A Lição da Rua: Por Que os Evangélicos Estão na Frente?

Recentemente saí para caminhar, era domingo e chovia levemente. O asfalto reluzia sob a luz tênue das seis horas da manhã, e a cidade, ainda adormecida, pertencia aos desassistidos e aos fervorosos religiosos. Foi quando os avistei: uma pequena banca improvisada onde quatro indivíduos, ensopados e determinados, distribuíam panfletos e literatura evangélica. Aquela cena, aparentemente corriqueira, impactou minha consciência. Enquanto aqueles seguidores de Cristo, munidos apenas de sua fé, ocupavam as ruas em um horário em que a maioria de nós ainda repousa, questionei-me: onde estão os nossos?

Ora, onde estão os anarquistas? Onde estão aqueles que defendem a libertação “mundana”, e não uma salvação ultraterrena? Nós, que deveríamos ser a voz audível nas comunidades periféricas, nos aglomerados subalternos, entre os relegados deste sistema, frequentemente nos confinamos em coletivos restritos, em debates teóricos infindáveis e em redes sociais que ecoam apenas para nosso próprio grupo. Enquanto isso, os evangélicos, com sua mensagem de conformidade e resignação, estão presentes. Eles compreendem o que nós, em nossa arrogância vanguardista, negligenciamos: a transformação social não se efetiva apenas por meio de textos complexos, mas mediante presença constante, contato humano direto e capilaridade efetiva.

Essa capilaridade, camaradas, não é alheia ao anarquismo! Fomos nós que, no suor das fábricas e na privação dos bairros operários, estabelecemos escolas livres, sindicatos de resistência e iniciativas mutualistas. Estivemos ao lado do povo, não como salvadores, mas como companheiros de luta. Nossa ideologia florescia no solo fértil da necessidade concreta. Esse espaço, conquistado com esforço pela classe trabalhadora, foi paulatinamente abandonado por nós e avidamente ocupado por duas forças perniciosas: os fundamentalistas religiosos e a nova direita reacionária.

Os pastores e seus seguidores oferecem um ópio moderno, uma promessa de recompensa pós-morte em troca de submissão na vida presente. Eles colonizam as mentes dos marginalizados, incutindo-lhes a aceitação da fome, da violência e da exploração, sob a alegação de que seu reino não é deste mundo. Paralelamente, os propagandistas da nova direita, com sua retórica anti-sistema espúria e seu nacionalismo tóxico, canalizam a ira legítima do povo para o ódio ao diferente, ao imigrante, ao pobre ainda mais vulnerável. Eles oferecem bodes expiatórios, enquanto nós oferecemos, muitas vezes, apenas discursos digitais?

Trata-se de uma falha histórica! Deixamos o campo aberto para que o adversário doutrine nossos irmãos de classe. Enquanto nos perdemos em disputas doutrinárias e em um purismo ideológico que não dialoga com a linguagem popular, eles distribuem sopa, consolo alienante e um senso de comunidade – ainda que seja uma prisão dourada. Eles fornecem respostas imediatas, ainda que ilusórias, para problemas prementes. Nós, não raro, oferecemos apenas ausência e silêncio.

Basta de lamentações! Aquele grupo na chuva de domingo pela manhã é a lição mais evidente que poderíamos receber. Eles não são mais potentes, são mais dedicados à sua causa – por mais nefasta que seja. A rua convoca-nos. A periferia reclama nossa presença. É hora de abandonarmos o conforto do gueto militante e ir até onde o povo está. Não para pregar, mas para ouvir, para organizar, para apoiar lutas concretas, para reconstruir a confiança erosionada. A ação direta, o mutualismo, a educação popular são nossos instrumentos. Precisamos estar lá, incondicionalmente, não para distribuir panfletos de salvação, mas para edificar, coletivamente, a liberdade aqui e agora. A rua é nossa! Resta-nos, tão somente, reassumi-la.

Liberto Herrra*.

*Texto publicado em setembro de 2025.

A Vida como Trincheira: Laços e Caminhos para um Mundo Novo.

A luta pela libertação não é um evento futuro agendado para uma revolução distante, mas um exercício diário de negação e construção. O capitalismo e o Estado não são monstros que dormem à espera de um único golpe fatal; são hidras que se regeneram todos os dias através da nossa passividade, da nossa obediência e da nossa assimilação. Portanto, a resistência deve ser igualmente cotidiana, um fermento constante que corrói os alicerces podres deste mundo. É nas pequenas recusas e nas microafirmações que preparamos o terreno para a grande transformação. Ignorar o hoje em nome de um amanhã glorioso é cometer o mesmo erro dos que adiam a vida para um paraíso após a morte: é negar a própria possibilidade da mudança real.

Reverenciar o ontem não é um culto mortuário ao passado, mas um ato de reconhecimento e aprendizado. Os mártires de Chicago, os guerrilheiros da Ucrânia livre, as mulheres livres da Espanha, todos aqueles que ousaram desafiar o Leviatã em suas épocas, não nos legaram um roteiro a ser seguido, mas um espírito a ser encarnado. Suas lutas, seus erros e seus acertos são a matéria-prima da nossa própria práxis. Eles nos mostram que a história não é feita por forças invisíveis, mas pela ação corajosa de pessoas comuns. Honramos sua memória não com monumentos de pedra, mas com ações de carne e osso, continuando onde eles pararam, adaptando sua coragem às nossas próprias realidades.

É precisamente nesta resistência do presente, na recusa em pagar ainda mais caro em um ônibus, na ocupação de um terreno ocioso, na greve selvagem, no apoio mútuo durante uma crise, que encontramos os verdadeiros caminhos. A teoria desce das nuvens e ganha materialidade nas ruas. Descobrimos o que funciona e o que não funciona não em manuais dogmáticos, mas na prática coletiva. A rua vira nossa universidade, e a ação direta, nosso método de pesquisa. Cada confronto, cada espaço autogerido, cada estrutura horizontal que erguemos é um laboratório onde testamos e vivemos os princípios da sociedade futura, aqui e agora.

Mais importante ainda: é nessa prática quotidiana que encontramos nossos camaradas. Laços forjados na luta concreta são infinitamente mais sólidos do que aqueles construídos em discussões intermináveis em salas fechadas. A confiança nasce do apoio mútuo em um piquete, da solidariedade em uma manifestação, do trabalho coletivo em uma horta comunitária. Esses laços são o tecido conjuntivo da nova sociedade dentro da velha. São estes vínculos de afeto, confiança e propósito comum que formarão a base resiliente necessária para enfrentar os desafios maiores que virão, impedindo que nossas estruturas reproduzam a hierarquia e o autoritarismo que juramos destruir.

Portanto, a transformação rumo ao fim do capitalismo, do Estado e de todas as formas de dominação não será um evento singular, mas o acúmulo e a generalização dessas práticas quotidianas de resistência e autogestão. O amanhã livre não é um destino ao qual chegaremos, mas um caminho que construímos a cada passo dado hoje. A nova sociedade não será proclamada num dia, mas gestada todos os dias nos espaços que roubamos ao poder, nas relações que libertamos da lógica do mercado e do Estado.

Conclamo, pois, a que não esperemos por um momento messiânico. Que nossa vida seja nossa principal trincheira. Que cada gesto de insubordinação, por menor que pareça, e cada ato de solidariedade, por mais local que seja, seja um tijolo na construção do mundo novo. O amanhã será apenas o eco do hoje que ousamos viver em luta. É na resistência do presente que honramos o passado e forjamos o futuro. Porque a revolução não é um ponto no calendário; é um modo de existir.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em setembro de 2025.

O Século do Aço e Sangue: O Estado Brasileiro e a Ditadura do Massacre (1950-2000)

Se os séculos anteriores ensinaram que o Estado brasileiro é uma máquina de triturar pobres, o período de 1950 a 2000 provou que ele opera com eficiência industrial. Sob a fachada de “desenvolvimento” e “democracia”, a lógica do terror não só persistiu — robotizou-se. Ditaduras e governos “eleitos” compartilharam o mesmo manual: onde houver resistência, enviem tanques, caveirões e esquadrões da morte. Este é apenas um apanhado geral — a lista completa exigiria um livro de lágrimas e balas.

A década de 1950 já sangrava sob a máscara da democracia. Em diversas favelas, que nesta época se expandiam, pobres eram mortos todos os dias e enterrados em cemitérios clandestinos, sob as mãos dos grupos de extermínios. Mas foi em 1955, com o Massacre de Formoso, também conhecido como o Massacre de Trombas e Formoso, que ocorreu na região do norte de Goiás (hoje Tocantins), envolvendo conflitos entre camponeses organizados e fazendeiros apoiados por forças policiais e jagunços, que, entre vários mortos, um aviso foi dado: reforma agrária seria guerra.

Com a ditadura instalada em 1964, o terror virou ciência de Estado. O Massacre do Araguaia (1972-1975) sintetiza a barbárie: mais de 70 camponeses, guerrilheiros e indígenas executados e desaparecidos na selva. Nas cidades, a Operação Condor financiava caçadas transnacionais, enquanto a polícia fazia trabalho sujo. Em 1969, o Massacre da Chácara São Bento (SP): 15 presos políticos executados com tiros na nuca. Em 1973, o Massacre de Quintino (RJ): 7 favelados metralhados por policiais em uma casa.

O ápice da crueldade institucional veio em 2 de outubro de 1992: o Carandiru (SP). 111 presos assassinados pelo Batalhão de Choque — muitos executados a sangue frio, de cócoras, com requintes de crueldade. O Estado não escondia mais: o massacre era espetáculo midiático. Nem mesmo a “redemocratização” freou a engrenagem. Em 17 de abril de 1996, em Eldorado dos Carajás (PA), 21 sem-terra foram executados pela Polícia Militar. Corpos mutilados, crânios estourados por cassetetes. O governo de Fernando Henrique Cardoso chamou de “incidente”.

Este apanhado superficial (1950-2000) escancara, uma vez mais, a mentira da “exceção” ditatorial. Do AI-5 à Constituição de 1988, o terror foi regra. Se em 1700 os bandeirantes matavam por contratos de terra, em 2000 eram jagunços, PMs e juízes que assinavam sentenças de morte. O Estado — democrático ou não — manteve sua função histórica: garantir, pela bala e facão, que os de baixo jamais desafiem a pirâmide de sangue e privilégios. Os nomes mudam (Araguaia, Carandiru, Eldorado), mas a vítima é sempre a mesma: o povo. Quinhentos anos não bastaram. Seguiremos contando os mortos até que a última pedra dessa máquina de moer gente seja reduzida a pó. A memória é nossa trincheira.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito e publicado em setembro de 2025.

A Máquina de Moer Gente: O Terror de Estado no Brasil Império (1700-1900)

Se o sangue colonial, como citado em nosso artigo anterior, secou como cimento, o Império e a República Nascente fizeram dele tinta para escrever novas leis de extermínio. De 1700 a 1900, o Estado brasileiro — agora travestido de monarquia “civilizada” — não abandonou o terror: refinou-o. Cada massacre datado nesta era é um elo na corrente de um projeto genocida que atravessa reinados, impérios e repúblicas. A violência não é acidente: é o motor da dominação.

Recordamos, por exemplo, o massacre dos Botocudos (1808-1830), que fora ordenado pelo próprio Príncipe Regente D. João VI, o extermínio em Minas Gerais e Espírito Santo usou fome, varíola e fuzis para “limpar” terras para o café. Tribos inteiras viram seus filhos trucidados sob o decreto imperial que pagava por cabeça indígena cortada.

Já em 25 de outubro de 1820 ocorre o massacre do Rodeador: 91 camponeses sebastianistas degolados em Pernambuco por tropas do governo. Seu crime? Sonhar com um reino sem reis.

Em 25 de janeiro de 1835 se dá a sangrenta repressão dos Malês: Após a revolta negra em Salvador, o Estado fuzilou 70 africanos e deportou 500. Corpos foram arrastados por cavalos nas ruas — espetáculo de terror para as senzalas.

O mito da “transição pacífica” da colônia ao império é uma mentira ensopada em sangue. Na Cabanagem (1835-1840), no Pará, 30 mil caboclos, indígenas e negros foram caçados como animais por tropas do Império. Mataram 30% da população regional. Oficiais do governo registravam: “É preciso varrer esta raça“. Não houve independência para os de baixo: só trocaram o chicote de Lisboa pelo do Rio de Janeiro.

E quando a República chegou, em 1889, trouxe consigo o mesmo veneno. O Massacre de Canudos (1893-1897) já fermentava nos campos da Bahia: 25 mil sertanejos exterminados pelo Exército “moderno”. Mas isso é história para outro capítulo — fiquemos com os números até 1900: cada década deste século teve seu genocídio catalogado. A máquina de moer gente não parou; acelerou com novas tecnologias de morte e a mesma velha desculpa: “progresso“, “ordem“, “civilização“.

Este registro histórico (1700-1900) desmonta a farsa da evolução política brasileira. O terror não mudou de dono — mudou de farda. Se no século XVI os bandeirantes agiam por contratos reais, no XIX eram as Forças Armadas do Império que assinavam ordens de extermínio. O Estado no Brasil, seja monárquico ou republicano, mantém a mesma função: patrocinar o massacre para proteger a propriedade, o latifúndio e o poder branco. Enquanto houver um único alicerce erguido sobre ossadas, nossa memória será arma. Aos anarquistas cabe lembrar: só se destrói o monstro conhecendo suas entranhas. E elas continuam expostas, de 1500 a 1900 — e além.

Liberto Herrera*.

*Artigo publicado em agosto de 2025.

Sangue como Cimento: O Terror de Estado na Forja do Brasil Colonial

O Brasil não nasceu — foi esquartejado à força. Desde os primeiros golpes do machado colonizador, o Estado revelou sua verdadeira face: um monstro devorador de povos, erguido sobre ossadas. Os massacres que mancharam este solo, e aqui, nesta primeira parte, nos limitaremos até por volta do ano de 1700, não foram “excessos” da colonização, mas seu método fundamental. Cada chacina foi um ato político: o Estado colonial, braço armado da Coroa e da Igreja, demonstrava aos explorados que a resistência seria afogada em sangue. O terror não era falha do sistema; era o sistema funcionando.

Vejam o genocídio indígena! Os Caetés trucidados em 1556 por “vingar” a morte de um bispo canibal — hipocrisia sagrada! — foram apenas o ensaio. A “guerra justa”, doutrina perversa abençoada por teólogos e reis, transformou o extermínio em política de Estado. Tupinambás, Guaianases, milhares de povos livres: caíam sob o fogo cruzado dos canhões e das cruzes. Entre 1500 e 1700, mais de mil povos foram reduzidos a 260. Isto não é tragédia; é projeto. O Estado, com sua máquina de moer corpos, limpou o terreno, como até hoje o faz, para o saque.

E os negros escravizados? Palmares grita a resposta. Quando Zumbi ergueu a liberdade nas serras, o Estado contratou bandidos — os bandeirantes — para esmagar o quilombo em 1694. O massacre foi meticuloso: crianças, velhos, guerreiros, todos convertidos em “lição” para quem ousasse sonhar com autonomia. Nas senzalas, a violência era rotina: revolta no Engenho Santana? 40 corpos pendurados como bandeiras do terror. O Estado não “combatia o crime”; fabricava o medo para manter a engrenagem da exploração.

Até os colonos pobres sentiram o punho de ferro. Cunhaú e Uruaçu (1645) provam: quando camponeses e indígenas se misturavam sob o mesmo teto de resistência, o Estado agiu com ferocidade calculada. 150 mortos em igrejas — degolados como animais — por suspeita de solidariedade aos holandeses. Não importava a bandeira: importava esmagar qualquer núcleo de autonomia popular. O poder, seja português ou flamengo, sempre escolheu o massacre como pedagogia.

Este pequeno recorte histórico lança luz para desnudar a mentira fundacional do Brasil: o Estado nunca foi “protetor”. Foi e é um carcereiro, um algoz, um incendiário de esperanças. Sua “ordem” nasceu do genocídio indígena, da tortura africana, do terror aplicado como agente de amálgama social. Enquanto os poderosos erguiam igrejas com o ouro roubado, o sangue dos massacres secava no chão como cimento. Reconhecer esta história não é nostalgia — é armar o espírito. A única resposta à violência de Estado, ontem e hoje, é a organização horizontal, a desobediência radical e a luta por um território sem amos, sem massacres, sem o espectro do Leviatã colonial que ainda nos assombra.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em agosto de 2025.

O PL da Morte e a Máquina Capitalista de Destruição

Irmãs e irmãos, abram os olhos: esse tal “PL da Devastação”, não é um simples projeto de lei – é mais uma legalização do ecocídio. Aprovado na calada da noite por um Congresso obviamente fascista, ele não existe para “agilizar processos”, mas para abrir caminho livre à pilhagem capitalista, com um alvo claro: o petróleo da Foz do Amazonas.

O capitalismo não erra, não vacila – ele avança com precisão assassina. Enquanto o planeta sangra, as corporações esfregam as mãos. A Amazônia, uma das últimas fronteiras de resistência, está na mira. A Licença Ambiental Especial (LAE) é a arma perfeita: um carimbo verde para que a Petrobrás e suas sócias internacionais transformem manguezais e territórios sagrados em poços de petróleo. Doze meses para decidir o destino de um ecossistema milenar? Isso não é eficiência – é um tiro na nuca da natureza.

E não se iludam com a farsa da “regulação”. O Estado não é mediador, é cúmplice. O licenciamento virou uma piada macabra: agora, os próprios destruidores podem autodeclarar que seu projeto é “seguro”. O agronegócio, a mineração, as petrolíferas – todos ganham carta branca para saquear, enquanto órgãos como o ICMBio e a Funai são amarrados e amordaçados. Terras indígenas não homologadas? Áreas de proteção? Tudo vira zona de sacrifício no altar do lucro.

Eles sabem que o petróleo na Foz do Amazonas é a gota d’água. Sabem que um vazamento ali seria uma sentença de morte para ecossistemas inteiros. Mas não importa. O capitalismo não tem ética, não tem futuro – só tem sede infinita de acumulação. E quando o colapso vier, quem pagará? Os povos da floresta, os pobres das periferias, os que sempre foram tratados como descartáveis.

Mas nós não somos descartáveis. E não vamos assistir de braços cruzados. Se o Estado entrega a Amazônia de bandeja, nossa resposta tem que ser direta e sem perdão: ocupação, resistência, sabotagem. Não há mais tempo para petições ou diálogo com esse sistema podre. Eles declararam guerra – e guerra não se vence com discursos.

A hora é agora. Ou matamos o capitalismo, ou ele mata tudo.

Pela Terra Livre – até a última consequência.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito e publicado originalmente em julho de 2025.

A Justiça Burguesa e a Farsa do Combate ao Fascismo: O Caso Carla Zambelli

A recente fuga de Carla Zambelli para a Europa, após sua condenação pelo STF por crimes como invasão ao CNJ e perseguição armada a um homem, expõe a fragilidade da justiça burguesa diante do fascismo. Enquanto o Estado se gaba de punições exemplares, a deputada bolsonarista escapa impune, protegida por sua cidadania italiana e pela estrutura de poder transnacional que sempre acolheu reacionários. A justiça capitalista, burocrática e seletiva, não passa de um teatro para legitimar a ordem vigente, incapaz de tocar nos verdadeiros pilares do fascismo/capitalismo: a propriedade privada, o autoritarismo estatal e a violência institucionalizada.

O caso Zambelli revela a cumplicidade histórica entre Estado e fascismo. Apesar de condenada, ela operou livremente dentro das instituições, usando seu mandato para ataques ao Judiciário e à democracia burguesa, até que a pressão popular a tornou inconveniente. O STF, que agora a persegue, é o mesmo que tolerou seu projeto autoritário enquanto servia aos interesses da elite. A justiça burguesa só age quando o fascismo ameaça desequilibrar seu próprio jogo de poder, nunca quando oprime os de baixo. A prisão de Zambelli seria, no máximo, um acerto de contas entre facções dominantes, não um freio ao avanço reacionário.

A falência do sistema penal fica ainda mais clara ao vermos a deputada se declarar “intocável” na Itália, onde promete articular a extrema-direita europeia. Enquanto o Estado brasileiro se perderá em pedidos de extradição e burocracias da Interpol, o fascismo se reorganiza em escala global, aproveitando-se das mesmas fronteiras e acordos que o capitalismo criou para proteger seus interesses. As leis, feitas para manter a dominação de classe, são inúteis contra quem as usa como arma. Zambelli não é uma exceção, mas a regra: o fascismo sempre encontra brechas no sistema que supostamente o condena.

Portanto, a solução não está em confiar nas instituições, mas em destruí-las. A história mostra que o fascismo só é derrotado pela ação direta dos oprimidos, não por decretos presidenciais ou decisões judiciais. Movimentos anarquistas, como os que combateram Mussolini na Itália ou Franco na Espanha, entenderam que o Estado jamais será aliado nessa luta. Zambelli fugiu, mas sua ameaça permanece porque o fascismo é estrutural — e só cairá quando o povo, organizado ocupar ruas, fábricas e terras, desmontando o aparato que alimenta a reação.

Enquanto a esquerda institucional pede mais leis e mais STF, nós, anarquistas, lembramos: o fascismo é filhote do capital e do Estado. Zambelli é só mais um sintoma. A verdadeira resistência virá de baixo, sem partidos, sem polícia, sem hierarquias. Que sua fuga seja o último aviso: a justiça dos ricos nunca nos salvará. Só a revolução social, horizontal e libertária, erradicará o fascismo da Terra.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito em 2025, por ocasião a hoje ex-deputada federal Carla Zambelli.

Do Irã ao Brasil: Nem Bombas, Nem Tanques! Pela Desmilitarização e Autogestão!

Como anarquista, é impossível não ecoar e fortalecer o grito dos diversos coletivos iranianos neste momento: a guerra e o militarismo são ferramentas de dominação que esmagam os povos em benefício de Estados e capitalistas.

O recente aumento dos gastos militares do Brasil — que superou R$ 142 bilhões em 2025, enquanto serviços públicos definham — expõe a hipocrisia de um governo que prioriza tanques em vez de pão, fuzis em vez de escolas. Essa lógica perversa, igual à denunciada pelos camaradas no Irã, sacrifica vidas trabalhadoras no altar do lucro e do controle estatal.

Assim como os ataques israelenses ao Irã, o complexo industrial-militar brasileiro serve aos interesses imperialistas globais. Nosso governo financia a indústria da morte ao comprar armas dos EUA e Europa, enquanto apoia tacitamente genocídios como o de Gaza. Cada avião de caça comprado com nosso suor poderia alimentar milhões, curar enfermos ou libertar terras indígenas. A “segurança nacional” que propagandeiam é, na verdade, segurança da burguesia contra o povo explorado.

A classe trabalhadora brasileira, tal como a iraniana, é duplamente vitimizada: pela repressão interna e pela cumplicidade de nosso Estado com guerras externas. Enquanto o orçamento militar cresce, assistimos à criminalização de movimentos sociais, à violência policial nas periferias e ao desmonte da previdência social. Os R$ 20 bilhões destinados a novos blindados em 2025 são um roubo descarado — poderiam erradicar a fome que atinge 33 milhões de brasileiros.

Rejeitamos a ilusão de que governos ou instituições internacionais trarão paz. A ONU acoberta massacres, e o Estado brasileiro, seja sob qual bandeira for, mantém uma máquina de opressão. Nossa luta é pela autogestão popular, pela solidariedade direta entre explorados, como nas ocupações de terra e nas greves selvagens. O exemplo das mobilizações “Mulher, Vida, Liberdade” no Irã nos inspira: só a ação direta desarma os poderosos.

Exigimos o fim imediato dos investimentos bélicos e a redistribuição desses recursos às comunidades. Que os quartéis virem cooperativas; as fábricas de armas, escolas livres. Nossa paz não virá de generais ou diplomatas, mas da organização horizontal, do apoio mútuo e da insurreição permanente contra este sistema que nos mata por lucro. Nem Irã, nem Israel, nem Brasil: nenhuma pátria vale um só trabalhador morto!

Pela desmilitarização do mundo!
Pela revolução social!

Liberto Herrera.

Camarada, nenhuma igreja irá te salvar — e nem quer.

Desde que o primeiro padre ergueu um altar, a religião tem sido o braço espiritual da opressão. Igrejas, mesquitas, sinagogas — todas são máquinas de controle, vestidas de virtude, que vendem promessas de paraíso em troca da tua submissão aqui e agora. Enquanto você espera ou reza por um milagre, os mesmos líderes que te cobram dízimos abraçam políticos, abençoam exércitos e lucram com a miséria alheia. A cruz, a estrela, o crescente: símbolos que unem tronos e altares há séculos. Salvação? Só existe na luta coletiva contra esses parasitas de batina.

Irmão, você acha mesmo que um deus que permite fome, guerras e exploração vai te dar justiça? A teologia é a cortina de fumaça perfeita para manter o pobre de joelhos, esperando uma recompensa pós-morte enquanto o patrão rouba seu salário agora. Os mesmos que condenam o pecado do homem pobre são cúmplices do pecado maior: a propriedade privada, a desigualdade, a dominação. Nenhum sermão apaga o sangue nas mãos da Igreja (seja ela qual for!) — da Inquisição às ditaduras.

Todavia, veja: anticlericalismo não é ódio à fé, é ódio à hierarquia. Padres, pastores, gurus — todos se intitulam intermediários do divino, mas só intermediaram mesmo é o teu medo. Transformam tua revolta em culpa, tua fome em resignação, teu corpo em pecado. Enquanto isso, abusam, acumulam riquezas e ditam moralidades convenientes aos poderosos. Quer espiritualidade? Olha para o fogo da solidariedade, não para a cinza dos rituais.

A libertação não vem de um deus que castiga, mas da multidão que se organiza. Queima os confessionários, ocupa os templos, transforma a caridade em ação direta! Nossa “salvação” está nas ruas, nas greves, nas redes de apoio mútuo que construímos sem patrões, sem polícia e sem padres. A verdadeira fé é acreditar no poder do povo — e nenhum milagre é maior que uma revolução.

Camarada, para de olhar pro céu. O inferno já é aqui — e só nós podemos extingui-lo. Nem deus, nem mestre: luta! 

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente em 2025.

Crime e Estado: amigos íntimos

A notícia divulgada pela mídia burguesa brasileira de que policiais estão sendo investigados por envolvimento com o PCC (Primeiro Comando da Capital) evidencia uma verdade frequentemente mascarada: o vínculo profundo e estrutural entre o Estado, o crime organizado e o capitalismo.

A polícia, que oficialmente deveria servir à “segurança pública”, na prática, atua como um braço armado de proteção aos interesses das elites, enquanto reproduz as dinâmicas de violência e corrupção que caracterizam o sistema capitalista. A relação promíscua entre agentes do Estado e organizações criminosas não é uma aberração ou exceção; é, sim, uma manifestação do funcionamento sistêmico de um modelo econômico e político que legitima e se alimenta do crime.

No capitalismo, a linha entre a “lei” e o “crime” é constantemente borrada. O mesmo sistema que criminaliza a pobreza e marginaliza trabalhadores precarizados, principalmente os pretos, sustenta estruturas que permitem a lavagem de dinheiro, a corrupção e a exploração violenta, seja por meio de organizações criminosas como o PCC, seja por corporações que exploram mão de obra de forma análoga à escravidão. A polícia, longe de ser uma entidade neutra, funciona como agente desse ciclo, seja pela repressão aos pobres, seja pela aliança com as máfias para lucrar com o controle territorial e econômico. Assim, o crime não é um desvio, mas um elemento intrínseco do próprio sistema que se organiza para concentrar poder e riquezas.

O Estado, enquanto sustentáculo do capitalismo, também é cúmplice nesse cenário. A legalidade estatal é utilizada para proteger privilégios e interesses corporativos, enquanto a ilegalidade, frequentemente atribuída ao crime organizado, opera como uma extensão das mesmas dinâmicas de exploração. Não é por acaso que esquemas de corrupção, como os relatados na operação contra policiais suspeitos de envolvimento com o PCC, envolvam diretamente aqueles que deveriam “combater” o crime. O Estado e as máfias são, de fato, duas faces de uma mesma moeda, promovendo e perpetuando a desigualdade e a violência de maneiras complementares.

A denúncia dessa ligação estrutural entre o Estado, o crime e o capitalismo é essencial para entender que a repressão e as operações policiais não têm como objetivo eliminar o crime, mas reorganizar suas hierarquias e fluxos de poder. Qualquer solução que busque superar essas contradições não virá do próprio aparato estatal, mas da construção de alternativas coletivas e anticapitalistas, baseadas na autogestão, na solidariedade e na luta contra todas as formas de opressão. Sem romper com o capitalismo e seu braço armado, o Estado, continuaremos reféns de um sistema que normaliza o crime como parte de sua lógica interna.

Liberto Herrera.