LIBERDADE CONTRA TODA TIRANIA: AS POSIÇÕES DE EDGAR RODRIGUES DIANTE DO FASCISMO, DO NAZISMO, DO MARXISMO AUTORITÁRIO E DAS FORMAS GERAIS DE DOMINAÇÃO

Resumo: Este artigo analisa as posições antiautoritárias do historiador, arquivista e militante anarquista Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, diante do fascismo, do nazismo, do salazarismo, do franquismo, do bolchevismo e de outras formas de poder concentrado. Mediante revisão bibliográfica e análise qualitativa de obras selecionadas, argumenta-se que sua crítica não se limitou a regimes específicos, mas partiu de um princípio ético e político geral: nenhuma promessa de ordem, grandeza nacional ou emancipação social legitima a supressão da liberdade, a violência estatal, o partido único, o culto ao chefe ou a subordinação dos trabalhadores. A experiência pessoal sob a ditadura portuguesa e a repressão sofrida no Brasil contribuíram para transformar a denúncia do autoritarismo em eixo permanente de sua produção. O artigo distingue as formações históricas do fascismo, do nazismo e dos regimes marxistas-leninistas, evitando equiparações simplificadoras, mas sustenta que Rodrigues identificou corretamente um problema comum: a conversão de pessoas e movimentos em instrumentos de aparelhos hierárquicos. Conclui-se que sua defesa intransigente da liberdade, associada à autogestão, ao federalismo, à solidariedade e ao humanismo, permanece pedra angular para a construção de um mundo novo.

1 INTRODUÇÃO

A liberdade ocupa na obra de Edgar Rodrigues uma posição que não pode ser reduzida a tema entre outros. Ela funciona como critério de julgamento da história, das instituições e dos projetos revolucionários. Governos, partidos, sindicatos, igrejas e movimentos são avaliados segundo sua capacidade de ampliar a autonomia das pessoas ou, ao contrário, de submetê-las a chefes, burocracias e aparelhos coercitivos. Por isso, sua crítica ao fascismo e ao nazismo não aparece isolada de sua oposição ao salazarismo, ao franquismo, ao Estado Novo brasileiro, às ditaduras militares e às experiências políticas inspiradas no bolchevismo.

Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, nasceu em Angeiras, no norte de Portugal, em 12 de março de 1921, e viveu no Brasil desde 1951 até sua morte, no Rio de Janeiro, em 14 de maio de 2009. Filho de militante anarco-sindicalista perseguido pelo regime português, conheceu desde cedo a prisão política, a censura, o sindicalismo corporativo e a vigilância. Já no Brasil, participou de redes libertárias, colaborou com a imprensa anarquista, ajudou a fundar o Centro de Estudos Professor José Oiticica e foi preso durante a ditadura civil-militar (Addor, 2012; Ferreira, 2014a; 2014b).

O problema deste artigo pode ser formulado nos seguintes termos: como Rodrigues articulou sua oposição ao fascismo, ao nazismo, ao marxismo autoritário e ao autoritarismo em geral, e que concepção positiva de liberdade emerge dessa recusa? A hipótese defendida é que sua obra apresenta um antiautoritarismo coerente, construído pela combinação entre experiência biográfica, memória das lutas operárias e adesão ao anarquismo. Essa coerência não significa ausência de tensões. Em determinados momentos, sua linguagem polemiza de maneira ampla com o marxismo e aproxima regimes diferentes sob a categoria moral da ditadura. A análise científica deve reconhecer tal simplificação sem perder de vista a questão central por ele formulada: uma transformação social que destrói a liberdade reproduz, sob novos símbolos, a lógica da dominação.

A perspectiva adotada, obviamente, é simpatizante das ideias libertárias de Rodrigues. Essa posição não implica repetir todas as suas formulações, nem dispensar a distinção entre contextos históricos. Significa considerar seriamente seu princípio de que o fim emancipador não autoriza meios autoritários. Tal princípio questiona tanto a ordem capitalista e nacionalista quanto a pretensão de vanguardas que se atribuem o direito de governar em nome do proletariado. Em uma época marcada pela renovação de extremismos, pela normalização da violência política e pela concentração de decisões, essa crítica conserva força sociológica e ética.

2 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

A pesquisa é bibliográfica e qualitativa. O núcleo documental inclui O retrato da ditadura portuguesa (1962), Violência, autoridade & humanismo (1974), Deus Vermelho (1978), Nacionalismo e cultura social (1972), Novos rumos (1978), Resistência anarco-sindicalista à ditadura em Portugal (1922-1939) (1981), A oposição libertária à ditadura (1939-1974) (1982), Entre ditaduras (1993), Diga não à violência (1995) e Lembranças incompletas (2007). Essas obras permitem acompanhar a passagem da denúncia imediata das ditaduras para uma reflexão mais ampla sobre autoridade, Estado, partido e violência.

Como bibliografia crítica, destacam-se a tese de Carlos Augusto Addor (2012), que reconstrói a relação entre memória, história e anarquismo na produção de Rodrigues, e os estudos de José Maria Carvalho Ferreira (2014a; 2014b), que analisam sua trajetória entre Portugal e Brasil. Também são utilizados o levantamento bibliográfico publicado pela revista Verve (2009) e o texto de Adelaide Gonçalves e Allyson Bruno (2002), importantes para dimensionar o caráter militante, documental e humanista da obra.

Também se adota uma precaução terminológica. Fascismo, nazismo e marxismo não designam fenômenos equivalentes. O fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão foram movimentos e regimes ultranacionalistas, hierárquicos, militaristas e antidemocráticos; o nazismo acrescentou uma política racial genocida como fundamento do Estado. O marxismo, por sua vez, constitui uma tradição intelectual e política heterogênea, que inclui correntes democráticas, revolucionárias, críticas e autoritárias. Quando Rodrigues identifica marxismo e bolchevismo ou utiliza a expressão fascismo vermelho, sua formulação deve ser entendida como posição anarquista contra o partido-Estado e não como demonstração de identidade histórica entre todos esses fenômenos.

Essa ressalva não elimina a pertinência de sua comparação moral. Rodrigues perguntava menos se as ideologias possuíam a mesma genealogia e mais se os regimes concretos concentravam poder, eliminavam dissidências, controlavam sindicatos, perseguiam opositores e convertiam a população em objeto de administração. O conceito unificador é, portanto, o autoritarismo: uma relação social na qual poucos decidem, muitos obedecem e a coerção substitui a participação. É nesse nível que sua crítica pode ser reconstruída com maior consistência.

3 EXPERIÊNCIA DA DITADURA E FORMAÇÃO ANTIAUTORITÁRIA

O antiautoritarismo de Rodrigues não nasceu apenas da leitura de clássicos libertários. Sua formação ocorreu no interior de uma família trabalhadora atingida pela ditadura portuguesa instaurada após o golpe de 1926 e consolidada pelo Estado Novo de Salazar. A prisão do pai, a perseguição aos sindicatos livres e a destruição da imprensa operária tornaram o poder estatal uma presença cotidiana. Addor (2012) mostra que essas experiências alimentaram no jovem Antônio Francisco Correia uma desconfiança duradoura em relação a qualquer autoridade e uma aspiração igualmente duradoura por justiça e liberdade.

O regime salazarista reorganizou o mundo do trabalho segundo princípios corporativos. Sindicatos autônomos foram fechados ou obrigados a integrar estruturas reconhecidas pelo Estado; dirigentes foram presos, deportados ou submetidos à clandestinidade; a PIDE transformou a vigilância em método permanente. Para Rodrigues, a violência da ditadura não se limitava à ação policial. Ela alcançava a fome, o medo, o silêncio, a escola, a imprensa e as possibilidades de associação. O autoritarismo era um sistema de vida, não apenas um conjunto de leis de exceção.

Essa compreensão aparece em seus primeiros livros, definidos por ele como livros de combate. Na Inquisição de Salazar, A fome em Portugal, O retrato da ditadura portuguesa e Portugal Hoy buscavam informar leitores estrangeiros, apoiar perseguidos e romper o isolamento imposto pelo regime. Em O retrato da ditadura portuguesa, Rodrigues descreveu a ditadura como um mal coletivo, organizado em toda a estrutura do governo, e registrou prisões, espancamentos, assassinatos, colonialismo e atuação da polícia política (Rodrigues, 1962; Addor, 2012).

A emigração para o Brasil confirmou que o autoritarismo não pertencia a um único país. Rodrigues encontrou uma sociedade marcada pela herança escravista, por desigualdades profundas e pela memória do Estado Novo varguista. Em 1969, o Centro de Estudos Professor José Oiticica foi fechado, materiais foram apreendidos e militantes, entre eles Rodrigues, foram presos e processados. A continuidade entre salazarismo e repressão brasileira reforçou sua percepção de que Estados de diferentes discursos recorrem a procedimentos semelhantes quando temem a organização autônoma.

4 FASCISMO E SALAZARISMO: O PODER ORGANIZADO PARA A DOMINAÇÃO

A crítica de Rodrigues ao fascismo parte da recusa do nacionalismo, do corporativismo e do culto à autoridade. O fascismo promete superar conflitos sociais mediante a unidade da nação, mas essa unidade é produzida pela supressão das organizações independentes e pela subordinação dos trabalhadores ao Estado. Sindicatos deixam de ser instrumentos de luta e tornam-se órgãos de disciplina; a desigualdade de classes é preservada, enquanto a propaganda proclama harmonia entre patrões e empregados. Para um anarcossindicalista, esse arranjo representa a negação completa da autonomia operária.

O salazarismo ofereceu a Rodrigues a experiência mais próxima desse mecanismo. A legislação corporativa portuguesa destruiu a Confederação Geral do Trabalho e substituiu o sindicalismo livre por sindicatos nacionais. Em sua reconstrução histórica, a polícia, a censura e a administração econômica formavam uma mesma arquitetura. O regime pretendia ordenar a sociedade de cima para baixo, atribuindo a cada grupo uma função e retirando das pessoas o direito de contestar a ordem. A paz fascista era, assim, a imobilidade garantida pela força.

Essa posição explica sua atenção à Revolução Espanhola e à resistência de anarquistas portugueses. A experiência espanhola demonstrava, em sua leitura, que trabalhadores eram capazes de organizar coletividades, serviços e milícias sem depender de uma autoridade central absoluta. A derrota diante do franquismo, apoiado pelo fascismo italiano e pelo nazismo alemão, foi interpretada como tragédia internacional, agravada pelos conflitos e pela repressão no próprio campo republicano. A liberdade não era um luxo a ser adiado até depois da guerra, mas o conteúdo social da luta contra Franco.

5 NAZISMO, RACISMO, GUERRA E DESTRUIÇÃO DA PESSOA

Rodrigues criticou o nazismo como forma extrema de tirania, militarismo e desumanização. Embora sua produção tenha dedicado mais espaço ao salazarismo e ao franquismo, a Alemanha nazista aparece como parte do conjunto de experiências totalitárias combatidas pelos libertários. O culto a Hitler, a mobilização integral da sociedade, a perseguição aos opositores e a transformação da guerra em destino nacional condensavam tudo o que o anarquismo recusava: obediência, hierarquia, disciplina compulsória e sacrifício do indivíduo ao Estado.

O elemento racial torna o nazismo particularmente radical. A pessoa deixa de valer por sua humanidade e passa a ser classificada por origem, sangue e utilidade para a comunidade nacional. Judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, eslavos e opositores políticos foram submetidos a exclusão, deportação, trabalho forçado e extermínio. Mesmo quando Rodrigues não desenvolve uma teoria sistemática do racismo, seu princípio igualitário – sintetizado pela ideia de que um homem vale um homem – contradiz frontalmente qualquer hierarquia racial ou biológica (Addor, 2012).

A crítica libertária ao nazismo também é antimilitarista. A guerra exige centralização, segredo, comando e disponibilidade dos corpos para fins definidos por governos. O soldado ideal é aquele que obedece; o cidadão ideal do regime totalitário é aquele que transforma ordens em convicções. Rodrigues valorizava campanhas contra o serviço militar obrigatório e registrava a tradição internacionalista dos trabalhadores, para os quais não fazia sentido matar pessoas de outros países em benefício de Estados, indústrias e projetos imperiais.

Nazismo e fascismo mostram, ainda, como cultura e propaganda podem ser subordinadas à autoridade. Escolas, rádios, jornais, cerimônias e organizações juvenis são mobilizados para produzir conformidade. Em resposta, Rodrigues atribuía grande importância à educação libertária, ao teatro social, à imprensa operária e às bibliotecas. A luta cultural não era acessória: constituía um processo de descondicionamento, capaz de formar sujeitos que questionassem a ordem e não confundissem repetição coletiva com verdade.

6 MARXISMO, BOLCHEVISMO E A CRÍTICA À DITADURA DO PARTIDO

A crítica de Rodrigues ao marxismo deve ser situada na longa controvérsia entre socialismo libertário e socialismo autoritário. Desde a Primeira Internacional, anarquistas contestaram a conquista do Estado, o centralismo partidário e a ideia de uma transição dirigida por uma vanguarda. Rodrigues herdou essa tradição e a releu a partir da Revolução Russa, da formação dos partidos comunistas e das experiências soviética e cubana. Seu alvo principal era o marxismo transformado em doutrina de Estado, identificado por ele com bolchevismo, partido único e ditadura sobre os trabalhadores.

Em Nacionalismo e cultura social, Rodrigues reproduziu documentos anarquistas brasileiros que saudavam a derrubada do czarismo, mas recusavam a consolidação do poder bolchevique. A crítica afirmava que não se poderia opor à ditadura do capitalismo a ditadura de outra classe, nem aceitar que um partido falasse em nome de todo o proletariado. A solidariedade com o impulso revolucionário coexistia, portanto, com a denúncia da repressão às tendências federalistas e libertárias (Rodrigues, 1972; Addor, 2012).

Esse ponto é decisivo para compreender sua posição. Rodrigues não rejeitava a igualdade social, a propriedade comum ou a superação do capitalismo. Seu anarquismo também se apresentava como socialismo e, em muitas formulações, como comunismo libertário. O conflito dizia respeito aos meios e à forma política: enquanto o bolchevismo defendia centralização, disciplina partidária e manutenção de um Estado revolucionário, o anarquismo propunha federação, ação direta, autogestão e dissolução das estruturas de mando.

Em Deus Vermelho, Rodrigues aprofundou a denúncia do stalinismo e da sacralização do partido. O título sugere que uma autoridade secular pode ocupar a posição antes atribuída à divindade: torna-se infalível, exige devoção e pune heresias. A revolução, convertida em religião política, passa a justificar expurgos, censura, campos de trabalho e submissão da verdade aos interesses do aparelho. A expressão fascismo vermelho, utilizada em sua polêmica, procura destacar esse encontro entre culto ao chefe, polícia política e concentração absoluta de poder (Rodrigues, 1978; Addor, 2012).

Do ponto de vista historiográfico, a analogia requer cautela. O nazismo baseou-se em ultranacionalismo racial, expansão imperial e genocídio; a experiência soviética derivou de uma revolução social, de outra estrutura econômica e de outra linguagem de legitimidade. Confundi-las integralmente apaga diferenças fundamentais. No entanto, a advertência de Rodrigues permanece relevante quando lida como crítica à forma autoritária: partidos que monopolizam a política, Estados que proíbem dissenso e burocracias que administram trabalhadores em seu próprio nome traem a emancipação que proclamam.

7 AUTORITARISMOS DE DIREITA E DE ESQUERDA: CONTINUIDADES E DIFERENÇAS

Rodrigues insistia que nenhuma ditadura, de direita ou autoproclamada de esquerda, possuía legitimidade. Essa recusa universal distinguia seu antifascismo de posições que condenavam a repressão apenas quando praticada pelo campo adversário. Salazar, Franco, Hitler, Mussolini, Vargas, os governos militares, Stalin e outros dirigentes eram julgados pelo modo como concentravam decisões e perseguiam dissidentes. A cor da bandeira não absolvia a cadeia, a censura ou a polícia política.

Há nessa posição uma ética da coerência. Se a liberdade é valor humano e não privilégio de um grupo, ela deve alcançar adversários, minorias e dissidentes. O revolucionário que aceita a tortura ou o silêncio forçado quando aplicados aos inimigos prepara mecanismos que mais tarde poderão ser dirigidos contra os próprios trabalhadores. Rodrigues percebia que instituições autoritárias desenvolvem interesses próprios: polícias, burocracias e partidos tendem a conservar poder, independentemente das promessas que justificaram sua criação.

Contudo, uma análise rigorosa não deve converter essa convergência funcional em identidade total. Regimes diferem quanto a base social, projeto econômico, ideologia, escala da violência e relação com propriedade, raça e imperialismo. Reconhecer diferenças não relativiza crimes nem enfraquece a defesa da liberdade. Ao contrário, permite compreender os mecanismos específicos pelos quais cada autoritarismo se estabelece e evita que a palavra fascismo se torne rótulo genérico para toda prática condenável.

O autoritarismo geral inclui ainda relações que não assumem forma de ditadura estatal. Patriarcado, clericalismo, racismo, exploração econômica, chefia incontestável e educação baseada no medo reproduzem hábitos de submissão. Em Violência, autoridade & humanismo, o próprio título reúne os polos de seu pensamento: violência e autoridade degradam a pessoa; o humanismo afirma sua capacidade de cooperação e desenvolvimento. A sociedade livre exige transformar instituições e, simultaneamente, modos cotidianos de relação (Rodrigues, 1974; Ferreira, 2014b).

8 LIBERDADE, NÃO VIOLÊNCIA E AUTOGESTÃO COMO ALTERNATIVAS

A crítica de Rodrigues não desemboca em individualismo indiferente às desigualdades. Sua liberdade é social. Pessoas só podem desenvolver autonomia quando dispõem de meios de vida, conhecimento, tempo, segurança e participação nas decisões que as afetam. Por isso, a luta contra o Estado autoritário associa-se à luta contra capitalismo, latifúndio, exploração e privilégios. Liberdade sem igualdade material torna-se poder dos proprietários; igualdade sem liberdade converte-se em administração de pessoas por uma burocracia.

A alternativa aparece na autogestão. Trabalhadores organizados diretamente poderiam administrar produção, distribuição, sindicatos, escolas e comunidades por meio de acordos federativos. A federação articula unidades autônomas sem criar um centro soberano: decisões sobem a partir da base, delegados recebem mandatos limitados e funções podem ser revogadas. Não se trata de ausência de organização, mas de organização sem separação permanente entre dirigentes e dirigidos.

Sua defesa da não violência merece destaque. Em Diga não à violência, Rodrigues afirma a necessidade de recusar todos os tipos de violência. Ele reconhece a diferença entre agressão imposta de cima e reação dos oprimidos, mas privilegia a transformação cultural, a persuasão e a organização. A não violência não significa passividade diante da tirania. Significa rejeitar a fascinação pela força e impedir que métodos de guerra colonizem o projeto emancipador (Rodrigues, 1995; Addor, 2012).

O humanismo libertário fornece unidade a essa proposta. O princípio de que cada pessoa possui igual valor impede sacrificar indivíduos a abstrações como pátria, raça, partido, Estado ou progresso. Também impede tratar trabalhadores como massa a ser conduzida. Solidariedade não é caridade vertical, mas reconhecimento de interdependência entre iguais. A liberdade de um não termina onde começa a liberdade do outro; ela cresce quando as condições de autonomia são compartilhadas.

Essa concepção esclarece a expressão defesa intransigente da liberdade. A intransigência não significa incapacidade de diálogo nem pureza sectária. Significa estabelecer um limite que nenhum acordo pode ultrapassar: não aceitar tortura, censura, culto ao chefe, discriminação racial, partido único, sindicalismo compulsório ou governo irresponsável diante dos governados. Estratégias podem mudar; a dignidade humana não pode ser negociada.

9 ATUALIDADE E LIMITES DA CRÍTICA DE EDGAR RODRIGUES

A obra de Rodrigues permanece atual porque o autoritarismo raramente retorna com a mesma aparência. Pode apresentar-se como defesa da segurança, recuperação moral, eficiência administrativa, proteção da revolução ou combate a inimigos internos. Em todos os casos, pede-se que a sociedade entregue poder a especialistas, militares, líderes carismáticos ou partidos disciplinados. A pergunta anarquista continua necessária: que controles existem sobre quem decide e que espaços permanecem para organização autônoma?

A crítica ao partido-Estado também dialoga com organizações progressistas. Movimentos emancipatórios podem reproduzir centralismo, silenciamento e personalismo mesmo fora do governo. A memória das experiências bolcheviques, tal como reconstruída por Rodrigues, adverte que a burocratização começa quando a base perde capacidade de decidir e a direção passa a confundir sua permanência com a sobrevivência da causa. Democracia interna não é obstáculo à transformação; é parte de seu conteúdo.

Há, entretanto, limites que precisam ser reconhecidos. Rodrigues emprega por vezes categorias amplas, apresenta o marxismo como bloco relativamente homogêneo e utiliza analogias que aproximam excessivamente regimes distintos. Sua linguagem de combate pode reduzir a complexidade de conflitos internos às esquerdas. Estudos posteriores devem confrontar seus juízos com outras fontes, distinguir marxismos, como por exemplo os conselhistas e antiestalinistas, e aprofundar dimensões como raça, gênero e colonialidade.

Esses limites não anulam sua contribuição. A força de Rodrigues está menos em oferecer uma teoria completa dos totalitarismos e mais em preservar uma posição ética submetida a repetidos testes históricos. Ele recusou a ditadura que perseguiu sua família, a ditadura que o prendeu no Brasil e as ditaduras que se apresentavam como realização do socialismo. Essa continuidade confere credibilidade a sua defesa da liberdade: ela não variava conforme o governante estivesse ou não próximo de seu campo político.

Por fim, sua atualidade reside na associação entre crítica e construção. Denunciar autoritarismos é insuficiente sem criar práticas alternativas: assembleias reais, mandatos revogáveis, transparência, educação crítica, cooperativas, sindicatos independentes, imprensa livre e redes de apoio mútuo. A liberdade sobrevive quando deixa de ser palavra cerimonial e se converte em hábito institucional e Rodrigues oferece materiais históricos para imaginar esse aprendizado coletivo.

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As posições de Edgar Rodrigues contra o fascismo, o nazismo, o marxismo autoritário e as formas gerais de dominação compõem um mesmo projeto anarquista. Sua crítica nasce da experiência sob o salazarismo, amadurece na militância anarquista e é confirmada pela repressão da ditadura brasileira. Ao longo de décadas, ele registrou prisões, censuras, sindicatos destruídos, exílios e resistências, recusando que a violência de Estado fosse legitimada por nacionalismo, religião, segurança ou revolução.

Diante do fascismo, Rodrigues denunciou a unidade nacional imposta, o corporativismo, o culto ao chefe e a destruição da autonomia operária. Diante do nazismo, seu igualitarismo radical opôs-se à hierarquia racial, ao militarismo e à transformação da pessoa em material do Estado. Diante do bolchevismo e do marxismo de Estado, recusou o partido único, a ditadura denominada proletária e a substituição da iniciativa dos trabalhadores por uma burocracia que governava em seu nome.

A análise mostrou que essas críticas não autorizam apagar diferenças históricas. Fascismo, nazismo e experiências marxistas-leninistas possuem origens, projetos e violências específicas. A expressão fascismo vermelho deve ser entendida como linguagem militante sobre a forma ditatorial, não como conceito capaz de esgotar tais diferenças. Ainda assim, a comparação de Rodrigues preserva uma verdade essencial: discursos opostos podem convergir quando concentram poder, silenciam dissidências e transformam seres humanos em instrumentos de um aparelho.

Sua contribuição mais profunda é a afirmação de que os meios já contêm relações do mundo futuro. Não se constrói liberdade mediante obediência, igualdade mediante privilégio burocrático, solidariedade mediante terror ou autonomia mediante tutela. Uma revolução que suspende indefinidamente a participação prepara uma sociedade de comandantes e comandados. Por isso, a autogestão, a ação direta, o federalismo, a educação libertária e o apoio mútuo não são complementos posteriores; são formas presentes de aprender a viver sem dominação.

A simpatia assumida neste artigo fundamenta-se nessa coerência. Rodrigues podia ser duro, polemista e por vezes excessivamente abrangente em suas classificações, mas não concedeu licença moral às tiranias do próprio campo. Sua liberdade não dependia da cor da bandeira. O preso político, o trabalhador submetido, o exilado, a minoria perseguida e o dissidente possuíam dignidade anterior às razões de Estado. Essa fidelidade ao ser humano é um legado intelectual e político de grande importância.

Defender intransigentemente a liberdade não significa ignorar exploração, desigualdade ou violência estrutural. Significa afirmar que sua superação só merece o nome de emancipação quando amplia a capacidade comum de decidir. A liberdade libertária é inseparável de igualdade material e responsabilidade coletiva; não é direito do mais forte, mas condição compartilhada para que ninguém seja governado como objeto. Ela exige instituições abertas, poderes limitados e participação permanente.

Em consequência, a defesa intransigente da liberdade deve ser reconhecida como pedra angular para a construção de um mundo novo. Sem ela, o novo reduz-se a troca de administradores, símbolos e justificativas, conservando a velha separação entre quem manda e quem obedece. Com ela, a transformação pode orientar-se para uma sociedade em que trabalhadores e comunidades governem diretamente sua vida, diferenças não se convertam em hierarquias e nenhuma ideia seja colocada acima da dignidade humana.

Liberto Herrera.

REFERÊNCIAS

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MEMÓRIA CONTRA O APAGAMENTO: A IMPORTÂNCIA DA OBRA DE EDGAR RODRIGUES PARA A HISTÓRIA DAS LUTAS DOS TRABALHADORES E DOS LIBERTÁRIOS

Resumo: Este artigo analisa a importância da obra do historiador, arquivista e militante libertário Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, para a preservação da história das lutas dos trabalhadores e das tradições anarquistas no Brasil e em Portugal. Parte-se de uma perspectiva de história social comprometida com a recuperação das experiências de sujeitos subalternizados e com a crítica dos mecanismos de apagamento produzidos pelo Estado, pelas classes dominantes e pelas narrativas historiográficas centradas em instituições oficiais. Mediante revisão bibliográfica e análise qualitativa de obras selecionadas de Rodrigues, argumenta-se que sua contribuição ultrapassa a função de fonte auxiliar: ela constitui uma intervenção política e memorial que nomeia militantes, recupera periódicos, transcreve documentos e restitui densidade humana a movimentos frequentemente reduzidos a episódios marginais. Embora sua produção autodidata apresente limites de sistematização teórica e de explicitação metodológica, tais limites não anulam seu caráter pioneiro, seu valor documental nem a coerência ética de um projeto orientado pela solidariedade, pela liberdade e pela emancipação social. Conclui-se que preservar, digitalizar, catalogar e estudar criticamente o legado de Edgar Rodrigues é tarefa indispensável para uma história plural do trabalho e dos libertários.

1 INTRODUÇÃO

A história das classes trabalhadoras não se conserva por inércia. Ela depende de pessoas, coletivos e instituições capazes de recolher vestígios frágeis: jornais de curta duração, atas sindicais, cartas, fotografias, panfletos, memórias, prontuários policiais e relatos orais. Em contextos de repressão, esses materiais são destruídos deliberadamente; em períodos de normalidade institucional, podem desaparecer por descaso, falta de recursos ou desvalorização acadêmica. A obra de Edgar Rodrigues deve ser compreendida nesse campo de disputa pela sobrevivência do passado.

Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, nasceu em Angeiras, no norte de Portugal, em 12 de março de 1921, e morreu no Rio de Janeiro em 14 de maio de 2009. Filho de trabalhador ligado ao anarco-sindicalismo, viveu desde cedo os efeitos sociais da perseguição política salazarista. Em 1951, emigrou para o Brasil, onde se integrou a redes libertárias, colaborou com a imprensa anarquista, participou de centros de estudos e desenvolveu, ao longo de mais de cinco décadas, uma produção que reuniu dezenas de livros e aproximadamente mil e oitocentos artigos (Addor, 2012; Ferreira, 2014a).

O problema central deste artigo pode ser formulado da seguinte maneira: em que sentido a obra de Edgar Rodrigues contribuiu não apenas para o conhecimento, mas para a própria preservação da história das lutas dos trabalhadores e dos anarquistas? A hipótese defendida é que Rodrigues realizou uma forma de história militante que reuniu três funções inseparáveis. Primeiro, atuou como coletor e guardião de documentos ameaçados de desaparecimento. Segundo, organizou narrativas de longa duração sobre sindicalismo, imprensa operária, repressão e experiências anarquistas. Terceiro, devolveu nomes e trajetórias a homens e mulheres que a historiografia oficial frequentemente tratava como massa indiferenciada.

A abordagem adotada é solidária ao horizonte humanista e libertário do autor. Essa escolha não implica abandonar a crítica, mas explicitar o lugar interpretativo do trabalho. A pretensão de neutralidade absoluta é especialmente problemática quando o objeto é uma tradição política submetida a perseguições, silenciamentos e caricaturas. Tomar a sério os valores de liberdade, igualdade, apoio mútuo, autogestão e emancipação que atravessam a obra de Rodrigues permite compreender por que a pesquisa histórica, para ele, não era um exercício de carreira, e sim uma responsabilidade ética perante gerações derrotadas e futuras.

Tal perspectiva aproxima-se da “história vista de baixo”, interessada na experiência das classes trabalhadoras e na sua capacidade de produzir cultura, organização e consciência histórica. Thompson (1987) mostrou que classe não é uma categoria estática, mas uma relação construída por experiências comuns, conflitos e formas de ação. Rodrigues, mesmo sem empregar esse vocabulário teórico de maneira sistemática, reuniu materiais que permitem observar precisamente esse processo: trabalhadores criando sindicatos, jornais, escolas, bibliotecas, grupos de teatro, congressos e redes internacionais.

Também é produtivo relacionar seu trabalho à discussão sobre memória social. Pollak (1989) ressaltou que memórias subterrâneas persistem em oposição às versões oficiais, aguardando condições para emergir. Benjamin (2012), por sua vez, advertiu que a história dominante tende a celebrar os vencedores e a converter derrotas em esquecimento. A escrita de Rodrigues pode ser lida como recusa dessa continuidade triunfal: ela busca recolher fragmentos de experiências vencidas sem tratá-las como inúteis, fracassadas ou ultrapassadas.

2 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

O artigo baseia-se em pesquisa bibliográfica e análise qualitativa de um conjunto representativo da produção de Edgar Rodrigues e de estudos dedicados à sua trajetória. Entre as obras do autor, destacam-se Socialismo e sindicalismo no Brasil (1969), Nacionalismo e cultura social (1972), Pequena história da imprensa social no Brasil (1997), a coleção Os companheiros (1998) e Lembranças incompletas (2007). Esses títulos permitem examinar diferentes dimensões de seu projeto: sínteses cronológicas, inventários documentais, biografias militantes, história da imprensa e memória autobiográfica.

Como bibliografia crítica, são centrais a tese de Carlos Augusto Addor (2012), os artigos de José Maria Carvalho Ferreira (2014a; 2014b), o estudo de Anna Gicelle Garcia Alaniz (2009) e a apreciação de Adelaide Maria Gonçalves Pereira e Allyson Bruno (2002). Tais trabalhos convergem ao reconhecer a amplitude da coleta documental, o compromisso social e a função memorial da escrita de Rodrigues, ainda que assinalem tensões entre sua linguagem militante e os protocolos acadêmicos de pesquisa.

O caráter engajado de Rodrigues exige um cuidado metodológico específico. Não se deve avaliar sua obra apenas pelo grau de adequação a padrões universitários consolidados posteriormente. A comparação anacrônica obscureceria as condições materiais de produção: pesquisa realizada nas horas livres, financiamento próprio, circulação em pequenas editoras, acesso precário a arquivos públicos e dependência de redes pessoais de antigos militantes. Ao mesmo tempo, uma leitura simpatizante não pode transformar toda afirmação em prova suficiente. É necessário confrontar datas, identificar repetições, distinguir testemunho de documentação e reconhecer interpretações marcadas por disputas internas do campo libertário.

3 ENTRE DUAS PÁTRIAS: EXPERIÊNCIA SOCIAL E FORMAÇÃO LIBERTÁRIA

A formação de Antônio Francisco Correia ocorreu sob a ditadura do Estado Novo português. A prisão de seu pai, militante anarco-sindicalista da construção civil, atingiu diretamente a economia e a vida cotidiana da família. O jovem trabalhador conheceu, portanto, a repressão não como abstração jurídica, mas como desemprego, medo, vigilância e carestia. Essa experiência ajuda a explicar a continuidade, em sua obra, entre denúncia política, solidariedade com perseguidos e pesquisa histórica (Ferreira, 2014a).

Impedido de seguir uma trajetória escolar convencional, Rodrigues construiu sua formação pela leitura, pela convivência com militantes, pelo teatro amador e pela cultura associativa. O autodidatismo, nesse caso, não significa isolamento individual. Tratou-se de aprendizagem coletiva em circuitos populares de educação: bibliotecas, jornais, reuniões, correspondências e grupos dramáticos. O conhecimento aparecia como bem comum e instrumento de autonomia, não como capital simbólico reservado a especialistas.

A emigração para o Brasil, em 1951, ampliou esse circuito. No Rio de Janeiro, Rodrigues aproximou-se de José Oiticica, Ideal Peres, Afonso Vieira, Roberto das Neves, Edgard Leuenroth e outros integrantes de redes anarquistas luso-brasileiras. Passou a colaborar com o jornal Ação Direta e adotou o pseudônimo pelo qual se tornaria conhecido. Sua inserção não foi a de um observador externo: ele participou de iniciativas culturais, editoriais e organizativas que mais tarde seriam objeto de sua própria narrativa.

Essa dupla condição — militante e pesquisador — é fundamental. Rodrigues escrevia sobre comunidades das quais fazia parte e sobre pessoas com quem mantinha relações de amizade, solidariedade ou conflito. A proximidade produzia riscos evidentes de parcialidade, mas também oferecia acesso raro a testemunhos, acervos domésticos e detalhes biográficos. Em vez de fingir distância absoluta, sua obra assume uma ética de lealdade às experiências libertárias, procurando transmitir o que poderia desaparecer com a morte dos protagonistas.

4 A ESCRITA DA HISTÓRIA COMO MILITÂNCIA

Para Edgar Rodrigues, pesquisar e publicar eram formas de ação política. A militância não aparecia apenas nos juízos normativos favoráveis ao anarquismo, mas na própria escolha do que deveria ser lembrado. Recolher um jornal operário, copiar uma ata, registrar o nome de uma tipógrafa ou entrevistar um antigo sindicalista eram atos contra o apagamento. Pereira e Bruno (2002) sintetizam essa preocupação ao mostrar que sua prioridade era impedir a perda de documentos e divulgar uma história ocultada ou deformada do movimento social.

Essa concepção difere da ideia de arquivo como lugar passivo. Rodrigues buscava materiais, convencia famílias a preservá-los, trocava correspondência, produzia cópias e fazia circular informações. Em 1986, participou da criação do Círculo Alfa de Estudos Históricos, concebido como espaço para reunir, organizar e difundir documentos libertários. O projeto expressava consciência aguda de que acervos privados e periódicos militantes podiam desaparecer por repressão, incêndio, umidade, disputas internas ou simples abandono (Ferreira, 2014b).

A publicação era extensão do arquivo. Em seus livros, longas transcrições de manifestos, estatutos, resoluções de congressos, notícias de jornais e listas de militantes ocupam espaço considerável. Do ponto de vista de uma escrita acadêmica mais sintética, isso pode parecer excesso documental. Contudo, em condições de acesso restrito, reproduzir fontes era uma estratégia de preservação e democratização. Muitas pessoas conheceram documentos raros não por consulta ao original, mas porque Rodrigues os incorporou a seus volumes.

5 A LUTA DOS TRABALHADORES RESTITUÍDA À HISTÓRIA

A contribuição mais evidente de Rodrigues está na reconstrução da ação coletiva dos trabalhadores. Socialismo e sindicalismo no Brasil (1969), Nacionalismo e cultura social (1972), Novos rumos e Alvorada operária compõem um amplo painel sobre associações, congressos, greves, correntes ideológicas e formas de repressão. Esses livros foram produzidos quando a história operária ainda ocupava posição secundária em grande parte da historiografia brasileira e quando o anarquismo era frequentemente descrito como doutrina estrangeira, desorganizada ou politicamente irrelevante.

Rodrigues contestou essa marginalização ao demonstrar a presença ativa de libertários na formação de sindicatos, federações, escolas, jornais e campanhas contra a carestia. Sua narrativa enfatiza que os trabalhadores não foram receptores passivos de leis estatais ou lideranças partidárias. Eles criaram instituições próprias, experimentaram formas de ação direta e formularam projetos de transformação social. O associativismo aparece como espaço de aprendizagem democrática, solidariedade e produção cultural.

Esse deslocamento é decisivo para a história social. Quando a trajetória do trabalho é narrada exclusivamente a partir da legislação, dos ministérios ou dos partidos, a autonomia operária tende a desaparecer. Rodrigues recoloca no centro assembleias, comissões de fábrica, boicotes, greves, conferências e redes de apoio. Mesmo suas discordâncias com comunistas, trabalhistas e sindicalistas vinculados ao Estado revelam um problema histórico relevante: a disputa entre formas autônomas e burocratizadas de representação dos trabalhadores.

Outro mérito é a atenção à pluralidade de práticas. A luta não se restringe à greve econômica. Inclui educação racionalista, anticlericalismo, teatro, poesia, imprensa, campanhas antimilitaristas, apoio a presos, defesa de exilados e sociabilidade cotidiana. Em Pequena história da imprensa social no Brasil (1997), jornais e revistas são tratados como instrumentos de formação intelectual e ligação entre grupos dispersos. A cultura operária torna-se parte constitutiva da política, e não ornamento.

Essa ampliação do conceito de luta permite compreender a persistência libertária em períodos de refluxo sindical. Quando grandes organizações foram destruídas ou incorporadas pelo Estado, pequenos jornais, centros de cultura, editoras e círculos de estudo mantiveram ideias e vínculos. Rodrigues documentou essas continuidades, sobretudo após o Estado Novo e durante a ditadura civil-militar. Assim, recusou a tese de que o anarquismo brasileiro teria simplesmente desaparecido nos anos 1930.

6 BIOGRAFIAS, NOMES E MEMÓRIA LIBERTÁRIA

A coleção Os companheiros representa uma das expressões mais fortes do compromisso de Rodrigues com a memória individual e coletiva. Em cinco volumes, reuniu informações sobre militantes conhecidos e anônimos, recuperando trajetórias que dificilmente encontrariam lugar em dicionários oficiais. O gesto tem significado político: recusar que o trabalhador apareça apenas como número, multidão ou categoria abstrata.

Nomear é produzir reconhecimento. Ao registrar ofício, origem, vínculos familiares, participação em jornais, prisões, expulsões e iniciativas culturais, Rodrigues restitui singularidade aos sujeitos. Essa operação aproxima sua obra de uma prosopografia popular, ainda que não organizada por métodos estatísticos. As biografias curtas formam um mosaico no qual a história do anarquismo emerge de relações entre tipógrafos, professoras, sapateiros, jornalistas, atrizes, pedreiros, médicos, domésticas e trabalhadores de diferentes ramos.

O valor das biografias também está em mostrar que ideias políticas são vividas. A liberdade, a solidariedade e o anticlericalismo aparecem em escolhas de educação dos filhos, uniões afetivas, funerais civis, práticas vegetarianas, apoio a presos e recusa do militarismo. A história libertária deixa de ser somente história de doutrinas para tornar-se história de formas de vida. Essa dimensão é sociologicamente relevante porque evidencia a produção cotidiana de valores alternativos às instituições dominantes.

A preservação libertária enfrenta uma dificuldade específica: movimentos descentralizados raramente dispõem de burocracias permanentes capazes de arquivar sistematicamente sua documentação. Essa ausência é coerente com a desconfiança em relação a estruturas centralizadas, mas aumenta a vulnerabilidade dos registros. Pereira e Bruno (2002) observam que memórias ácratas tendem a permanecer desconhecidas justamente porque não existe uma máquina institucional de consagração comparável à de partidos, igrejas ou Estados.

Rodrigues respondeu a esse problema com trabalho voluntário e persistente. Seu acervo foi construído por doações, intercâmbios, cópias e buscas pessoais. A precariedade material torna o resultado ainda mais notável. Ao mesmo tempo, ela impõe responsabilidade pública: documentos reunidos por esforço coletivo não devem permanecer inacessíveis, deteriorar-se ou ficar submetidos a disputas privadas. Preservação física, catalogação profissional e acesso democrático são condições para que a memória cumpra sua função social.

7 UMA HISTÓRIA LIBERTÁRIA ENTRE BRASIL E PORTUGAL

A expressão “entre duas pátrias”, utilizada por Ferreira (2014a; 2014b), é útil para caracterizar a obra de Rodrigues, desde que não se perca seu internacionalismo. Portugal e Brasil foram os principais espaços de sua vida, mas a comunidade política imaginada pelo autor era mais ampla: trabalhadores e libertários ligados por uma humanidade comum. A fronteira nacional aparece como realidade histórica — com seus Estados, polícias e ditaduras —, mas também como obstáculo a solidariedades que o anarquismo procurava ampliar.

A experiência das ditaduras marcou profundamente seu entendimento da memória. O salazarismo perseguiu seu ambiente familiar e forçou a emigração; a ditadura brasileira reprimiu o Centro de Estudos Professor José Oiticica, prendeu militantes e apreendeu materiais. Rodrigues conheceu, portanto, a relação entre poder autoritário e destruição de arquivos. Guardar documentos não era atividade neutra: podia significar proteger pessoas, preservar provas e assegurar que a violência estatal não controlasse integralmente a narrativa do passado.

Essa dimensão transnacional também aparece na atenção aos trabalhadores imigrantes. Em Os anarquistas: trabalhadores italianos no Brasil, por exemplo, a migração é tratada como circulação de experiências políticas e profissionais. Os imigrantes não são apresentados apenas como portadores de uma ideologia pronta; participam da formação de um movimento operário situado, no qual repertórios europeus se transformam em contato com relações de trabalho, desigualdades e culturas locais.

A solidariedade internacional ocupa lugar normativo central. Rodrigues não compreendia a emancipação dos trabalhadores como projeto limitado à cidadania nacional. A crítica ao militarismo, ao fascismo, ao colonialismo e às ditaduras decorre da defesa de uma igualdade humana radical. O princípio sintetizado pela frase “um homem vale um homem” recusa hierarquias de nacionalidade, classe, autoridade e prestígio. É essa convicção que confere unidade moral a uma produção extensa e heterogênea.

8 CONTRIBUIÇÕES E TENSÕES COM A HISTORIOGRAFIA ACADÊMICA

A recepção acadêmica de Rodrigues foi ambivalente. Seus livros tornaram-se fontes recorrentes, mas ele próprio nem sempre foi reconhecido como historiador. Críticas mencionam falta de explicitação metodológica, organização irregular, repetição de informações, juízos militantes e tratamento desigual das fontes. Tais observações são legítimas e devem orientar o uso crítico de sua produção. Nenhum compromisso político dispensa verificação documental.

Entretanto, reduzir a obra a essas limitações reproduz uma hierarquia entre saber universitário e conhecimento militante. Rodrigues trabalhou em condições que diferem das oferecidas por programas de pós-graduação, bolsas, arquivos institucionalizados e editoras acadêmicas. Sua pesquisa foi sustentada por trabalho assalariado, recursos próprios e redes voluntárias. Avaliar o resultado sem considerar essa materialidade significa ignorar o caráter social da produção do conhecimento.

Addor (2012) propõe defini-lo como memorialista do anarquismo e “pesquisador instintivo”. A formulação é produtiva porque reconhece que sua obra combina história, memória e militância. Contudo, o termo “instintivo” não deve sugerir ausência de método. Rodrigues desenvolveu procedimentos práticos: coleta prolongada, cruzamento de relatos, correspondência com testemunhas, reprodução de documentos e construção de cronologias. O método era pouco formalizado, mas existia como saber de ofício.

Sua principal contribuição epistemológica consiste em alterar a escala de visibilidade. Onde narrativas tradicionais enxergavam tendências abstratas, Rodrigues via pessoas, periódicos e pequenos grupos. Onde a história política privilegiava líderes estatais, ele observava redes de base. Onde o cânone celebrava organizações vitoriosas, ele preservava movimentos derrotados. Essa mudança de objeto aproximou sua produção de questões que mais tarde ganhariam força na história social, na micro-história, nos estudos de memória e na história pública.

Uma leitura científica da obra deve distinguir pelo menos três camadas. A primeira é documental: transcrições, listas, notícias e dados biográficos que podem ser conferidos. A segunda é narrativa: a forma como Rodrigues seleciona períodos, organiza acontecimentos e constrói continuidades. A terceira é normativa: sua defesa do anarquismo e sua crítica ao Estado, ao capitalismo e à burocratização sindical. Separar analiticamente essas camadas permite usar a documentação sem ocultar o projeto político que a estrutura.

9 ATUALIDADE DO LEGADO E POLÍTICAS DE PRESERVAÇÃO

Preservar seu legado exige um programa articulado. O primeiro passo é identificar a localização e o estado de conservação de livros, cartas, fotografias, jornais, gravações e manuscritos associados a Rodrigues. O segundo é realizar higienização, acondicionamento e catalogação segundo critérios arquivísticos. O terceiro é digitalizar materiais frágeis em formatos duráveis, com metadados completos e cópias de segurança. O quarto é criar instrumentos públicos de pesquisa, respeitando direitos autorais e informações sensíveis.

Outro eixo é a educação. A obra de Rodrigues pode integrar disciplinas de história do Brasil, sociologia do trabalho, ciência política, arquivologia e história da educação. Projetos escolares podem utilizar biografias de trabalhadores locais, periódicos operários e mapas de associações. Exposições, podcasts, documentários e edições comentadas ampliariam o público sem reduzir a complexidade. A memória libertária não deve ficar confinada a especialistas ou círculos militantes.

Sua crítica ao sindicalismo subordinado ao Estado também dialoga com debates atuais sobre autonomia, burocratização e distância entre direções e bases. O contexto mudou, e seria inadequado transportar respostas do início do século XX de forma mecânica. Contudo, a pergunta permanece: como construir organizações capazes de defender interesses imediatos sem renunciar à participação direta e à transformação das relações de poder? Rodrigues preservou experiências úteis para pensar esse dilema.

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra de Edgar Rodrigues ocupa lugar singular na história social do trabalho e do anarquismo. Seu valor não decorre apenas da quantidade de livros e artigos, mas da articulação entre experiência, pesquisa, arquivo e compromisso político. Rodrigues compreendeu que a derrota de um movimento pode ser aprofundada pelo desaparecimento de seus documentos e pela apropriação de sua história por adversários. Por isso, fez da preservação uma forma de resistência.

Ao recolher periódicos, entrevistar militantes, transcrever atas, reconstruir congressos e publicar biografias, ele criou condições para que trabalhadores e libertários fossem reconhecidos como produtores de história. Seus livros contestam narrativas que apresentam a classe trabalhadora como objeto passivo de tutela estatal. Neles, homens e mulheres aparecem organizando sindicatos, escolas, teatros, jornais, campanhas e redes de solidariedade. Essa restituição de agência é uma contribuição científica e política de primeira ordem.

A simpatia pelas ideias de Rodrigues, assumida neste artigo, fundamenta-se no caráter humanista de seu projeto. A defesa de que cada pessoa possui igual dignidade, a crítica à dominação e a confiança na capacidade de auto-organização dos trabalhadores conferem unidade à sua produção. Em vez de celebrar o poder, ele escolheu lembrar os perseguidos, os derrotados e os anônimos. Tal escolha aproxima sua escrita de uma ética da história comprometida com a emancipação.

Isso não significa ignorar limites. A obra apresenta repetições, lacunas, conflitos de interpretação e insuficiente formalização metodológica. Algumas narrativas exigem confronto com outras fontes; determinadas categorias podem ser revistas; grupos sociais sub-representados precisam ganhar maior atenção. Contudo, esses problemas são próprios de um campo de pesquisa vivo e não autorizam o descarte de um trabalho pioneiro. A crítica responsável começa pelo reconhecimento da dívida documental.

Em síntese, Rodrigues foi mais do que cronista de uma tradição política. Foi construtor de uma infraestrutura de memória sem a qual parte significativa da história operária e anarquista seria hoje inacessível. Estudar criticamente sua obra e preservar os materiais que reuniu constituem tarefas complementares. Ambas afirmam que as lutas por liberdade e igualdade, mesmo derrotadas em determinados momentos, continuam a interpelar o presente e a ampliar o horizonte do possível.

A obra de Edgar Rodrigues permanece importante porque não encerra o passado; ela o transmite como problema e possibilidade. Seus volumes fornecem dados, mas também formulam uma pergunta ética: quem será lembrado e quem será condenado ao anonimato? Responder de modo democrático implica reconhecer que a história pertence igualmente aos que trabalharam, lutaram, educaram, imprimiram, acolheram perseguidos e imaginaram formas livres de vida coletiva.

A preservação de seu legado demanda ações concretas: inventário do acervo, conservação física, digitalização, descrição arquivística, disponibilização pública, edições críticas e formação de pesquisadores. Essas medidas são urgentes porque o tempo material dos documentos não acompanha o tempo lento das instituições, sobretudo burguesas. Cada jornal deteriorado e cada carta perdida reduzem as possibilidades de compreender a experiência dos trabalhadores.

A atualização de seu legado requer ampliar o repertório de sujeitos visíveis. As pistas reunidas por Rodrigues podem orientar estudos sobre mulheres, trabalhadores negros, migrantes e militantes de regiões menos representadas, realizando de modo mais consequente o princípio de que nenhuma pessoa deve ser reduzida ao anonimato.

Essa conclusão possui consequências para a prática da pesquisa. Os dados oferecidos por Rodrigues podem/devem ser confrontados com arquivos públicos, coleções particulares e estudos recentes, mas o confronto precisa reconhecer a assimetria entre quem preservou documentos em condições precárias e quem posteriormente pôde analisá-los com apoio institucional. O rigor científico não se opõe à gratidão intelectual; ele a transforma em citação responsável, crítica transparente e compromisso com a continuidade do acervo.

Liberto Herrera.

REFERÊNCIAS

ADDOR, Carlos Augusto. Um homem vale um homem: memória, história e anarquismo na obra de Edgar Rodrigues. 2012. 404 f. Tese (Doutorado em História) — Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2012. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1387.pdf. Acesso em: 22 jul. 2026.

ALANIZ, Anna Gicelle Garcia. A sementeira de ideias: Edgar Rodrigues, uma vida dedicada à memória anarquista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2009.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 241-252.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 1]. Verve, São Paulo, n. 25, p. 13-29, 2014a. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30683. Acesso em: 22 jul. 2026.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 2]. Verve, São Paulo, n. 26, p. 49-81, 2014b. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30783. Acesso em: 22 jul. 2026.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 7. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

PEREIRA, Adelaide Maria Gonçalves; BRUNO, Allyson. Edgar Rodrigues: dedicação e compromisso social. Trajetos: Revista de História da UFC, Fortaleza, v. 1, n. 2, p. 193-197, 2002. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/17197. Acesso em: 22 jul. 2026.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

RODRIGUES, Edgar. Socialismo e sindicalismo no Brasil: 1675-1913. Rio de Janeiro: Laemmert, 1969.

RODRIGUES, Edgar. Nacionalismo e cultura social: 1913-1922. Rio de Janeiro: Laemmert, 1972.

RODRIGUES, Edgar. Pequena história da imprensa social no Brasil. Florianópolis: Insular, 1997.

RODRIGUES, Edgar. Os companheiros. 5 v. Florianópolis: Insular, 1998.

RODRIGUES, Edgar. Lembranças incompletas. Guarujá: Opúsculo Libertário, 2007.

THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 3 v.

Propriedade é roubo, e quem defende é cúmplice

Sempre é lícito recordar que a propriedade privada dos meios de produção não nasceu do trabalho, nasceu da espada. Cercar a terra, declarar-se dono do que é de todos e expulsar quem nela vivia — esse é o ato fundante do Capital. Proudhon tinha razão: se um homem chega e diz “isto é meu”, sem ter colocado um tijolo, sem ter regado o chão, ele está roubando. E o Estado não apenas valida esse roubo com leis e polícia, como o canoniza como “direito sagrado”. Roubo legalizado continua sendo roubo.

Quem defende a propriedade privada das fábricas, da terra, das máquinas, está do lado do ladrão. Não existe “propriedade mista”, “função social da propriedade” ou “capitalismo consciente”. Esses termos são cortinas de fumaça para manter o essencial: a expropriação do trabalho. O patrão não é mais produtivo que o operário; ele é mais armado. O banqueiro não cria riqueza; ele a concentra. Defender a propriedade é ser cúmplice da violência silenciosa que transforma necessidade em lucro, suor em mais-valia, vida em mercadoria.

O capitalismo não é um sistema econômico — é uma guerra contínua contra quem não possui. E a primeira trincheira dessa guerra é a propriedade. Sem ela, não há exploração; sem exploração, não há Estado; sem Estado, não há hierarquia. Por isso a defesa da propriedade privada é tão feroz: ela é o nervo central da dominação. Cada argumento sobre “incentivo ao trabalho” ou “direito de herança” esconde o mesmo horror: alguém possui o que não fez, e muitos não possuem o que fazem.

Não se reforma o roubo, se devolve. E devolver não significa pedir licença ao ladrão. Significa ocupar, reivindicar, expropriar. Toda fábrica abandonada, todo latifúndio improdutivo, todo imóvel vazio é um roubo em curso. E a cúmplice silenciosa é a sociedade que normaliza a chave na porta, a cerca de arame farpado, o contrato de gaveta. Enquanto houver alguém pagando aluguel para quem nunca construiu, enquanto houver trabalhador recebendo migalhas do que ele mesmo produziu, o roubo segue impune.

Portanto, a luta anticapitalista é uma luta antirroubo. Não pedimos reforma agrária — pedimos terra livre. Não pedimos taxação de grandes fortunas — pedimos abolição da fortuna. Não pedimos participação nos lucros — pedimos a gestão operária de tudo. E a cada um que diz “mas a propriedade é direito”, respondemos: o direito do ladrão é o dever da vítima. Cúmplice é quem cala, quem negocia, quem vota no menos ladrão. Nós escolhemos devolver, sem pedir licença.

Abaixo a propriedade! Roubado é roubado!

Liberto Herrera.

Haikais

Pichação no muro:
a tinta é verbo, o muro
é a página do povo.

*

Quebram-se vitrines.
Nos cacos, refletem-se
rostos antes invisíveis.

*

Ação direta: o faço
é mais verdadeiro que
o prometo vazio.

Liberto Herrera.

Onze mercenários contra o povo

Enquanto a FIFA e seus patrocinadores – Coca-Cola, Visa, Adidas – esfregam as mãos com os lucros projetados de US$ 11 bilhões para a Copa do Mundo de Futebol de 2026, estendido por 16 cidades na América do Norte, a classe trabalhadora novamente será convocada a bater palmas para o próprio cárcere.

Aqui, não se trata de amor ao futebol, paixão que poderia ser vivida em campos de várzea e peladas de bairro, mas sim de um ritual meticulosamente fabricado para sequestrar nosso desejo de comunidade e transformá-lo em mercadoria. O espetáculo burguês não é diversão: é o ópio dopado com isopor e telões, a última instância da alienação em tempos de crise. Enquanto desviamos o olhar para o drible do craque ou a polêmica do VAR, o capital avança na precarização do trabalho, na especulação imobiliária sobre os estádios e na militarização das cidades-sede – tudo sob o verniz da “festa”.

O que os cartolas chamam de “legado” é, na verdade, um rastro de despejos, superfaturamento e dívidas públicas impagáveis. Dados do próprio movimento “FIFA Watch” indicam que, nas últimas cinco Copas, mais de 70% dos estádios construídos ou reformados estão subutilizados ou abandonados – como o Estádio da Amazônia, em Manaus, que custou R$ 600 milhões e hoje serve de depósito. Para 2026, a promessa é de “estádios existentes” – mas isso não impede que cidades como Vancouver e Los Angeles estejam gastando centenas de milhões em “adequações” bilionárias enquanto seus sem-teto são varridos com jatos d’água em pleno inverno. O Estado, fiel cão de guarda do capital, criminaliza moradores de rua para “embelezar” a vitrine, e a grande mídia aplaude a “modernização”. Não há paixão que justifique um único despejo: há apenas a lógica do lucro travestida de celebração planetária.

A Copa é também o maior espetáculo de militarização consentida. Para o Mundial de 2026, o Departamento de Segurança Interna dos EUA já anunciou um esquema inédito de vigilância por drones, reconhecimento facial em massa e um “perímetro de segurança” que transformará bairros inteiros em zonas de exceção.

No México, o exército ocupará as ruas, com os mesmos fuzis que assassinam camponeses e estudantes agora “protegendo” os turistas. Os dados são nauseantes: o Brasil gastou R$1,2 bilhões em aparato repressivo na Copa de 2014. Para 2026, o Mundial ocorrerá em três países e se desviarão mais de USD 3 bilhões de áreas como saúde e educação para financiar esse estado de sítio festivo. O torcedor, hipnotizado pela bola, não vê que a mesma estrutura que revista sua mochila nas catracas é a que reprime greves e ocupa territórios periféricos. A alienação se completa quando aplaudimos a própria corrente que nos aperta.

Diante disso, a atitude libertária é recusar o espetáculo em todas as suas formas: não consumir a transmissão, não comprar o ingresso, não aplaudir os heróis fabricados. Que venham os campeonatos de rua sem juiz, as peladas mistas na laje, a festa que não precise de patrocínio nem de polícia.

Enquanto a FIFA lucra com nossa passividade, a tarefa é construir contra-espetáculos: invadir os telões públicos com projeções de dados reais sobre os mortos da militarização, transformar os dias de jogo em atos de despejo simbólico das marcas, fazer do impedimento uma alegoria política: tudo que sustenta a Copa é impedido de ser justo. A bola, roubada do campo privatizado, pode rolar livre – mas só quando deixar de ser vitrine para voltar a ser brinquedo.

Liberto Herrera.

RECORDEM, COMPANHEIROS: O ANARQUISMO NÃO SE VOTA, SE CONSTRÓI NAS RUAS!

Mais um ano de 2026 se anuncia, e com ele a velha farsa eleitoral que a cada quatro anos tenta nos convencer de que a mudança vem das urnas. Mas nós, anarquistas, não esquecemos: o Estado é o nosso inimigo. Não importa se vista a camisa vermelha, azul ou verde; não importa o nome do ditador de plantão ou do “representante do povo”. O Estado é a espinha dorsal da opressão, a máquina que monopoliza a violência legal, que prende, explora, mata e decide quem vive e quem morre. Participar do jogo eleitoral é dar legitimidade a essa máquina assassina. É reconhecer que alguns seres humanos têm o direito de comandar os outros. E isso, companheiros, é a própria negação do anarquismo.

Não se deixem enganar pelas promessas de “mudança pela política”. Cada voto depositado na urna é um tijolo que reforça os muros da prisão que nos contém. Quando vocês entram na cabine de votação, estão dizendo ao sistema: “Aceito suas regras, aceito seus mestres, aceito que minha liberdade seja representada por um ladrão de terno”. Lembrem-se: toda eleição é uma cerimônia de legitimação da dominação. Os candidatos não são porta-vozes do povo — são capatazes do capital, da propriedade privada e da ordem estabelecida. E ao votar, vocês se tornam cúmplices dessa farsa, alimentando a ilusão de que a opressão pode ser humanizada. Ela não pode. Ela só pode ser destruída.

Nós não queremos reformar o Estado. Queremos extingui-lo. A história já nos mostrou: anarquistas que se renderam à lógica eleitoral abandonaram a essência da luta. Não existe “voto anarquista”, assim como não existe “cadeia anarquista” ou “exército anarquista”. O que existe é a ação direta, a autogestão, a organização de baixo para cima, sem patrões nem governantes. Quando boicotamos as eleições, estamos dizendo não apenas “não voto”, mas sim “não reconheço sua autoridade”. Cada eleição que ignoramos é um golpe na imagem de que o Estado é necessário. Cada hora que deixamos de gastar em comícios ou propagandas eleitorais é uma hora a mais dedicada à construção de redes de apoio mútuo, ocupações, cooperativas e assembléias populares.

Este ano de 2026, os donos do poder tentarão de novo nos chamar para o teatro. As telas se encherão de promessas, os debates fingirão debate, e os cofres públicos serão saqueados para financiar mentiras. Mas nós, que sabemos que a liberdade não se mendiga nem se vota, vamos responder com desobediência. Vamos recusar a urna como recusamos a algema. Vamos rir dos que nos chamam de “alienados” — alienado é quem entrega sua vontade a um pedaço de papel. A nossa pátria é o mundo, e nosso governo é a solidariedade horizontal entre iguais. Não queremos representantes, queremos ação. Não queremos promessas, queremos práticas libertárias.

Portanto, companheiros, quando setembro de 2026 chegar e os meios de comunicação bradarem sobre a “importância do voto consciente”, mantenham-se firmes. Boicotem as eleições. Façam campanha anti-eleitoral nos bairros, nos sindicatos, nas escolas. Digam em alto e bom som: o anarquismo é antiestatal ou não é nada. E que os candidatos, os juízes eleitorais e os políticos de todas as faixas saibam: nossa luta não é por uma vaga no parlamento. Nossa luta é pela abolição de todo o parlamento, de toda a cadeia de comando, de toda a hierarquia. Enquanto eles contam votos, nós plantaremos árvores, ocuparemos terras, criaremos bibliotecas populares, montaremos hortas comunitárias, organizaremos defesas mútuas. Esse é o caminho. Não atrás de um governante. Mas ao lado dos nossos iguais. Viva a luta antiestatal! Abaixo as eleições! O futuro é autogestionário ou não será.

Liberto Herrera.

Español:

RECUERDEN, COMPAÑEROS: ¡EL ANARQUISMO NO SE VOTA, SE CONSTRUYE EN LAS CALLES!

Otro año 2026 se anuncia, y con él la vieja farsa electoral que cada cuatro años intenta convencernos de que el cambio viene de las urnas. Pero nosotros, anarquistas, no olvidamos: el Estado es nuestro enemigo. No importa si se vista de camisa roja, azul o verde; no importa el nombre del dictador de turno o del “representante del pueblo”. El Estado es la columna vertebral de la opresión, la máquina que monopoliza la violencia legal, que encarcela, explota, mata y decide quién vive y quién muere. Participar en el juego electoral es dar legitimidad a esa máquina asesina. Es reconocer que algunos seres humanos tienen el derecho de mandar sobre otros. Y eso, compañeros, es la propia negación del anarquismo.

No se dejen engañar por las promesas de “cambio a través de la política”. Cada voto depositado en la urna es un ladrillo que refuerza los muros de la prisión que nos contiene. Cuando entran en la cabina de votación, le están diciendo al sistema: “Acepto tus reglas, acepto tus amos, acepto que mi libertad sea representada por un ladrón de traje”. Recuerden: toda elección es una ceremonia de legitimación de la dominación. Los candidatos no son portavoces del pueblo — son capataces del capital, de la propiedad privada y del orden establecido. Y al votar, se vuelven cómplices de esa farsa, alimentando la ilusión de que la opresión puede ser humanizada. No puede. Solo puede ser destruida.

Nosotros no queremos reformar el Estado. Queremos extinguirlo. La historia ya nos ha mostrado: los anarquistas que se rindieron a la lógica electoral abandonaron la esencia de la lucha. No existe el “voto anarquista”, como no existe la “cárcel anarquista” ni el “ejército anarquista”. Lo que existe es la acción directa, la autogestión, la organización de abajo hacia arriba, sin patrones ni gobernantes. Cuando boicoteamos las elecciones, no solo decimos “no voto”, sino “no reconozco tu autoridad”. Cada elección que ignoramos es un golpe a la imagen de que el Estado es necesario. Cada hora que dejamos de gastar en mítines o propaganda electoral es una hora más dedicada a construir redes de apoyo mutuo, ocupaciones, cooperativas y asambleas populares.

Este año 2026, los dueños del poder intentarán nuevamente llamarnos al teatro. Las pantallas se llenarán de promesas, los debates fingirán debate, y las arcas públicas serán saqueadas para financiar mentiras. Pero nosotros, que sabemos que la libertad no se mendiga ni se vota, responderemos con desobediencia. Rechazaremos la urna como rechazamos las esposas. Nos reiremos de quienes nos llaman “alienados” — alienado es quien entrega su voluntad a un pedazo de papel. Nuestra patria es el mundo, y nuestro gobierno es la solidaridad horizontal entre iguales. No queremos representantes, queremos acción. No queremos promesas, queremos prácticas libertarias.

Por lo tanto, compañeros, cuando llegue septiembre de 2026 y los medios de comunicación clamen sobre la “importancia del voto consciente”, manténganse firmes. Boicoteen las elecciones. Hagan campaña antielectoral en los barrios, en los sindicatos, en las escuelas. Digan alto y claro: el anarquismo es antiestatal o no es nada. Y que los candidatos, los jueces electorales y los políticos de toda calaña sepan: nuestra lucha no es por un escaño en el parlamento. Nuestra lucha es por la abolición de todo el parlamento, de toda la cadena de mando, de toda jerarquía. Mientras ellos cuentan votos, nosotros plantaremos árboles, ocuparemos tierras, crearemos bibliotecas populares, montaremos huertas comunitarias, organizaremos defensas mutuas. Ese es el camino. No detrás de un gobernante. Sino al lado de nuestros iguales. ¡Viva la lucha antiestatal! ¡Abajo las elecciones! El futuro es autogestionario o no será.

Liberto Herrera.

English:

REMEMBER, COMRADES: ANARCHISM IS NOT VOTED, IT IS BUILT IN THE STREETS!

Another year 2026 is announced, and with it the old electoral farce that every four years tries to convince us that change comes from the ballot box. But we anarchists have not forgotten: the State is our enemy. It doesn’t matter if it wears a red, blue, or green shirt; it doesn’t matter the name of the current dictator or the “people’s representative.” The State is the backbone of oppression, the machine that monopolizes legal violence, that imprisons, exploits, kills, and decides who lives and who dies. Participating in the electoral game is giving legitimacy to that murderous machine. It is acknowledging that some human beings have the right to rule over others. And that, comrades, is the very negation of anarchism.

Do not be fooled by promises of “change through politics.” Every vote cast in the ballot box is a brick that reinforces the prison walls that contain us. When you enter the voting booth, you are telling the system: “I accept your rules, I accept your masters, I accept that my freedom be represented by a suited thief.” Remember: every election is a ceremony legitimizing domination. Candidates are not spokespeople for the people — they are foremen for capital, private property, and the established order. And by voting, you become complicit in that farce, feeding the illusion that oppression can be humanized. It cannot. It can only be destroyed.

We do not want to reform the State. We want to abolish it. History has already shown us: anarchists who surrendered to electoral logic abandoned the essence of struggle. There is no such thing as an “anarchist vote,” just as there is no “anarchist prison” or “anarchist army.” What exists is direct action, self-management, organization from below, without bosses or rulers. When we boycott elections, we are saying not only “I don’t vote,” but “I do not recognize your authority.” Every election we ignore is a blow to the image that the State is necessary. Every hour we don’t waste on rallies or electoral propaganda is one more hour dedicated to building mutual aid networks, occupations, cooperatives, and popular assemblies.

This year 2026, the powers that be will try once more to summon us to their theater. Screens will fill with promises, debates will feign debate, and public coffers will be looted to finance lies. But we, who know that freedom is neither begged for nor voted for, will respond with disobedience. We will refuse the ballot box just as we refuse the handcuffs. We will laugh at those who call us “alienated” — the alienated one is the one who hands over their will to a piece of paper. Our homeland is the world, and our government is horizontal solidarity among equals. We do not want representatives, we want action. We do not want promises, we want libertarian practices.

Therefore, comrades, when September 2026 arrives and the media cries out about the “importance of conscious voting,” remain steadfast. Boycott the elections. Run anti-electoral campaigns in neighborhoods, unions, and schools. Say it loud and clear: anarchism is anti-state or it is nothing. And let the candidates, electoral judges, and politicians of all stripes know: our struggle is not for a seat in parliament. Our struggle is for the abolition of all parliament, of the entire chain of command, of all hierarchy. While they count votes, we will plant trees, occupy land, create popular libraries, set up community gardens, organize mutual defense. That is the path. Not behind a ruler. But alongside our equals. Long live the anti-state struggle! Down with elections! The future is self-managed or it will not be.

Liberto Herrera.

O 1º de Maio horizontal da UAF e FACA

Companheirxs da União Anarquista Federal (UAF) e da Federação Anarquista Capixaba (FACA), meu punho cerrado e meu coração em chamas vão para vocês neste Primeiro de Maio que ainda ecoa nas ruas!

Enquanto os sindicalistas de mesa e os políticos de gabinete negociavam migalhas nos palanques oficiais, vocês fizeram o que sempre fez a classe que se nega a ser rebanho: desceram aos territórios, sujaram as botas na lama da luta e ocuparam as esquinas com bandeiras negras e vermelhas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, passando por cada cidade de interior onde o giz e a coragem escrevem “propriedade é roubo”, vocês demonstraram que o Primeiro de Maio só tem sentido quando é feito por aqueles que constroem o mundo com as próprias mãos — não por seus patrões ou seus capatazes. Não foi um desfile, foi uma trincheira. E é assim que se forja a revolução: na rua, na fábrica, na escola ocupada, no beco onde a polícia teme entrar.

Quero destacar a decisão acertada de levar a propaganda libertária exatamente para onde ela mais incomoda: os bairros operários, as periferias, os assentamentos, os portões das unidades fabris. Enquanto certas esquerdas se contentam em ocupar apenas as redes digitais ou os palcos institucionais, a UAF e a FACA entenderam que a ideia anarquista só floresce no suor, na fome e na revolta concreta.

Mais de catorze cidades em quatro estados — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia — viram a insurreição silenciosa das assembleias de bairro, das panfletagens relâmpago, das faixas amarradas a viadutos e das rodas de conversa. Em cada roda, em cada palavra, plantou-se a semente do contra-poder: a autogestão, o apoio mútuo, a recusa da representação. Isso é estar entre os explorados e oprimidos — não de cima para baixo, mas lado a lado, ombro a ombro, sem vanguardas nem messias.

O Primeiro de Maio anarquista não é data comemorativa; é data de combate. E a lição que fica, companheirxs, é que não se espera o “momento certo” nem se depende de nenhuma conjuntura favorável. Faz-se a ação direta aqui, agora, com o que se tem. As ações descentralizadas em mais de catorze cidades mostram o poder da horizontalidade: não há centro que comande, nem liderança que decida — há apenas a chama que se espalha por contágio.

Que sirva de exemplo para todxs aqueles que ainda acreditam que o anarquismo é utopia: utopia é acreditar que o Estado vai acabar com a exploração. O que vimos foi a potência real de pessoas comuns — metalúrgicos, professores precarizados, entregadores, estudantes, mães solo, camponeses sem terra — construindo a rebelião no cotidiano. Isso, sim, é a Internacional na prática.

Por fim, um chamado: que este Primeiro de Maio não acabe nunca. Que as rodas da FACA e os núcleos da UAF se multipliquem em cada esquina, cada fábrica, cada latifúndio, cada cozinha comunitária. Que a Bahia, o Espírito Santo, o Rio e Minas sejam apenas o começo. Que venham o Pará, o Ceará, o Rio Grande do Sul, o sertão e a periferia de todas as capitais. O anarquismo não se pede licença para existir. Existimos na fuga da cadeia, na greve selvagem, na ocupação de terra, na escola livre.

Parabéns a todxs que sujaram as mãos de tinta, de piche e de esperança. Sigamos em frente: nem de joelhos diante do patrão, nem de costas para a luta. A revolução é como um incêndio — não se negocia com as chamas. E vocês provaram que o Primeiro de Maio ainda é nosso, inteiramente nosso, sem bandeiras nacionais nem hinos de caserna. Até a vitória e que a terra seja de quem trabalha!

Liberto Herrera, um punho entre muitos.

Español

El 1º de Mayo horizontal de la UAF y la FACA

Compañerxs de la Unión Anarquista Federal (UAF) y de la Federación Anarquista Capixaba (FACA), ¡mi puño cerrado y mi corazón en llamas van para ustedes en este Primero de Mayo que aún resuena en las calles!

Mientras los sindicalistas de mesa y los políticos de despacho negociaban migajas en los palcos oficiales, ustedes hicieron lo que siempre ha hecho la clase que se niega a ser rebaño: bajaron a los territorios, ensuciaron sus botas en el barro de la lucha y ocuparon las esquinas con banderas negras y rojas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, pasando por cada ciudad del interior donde la tiza y el coraje escriben “la propiedad es robo”, demostraron que el Primero de Mayo solo tiene sentido cuando lo hacen aquellos que construyen el mundo con sus propias manos —no sus patrones ni sus capataces. No fue un desfile, fue una trinchera. Y así es como se forja la revolución: en la calle, en la fábrica, en la escuela ocupada, en el callejón donde la policía teme entrar.

Quiero destacar la acertada decisión de llevar la propaganda libertaria exactamente a donde más incomoda: los barrios obreros, las periferias, los asentamientos, las puertas de las fábricas. Mientras ciertas izquierdas se contentan con ocupar solo las redes digitales o los escenarios institucionales, la UAF y la FACA entendieron que la idea anarquista solo florece en el sudor, el hambre y la revuelta concreta.

Más de catorce ciudades en cuatro estados —Minas Gerais, Río de Janeiro, Espírito Santo y Bahía— vieron la insurrección silenciosa de las asambleas de barrio, los panfleteos relámpago, las pancartas atadas a los viaductos y los círculos de conversación. En cada círculo, en cada palabra, se sembró la semilla del contrapoder: la autogestión, el apoyo mutuo, el rechazo de la representación. Eso es estar entre los explotados y oprimidos —no de arriba abajo, sino lado a lado, hombro con hombro, sin vanguardias ni mesías.

El Primero de Mayo anarquista no es fecha conmemorativa; es fecha de combate. Y la lección que queda, compañerxs, es que no se espera el “momento correcto” ni se depende de ninguna coyuntura favorable. Se hace la acción directa aquí, ahora, con lo que se tiene. Las acciones descentralizadas en más de catorce ciudades muestran el poder de la horizontalidad: no hay centro que mande, ni liderazgo que decida —hay solo la llama que se propaga por contagio.

Que sirva de ejemplo para todes aquellos que aún creen que el anarquismo es utopía: utopía es creer que el Estado va a acabar con la explotación. Lo que vimos fue la potencia real de personas comunes —metalúrgicos, docentes precarizados, repartidores, estudiantes, madres solteras, campesinos sin tierra— construyendo la rebelión en lo cotidiano. Eso, sí, es la Internacional en la práctica.

Finalmente, un llamado: que este Primero de Mayo no termine nunca. Que los círculos de la FACA y los núcleos de la UAF se multipliquen en cada esquina, cada fábrica, cada latifundio, cada cocina comunitaria. Que Bahía, Espírito Santo, Río y Minas sean solo el comienzo. Que vengan Pará, Ceará, Río Grande del Sur, el sertón y la periferia de todas las capitales. El anarquismo no pide permiso para existir. Existimos en la fuga de la cárcel, en la huelga salvaje, en la ocupación de tierra, en la escuela libre.

Felicidades a todes que ensuciaron sus manos de tinta, de brea y de esperanza. Sigamos adelante: ni de rodillas ante el patrón, ni de espaldas a la lucha. La revolución es como un incendio —no se negocia con las llamas. Y ustedes demostraron que el Primero de Mayo sigue siendo nuestro, enteramente nuestro, sin banderas nacionales ni himnos de cuartel. ¡Hasta la victoria y que la tierra sea de quien la trabaja!

Liberto Herrera, un puño entre muchos.


English

The Horizontal May 1st of the UAF and FACA

Comrades of the Federal Anarchist Union (UAF) and the Capixaba Anarchist Federation (FACA), my clenched fist and my heart on fire go out to you on this First of May that still echoes in the streets!

While the union bureaucrats and office politicians were negotiating crumbs from official stages, you did what the class that refuses to be livestock has always done: you went down to the territories, muddied your boots in the mire of struggle, and occupied street corners with black and red flags. From Contagem to Vitória, from Cachoeiro de Itapemirim to Salvador, passing through every inland town where chalk and courage write “property is theft,” you demonstrated that May Day only makes sense when it is carried out by those who build the world with their own hands — not by their bosses or their overseers. It was not a parade; it was a trench. And that is how revolution is forged: in the street, in the factory, in the occupied school, in the alley where the police fear to tread.

I want to highlight the wise decision to take libertarian propaganda exactly where it causes the most discomfort: working-class neighborhoods, the peripheries, settlements, the gates of factories. While certain leftists are content with occupying only digital networks or institutional stages, the UAF and FACA understood that the anarchist idea only flourishes in sweat, hunger, and concrete revolt.

More than fourteen cities across four states — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, and Bahia — witnessed the silent insurrection of neighborhood assemblies, lightning leafleting, banners tied to overpasses, and discussion circles. In every circle, in every word, the seed of counter-power was planted: self-management, mutual aid, the rejection of representation. That is what it means to be among the exploited and oppressed — not from above, but side by side, shoulder to shoulder, without vanguards or messiahs.

Anarchist May Day is not a celebratory date; it is a date of combat. And the lesson that remains, comrades, is that one does not wait for the “right moment” nor depend on any favorable conjuncture. One does direct action here, now, with what one has. The decentralized actions in over fourteen cities show the power of horizontality: there is no center that commands, no leadership that decides — there is only the flame that spreads by contagion.

Let this serve as an example to all those who still believe anarchism is a utopia: utopia is believing that the State will end exploitation. What we saw was the real power of ordinary people — metalworkers, precarious teachers, delivery workers, students, single mothers, landless peasants — building rebellion in daily life. That, indeed, is the International in practice.

Finally, a call: may this First of May never end. May FACA’s circles and UAF’s nuclei multiply on every corner, every factory, every large estate, every community kitchen. Let Bahia, Espírito Santo, Rio, and Minas be just the beginning. Let Pará, Ceará, Rio Grande do Sul, the backlands, and the peripheries of all capitals come forth. Anarchism does not ask permission to exist. We exist in the escape from prison, in the wildcat strike, in land occupation, in the free school.

Congratulations to all who dirtied their hands with ink, with pitch, and with hope. Let us move forward: neither on our knees before the boss, nor turning our backs on the struggle. Revolution is like a fire — you do not negotiate with flames. And you have proven that May Day is still ours, entirely ours, without national flags or barrack anthems. Until victory and may the land belong to those who work it!

Liberto Herrera, one fist among many.

Sempre haikais II

O decreto impresso
amarela no sol—a rua
escreve com giz novo.

*

Pelos fios do poder,
os pardais tecem ninhos
de desobediência.

*

O canhão enrouquece.
No silêncio, cresce o murmúrio
das assembleias.

Liberto Herrera.

Sempre haikais

O Estado é mito
que o vento leva—ficam
nossas mãos nuas, sós.

*

A cerca caída:
o gado bebe no rio
que não tem dono.

*

Sem rei, sem profeta,
a seara balança ao vento—
livre e desgrenhada.

Liberto Herrera.