrava a tradição internacionalista dos trabalhadores, para os quais não fazia sentido matar pessoas de outros países em benefício de Estados, indústrias e projetos imperiais.

Nazismo e fascismo mostram, ainda, como cultura e propaganda podem ser subordinadas à autoridade. Escolas, rádios, jornais, cerimônias e organizações juvenis são mobilizados para produzir conformidade. Em resposta, Rodrigues atribuía grande importância à educação libertária, ao teatro social, à imprensa operária e às bibliotecas. A luta cultural não era acessória: constituía um processo de descondicionamento, capaz de formar sujeitos que questionassem a ordem e não confundissem repetição coletiva com verdade.

6 MARXISMO, BOLCHEVISMO E A CRÍTICA À DITADURA DO PARTIDO

A crítica de Rodrigues ao marxismo deve ser situada na longa controvérsia entre socialismo libertário e socialismo autoritário. Desde a Primeira Internacional, anarquistas contestaram a conquista do Estado, o centralismo partidário e a ideia de uma transição dirigida por uma vanguarda. Rodrigues herdou essa tradição e a releu a partir da Revolução Russa, da formação dos partidos comunistas e das experiências soviética e cubana. Seu alvo principal era o marxismo transformado em doutrina de Estado, identificado por ele com bolchevismo, partido único e ditadura sobre os trabalhadores.

Em Nacionalismo e cultura social, Rodrigues reproduziu documentos anarquistas brasileiros que saudavam a derrubada do czarismo, mas recusavam a consolidação do poder bolchevique. A crítica afirmava que não se poderia opor à ditadura do capitalismo a ditadura de outra classe, nem aceitar que um partido falasse em nome de todo o proletariado. A solidariedade com o impulso revolucionário coexistia, portanto, com a denúncia da repressão às tendências federalistas e libertárias (Rodrigues, 1972; Addor, 2012).

Esse ponto é decisivo para compreender sua posição. Rodrigues não rejeitava a igualdade social, a propriedade comum ou a superação do capitalismo. Seu anarquismo também se apresentava como socialismo e, em muitas formulações, como comunismo libertário. O conflito dizia respeito aos meios e à forma política: enquanto o bolchevismo defendia centralização, disciplina partidária e manutenção de um Estado revolucionário, o anarquismo propunha federação, ação direta, autogestão e dissolução das estruturas de mando.

Em Deus Vermelho, Rodrigues aprofundou a denúncia do stalinismo e da sacralização do partido. O título sugere que uma autoridade secular pode ocupar a posição antes atribuída à divindade: torna-se infalível, exige devoção e pune heresias. A revolução, convertida em religião política, passa a justificar expurgos, censura, campos de trabalho e submissão da verdade aos interesses do aparelho. A expressão fascismo vermelho, utilizada em sua polêmica, procura destacar esse encontro entre culto ao chefe, polícia política e concentração absoluta de poder (Rodrigues, 1978; Addor, 2012).

Do ponto de vista historiográfico, a analogia requer cautela. O nazismo baseou-se em ultranacionalismo racial, expansão imperial e genocídio; a experiência soviética derivou de uma revolução social, de outra estrutura econômica e de outra linguagem de legitimidade. Confundi-las integralmente apaga diferenças fundamentais. No entanto, a advertência de Rodrigues permanece relevante quando lida como crítica à forma autoritária: partidos que monopolizam a política, Estados que proíbem dissenso e burocracias que administram trabalhadores em seu próprio nome traem a emancipação que proclamam.

7 AUTORITARISMOS DE DIREITA E DE ESQUERDA: CONTINUIDADES E DIFERENÇAS

Rodrigues insistia que nenhuma ditadura, de direita ou autoproclamada de esquerda, possuía legitimidade. Essa recusa universal distinguia seu antifascismo de posições que condenavam a repressão apenas quando praticada pelo campo adversário. Salazar, Franco, Hitler, Mussolini, Vargas, os governos militares, Stalin e outros dirigentes eram julgados pelo modo como concentravam decisões e perseguiam dissidentes. A cor da bandeira não absolvia a cadeia, a censura ou a polícia política.

Há nessa posição uma ética da coerência. Se a liberdade é valor humano e não privilégio de um grupo, ela deve alcançar adversários, minorias e dissidentes. O revolucionário que aceita a tortura ou o silêncio forçado quando aplicados aos inimigos prepara mecanismos que mais tarde poderão ser dirigidos contra os próprios trabalhadores. Rodrigues percebia que instituições autoritárias desenvolvem interesses próprios: polícias, burocracias e partidos tendem a conservar poder, independentemente das promessas que justificaram sua criação.

Contudo, uma análise rigorosa não deve converter essa convergência funcional em identidade total. Regimes diferem quanto a base social, projeto econômico, ideologia, escala da violência e relação com propriedade, raça e imperialismo. Reconhecer diferenças não relativiza crimes nem enfraquece a defesa da liberdade. Ao contrário, permite compreender os mecanismos específicos pelos quais cada autoritarismo se estabelece e evita que a palavra fascismo se torne rótulo genérico para toda prática condenável.

O autoritarismo geral inclui ainda relações que não assumem forma de ditadura estatal. Patriarcado, clericalismo, racismo, exploração econômica, chefia incontestável e educação baseada no medo reproduzem hábitos de submissão. Em Violência, autoridade & humanismo, o próprio título reúne os polos de seu pensamento: violência e autoridade degradam a pessoa; o humanismo afirma sua capacidade de cooperação e desenvolvimento. A sociedade livre exige transformar instituições e, simultaneamente, modos cotidianos de relação (Rodrigues, 1974; Ferreira, 2014b).

8 LIBERDADE, NÃO VIOLÊNCIA E AUTOGESTÃO COMO ALTERNATIVAS

A crítica de Rodrigues não desemboca em individualismo indiferente às desigualdades. Sua liberdade é social. Pessoas só podem desenvolver autonomia quando dispõem de meios de vida, conhecimento, tempo, segurança e participação nas decisões que as afetam. Por isso, a luta contra o Estado autoritário associa-se à luta contra capitalismo, latifúndio, exploração e privilégios. Liberdade sem igualdade material torna-se poder dos proprietários; igualdade sem liberdade converte-se em administração de pessoas por uma burocracia.

A alternativa aparece na autogestão. Trabalhadores organizados diretamente poderiam administrar produção, distribuição, sindicatos, escolas e comunidades por meio de acordos federativos. A federação articula unidades autônomas sem criar um centro soberano: decisões sobem a partir da base, delegados recebem mandatos limitados e funções podem ser revogadas. Não se trata de ausência de organização, mas de organização sem separação permanente entre dirigentes e dirigidos.

Sua defesa da não violência merece destaque. Em Diga não à violência, Rodrigues afirma a necessidade de recusar todos os tipos de violência. Ele reconhece a diferença entre agressão imposta de cima e reação dos oprimidos, mas privilegia a transformação cultural, a persuasão e a organização. A não violência não significa passividade diante da tirania. Significa rejeitar a fascinação pela força e impedir que métodos de guerra colonizem o projeto emancipador (Rodrigues, 1995; Addor, 2012).

O humanismo libertário fornece unidade a essa proposta. O princípio de que cada pessoa possui igual valor impede sacrificar indivíduos a abstrações como pátria, raça, partido, Estado ou progresso. Também impede tratar trabalhadores como massa a ser conduzida. Solidariedade não é caridade vertical, mas reconhecimento de interdependência entre iguais. A liberdade de um não termina onde começa a liberdade do outro; ela cresce quando as condições de autonomia são compartilhadas.

Essa concepção esclarece a expressão defesa intransigente da liberdade. A intransigência não significa incapacidade de diálogo nem pureza sectária. Significa estabelecer um limite que nenhum acordo pode ultrapassar: não aceitar tortura, censura, culto ao chefe, discriminação racial, partido único, sindicalismo compulsório ou governo irresponsável diante dos governados. Estratégias podem mudar; a dignidade humana não pode ser negociada.

9 ATUALIDADE E LIMITES DA CRÍTICA DE EDGAR RODRIGUES

A obra de Rodrigues permanece atual porque o autoritarismo raramente retorna com a mesma aparência. Pode apresentar-se como defesa da segurança, recuperação moral, eficiência administrativa, proteção da revolução ou combate a inimigos internos. Em todos os casos, pede-se que a sociedade entregue poder a especialistas, militares, líderes carismáticos ou partidos disciplinados. A pergunta anarquista continua necessária: que controles existem sobre quem decide e que espaços permanecem para organização autônoma?

A crítica ao partido-Estado também dialoga com organizações progressistas. Movimentos emancipatórios podem reproduzir centralismo, silenciamento e personalismo mesmo fora do governo. A memória das experiências bolcheviques, tal como reconstruída por Rodrigues, adverte que a burocratização começa quando a base perde capacidade de decidir e a direção passa a confundir sua permanência com a sobrevivência da causa. Democracia interna não é obstáculo à transformação; é parte de seu conteúdo.

Há, entretanto, limites que precisam ser reconhecidos. Rodrigues emprega por vezes categorias amplas, apresenta o marxismo como bloco relativamente homogêneo e utiliza analogias que aproximam excessivamente regimes distintos. Sua linguagem de combate pode reduzir a complexidade de conflitos internos às esquerdas. Estudos posteriores devem confrontar seus juízos com outras fontes, distinguir marxismos, como por exemplo os conselhistas e antiestalinistas, e aprofundar dimensões como raça, gênero e colonialidade.

Esses limites não anulam sua contribuição. A força de Rodrigues está menos em oferecer uma teoria completa dos totalitarismos e mais em preservar uma posição ética submetida a repetidos testes históricos. Ele recusou a ditadura que perseguiu sua família, a ditadura que o prendeu no Brasil e as ditaduras que se apresentavam como realização do socialismo. Essa continuidade confere credibilidade a sua defesa da liberdade: ela não variava conforme o governante estivesse ou não próximo de seu campo político.

Por fim, sua atualidade reside na associação entre crítica e construção. Denunciar autoritarismos é insuficiente sem criar práticas alternativas: assembleias reais, mandatos revogáveis, transparência, educação crítica, cooperativas, sindicatos independentes, imprensa livre e redes de apoio mútuo. A liberdade sobrevive quando deixa de ser palavra cerimonial e se converte em hábito institucional e Rodrigues oferece materiais históricos para imaginar esse aprendizado coletivo.

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As posições de Edgar Rodrigues contra o fascismo, o nazismo, o marxismo autoritário e as formas gerais de dominação compõem um mesmo projeto anarquista. Sua crítica nasce da experiência sob o salazarismo, amadurece na militância anarquista e é confirmada pela repressão da ditadura brasileira. Ao longo de décadas, ele registrou prisões, censuras, sindicatos destruídos, exílios e resistências, recusando que a violência de Estado fosse legitimada por nacionalismo, religião, segurança ou revolução.

Diante do fascismo, Rodrigues denunciou a unidade nacional imposta, o corporativismo, o culto ao chefe e a destruição da autonomia operária. Diante do nazismo, seu igualitarismo radical opôs-se à hierarquia racial, ao militarismo e à transformação da pessoa em material do Estado. Diante do bolchevismo e do marxismo de Estado, recusou o partido único, a ditadura denominada proletária e a substituição da iniciativa dos trabalhadores por uma burocracia que governava em seu nome.

A análise mostrou que essas críticas não autorizam apagar diferenças históricas. Fascismo, nazismo e experiências marxistas-leninistas possuem origens, projetos e violências específicas. A expressão fascismo vermelho deve ser entendida como linguagem militante sobre a forma ditatorial, não como conceito capaz de esgotar tais diferenças. Ainda assim, a comparação de Rodrigues preserva uma verdade essencial: discursos opostos podem convergir quando concentram poder, silenciam dissidências e transformam seres humanos em instrumentos de um aparelho.

Sua contribuição mais profunda é a afirmação de que os meios já contêm relações do mundo futuro. Não se constrói liberdade mediante obediência, igualdade mediante privilégio burocrático, solidariedade mediante terror ou autonomia mediante tutela. Uma revolução que suspende indefinidamente a participação prepara uma sociedade de comandantes e comandados. Por isso, a autogestão, a ação direta, o federalismo, a educação libertária e o apoio mútuo não são complementos posteriores; são formas presentes de aprender a viver sem dominação.

A simpatia assumida neste artigo fundamenta-se nessa coerência. Rodrigues podia ser duro, polemista e por vezes excessivamente abrangente em suas classificações, mas não concedeu licença moral às tiranias do próprio campo. Sua liberdade não dependia da cor da bandeira. O preso político, o trabalhador submetido, o exilado, a minoria perseguida e o dissidente possuíam dignidade anterior às razões de Estado. Essa fidelidade ao ser humano é um legado intelectual e político de grande importância.

Defender intransigentemente a liberdade não significa ignorar exploração, desigualdade ou violência estrutural. Significa afirmar que sua superação só merece o nome de emancipação quando amplia a capacidade comum de decidir. A liberdade libertária é inseparável de igualdade material e responsabilidade coletiva; não é direito do mais forte, mas condição compartilhada para que ninguém seja governado como objeto. Ela exige instituições abertas, poderes limitados e participação permanente.

Em consequência, a defesa intransigente da liberdade deve ser reconhecida como pedra angular para a construção de um mundo novo. Sem ela, o novo reduz-se a troca de administradores, símbolos e justificativas, conservando a velha separação entre quem manda e quem obedece. Com ela, a transformação pode orientar-se para uma sociedade em que trabalhadores e comunidades governem diretamente sua vida, diferenças não se convertam em hierarquias e nenhuma ideia seja colocada acima da dignidade humana.

Liberto Herrera.

REFERÊNCIAS

ADDOR, Carlos Augusto. Um homem vale um homem: memória, história e anarquismo na obra de Edgar Rodrigues. 2012. 404 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2012. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1387.pdf. Acesso em: 22 jul. 2026.

BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário, 2003.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 1]. Verve, São Paulo, n. 25, p. 13-29, 2014a. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30683. Acesso em: 22 jul. 2026.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 2]. Verve, São Paulo, n. 26, p. 49-81, 2014b. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30783. Acesso em: 22 jul. 2026.

GONÇALVES, Adelaide Maria; BRUNO, Allyson. Edgar Rodrigues: dedicação e compromisso social. Trajetos: Revista de História da UFC, Fortaleza, v. 1, n. 2, p. 193-197, 2002. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/17197. Acesso em: 22 jul. 2026.

ROCKER, Rudolf. Nacionalismo e cultura. São Paulo: Hedra, 2015.

RODRIGUES, Edgar. O retrato da ditadura portuguesa. Rio de Janeiro: Cooperativa Editora Mundo Livre, 1962.

RODRIGUES, Edgar. Nacionalismo e cultura social: 1913-1922. Rio de Janeiro: Laemmert, 1972.

RODRIGUES, Edgar. Violência, autoridade & humanismo. Rio de Janeiro: Empresa Gráfica Carioca, 1974.

RODRIGUES, Edgar. Deus Vermelho. Porto: Mundo Livre, 1978.

RODRIGUES, Edgar. Novos rumos: história do movimento operário e das lutas sociais no Brasil, 1922-1946. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1978.

RODRIGUES, Edgar. Resistência anarco-sindicalista à ditadura em Portugal (1922-1939). Lisboa: Sementeira, 1981.

RODRIGUES, Edgar. A oposição libertária à ditadura (1939-1974). Lisboa: Sementeira, 1982.

RODRIGUES, Edgar. Entre ditaduras (1948-1962). Rio de Janeiro: Achiamé, 1993.

RODRIGUES, Edgar. Diga não à violência. Rio de Janeiro: VJR Editores Associados, 1995.

RODRIGUES, Edgar. Against all tyranny: essays on anarchism in Brazil. London: Kate Sharpley Library, 2003.

RODRIGUES, Edgar. Lembranças incompletas. Guarujá: Opúsculo Libertário, 2007.

VERVE. Bibliografia de Edgar Rodrigues. Verve, São Paulo, n. 16, p. 267-278, 2009. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/5104. Acesso em: 22 jul. 2026.

Propriedade é roubo, e quem defende é cúmplice

Sempre é lícito recordar que a propriedade privada dos meios de produção não nasceu do trabalho, nasceu da espada. Cercar a terra, declarar-se dono do que é de todos e expulsar quem nela vivia — esse é o ato fundante do Capital. Proudhon tinha razão: se um homem chega e diz “isto é meu”, sem ter colocado um tijolo, sem ter regado o chão, ele está roubando. E o Estado não apenas valida esse roubo com leis e polícia, como o canoniza como “direito sagrado”. Roubo legalizado continua sendo roubo.

Quem defende a propriedade privada das fábricas, da terra, das máquinas, está do lado do ladrão. Não existe “propriedade mista”, “função social da propriedade” ou “capitalismo consciente”. Esses termos são cortinas de fumaça para manter o essencial: a expropriação do trabalho. O patrão não é mais produtivo que o operário; ele é mais armado. O banqueiro não cria riqueza; ele a concentra. Defender a propriedade é ser cúmplice da violência silenciosa que transforma necessidade em lucro, suor em mais-valia, vida em mercadoria.

O capitalismo não é um sistema econômico — é uma guerra contínua contra quem não possui. E a primeira trincheira dessa guerra é a propriedade. Sem ela, não há exploração; sem exploração, não há Estado; sem Estado, não há hierarquia. Por isso a defesa da propriedade privada é tão feroz: ela é o nervo central da dominação. Cada argumento sobre “incentivo ao trabalho” ou “direito de herança” esconde o mesmo horror: alguém possui o que não fez, e muitos não possuem o que fazem.

Não se reforma o roubo, se devolve. E devolver não significa pedir licença ao ladrão. Significa ocupar, reivindicar, expropriar. Toda fábrica abandonada, todo latifúndio improdutivo, todo imóvel vazio é um roubo em curso. E a cúmplice silenciosa é a sociedade que normaliza a chave na porta, a cerca de arame farpado, o contrato de gaveta. Enquanto houver alguém pagando aluguel para quem nunca construiu, enquanto houver trabalhador recebendo migalhas do que ele mesmo produziu, o roubo segue impune.

Portanto, a luta anticapitalista é uma luta antirroubo. Não pedimos reforma agrária — pedimos terra livre. Não pedimos taxação de grandes fortunas — pedimos abolição da fortuna. Não pedimos participação nos lucros — pedimos a gestão operária de tudo. E a cada um que diz “mas a propriedade é direito”, respondemos: o direito do ladrão é o dever da vítima. Cúmplice é quem cala, quem negocia, quem vota no menos ladrão. Nós escolhemos devolver, sem pedir licença.

Abaixo a propriedade! Roubado é roubado!

Liberto Herrera.

Transbordar a Solidariedade, Materializar a Anarquia

Ergamos bem alto a bandeira negra do apoio mútuo, esse fator de evolução que Kropotkin desenterrou das entranhas da vida para demolir a mentira da competição como destino.

O anarquismo não é uma doutrina empoeirada à espera do grande terremoto redentor: é uma ética insurreta que se prova no calor de cada gesto, no aqui-agora das relações. Transbordar o apoio mútuo para o cotidiano é arrancar o anarquismo dos livros e das declarações solenes e fazê-lo pulsar na rua, na cozinha coletiva, na oficina compartilhada, no cuidado com a vizinhança. É declarar, sem pedir licença, que a solidariedade não é caridade — é luta, é tecido conjuntivo de uma humanidade que se recusa a ser lobo de si mesma.

Romper as amarras do individualismo canibal que o capital nos enfia goela abaixo exige que cada relação seja minada pela lógica da horizontalidade radical. No trabalho, quebremos a hierarquia gerencial com autogestão real: decisões em assembleia, rotação de tarefas, renda partilhada. Na casa, desintegremos o patriarcado com a socialização do cuidado — creches autogeridas, marmitas comunitárias, mutirões de reparos que não distinguem gênero. Na rua, disputemos cada metro quadrado com hortas rebeldes, bibliotecas livres, saraus de ocupação. Tudo isso é apoio mútuo em ato, é a pré-figuração da sociedade sem Estado que começa a ser construída agora, nas brechas, sem esperar a licença de nenhum comitê central ou a promessa de um amanhã que nunca vem.

Transformar relações é o coração da contracultura anarquista, pois o poder se esgueira pelos vínculos que reproduzem submissão, machismo, racismo, transfobia. O apoio mútuo, quando vivido com intencionalidade revolucionária, desata esses nós. Uma escuta atenta num coletivo que acolhe a fala de uma pessoa trans sem interrompê-la, uma rede de economia solidária que prioriza produtoras negras, um sarau onde a palavra da quebrada ecoa mais alto que a do acadêmico — isso não é detalhe, é programa. A amizade como aliança política, o amor livre como força antiautoritária, o prazer compartilhado como sabotagem ao produtivismo. Cada vínculo refeito nessa base é uma fagulha de utopia queimando a velha ordem na esfera mais íntima do cotidiano.

Materializar utopias não é delírio de quem ignora a dureza da realidade; é a teimosia lúcida de quem sabe que a sociedade futura não cairá pronta do céu. Ela se ensaia, se erra e se corrige nas ocupações de imóveis vazios, nas cozinhas solidárias que enfrentam a fome enquanto o Estado desvia verba, nos bancos comunitários que subvertem a finança predatória, nas brigadas de defesa territorial contra a milícia e a polícia. O apoio mútuo é a argamassa que une esses pedaços de mundo novo — é ele que transforma um galpão abandonado num centro social autogerido, uma praça esquecida num jardim de ervas medicinais livres, um grupo de pessoas precarizadas numa cooperativa de resistência. Utopia concreta se faz com as mãos enlameadas de presente, não com a testa franzida de quem só repete versículos.

Fazer o anarquismo vivo é declarar guerra ao dogmatismo que mumifica a revolta e a transforma em seita. Não existe “O” anarquismo: existem anarquismos, tantos quantas forem as constelações de apoio mútuo que se armam contra a tristeza capitalista. A ação direta que supre um telhado sem pedir autorização à prefeitura, a rede de apoio a pessoas em situação de rua que opera na margem da lei, a cadeia de solidariedade que se forma em minutos num desastre enquanto o governo só envia repressão — são manifestações dessa anarquia viva, que não é desordem, mas ordem voluntária e insurgente. Contra a frieza burocrática das esquerdas estatólatras, a ternura combativa de quem cuida das feridas da companheirada enquanto destrói as cercas do mundo.

Portanto, que cada manhã seja uma assembleia cotidiana onde decidimos, na prática, viver como se a anarquia já fosse realidade. Não peça, faça; não delegue, organize-se; não espere, estenda a mão. O apoio mútuo não é adereço poético de um manifesto, é a respiração de um corpo coletivo que aprende a andar com as próprias pernas, sem patrão, sem Estado, sem deus. Companheirxs, a revolução não está marcada no calendário — ela brota no instante em que você oferece o que sabe, partilha o que tem e cuida de quem está ao lado. Sejamos a anarquia que nos habita: viva, insubmissa, solidária. Nem deus, nem patrão, nem estado: vida. E vida em abundância, transbordada, tecida nos fios quentes do apoio mútuo.

Liberto Herrera

Español:

Desbordar la Solidaridad, Materializar la Anarquía

Levantemos bien alto la bandera negra del apoyo mutuo, ese factor de evolución que Kropotkin desenterró de las entrañas de la vida para demoler la mentira de la competencia como destino.

El anarquismo no es una doctrina polvorienta a la espera del gran terremoto redentor: es una ética insurrecta que se prueba en el calor de cada gesto, en el aquí-ahora de las relaciones. Desbordar el apoyo mutuo a lo cotidiano es arrancar el anarquismo de los libros y las declaraciones solemnes y hacerlo latir en la calle, en la cocina colectiva, en el taller compartido, en el cuidado del vecindario. Es declarar, sin pedir permiso, que la solidaridad no es caridad — es lucha, es tejido conjuntivo de una humanidad que se niega a ser lobo de sí misma.

Romper las ataduras del individualismo caníbal que el capital nos mete garganta abajo exige que cada relación sea minada por la lógica de la horizontalidad radical. En el trabajo, rompamos la jerarquía gerencial con autogestión real: decisiones en asamblea, rotación de tareas, ingreso compartido. En la casa, desintegremos el patriarcado con la socialización del cuidado — guarderías autogestionadas, ollas comunes, brigadas de reparaciones que no distinguen género. En la calle, disputemos cada metro cuadrado con huertas rebeldes, bibliotecas libres, veladas de ocupación. Todo esto es apoyo mutuo en acto, es la prefiguración de la sociedad sin Estado que comienza a construirse ahora, en las grietas, sin esperar el permiso de ningún comité central ni la promesa de un mañana que nunca llega.

Transformar relaciones es el corazón de la contracultura anarquista, pues el poder se desliza por los vínculos que reproducen sumisión, machismo, racismo, transfobia. El apoyo mutuo, cuando se vive con intencionalidad revolucionaria, desata esos nudos. Una escucha atenta en un colectivo que acoge la palabra de una persona trans sin interrumpirla, una red de economía solidaria que prioriza productoras negras, una velada donde la palabra del barrio resuena más alto que la del académico — eso no es detalle, es programa. La amistad como alianza política, el amor libre como fuerza antiautoritaria, el placer compartido como sabotaje al productivismo. Cada vínculo rehecho sobre esta base es una chispa de utopía quemando el viejo orden en la esfera más íntima de lo cotidiano.

Materializar utopías no es delirio de quien ignora la dureza de la realidad; es la terquedad lúcida de quien sabe que la sociedad futura no caerá hecha del cielo. Se ensaya, se equivoca y se corrige en las ocupaciones de inmuebles vacíos, en las cocinas solidarias que enfrentan el hambre mientras el Estado desvía fondos, en los bancos comunitarios que subvierten las finanzas predatorias, en las brigadas de defensa territorial contra la milicia y la policía. El apoyo mutuo es el mortero que une esos pedazos de mundo nuevo — es él quien transforma un galpón abandonado en un centro social autogestionado, una plaza olvidada en un jardín de hierbas medicinales libres, un grupo de personas precarizadas en una cooperativa de resistencia. La utopía concreta se hace con las manos embarradas de presente, no con la frente fruncida de quien solo repite versículos.

Hacer el anarquismo vivo es declarar la guerra al dogmatismo que momifica la revuelta y la convierte en secta. No existe “El” anarquismo: existen anarquismos, tantos como constelaciones de apoyo mutuo que se arman contra la tristeza capitalista. La acción directa que repara un techo sin pedir autorización al ayuntamiento, la red de apoyo a personas en situación de calle que opera al margen de la ley, la cadena de solidaridad que se forma en minutos durante un desastre mientras el gobierno solo envía represión — son manifestaciones de esa anarquía viva, que no es desorden, sino orden voluntaria e insurgente. Contra la frialdad burocrática de las izquierdas estatólatras, la ternura combativa de quien cuida las heridas de la compañerada mientras destruye las cercas del mundo.

Por tanto, que cada mañana sea una asamblea cotidiana donde decidimos, en la práctica, vivir como si la anarquía ya fuera realidad. No pidas, haz; no delegues, organízate; no esperes, extiende la mano. El apoyo mutuo no es adorno poético de un manifiesto, es la respiración de un cuerpo colectivo que aprende a caminar con sus propias piernas, sin patrón, sin Estado, sin dios. Compañerxs, la revolución no está marcada en el calendario — brota en el instante en que ofreces lo que sabes, compartes lo que tienes y cuidas de quien está al lado. Seamos la anarquía que nos habita: viva, insumisa, solidaria. Ni dios, ni patrón, ni estado: vida. Y vida en abundancia, desbordada, tejida en los hilos cálidos del apoyo mutuo.

Liberto Herrera

English:

Overflow Solidarity, Materialize Anarchy

Let us raise high the black flag of mutual aid, that factor of evolution which Kropotkin unearthed from the bowels of life to demolish the lie of competition as destiny.

Anarchism is not a dusty doctrine awaiting the great redemptive earthquake: it is an insurgent ethic that proves itself in the heat of every gesture, in the here-and-now of relationships. Making mutual aid overflow into everyday life means tearing anarchism from books and solemn declarations and making it pulse in the street, in the collective kitchen, in the shared workshop, in care for the neighborhood. It means declaring, without asking permission, that solidarity is not charity — it is struggle, it is the connective tissue of a humanity that refuses to be a wolf unto itself.

Breaking the chains of cannibalistic individualism that capital shoves down our throats requires that every relationship be undermined by the logic of radical horizontality. At work, let’s break managerial hierarchy with real self-management: decisions by assembly, task rotation, shared income. At home, let’s disintegrate patriarchy with the socialization of care — self-managed daycare centers, community kitchens, repair crews that make no gender distinctions. On the street, let’s contest every square meter with rebel gardens, free libraries, occupation poetry slams. All of this is mutual aid in action, it is the prefiguration of a stateless society that begins to be built now, in the cracks, without waiting for permission from any central committee or the promise of a tomorrow that never comes.

Transforming relationships is the heart of anarchist counterculture, because power sneaks in through the bonds that reproduce submission, sexism, racism, transphobia. Mutual aid, when lived with revolutionary intentionality, unties those knots. Attentive listening in a collective that welcomes a trans person’s speech without interrupting them, a solidarity economy network that prioritizes Black women producers, a poetry slam where the voice of the hood echoes louder than that of the academic — this is not a detail, it’s a program. Friendship as political alliance, free love as anti-authoritarian force, shared pleasure as sabotage of productivism. Each bond remade on this basis is a spark of utopia burning the old order in the most intimate sphere of daily life.

Materializing utopias is not the delusion of those who ignore the harshness of reality; it is the lucid stubbornness of those who know that the future society will not fall ready-made from the sky. It is rehearsed, mistaken, and corrected in occupations of empty buildings, in solidarity kitchens that fight hunger while the state diverts funds, in community banks that subvert predatory finance, in territorial defense brigades against militias and police. Mutual aid is the mortar that unites these pieces of a new world — it is what transforms an abandoned warehouse into a self-managed social center, a forgotten square into a garden of free medicinal herbs, a group of precarious people into a cooperative of resistance. Concrete utopia is made with hands muddied by the present, not with the furrowed brow of those who only recite verses.

Making anarchism alive means declaring war on the dogmatism that mummifies revolt and turns it into a sect. There is no “The” anarchism: there are anarchisms, as many as there are constellations of mutual aid that arm themselves against capitalist sadness. Direct action that fixes a roof without asking permission from city hall, the support network for unhoused people that operates on the margins of the law, the chain of solidarity that forms in minutes during a disaster while the government only sends repression — these are manifestations of that living anarchy, which is not disorder but voluntary and insurgent order. Against the bureaucratic coldness of state-worshipping leftists, the combative tenderness of those who care for their comrades’ wounds while destroying the fences of the world.

Therefore, let every morning be a daily assembly where we decide, in practice, to live as if anarchy were already reality. Don’t ask, do; don’t delegate, organize; don’t wait, reach out your hand. Mutual aid is not a poetic accessory of a manifesto, it is the breath of a collective body learning to walk on its own legs, without boss, without State, without god. Comrades, the revolution is not marked on the calendar — it sprouts in the instant you offer what you know, share what you have, and care for those beside you. Let us be the anarchy that dwells within us: alive, unsubmissive, solidary. No god, no boss, no state: life. And life in abundance, overflowing, woven in the warm threads of mutual aid.

Liberto Herrera

Haikais

Pichação no muro:
a tinta é verbo, o muro
é a página do povo.

*

Quebram-se vitrines.
Nos cacos, refletem-se
rostos antes invisíveis.

*

Ação direta: o faço
é mais verdadeiro que
o prometo vazio.

Liberto Herrera.

Hierarquia não se reforma, se destrói

Toda hierarquia nasce da violência e se alimenta da obediência. Estado e Capital são faces da mesma moeda: um garante a propriedade, o outro a exploração. E nenhum deles jamais cedeu poder por bondade. Concessões vieram de lutas, nunca de mesas de negociação com o algoz. Reformar a hierarquia é como podar os galhos de uma árvore envenenada — a raiz continua intacta, sugando a vida de baixo.

O reformismo é a armadilha mais sofisticada do poder. Dizem que com o voto se muda a polícia, com leis se controla o patrão, com conselhos se humaniza o Estado. Mentira. A polícia continua matando, o patrão continua roubando a mais-valia, e o Estado segue protegendo os dois. Enquanto existir um chefe com poder de demitir, um juiz com poder de prender, um gerente com poder de humilhar, a hierarquia segue funcionando — apenas com verniz de ternura.

Não se conserta uma corrente. Se corta. A história nos ensina que cada migalha de direito foi arrancada às pressas quando o medo mudou de lado. Mas assim que a ameaça passa, a engrenagem volta a moer ossos. Por isso a autonomia não se pede, se exerce. Organização horizontal, decisão coletiva, poder difuso — não são métodos, são a própria antítese da dominação. Sem delegados, sem representantes, sem salvadores.

O anarquismo não negocia com o carcereiro sobre o tamanho da cela. Quer derrubar os muros. E isso significa recusar qualquer tentativa de “aperfeiçoamento” do Estado ou do Capital. Não existe Estado democrático de direito quando a fábrica continua sendo uma ditadura. Não existe capitalismo com rosto humano quando o despejo e a fome são leis de mercado. Reformar a hierarquia é perpetuar o cativeiro com novas algemas de plástico reciclável.

Portanto, a tarefa é clara: desmontar, desobedecer, desfazer. Toda vez que um líder se auto proclama, desconfie. Toda vez que uma instituição pede “paciência e diálogo”, corra. A destruição não é violência — é defesa. E enquanto restar um único cargo de mando, um único orçamento secreto, uma única ordem sem consentimento, a luta segue. Hierarquia não se repara, se extirpa. Portanto, fogo na base e autogestão já!

Liberto Herrera.

RECORDEM, COMPANHEIROS: O ANARQUISMO NÃO SE VOTA, SE CONSTRÓI NAS RUAS!

Mais um ano de 2026 se anuncia, e com ele a velha farsa eleitoral que a cada quatro anos tenta nos convencer de que a mudança vem das urnas. Mas nós, anarquistas, não esquecemos: o Estado é o nosso inimigo. Não importa se vista a camisa vermelha, azul ou verde; não importa o nome do ditador de plantão ou do “representante do povo”. O Estado é a espinha dorsal da opressão, a máquina que monopoliza a violência legal, que prende, explora, mata e decide quem vive e quem morre. Participar do jogo eleitoral é dar legitimidade a essa máquina assassina. É reconhecer que alguns seres humanos têm o direito de comandar os outros. E isso, companheiros, é a própria negação do anarquismo.

Não se deixem enganar pelas promessas de “mudança pela política”. Cada voto depositado na urna é um tijolo que reforça os muros da prisão que nos contém. Quando vocês entram na cabine de votação, estão dizendo ao sistema: “Aceito suas regras, aceito seus mestres, aceito que minha liberdade seja representada por um ladrão de terno”. Lembrem-se: toda eleição é uma cerimônia de legitimação da dominação. Os candidatos não são porta-vozes do povo — são capatazes do capital, da propriedade privada e da ordem estabelecida. E ao votar, vocês se tornam cúmplices dessa farsa, alimentando a ilusão de que a opressão pode ser humanizada. Ela não pode. Ela só pode ser destruída.

Nós não queremos reformar o Estado. Queremos extingui-lo. A história já nos mostrou: anarquistas que se renderam à lógica eleitoral abandonaram a essência da luta. Não existe “voto anarquista”, assim como não existe “cadeia anarquista” ou “exército anarquista”. O que existe é a ação direta, a autogestão, a organização de baixo para cima, sem patrões nem governantes. Quando boicotamos as eleições, estamos dizendo não apenas “não voto”, mas sim “não reconheço sua autoridade”. Cada eleição que ignoramos é um golpe na imagem de que o Estado é necessário. Cada hora que deixamos de gastar em comícios ou propagandas eleitorais é uma hora a mais dedicada à construção de redes de apoio mútuo, ocupações, cooperativas e assembléias populares.

Este ano de 2026, os donos do poder tentarão de novo nos chamar para o teatro. As telas se encherão de promessas, os debates fingirão debate, e os cofres públicos serão saqueados para financiar mentiras. Mas nós, que sabemos que a liberdade não se mendiga nem se vota, vamos responder com desobediência. Vamos recusar a urna como recusamos a algema. Vamos rir dos que nos chamam de “alienados” — alienado é quem entrega sua vontade a um pedaço de papel. A nossa pátria é o mundo, e nosso governo é a solidariedade horizontal entre iguais. Não queremos representantes, queremos ação. Não queremos promessas, queremos práticas libertárias.

Portanto, companheiros, quando setembro de 2026 chegar e os meios de comunicação bradarem sobre a “importância do voto consciente”, mantenham-se firmes. Boicotem as eleições. Façam campanha anti-eleitoral nos bairros, nos sindicatos, nas escolas. Digam em alto e bom som: o anarquismo é antiestatal ou não é nada. E que os candidatos, os juízes eleitorais e os políticos de todas as faixas saibam: nossa luta não é por uma vaga no parlamento. Nossa luta é pela abolição de todo o parlamento, de toda a cadeia de comando, de toda a hierarquia. Enquanto eles contam votos, nós plantaremos árvores, ocuparemos terras, criaremos bibliotecas populares, montaremos hortas comunitárias, organizaremos defesas mútuas. Esse é o caminho. Não atrás de um governante. Mas ao lado dos nossos iguais. Viva a luta antiestatal! Abaixo as eleições! O futuro é autogestionário ou não será.

Liberto Herrera.

Español:

RECUERDEN, COMPAÑEROS: ¡EL ANARQUISMO NO SE VOTA, SE CONSTRUYE EN LAS CALLES!

Otro año 2026 se anuncia, y con él la vieja farsa electoral que cada cuatro años intenta convencernos de que el cambio viene de las urnas. Pero nosotros, anarquistas, no olvidamos: el Estado es nuestro enemigo. No importa si se vista de camisa roja, azul o verde; no importa el nombre del dictador de turno o del “representante del pueblo”. El Estado es la columna vertebral de la opresión, la máquina que monopoliza la violencia legal, que encarcela, explota, mata y decide quién vive y quién muere. Participar en el juego electoral es dar legitimidad a esa máquina asesina. Es reconocer que algunos seres humanos tienen el derecho de mandar sobre otros. Y eso, compañeros, es la propia negación del anarquismo.

No se dejen engañar por las promesas de “cambio a través de la política”. Cada voto depositado en la urna es un ladrillo que refuerza los muros de la prisión que nos contiene. Cuando entran en la cabina de votación, le están diciendo al sistema: “Acepto tus reglas, acepto tus amos, acepto que mi libertad sea representada por un ladrón de traje”. Recuerden: toda elección es una ceremonia de legitimación de la dominación. Los candidatos no son portavoces del pueblo — son capataces del capital, de la propiedad privada y del orden establecido. Y al votar, se vuelven cómplices de esa farsa, alimentando la ilusión de que la opresión puede ser humanizada. No puede. Solo puede ser destruida.

Nosotros no queremos reformar el Estado. Queremos extinguirlo. La historia ya nos ha mostrado: los anarquistas que se rindieron a la lógica electoral abandonaron la esencia de la lucha. No existe el “voto anarquista”, como no existe la “cárcel anarquista” ni el “ejército anarquista”. Lo que existe es la acción directa, la autogestión, la organización de abajo hacia arriba, sin patrones ni gobernantes. Cuando boicoteamos las elecciones, no solo decimos “no voto”, sino “no reconozco tu autoridad”. Cada elección que ignoramos es un golpe a la imagen de que el Estado es necesario. Cada hora que dejamos de gastar en mítines o propaganda electoral es una hora más dedicada a construir redes de apoyo mutuo, ocupaciones, cooperativas y asambleas populares.

Este año 2026, los dueños del poder intentarán nuevamente llamarnos al teatro. Las pantallas se llenarán de promesas, los debates fingirán debate, y las arcas públicas serán saqueadas para financiar mentiras. Pero nosotros, que sabemos que la libertad no se mendiga ni se vota, responderemos con desobediencia. Rechazaremos la urna como rechazamos las esposas. Nos reiremos de quienes nos llaman “alienados” — alienado es quien entrega su voluntad a un pedazo de papel. Nuestra patria es el mundo, y nuestro gobierno es la solidaridad horizontal entre iguales. No queremos representantes, queremos acción. No queremos promesas, queremos prácticas libertarias.

Por lo tanto, compañeros, cuando llegue septiembre de 2026 y los medios de comunicación clamen sobre la “importancia del voto consciente”, manténganse firmes. Boicoteen las elecciones. Hagan campaña antielectoral en los barrios, en los sindicatos, en las escuelas. Digan alto y claro: el anarquismo es antiestatal o no es nada. Y que los candidatos, los jueces electorales y los políticos de toda calaña sepan: nuestra lucha no es por un escaño en el parlamento. Nuestra lucha es por la abolición de todo el parlamento, de toda la cadena de mando, de toda jerarquía. Mientras ellos cuentan votos, nosotros plantaremos árboles, ocuparemos tierras, crearemos bibliotecas populares, montaremos huertas comunitarias, organizaremos defensas mutuas. Ese es el camino. No detrás de un gobernante. Sino al lado de nuestros iguales. ¡Viva la lucha antiestatal! ¡Abajo las elecciones! El futuro es autogestionario o no será.

Liberto Herrera.

English:

REMEMBER, COMRADES: ANARCHISM IS NOT VOTED, IT IS BUILT IN THE STREETS!

Another year 2026 is announced, and with it the old electoral farce that every four years tries to convince us that change comes from the ballot box. But we anarchists have not forgotten: the State is our enemy. It doesn’t matter if it wears a red, blue, or green shirt; it doesn’t matter the name of the current dictator or the “people’s representative.” The State is the backbone of oppression, the machine that monopolizes legal violence, that imprisons, exploits, kills, and decides who lives and who dies. Participating in the electoral game is giving legitimacy to that murderous machine. It is acknowledging that some human beings have the right to rule over others. And that, comrades, is the very negation of anarchism.

Do not be fooled by promises of “change through politics.” Every vote cast in the ballot box is a brick that reinforces the prison walls that contain us. When you enter the voting booth, you are telling the system: “I accept your rules, I accept your masters, I accept that my freedom be represented by a suited thief.” Remember: every election is a ceremony legitimizing domination. Candidates are not spokespeople for the people — they are foremen for capital, private property, and the established order. And by voting, you become complicit in that farce, feeding the illusion that oppression can be humanized. It cannot. It can only be destroyed.

We do not want to reform the State. We want to abolish it. History has already shown us: anarchists who surrendered to electoral logic abandoned the essence of struggle. There is no such thing as an “anarchist vote,” just as there is no “anarchist prison” or “anarchist army.” What exists is direct action, self-management, organization from below, without bosses or rulers. When we boycott elections, we are saying not only “I don’t vote,” but “I do not recognize your authority.” Every election we ignore is a blow to the image that the State is necessary. Every hour we don’t waste on rallies or electoral propaganda is one more hour dedicated to building mutual aid networks, occupations, cooperatives, and popular assemblies.

This year 2026, the powers that be will try once more to summon us to their theater. Screens will fill with promises, debates will feign debate, and public coffers will be looted to finance lies. But we, who know that freedom is neither begged for nor voted for, will respond with disobedience. We will refuse the ballot box just as we refuse the handcuffs. We will laugh at those who call us “alienated” — the alienated one is the one who hands over their will to a piece of paper. Our homeland is the world, and our government is horizontal solidarity among equals. We do not want representatives, we want action. We do not want promises, we want libertarian practices.

Therefore, comrades, when September 2026 arrives and the media cries out about the “importance of conscious voting,” remain steadfast. Boycott the elections. Run anti-electoral campaigns in neighborhoods, unions, and schools. Say it loud and clear: anarchism is anti-state or it is nothing. And let the candidates, electoral judges, and politicians of all stripes know: our struggle is not for a seat in parliament. Our struggle is for the abolition of all parliament, of the entire chain of command, of all hierarchy. While they count votes, we will plant trees, occupy land, create popular libraries, set up community gardens, organize mutual defense. That is the path. Not behind a ruler. But alongside our equals. Long live the anti-state struggle! Down with elections! The future is self-managed or it will not be.

Liberto Herrera.

Sempre haikais II

O decreto impresso
amarela no sol—a rua
escreve com giz novo.

*

Pelos fios do poder,
os pardais tecem ninhos
de desobediência.

*

O canhão enrouquece.
No silêncio, cresce o murmúrio
das assembleias.

Liberto Herrera.

Agir hoje para não obedecer amanhã: a força cotidiana da autonomia

A autonomia não é uma promessa distante, uma miragem que surgirá no horizonte depois da revolução. Ela se faz no suor do agora, no gesto cotidiano de recusar as amarras que nos sufocam. Enquanto muitos se perdem na ilusão de que a transformação social é um evento futuro — uma grande noite em que, finalmente, tomaremos o poder —, nós, anarquistas, sabemos que o amanhã é moldado pelas mãos que ousam construir hoje. A autonomia não é herança que se recebe; é conquista que se tece na desobediência de cada instante. Esperar é consentir. Agir é existir.

A história nos mostra que as mudanças radicais nunca foram decretadas de cima para baixo, mas brotaram das trincheiras da vida real. As fábricas recuperadas, os hortos comunitários, as escolas livres, as redes de apoio mútuo: todas essas sementes de emancipação não aguardaram a permissão de um Estado ou a data marcada por uma vanguarda. Elas surgiram quando pessoas comuns, cansadas da espera, disseram “basta” e estenderam as mãos para construir o novo sob os escombros do velho. É nesse terreno — áspero, imediato, imperfeito — que a autonomia deixa de ser ideia e se torna força viva.

Dizer que agimos “enquanto esperamos” a grande transformação é um contrassenso perigoso. É justamente o contrário: são as práticas autônomas de hoje que forjam a subjetividade rebelde de amanhã. Se nos acostumamos a delegar, a obedecer, a adiar a nossa potência, estaremos apenas reproduzindo dentro do movimento a mesma lógica de dominação que dizemos combater. A autonomia não é um ponto de chegada; é um método. Cada vez que decidimos coletivamente sobre nossas vidas, cada vez que rompemos com a lógica do consumo e da hierarquia, estamos antecipando o mundo que queremos ver. E nessa antecipação, criamos as condições materiais e subjetivas que tornam a revolução não apenas possível, mas inevitável.

Acreditar que a liberdade plena só virá depois de uma “tomada do poder” é cair na armadilha do pensamento autoritário. Para o anarquismo, os meios e os fins são indissociáveis. Se usamos meios autoritários, hierárquicos ou adiamos a liberdade para um futuro incerto, jamais chegaremos a um resultado libertário. Por isso, a construção da autonomia é uma militância de todos os dias. É no presente que forjamos a confiança mútua, a solidariedade concreta e a capacidade de autogestão. É agora que ensaiamos, erramos, aprendemos e fortalacemos os laços que farão frente ao leviatã quando ele tremer.

Não há transformação social sem sujeitos transformados, e esses sujeitos não nascem da noite para o dia. Eles são forjados na prática incessante da autonomia: na vizinha que organiza com as outras a segurança do beco contra a violência policial, no coletivo que ocupa um prédio abandonado e decide em assembleia os rumos da moradia, nos trabalhadores que retomam os meios de produção sem pedir licença ao patrão. Cada ato de recusa e criação é uma célula do novo mundo. E quanto mais células formamos, mais o corpo social adoece de liberdade, até que a estrutura do poder já não tenha onde se sustentar.

Portanto, camaradas, deixemos de lado a ansiedade pelo “grande dia” e concentremos nossa fúria criadora no que podemos fazer com as mãos, agora, neste chão que pisamos. A autonomia não é um prêmio para os que souberem esperar; é uma ferramenta para os que se recusam a esperar. Cada hora vivida em autogestão é uma hora de revolução real. Cada laço horizontal que tecemos é uma derrota para a lógica da dominação. Não construímos autonomia para a revolução: construímos autonomia como a própria revolução em movimento. O amanhã que queremos já começou — e começa agora, na coragem de quem decide ser, hoje, o agente da sua própria vida.

Liberto Herrera.

ESPAÑOL:

Actuar hoy para no obedecer mañana: la fuerza cotidiana de la autonomía

La autonomía no es una promesa lejana, un espejismo que aparecerá en el horizonte después de la revolución. Se forja en el sudor del ahora, en el gesto cotidiano de rechazar las cadenas que nos asfixian. Mientras muchos se pierden en la ilusión de que la transformación social es un evento futuro —una gran noche en la que, finalmente, tomaremos el poder—, nosotros, los anarquistas, sabemos que el mañana se moldea con las manos que se atreven a construir hoy. La autonomía no es herencia que se recibe; es conquista que se teje en la desobediencia de cada instante. Esperar es consentir. Actuar es existir.

La historia nos muestra que los cambios radicales nunca fueron decretados desde arriba, sino que brotaron de las trincheras de la vida real. Las fábricas recuperadas, las huertas comunitarias, las escuelas libres, las redes de apoyo mutuo: todas esas semillas de emancipación no esperaron el permiso de un Estado ni la fecha marcada por una vanguardia. Surgieron cuando personas comunes, hartas de esperar, dijeron “basta” y tendieron las manos para construir lo nuevo sobre los escombros de lo viejo. Es en ese terreno —áspero, inmediato, imperfecto— donde la autonomía deja de ser idea y se convierte en fuerza viva.

Decir que actuamos “mientras esperamos” la gran transformación es un contrasentido peligroso. Es justamente al revés: son las prácticas autónomas de hoy las que forjan la subjetividad rebelde de mañana. Si nos acostumbramos a delegar, a obedecer, a aplazar nuestra potencia, estaremos reproduciendo dentro del movimiento la misma lógica de dominación que decimos combatir. La autonomía no es un punto de llegada; es un método. Cada vez que decidimos colectivamente sobre nuestras vidas, cada vez que rompemos con la lógica del consumo y la jerarquía, estamos anticipando el mundo que queremos ver. Y en esa anticipación, creamos las condiciones materiales y subjetivas que hacen que la revolución no solo sea posible, sino inevitable.

Creer que la libertad plena solo llegará después de una “toma del poder” es caer en la trampa del pensamiento autoritario. Para el anarquismo, los medios y los fines son indisociables. Si usamos medios autoritarios, jerárquicos o aplazamos la libertad para un futuro incierto, jamás alcanzaremos un resultado libertario. Por eso, la construcción de la autonomía es una militancia de cada día. Es en el presente donde forjamos la confianza mutua, la solidaridad concreta y la capacidad de autogestión. Es ahora donde ensayamos, erramos, aprendemos y fortalecemos los lazos que harán frente al Leviatán cuando este tiemble.

No hay transformación social sin sujetos transformados, y esos sujetos no nacen de la noche a la mañana. Se forjan en la práctica incesante de la autonomía: en la vecina que organiza con otras la seguridad del callejón contra la violencia policial, en el colectivo que ocupa un edificio abandonado y decide en asamblea los rumbos de la vivienda, en los trabajadores que retoman los medios de producción sin pedir permiso al patrón. Cada acto de rechazo y creación es una célula del mundo nuevo. Y cuantas más células formamos, más enferma el cuerpo social de libertad, hasta que la estructura del poder ya no tiene dónde sostenerse.

Por tanto, camaradas, dejemos de lado la ansiedad por el “gran día” y concentremos nuestra furia creadora en lo que podemos hacer con las manos, ahora, en este suelo que pisamos. La autonomía no es un premio para quienes saben esperar; es una herramienta para quienes se niegan a esperar. Cada hora vivida en autogestión es una hora de revolución real. Cada lazo horizontal que tejemos es una derrota para la lógica de la dominación. No construimos autonomía para la revolución: construimos autonomía como la propia revolución en movimiento. El mañana que queremos ya comenzó —y comienza ahora, en la valentía de quien decide ser, hoy, el agente de su propia vida.

Liberto Herrera.

ENGLISH:

Act today so as not to obey tomorrow: the everyday force of autonomy

Autonomy is not a distant promise, a mirage that will appear on the horizon after the revolution. It is forged in the sweat of the now, in the everyday gesture of refusing the chains that suffocate us. While many get lost in the illusion that social transformation is a future event—a great night when we will finally seize power—we anarchists know that tomorrow is shaped by the hands that dare to build today. Autonomy is not an inheritance to be received; it is a conquest woven through the disobedience of every moment. To wait is to consent. To act is to exist.

History shows us that radical changes have never been decreed from above; they have sprung from the trenches of real life. Reclaimed factories, community gardens, free schools, mutual aid networks: all these seeds of emancipation did not wait for permission from a state or a date set by a vanguard. They arose when ordinary people, tired of waiting, said “enough” and reached out their hands to build the new upon the ruins of the old. It is on this ground—rough, immediate, imperfect—that autonomy ceases to be an idea and becomes a living force.

To say that we act “while we wait” for the great transformation is a dangerous contradiction. It is precisely the opposite: it is today’s autonomous practices that forge the rebellious subjectivity of tomorrow. If we become accustomed to delegating, obeying, postponing our power, we will be reproducing within the movement the very logic of domination we claim to fight. Autonomy is not a destination; it is a method. Every time we make collective decisions about our lives, every time we break with the logic of consumption and hierarchy, we are anticipating the world we want to see. And in that anticipation, we create the material and subjective conditions that make revolution not only possible, but inevitable.

Believing that full freedom will only come after a “seizure of power” is to fall into the trap of authoritarian thinking. For anarchism, means and ends are inseparable. If we use authoritarian, hierarchical means or postpone freedom for an uncertain future, we will never achieve a libertarian outcome. That is why the construction of autonomy is a day‑to‑day militancy. It is in the present that we forge mutual trust, concrete solidarity, and the capacity for self‑management. It is now that we rehearse, err, learn, and strengthen the bonds that will stand up to Leviathan when it trembles.

There is no social transformation without transformed subjects, and such subjects are not born overnight. They are forged in the relentless practice of autonomy: in the neighbor who organizes with others to secure the alley against police violence, in the collective that occupies an abandoned building and decides by assembly the direction of housing, in the workers who take back the means of production without asking the boss for permission. Every act of refusal and creation is a cell of the new world. And the more cells we form, the more the social body sickens with freedom, until the structure of power has no ground left to stand on.

Therefore, comrades, let us set aside the anxiety for the “great day” and focus our creative fury on what we can do with our hands, now, on this ground we stand on. Autonomy is not a prize for those who know how to wait; it is a tool for those who refuse to wait. Every hour lived in self‑management is an hour of real revolution. Every horizontal bond we weave is a defeat for the logic of domination. We do not build autonomy for the revolution: we build autonomy as the revolution itself in motion. The tomorrow we want has already begun—and it begins now, in the courage of those who decide to be, today, the agents of their own lives.

Liberto Herrera.

Sempre haikais

O Estado é mito
que o vento leva—ficam
nossas mãos nuas, sós.

*

A cerca caída:
o gado bebe no rio
que não tem dono.

*

Sem rei, sem profeta,
a seara balança ao vento—
livre e desgrenhada.

Liberto Herrera.