A Fúria Necessária

Não vos venho trazer flores nem ilusões. Venho falar da verdade que muitos camaradas preferem adoçar para não assustar os recém-chegados: a repressão não é um acidente de percurso na luta anarquista; ela é a sua sombra inevitável, o eco metálico que a nossa ação provoca nas engrenagens do Leviatã. Quem sonha com uma revolução sem cicatrizes, sem sangue e sem cadeias, está a sonhar com uma aventura ou uma festa, não com a destruição da ordem burguesa. A tese que vos trago é dura, mas necessária: a repressão é inerente à nossa luta porque o poder não cede o seu espólio sem violência; ainda assim, mesmo que o terreno esteja minado, mesmo que as probabilidades sejam de aniquilamento, a luta deve prosseguir por todos os meios possíveis. A tensão entre a ordem burguesa e o mundo novo que carregamos em nossas entranhas não é um mal-entendido que se resolva com diálogos de salão; é um antagonismo ontológico, uma contradição irreconciliável. E é precisamente da superação violenta e radical dessa ordem que a vitória libertária há de surgir — o que, por sua vez, nos conduz, inexoravelmente, de volta ao fogo da resistência.

Comecemos pelo óbvio que os acadêmicos e os reformistas se recusam a ver: o Estado burguês não é uma entidade neutra, um mero árbitro de conflitos sociais. Ele é a comissão executiva dos exploradores, o guarda-costas armado da propriedade privada e das hierarquias que dela emanam. A sua essência é a coerção monopolizada. A lei que ele aplica não é a justiça; é a codificação da espoliação. Quando nos organizamos em conselhos livres, quando ocupamos terras e fábricas, quando recusamos a obediência e a servidão voluntária, não estamos a fazer um pedido de mudança; estamos a desferir um golpe na própria base de sua legitimidade. A reação do Estado a esse golpe não pode ser outra senão a repressão. Não é um “risco” calculado; é uma certeza física, como a queda de um corpo. A história está repleta de exemplos — desde a Comuna de Paris, afogada em sangue, até a Ucrânia Livre, esmagada pelo exército vermelho e pelos brancos; desde os mártires de Chicago até as celas de prisão que abrigam os camaradas de hoje. A repressão não é o “preço” a pagar; ela é a resposta natural do sistema à nossa existência.

Neste ponto, muitos se acovardam. Dizem: “O terreno é desfavorável. A burguesia está fortalecida. O proletariado está atomizado. Esperemos o momento oportuno.” Que covardia disfarçada de pragmatismo! Quando, pergunto eu, o terreno foi favorável para os oprimidos? Quando é que os donos do mundo se sentaram à mesa e disseram: “Agora estamos frágeis, podem atacar”? O terreno desfavorável é o único terreno que a classe trabalhadora conhece. A fábrica é desfavorável, a mina é desfavorável, o gueto é desfavorável. A história não é uma escada rolante que nos leva suavemente à liberdade; é um abismo que só se transpõe com um salto — e o salto exige pernas fortes, mesmo que o chão trema. Esperar por condições ideais é esperar pela morte da nossa própria iniciativa. É entregar ao inimigo o monopólio do tempo. A luta não se faz quando a vitória é certa; faz-se porque a vitória precisa ser conquistada, e a única maneira de torná-la possível é travá-la, agora, com as ferramentas que temos, mesmo que sejam apenas as nossas mãos nuas e a nossa vontade inquebrantável.

Agora, detenhamo-nos sobre essa tensão inevitável. O que é a ordem burguesa senão um sistema de mediações hierárquicas — o patrão sobre o operário, o homem sobre a mulher, o branco sobre o negro, o burocrata sobre o cidadão? É uma teia de comandos e obediências que se reproduz diariamente nas escolas, nas igrejas, nos quartéis e nos parlamentos. O anarquismo, em sua essência, é a negação absoluta dessa mediação. Nós não queremos reformar a cadeia, queremos quebrá-la. Não queremos um patrão mais humano, queremos a autogestão. Não queremos um Estado mais paternalista, queremos a federação livre de comunas. Essa negação não é uma abstração filosófica; ela se traduz em atos concretos: a desobediência, a greve selvagem, a sabotagem, a expropriação. Cada um desses atos colide frontalmente com o código penal burguês, com a sua polícia e com os seus exércitos. A tensão, portanto, é uma guerra de movimento perpétuo.

E é nesse embate, nessa dialética violenta, que reside a nossa esperança. Porque a superação da ordem burguesa não virá de um voto, nem de uma declaração da ONU, nem de um manifesto pacífico que pede gentilmente que os opressores se convertam. A superação virá da crise, do choque, do momento em que a repressão do Estado se torna tão brutal, tão descarnada, que o véu da legalidade se rasga e as massas veem o tigre por trás da máscara. É a repressão que educa as massas na escola da necessidade. É a violência policial que radicaliza o operário moderado. É a prisão do militante que inspira a rebelião da vizinhança. Nesse sentido, a repressão é uma faca de dois gumes: o inimigo a usa para nos imolar, mas nós a usamos como uma forja que tempera a nossa determinação e revela a verdadeira face do poder. Quanto mais o Estado aperta o cerco, mais ele demonstra que não tem argumentos, apenas balas. E quando uma estrutura só tem balas para oferecer, a sua queda é apenas uma questão de tempo e de fúria acumulada.

Mas atenção: essa vitória libertária, que emerge da superação da ordem, não é um ponto de chegada estático, um paraíso onde os problemas se dissolvem. Ela é um processo contínuo de auto-emancipação. E é precisamente por isso que a luta, e todos os meios possíveis para travá-la, se tornam a categoria central da nossa existência. Defender que a luta deve prosseguir “por todos os meios possíveis” não é um apelo cego à violência; é o reconhecimento de que, numa guerra de extermínio contra a nossa humanidade, temos o direito moral e histórico de usar todas as armas disponíveis. Se o Estado usa a leis para nos prender, usemos a ilegalidade para expropriar o que foi roubado. Se o Estado usa a mídia para mentir, usemos a palavra impressa e a ação direta para desmascarar. Se o Estado usa as balas, usemos as barricadas. A ética do oprimido não pode ser a ética do opressor. Enquanto eles têm a propriedade, nós temos a fome; enquanto eles têm o exército, nós temos o número; enquanto eles têm a tecnologia da vigilância, nós temos a solidariedade orgânica das ruas. A luta por todos os meios significa utilizar a greve geral como arma política, a ocupação como ato de justiça distributiva, a sabotagem como interrupção do lucro, e a insurreição popular como o momento culminante em que o povo, armado com a sua própria coragem, toma para si os destinos da vida social.

Reconheçamos, no entanto, a dureza do caminho. As derrotas são amargas. As fileiras se diminuem. Os camaradas tombam. E o terreno, muitas vezes, parece mais estéril do que nunca. A pergunta que ecoa nos porões das delegacias e nos exílios forçados é: “Por que continuar?” A resposta é tão simples quanto absoluta: porque parar é aceitar a morte em vida. Porque a interrupção da luta não é uma trégua; é uma derrota definitiva que consagra a ordem burguesa como eterna. A continuidade da resistência, mesmo em terreno árido, é a única garantia de que a chama não se apaga. Cada ato de rebeldia, por menor que seja, é uma negação prática do “fim da história” proclamado pelos ideólogos do capital. Quando um grupo de trabalhadores ocupa uma fábrica falida, mesmo que despejados no dia seguinte, eles plantaram uma semente: a semente da autogestão possível. Quando um bairro se organiza em milícias populares para enfrentar a repressão policial, mesmo que massacrados, eles escreveram uma página na memória coletiva que nenhum juiz pode apagar. A luta não se justifica apenas pela vitória final; ela se justifica pela dignidade que confere a cada instante da resistência. A vitória libertária virá, mas virá como um corolário de inúmeras batalhas perdidas, de inúmeros mártires, de inúmeros “fracassos” que, somados, constroem a subjetividade revolucionária.

Esta é a dialética cruel que nos move: a ordem burguesa não pode coexistir com a liberdade anárquica. Ela a perseguirá, a caluniará e a esmagará com todas as suas forças. Mas, ao fazer isso, ela gera o seu próprio antídoto. Ela unifica os dispersos, ela radicaliza os moderados, ela prova a sua própria incapacidade de resolver as crises que ela mesma cria. A superação, portanto, não é uma fuga da realidade; é um mergulho nela até ao fundo, até ao ponto em que a tensão se rompe e o novo emerge das cinzas do velho. E esse novo mundo — a sociedade federada, igualitária e livre — não será construído com preces, mas com os escombros do edifício derrubado.

Por fim, caros camaradas, não nos enganemos com o canto da sereia do realismo político. O realismo burguês é a aceitação da servidão. O nosso realismo é a consciência da força do inimigo aliada à certeza da nossa necessidade de o destruir. A repressão está aí, nos porões, nas delegacias, nos canhões. Mas a nossa vontade de resistir também está aí, nas oficinas, nos campos, nos bairros periféricos. Que a repressão nos encontre de pé. Que o terreno desfavorável nos encontre em movimento. Que a tensão nos encontre na trincheira. Porque a vitória libertária não é um prêmio para os prudentes; é uma conquista para os audazes. É a superação da ordem burguesa que nos trará a alvorada, mas essa superação exige que cada um de nós, agora, neste instante, empunhe a sua ferramenta, a sua palavra, o seu punho ou a sua inteligência para golpear as cadeias.

A luta continua. Não porque temos esperança de um amanhã fácil, mas porque o hoje, sem luta, é insuportável. Não porque o futuro nos garante o triunfo, mas porque o presente nos exige a rebeldia. A repressão é inerente, o terreno é hostil, a tensão é absoluta. Mas a resistência é a nossa essência. E enquanto houver um único explorado, uma única mulher oprimida, um único trabalhador acorrentado, haverá um anarquista a plantar a dinamite da liberdade. Avante, pois. A vitória é o próprio caminho, e o caminho é a luta até ao fim.

Liberto Herrera.

CASTELLANO:

La Furia Necesaria

No vengo a traeros flores ni ilusiones. Vengo a hablaros de la verdad que muchos camaradas prefieren endulzar para no asustar a los recién llegados: la represión no es un accidente de trayecto en la lucha anarquista; es su sombra inevitable, el eco metálico que nuestra acción provoca en los engranajes del Leviatán. Quien sueña con una revolución sin cicatrices, sin sangre y sin cadenas, está soñando con una aventura o una fiesta, no con la destrucción del orden burgués. La tesis que os traigo es dura, pero necesaria: la represión es inherente a nuestra lucha porque el poder no cede su botín sin violencia; aun así, aunque el terreno esté minado, aunque las probabilidades sean de aniquilamiento, la lucha debe proseguir por todos los medios posibles. La tensión entre el orden burgués y el mundo nuevo que llevamos en nuestras entrañas no es un malentendido que se resuelva con diálogos de salón; es un antagonismo ontológico, una contradicción irreconciliable. Y es precisamente de la superación violenta y radical de ese orden de donde ha de surgir la victoria libertaria — lo que, a su vez, nos conduce, inexorablemente, de vuelta al fuego de la resistencia.

Comencemos por lo obvio que los académicos y los reformistas se niegan a ver: el Estado burgués no es una entidad neutra, un mero árbitro de conflictos sociales. Es la comisión ejecutiva de los explotadores, el guardaespaldas armado de la propiedad privada y de las jerarquías que de ella emanan. Su esencia es la coerción monopolizada. La ley que aplica no es la justicia; es la codificación del despojo. Cuando nos organizamos en consejos libres, cuando ocupamos tierras y fábricas, cuando rehusamos la obediencia y la servidumbre voluntaria, no estamos haciendo una petición de cambio; estamos asestando un golpe en la base misma de su legitimidad. La reacción del Estado a ese golpe no puede ser otra que la represión. No es un “riesgo” calculado; es una certeza física, como la caída de un cuerpo. La historia está repleta de ejemplos — desde la Comuna de París, ahogada en sangre, hasta la Ucrania Libre, aplastada por el ejército rojo y los blancos; desde los mártires de Chicago hasta las celdas de prisión que albergan a los camaradas de hoy. La represión no es el “precio” a pagar; es la respuesta natural del sistema a nuestra existencia.

En este punto, muchos se acobardan. Dicen: “El terreno es desfavorable. La burguesía está fortalecida. El proletariado está atomizado. Esperemos el momento oportuno.” ¡Qué cobardía disfrazada de pragmatismo! ¿Cuándo, pregunto yo, fue el terreno favorable para los oprimidos? ¿Cuándo es que los dueños del mundo se sentaron a la mesa y dijeron: “Ahora estamos débiles, pueden atacar”? El terreno desfavorable es el único terreno que conoce la clase trabajadora. La fábrica es desfavorable, la mina es desfavorable, el gueto es desfavorable. La historia no es una escalera mecánica que nos lleve suavemente a la libertad; es un abismo que solo se traspona con un salto — y el salto exige piernas fuertes, aunque el suelo tiemble. Esperar condiciones ideales es esperar la muerte de nuestra propia iniciativa. Es entregar al enemigo el monopolio del tiempo. La lucha no se libra cuando la victoria es segura; se libra porque la victoria debe ser conquistada, y la única manera de hacerla posible es librarla, ahora, con las herramientas que tenemos, aunque sean solo nuestras manos desnudas y nuestra voluntad inquebrantable.

Ahora, detengámonos en esa tensión inevitable. ¿Qué es el orden burgués sino un sistema de mediaciones jerárquicas — el patrón sobre el obrero, el hombre sobre la mujer, el blanco sobre el negro, el burócrata sobre el ciudadano? Es una telaraña de mandatos y obediencias que se reproduce diariamente en las escuelas, en las iglesias, en los cuarteles y en los parlamentos. El anarquismo, en su esencia, es la negación absoluta de esa mediación. Nosotros no queremos reformar la cadena, queremos romperla. No queremos un patrón más humano, queremos la autogestión. No queremos un Estado más paternalista, queremos la federación libre de comunas. Esa negación no es una abstracción filosófica; se traduce en actos concretos: la desobediencia, la huelga salvaje, el sabotaje, la expropiación. Cada uno de esos actos choca frontalmente con el código penal burgués, con su policía y con sus ejércitos. La tensión, por tanto, es una guerra de movimiento perpetuo.

Y es en ese embate, en esa dialéctica violenta, donde reside nuestra esperanza. Porque la superación del orden burgués no vendrá de un voto, ni de una declaración de la ONU, ni de un manifiesto pacífico que pide amablemente a los opresores que se conviertan. La superación vendrá de la crisis, del choque, del momento en que la represión del Estado se vuelve tan brutal, tan descarnada, que el velo de la legalidad se rasga y las masas ven al tigre detrás de la máscara. Es la represión la que educa a las masas en la escuela de la necesidad. Es la violencia policial la que radicaliza al obrero moderado. Es la prisión del militante la que inspira la rebelión del vecindario. En ese sentido, la represión es un arma de doble filo: el enemigo la usa para inmolaros, pero nosotros la usamos como una forja que templa nuestra determinación y revela el verdadero rostro del poder. Cuanto más aprieta el cerco el Estado, más demuestra que no tiene argumentos, solo balas. Y cuando una estructura solo tiene balas para ofrecer, su caída es solo cuestión de tiempo y de furia acumulada.

Pero atención: esa victoria libertaria, que emerge de la superación del orden, no es un punto de llegada estático, un paraíso donde los problemas se disuelven. Es un proceso continuo de autoemancipación. Y es precisamente por eso que la lucha, y todos los medios posibles para librarla, se convierten en la categoría central de nuestra existencia. Defender que la lucha debe proseguir “por todos los medios posibles” no es un llamamiento ciego a la violencia; es el reconocimiento de que, en una guerra de exterminio contra nuestra humanidad, tenemos el derecho moral e histórico de usar todas las armas disponibles. Si el Estado usa las leyes para encarcelarnos, usemos la ilegalidad para expropiar lo que fue robado. Si el Estado usa los medios para mentir, usemos la palabra impresa y la acción directa para desenmascarar. Si el Estado usa las balas, usemos las barricadas. La ética del oprimido no puede ser la ética del opresor. Mientras ellos tienen la propiedad, nosotros tenemos el hambre; mientras ellos tienen el ejército, nosotros tenemos el número; mientras ellos tienen la tecnología de la vigilancia, nosotros tenemos la solidaridad orgánica de las calles. La lucha por todos los medios significa utilizar la huelga general como arma política, la ocupación como acto de justicia distributiva, el sabotaje como interrupción del beneficio, y la insurrección popular como el momento culminante en que el pueblo, armado con su propio coraje, toma para sí los destinos de la vida social.

Reconozcamos, sin embargo, la dureza del camino. Las derrotas son amargas. Las filas se disminuyen. Los camaradas caen. Y el terreno, a menudo, parece más estéril que nunca. La pregunta que resuena en los sótanos de las comisarías y en los exilios forzados es: “¿Por qué continuar?” La respuesta es tan simple como absoluta: porque parar es aceptar la muerte en vida. Porque la interrupción de la lucha no es una tregua; es una derrota definitiva que consagra el orden burgués como eterno. La continuidad de la resistencia, incluso en terreno árido, es la única garantía de que la llama no se apague. Cada acto de rebeldía, por pequeño que sea, es una negación práctica del “fin de la historia” proclamado por los ideólogos del capital. Cuando un grupo de trabajadores ocupa una fábrica en quiebra, aunque sean desalojados al día siguiente, han plantado una semilla: la semilla de la autogestión posible. Cuando un barrio se organiza en milicias populares para enfrentar la represión policial, aunque sean masacrados, han escrito una página en la memoria colectiva que ningún juez puede borrar. La lucha no se justifica solo por la victoria final; se justifica por la dignidad que confiere a cada instante de la resistencia. La victoria libertaria vendrá, pero vendrá como un corolario de innumerables batallas perdidas, de innumerables mártires, de innumerables “fracasos” que, sumados, construyen la subjetividad revolucionaria.

Esta es la dialéctica cruel que nos mueve: el orden burgués no puede coexistir con la libertad anárquica. La perseguirá, la calumniará y la aplastará con todas sus fuerzas. Pero, al hacer eso, genera su propio antídoto. Unifica a los dispersos, radicaliza a los moderados, prueba su propia incapacidad para resolver las crisis que ella misma crea. La superación, por tanto, no es una huida de la realidad; es una inmersión en ella hasta el fondo, hasta el punto en que la tensión se rompe y lo nuevo emerge de las cenizas de lo viejo. Y ese mundo nuevo — la sociedad federada, igualitaria y libre — no será construido con plegarias, sino con los escombros del edificio derrumbado.

Finalmente, queridos camaradas, no nos engañemos con el canto de sirena del realismo político. El realismo burgués es la aceptación de la servidumbre. Nuestro realismo es la conciencia de la fuerza del enemigo aliada a la certeza de nuestra necesidad de destruirlo. La represión está ahí, en los sótanos, en las comisarías, en los cañones. Pero nuestra voluntad de resistir también está ahí, en los talleres, en los campos, en los barrios periféricos. Que la represión nos encuentre de pie. Que el terreno desfavorable nos encuentre en movimiento. Que la tensión nos encuentre en la trinchera. Porque la victoria libertaria no es un premio para los prudentes; es una conquista para los audaces. Es la superación del orden burgués la que nos traerá el alba, pero esa superación exige que cada uno de nosotros, ahora, en este instante, empuñe su herramienta, su palabra, su puño o su inteligencia para golpear las cadenas.

La lucha continúa. No porque tengamos esperanza de un mañana fácil, sino porque el hoy, sin lucha, es insoportable. No porque el futuro nos garantice el triunfo, sino porque el presente nos exige la rebeldía. La represión es inherente, el terreno es hostil, la tensión es absoluta. Pero la resistencia es nuestra esencia. Y mientras haya un solo explotado, una sola mujer oprimida, un solo trabajador encadenado, habrá un anarquista plantando la dinamita de la libertad. Adelante, pues. La victoria es el propio camino, y el camino es la lucha hasta el final.

Liberto Herrera.


ENGLISH:

The Necessary Fury

I do not come to bring you flowers or illusions. I come to speak to you of the truth that many comrades prefer to sweeten so as not to frighten the newcomers: repression is not a mishap along the anarchist struggle; it is its inevitable shadow, the metallic echo that our action provokes in the gears of the Leviathan. Whoever dreams of a revolution without scars, without blood and without chains, is dreaming of an adventure or a party, not of the destruction of the bourgeois order. The thesis I bring you is harsh, but necessary: repression is inherent to our struggle because power does not relinquish its spoils without violence; even so, even if the ground is mined, even if the odds are annihilation, the struggle must continue by all possible means. The tension between the bourgeois order and the new world we carry in our guts is not a misunderstanding to be resolved with parlor-room dialogues; it is an ontological antagonism, an irreconcilable contradiction. And it is precisely from the violent and radical overcoming of that order that the libertarian victory shall emerge — which, in turn, leads us, inexorably, back into the fire of resistance.

Let us begin with the obvious that academics and reformists refuse to see: the bourgeois State is not a neutral entity, a mere arbiter of social conflicts. It is the executive committee of the exploiters, the armed bodyguard of private property and the hierarchies that emanate from it. Its essence is monopolized coercion. The law it enforces is not justice; it is the codification of plunder. When we organize ourselves into free councils, when we occupy lands and factories, when we refuse obedience and voluntary servitude, we are not making a request for change; we are striking at the very foundation of its legitimacy. The State’s reaction to that blow can be nothing other than repression. It is not a calculated “risk”; it is a physical certainty, like the fall of a body. History is replete with examples — from the Paris Commune, drowned in blood, to Free Ukraine, crushed by the Red Army and the Whites; from the martyrs of Chicago to the prison cells that house today’s comrades. Repression is not the “price” to be paid; it is the system’s natural response to our existence.

At this point, many lose their nerve. They say: “The terrain is unfavorable. The bourgeoisie is strengthened. The proletariat is atomized. Let us wait for the opportune moment.” What cowardice disguised as pragmatism! When, I ask, was the terrain favorable for the oppressed? When did the owners of the world sit down at the table and say, “Now we are fragile, you may attack”? The unfavorable terrain is the only terrain the working class has ever known. The factory is unfavorable, the mine is unfavorable, the ghetto is unfavorable. History is not an escalator smoothly carrying us to freedom; it is an abyss that can only be crossed with a leap — and the leap requires strong legs, even if the ground trembles. Waiting for ideal conditions is waiting for the death of our own initiative. It is handing over to the enemy the monopoly on time. The struggle is not waged when victory is certain; it is waged because victory must be won, and the only way to make it possible is to wage it, now, with the tools we have, even if they are only our bare hands and our unbreakable will.

Now, let us dwell on this inevitable tension. What is the bourgeois order but a system of hierarchical mediations — the boss over the worker, man over woman, white over black, the bureaucrat over the citizen? It is a web of commands and obediences that reproduces itself daily in schools, churches, barracks, and parliaments. Anarchism, in its essence, is the absolute negation of that mediation. We do not want to reform the chain; we want to break it. We do not want a more humane boss; we want self-management. We do not want a more paternalistic State; we want the free federation of communes. This negation is not a philosophical abstraction; it translates into concrete acts: disobedience, wildcat strikes, sabotage, expropriation. Each of these acts collides head-on with the bourgeois penal code, with its police, and with its armies. The tension, therefore, is a perpetual war of movement.

And it is in this clash, in this violent dialectic, that our hope resides. Because the overcoming of the bourgeois order will not come from a vote, nor from a UN declaration, nor from a peaceful manifesto kindly asking the oppressors to convert. The overcoming will come from the crisis, from the shock, from the moment when the State’s repression becomes so brutal, so stark, that the veil of legality tears and the masses see the tiger behind the mask. It is repression that educates the masses in the school of necessity. It is police violence that radicalizes the moderate worker. It is the militant’s imprisonment that inspires the neighborhood’s rebellion. In this sense, repression is a double-edged sword: the enemy uses it to immolate us, but we use it as a forge that tempers our determination and reveals the true face of power. The more the State tightens the siege, the more it demonstrates that it has no arguments, only bullets. And when a structure has only bullets to offer, its fall is merely a matter of time and accumulated fury.

But beware: this libertarian victory, which emerges from the overcoming of the order, is not a static endpoint, a paradise where problems dissolve. It is a continuous process of self-emancipation. And it is precisely for this reason that the struggle, and all possible means of waging it, become the central category of our existence. Arguing that the struggle must continue “by all possible means” is not a blind call to violence; it is the recognition that, in a war of extermination against our humanity, we have the moral and historical right to use all available weapons. If the State uses laws to imprison us, let us use illegality to expropriate what was stolen. If the State uses the media to lie, let us use the printed word and direct action to expose it. If the State uses bullets, let us use barricades. The ethics of the oppressed cannot be the ethics of the oppressor. While they have property, we have hunger; while they have the army, we have numbers; while they have surveillance technology, we have the organic solidarity of the streets. The struggle by all means means using the general strike as a political weapon, occupation as an act of distributive justice, sabotage as an interruption of profit, and popular insurrection as the culminating moment in which the people, armed with their own courage, take into their own hands the destinies of social life.

Let us recognize, however, the harshness of the path. Defeats are bitter. The ranks thin out. Comrades fall. And the terrain often seems more barren than ever. The question that echoes in the basements of police stations and in forced exiles is: “Why continue?” The answer is as simple as it is absolute: because stopping is accepting death in life. Because the interruption of the struggle is not a truce; it is a definitive defeat that consecrates the bourgeois order as eternal. The continuity of resistance, even on arid ground, is the only guarantee that the flame does not go out. Each act of rebellion, however small, is a practical negation of the “end of history” proclaimed by the ideologues of capital. When a group of workers occupies a bankrupt factory, even if evicted the next day, they have planted a seed: the seed of possible self-management. When a neighborhood organizes itself into popular militias to confront police repression, even if massacred, they have written a page in the collective memory that no judge can erase. The struggle is not justified solely by the final victory; it is justified by the dignity it confers on every moment of resistance. The libertarian victory will come, but it will come as a corollary of countless lost battles, countless martyrs, countless “failures” which, added together, construct the revolutionary subjectivity.

This is the cruel dialectic that moves us: the bourgeois order cannot coexist with anarchic freedom. It will pursue it, slander it, and crush it with all its might. But in doing so, it generates its own antidote. It unifies the scattered, it radicalizes the moderate, it proves its own inability to resolve the crises it itself creates. The overcoming, therefore, is not an escape from reality; it is a dive into it, to the very bottom, to the point where the tension breaks and the new emerges from the ashes of the old. And this new world — the federated, egalitarian, and free society — will not be built with prayers, but with the rubble of the toppled edifice.

Finally, dear comrades, let us not deceive ourselves with the siren song of political realism. Bourgeois realism is the acceptance of servitude. Our realism is the awareness of the enemy’s strength allied with the certainty of our need to destroy it. Repression is there, in the basements, in the police stations, in the cannons. But our will to resist is also there, in the workshops, in the fields, in the peripheral neighborhoods. Let repression find us on our feet. Let the unfavorable terrain find us in motion. Let the tension find us in the trench. Because libertarian victory is not a prize for the prudent; it is a conquest for the audacious. It is the overcoming of the bourgeois order that will bring us the dawn, but this overcoming demands that each one of us, now, in this instant, wield our tool, our word, our fist, or our intelligence to strike the chains.

The struggle continues. Not because we hope for an easy tomorrow, but because today, without struggle, is unbearable. Not because the future guarantees us triumph, but because the present demands rebellion from us. Repression is inherent, the terrain is hostile, the tension is absolute. But resistance is our essence. And as long as there is a single exploited person, a single oppressed woman, a single chained worker, there will be an anarchist planting the dynamite of freedom. Forward, then. Victory is the very path, and the path is the struggle to the end.

Liberto Herrera.

LIBERDADE CONTRA TODA TIRANIA: AS POSIÇÕES DE EDGAR RODRIGUES DIANTE DO FASCISMO, DO NAZISMO, DO MARXISMO AUTORITÁRIO E DAS FORMAS GERAIS DE DOMINAÇÃO

Resumo: Este artigo analisa as posições antiautoritárias do historiador, arquivista e militante anarquista Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, diante do fascismo, do nazismo, do salazarismo, do franquismo, do bolchevismo e de outras formas de poder concentrado. Mediante revisão bibliográfica e análise qualitativa de obras selecionadas, argumenta-se que sua crítica não se limitou a regimes específicos, mas partiu de um princípio ético e político geral: nenhuma promessa de ordem, grandeza nacional ou emancipação social legitima a supressão da liberdade, a violência estatal, o partido único, o culto ao chefe ou a subordinação dos trabalhadores. A experiência pessoal sob a ditadura portuguesa e a repressão sofrida no Brasil contribuíram para transformar a denúncia do autoritarismo em eixo permanente de sua produção. O artigo distingue as formações históricas do fascismo, do nazismo e dos regimes marxistas-leninistas, evitando equiparações simplificadoras, mas sustenta que Rodrigues identificou corretamente um problema comum: a conversão de pessoas e movimentos em instrumentos de aparelhos hierárquicos. Conclui-se que sua defesa intransigente da liberdade, associada à autogestão, ao federalismo, à solidariedade e ao humanismo, permanece pedra angular para a construção de um mundo novo.

1 INTRODUÇÃO

A liberdade ocupa na obra de Edgar Rodrigues uma posição que não pode ser reduzida a tema entre outros. Ela funciona como critério de julgamento da história, das instituições e dos projetos revolucionários. Governos, partidos, sindicatos, igrejas e movimentos são avaliados segundo sua capacidade de ampliar a autonomia das pessoas ou, ao contrário, de submetê-las a chefes, burocracias e aparelhos coercitivos. Por isso, sua crítica ao fascismo e ao nazismo não aparece isolada de sua oposição ao salazarismo, ao franquismo, ao Estado Novo brasileiro, às ditaduras militares e às experiências políticas inspiradas no bolchevismo.

Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, nasceu em Angeiras, no norte de Portugal, em 12 de março de 1921, e viveu no Brasil desde 1951 até sua morte, no Rio de Janeiro, em 14 de maio de 2009. Filho de militante anarco-sindicalista perseguido pelo regime português, conheceu desde cedo a prisão política, a censura, o sindicalismo corporativo e a vigilância. Já no Brasil, participou de redes libertárias, colaborou com a imprensa anarquista, ajudou a fundar o Centro de Estudos Professor José Oiticica e foi preso durante a ditadura civil-militar (Addor, 2012; Ferreira, 2014a; 2014b).

O problema deste artigo pode ser formulado nos seguintes termos: como Rodrigues articulou sua oposição ao fascismo, ao nazismo, ao marxismo autoritário e ao autoritarismo em geral, e que concepção positiva de liberdade emerge dessa recusa? A hipótese defendida é que sua obra apresenta um antiautoritarismo coerente, construído pela combinação entre experiência biográfica, memória das lutas operárias e adesão ao anarquismo. Essa coerência não significa ausência de tensões. Em determinados momentos, sua linguagem polemiza de maneira ampla com o marxismo e aproxima regimes diferentes sob a categoria moral da ditadura. A análise científica deve reconhecer tal simplificação sem perder de vista a questão central por ele formulada: uma transformação social que destrói a liberdade reproduz, sob novos símbolos, a lógica da dominação.

A perspectiva adotada, obviamente, é simpatizante das ideias libertárias de Rodrigues. Essa posição não implica repetir todas as suas formulações, nem dispensar a distinção entre contextos históricos. Significa considerar seriamente seu princípio de que o fim emancipador não autoriza meios autoritários. Tal princípio questiona tanto a ordem capitalista e nacionalista quanto a pretensão de vanguardas que se atribuem o direito de governar em nome do proletariado. Em uma época marcada pela renovação de extremismos, pela normalização da violência política e pela concentração de decisões, essa crítica conserva força sociológica e ética.

2 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

A pesquisa é bibliográfica e qualitativa. O núcleo documental inclui O retrato da ditadura portuguesa (1962), Violência, autoridade & humanismo (1974), Deus Vermelho (1978), Nacionalismo e cultura social (1972), Novos rumos (1978), Resistência anarco-sindicalista à ditadura em Portugal (1922-1939) (1981), A oposição libertária à ditadura (1939-1974) (1982), Entre ditaduras (1993), Diga não à violência (1995) e Lembranças incompletas (2007). Essas obras permitem acompanhar a passagem da denúncia imediata das ditaduras para uma reflexão mais ampla sobre autoridade, Estado, partido e violência.

Como bibliografia crítica, destacam-se a tese de Carlos Augusto Addor (2012), que reconstrói a relação entre memória, história e anarquismo na produção de Rodrigues, e os estudos de José Maria Carvalho Ferreira (2014a; 2014b), que analisam sua trajetória entre Portugal e Brasil. Também são utilizados o levantamento bibliográfico publicado pela revista Verve (2009) e o texto de Adelaide Gonçalves e Allyson Bruno (2002), importantes para dimensionar o caráter militante, documental e humanista da obra.

Também se adota uma precaução terminológica. Fascismo, nazismo e marxismo não designam fenômenos equivalentes. O fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão foram movimentos e regimes ultranacionalistas, hierárquicos, militaristas e antidemocráticos; o nazismo acrescentou uma política racial genocida como fundamento do Estado. O marxismo, por sua vez, constitui uma tradição intelectual e política heterogênea, que inclui correntes democráticas, revolucionárias, críticas e autoritárias. Quando Rodrigues identifica marxismo e bolchevismo ou utiliza a expressão fascismo vermelho, sua formulação deve ser entendida como posição anarquista contra o partido-Estado e não como demonstração de identidade histórica entre todos esses fenômenos.

Essa ressalva não elimina a pertinência de sua comparação moral. Rodrigues perguntava menos se as ideologias possuíam a mesma genealogia e mais se os regimes concretos concentravam poder, eliminavam dissidências, controlavam sindicatos, perseguiam opositores e convertiam a população em objeto de administração. O conceito unificador é, portanto, o autoritarismo: uma relação social na qual poucos decidem, muitos obedecem e a coerção substitui a participação. É nesse nível que sua crítica pode ser reconstruída com maior consistência.

3 EXPERIÊNCIA DA DITADURA E FORMAÇÃO ANTIAUTORITÁRIA

O antiautoritarismo de Rodrigues não nasceu apenas da leitura de clássicos libertários. Sua formação ocorreu no interior de uma família trabalhadora atingida pela ditadura portuguesa instaurada após o golpe de 1926 e consolidada pelo Estado Novo de Salazar. A prisão do pai, a perseguição aos sindicatos livres e a destruição da imprensa operária tornaram o poder estatal uma presença cotidiana. Addor (2012) mostra que essas experiências alimentaram no jovem Antônio Francisco Correia uma desconfiança duradoura em relação a qualquer autoridade e uma aspiração igualmente duradoura por justiça e liberdade.

O regime salazarista reorganizou o mundo do trabalho segundo princípios corporativos. Sindicatos autônomos foram fechados ou obrigados a integrar estruturas reconhecidas pelo Estado; dirigentes foram presos, deportados ou submetidos à clandestinidade; a PIDE transformou a vigilância em método permanente. Para Rodrigues, a violência da ditadura não se limitava à ação policial. Ela alcançava a fome, o medo, o silêncio, a escola, a imprensa e as possibilidades de associação. O autoritarismo era um sistema de vida, não apenas um conjunto de leis de exceção.

Essa compreensão aparece em seus primeiros livros, definidos por ele como livros de combate. Na Inquisição de Salazar, A fome em Portugal, O retrato da ditadura portuguesa e Portugal Hoy buscavam informar leitores estrangeiros, apoiar perseguidos e romper o isolamento imposto pelo regime. Em O retrato da ditadura portuguesa, Rodrigues descreveu a ditadura como um mal coletivo, organizado em toda a estrutura do governo, e registrou prisões, espancamentos, assassinatos, colonialismo e atuação da polícia política (Rodrigues, 1962; Addor, 2012).

A emigração para o Brasil confirmou que o autoritarismo não pertencia a um único país. Rodrigues encontrou uma sociedade marcada pela herança escravista, por desigualdades profundas e pela memória do Estado Novo varguista. Em 1969, o Centro de Estudos Professor José Oiticica foi fechado, materiais foram apreendidos e militantes, entre eles Rodrigues, foram presos e processados. A continuidade entre salazarismo e repressão brasileira reforçou sua percepção de que Estados de diferentes discursos recorrem a procedimentos semelhantes quando temem a organização autônoma.

4 FASCISMO E SALAZARISMO: O PODER ORGANIZADO PARA A DOMINAÇÃO

A crítica de Rodrigues ao fascismo parte da recusa do nacionalismo, do corporativismo e do culto à autoridade. O fascismo promete superar conflitos sociais mediante a unidade da nação, mas essa unidade é produzida pela supressão das organizações independentes e pela subordinação dos trabalhadores ao Estado. Sindicatos deixam de ser instrumentos de luta e tornam-se órgãos de disciplina; a desigualdade de classes é preservada, enquanto a propaganda proclama harmonia entre patrões e empregados. Para um anarcossindicalista, esse arranjo representa a negação completa da autonomia operária.

O salazarismo ofereceu a Rodrigues a experiência mais próxima desse mecanismo. A legislação corporativa portuguesa destruiu a Confederação Geral do Trabalho e substituiu o sindicalismo livre por sindicatos nacionais. Em sua reconstrução histórica, a polícia, a censura e a administração econômica formavam uma mesma arquitetura. O regime pretendia ordenar a sociedade de cima para baixo, atribuindo a cada grupo uma função e retirando das pessoas o direito de contestar a ordem. A paz fascista era, assim, a imobilidade garantida pela força.

Essa posição explica sua atenção à Revolução Espanhola e à resistência de anarquistas portugueses. A experiência espanhola demonstrava, em sua leitura, que trabalhadores eram capazes de organizar coletividades, serviços e milícias sem depender de uma autoridade central absoluta. A derrota diante do franquismo, apoiado pelo fascismo italiano e pelo nazismo alemão, foi interpretada como tragédia internacional, agravada pelos conflitos e pela repressão no próprio campo republicano. A liberdade não era um luxo a ser adiado até depois da guerra, mas o conteúdo social da luta contra Franco.

5 NAZISMO, RACISMO, GUERRA E DESTRUIÇÃO DA PESSOA

Rodrigues criticou o nazismo como forma extrema de tirania, militarismo e desumanização. Embora sua produção tenha dedicado mais espaço ao salazarismo e ao franquismo, a Alemanha nazista aparece como parte do conjunto de experiências totalitárias combatidas pelos libertários. O culto a Hitler, a mobilização integral da sociedade, a perseguição aos opositores e a transformação da guerra em destino nacional condensavam tudo o que o anarquismo recusava: obediência, hierarquia, disciplina compulsória e sacrifício do indivíduo ao Estado.

O elemento racial torna o nazismo particularmente radical. A pessoa deixa de valer por sua humanidade e passa a ser classificada por origem, sangue e utilidade para a comunidade nacional. Judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, eslavos e opositores políticos foram submetidos a exclusão, deportação, trabalho forçado e extermínio. Mesmo quando Rodrigues não desenvolve uma teoria sistemática do racismo, seu princípio igualitário – sintetizado pela ideia de que um homem vale um homem – contradiz frontalmente qualquer hierarquia racial ou biológica (Addor, 2012).

A crítica libertária ao nazismo também é antimilitarista. A guerra exige centralização, segredo, comando e disponibilidade dos corpos para fins definidos por governos. O soldado ideal é aquele que obedece; o cidadão ideal do regime totalitário é aquele que transforma ordens em convicções. Rodrigues valorizava campanhas contra o serviço militar obrigatório e registrava a tradição internacionalista dos trabalhadores, para os quais não fazia sentido matar pessoas de outros países em benefício de Estados, indústrias e projetos imperiais.

Nazismo e fascismo mostram, ainda, como cultura e propaganda podem ser subordinadas à autoridade. Escolas, rádios, jornais, cerimônias e organizações juvenis são mobilizados para produzir conformidade. Em resposta, Rodrigues atribuía grande importância à educação libertária, ao teatro social, à imprensa operária e às bibliotecas. A luta cultural não era acessória: constituía um processo de descondicionamento, capaz de formar sujeitos que questionassem a ordem e não confundissem repetição coletiva com verdade.

6 MARXISMO, BOLCHEVISMO E A CRÍTICA À DITADURA DO PARTIDO

A crítica de Rodrigues ao marxismo deve ser situada na longa controvérsia entre socialismo libertário e socialismo autoritário. Desde a Primeira Internacional, anarquistas contestaram a conquista do Estado, o centralismo partidário e a ideia de uma transição dirigida por uma vanguarda. Rodrigues herdou essa tradição e a releu a partir da Revolução Russa, da formação dos partidos comunistas e das experiências soviética e cubana. Seu alvo principal era o marxismo transformado em doutrina de Estado, identificado por ele com bolchevismo, partido único e ditadura sobre os trabalhadores.

Em Nacionalismo e cultura social, Rodrigues reproduziu documentos anarquistas brasileiros que saudavam a derrubada do czarismo, mas recusavam a consolidação do poder bolchevique. A crítica afirmava que não se poderia opor à ditadura do capitalismo a ditadura de outra classe, nem aceitar que um partido falasse em nome de todo o proletariado. A solidariedade com o impulso revolucionário coexistia, portanto, com a denúncia da repressão às tendências federalistas e libertárias (Rodrigues, 1972; Addor, 2012).

Esse ponto é decisivo para compreender sua posição. Rodrigues não rejeitava a igualdade social, a propriedade comum ou a superação do capitalismo. Seu anarquismo também se apresentava como socialismo e, em muitas formulações, como comunismo libertário. O conflito dizia respeito aos meios e à forma política: enquanto o bolchevismo defendia centralização, disciplina partidária e manutenção de um Estado revolucionário, o anarquismo propunha federação, ação direta, autogestão e dissolução das estruturas de mando.

Em Deus Vermelho, Rodrigues aprofundou a denúncia do stalinismo e da sacralização do partido. O título sugere que uma autoridade secular pode ocupar a posição antes atribuída à divindade: torna-se infalível, exige devoção e pune heresias. A revolução, convertida em religião política, passa a justificar expurgos, censura, campos de trabalho e submissão da verdade aos interesses do aparelho. A expressão fascismo vermelho, utilizada em sua polêmica, procura destacar esse encontro entre culto ao chefe, polícia política e concentração absoluta de poder (Rodrigues, 1978; Addor, 2012).

Do ponto de vista historiográfico, a analogia requer cautela. O nazismo baseou-se em ultranacionalismo racial, expansão imperial e genocídio; a experiência soviética derivou de uma revolução social, de outra estrutura econômica e de outra linguagem de legitimidade. Confundi-las integralmente apaga diferenças fundamentais. No entanto, a advertência de Rodrigues permanece relevante quando lida como crítica à forma autoritária: partidos que monopolizam a política, Estados que proíbem dissenso e burocracias que administram trabalhadores em seu próprio nome traem a emancipação que proclamam.

7 AUTORITARISMOS DE DIREITA E DE ESQUERDA: CONTINUIDADES E DIFERENÇAS

Rodrigues insistia que nenhuma ditadura, de direita ou autoproclamada de esquerda, possuía legitimidade. Essa recusa universal distinguia seu antifascismo de posições que condenavam a repressão apenas quando praticada pelo campo adversário. Salazar, Franco, Hitler, Mussolini, Vargas, os governos militares, Stalin e outros dirigentes eram julgados pelo modo como concentravam decisões e perseguiam dissidentes. A cor da bandeira não absolvia a cadeia, a censura ou a polícia política.

Há nessa posição uma ética da coerência. Se a liberdade é valor humano e não privilégio de um grupo, ela deve alcançar adversários, minorias e dissidentes. O revolucionário que aceita a tortura ou o silêncio forçado quando aplicados aos inimigos prepara mecanismos que mais tarde poderão ser dirigidos contra os próprios trabalhadores. Rodrigues percebia que instituições autoritárias desenvolvem interesses próprios: polícias, burocracias e partidos tendem a conservar poder, independentemente das promessas que justificaram sua criação.

Contudo, uma análise rigorosa não deve converter essa convergência funcional em identidade total. Regimes diferem quanto a base social, projeto econômico, ideologia, escala da violência e relação com propriedade, raça e imperialismo. Reconhecer diferenças não relativiza crimes nem enfraquece a defesa da liberdade. Ao contrário, permite compreender os mecanismos específicos pelos quais cada autoritarismo se estabelece e evita que a palavra fascismo se torne rótulo genérico para toda prática condenável.

O autoritarismo geral inclui ainda relações que não assumem forma de ditadura estatal. Patriarcado, clericalismo, racismo, exploração econômica, chefia incontestável e educação baseada no medo reproduzem hábitos de submissão. Em Violência, autoridade & humanismo, o próprio título reúne os polos de seu pensamento: violência e autoridade degradam a pessoa; o humanismo afirma sua capacidade de cooperação e desenvolvimento. A sociedade livre exige transformar instituições e, simultaneamente, modos cotidianos de relação (Rodrigues, 1974; Ferreira, 2014b).

8 LIBERDADE, NÃO VIOLÊNCIA E AUTOGESTÃO COMO ALTERNATIVAS

A crítica de Rodrigues não desemboca em individualismo indiferente às desigualdades. Sua liberdade é social. Pessoas só podem desenvolver autonomia quando dispõem de meios de vida, conhecimento, tempo, segurança e participação nas decisões que as afetam. Por isso, a luta contra o Estado autoritário associa-se à luta contra capitalismo, latifúndio, exploração e privilégios. Liberdade sem igualdade material torna-se poder dos proprietários; igualdade sem liberdade converte-se em administração de pessoas por uma burocracia.

A alternativa aparece na autogestão. Trabalhadores organizados diretamente poderiam administrar produção, distribuição, sindicatos, escolas e comunidades por meio de acordos federativos. A federação articula unidades autônomas sem criar um centro soberano: decisões sobem a partir da base, delegados recebem mandatos limitados e funções podem ser revogadas. Não se trata de ausência de organização, mas de organização sem separação permanente entre dirigentes e dirigidos.

Sua defesa da não violência merece destaque. Em Diga não à violência, Rodrigues afirma a necessidade de recusar todos os tipos de violência. Ele reconhece a diferença entre agressão imposta de cima e reação dos oprimidos, mas privilegia a transformação cultural, a persuasão e a organização. A não violência não significa passividade diante da tirania. Significa rejeitar a fascinação pela força e impedir que métodos de guerra colonizem o projeto emancipador (Rodrigues, 1995; Addor, 2012).

O humanismo libertário fornece unidade a essa proposta. O princípio de que cada pessoa possui igual valor impede sacrificar indivíduos a abstrações como pátria, raça, partido, Estado ou progresso. Também impede tratar trabalhadores como massa a ser conduzida. Solidariedade não é caridade vertical, mas reconhecimento de interdependência entre iguais. A liberdade de um não termina onde começa a liberdade do outro; ela cresce quando as condições de autonomia são compartilhadas.

Essa concepção esclarece a expressão defesa intransigente da liberdade. A intransigência não significa incapacidade de diálogo nem pureza sectária. Significa estabelecer um limite que nenhum acordo pode ultrapassar: não aceitar tortura, censura, culto ao chefe, discriminação racial, partido único, sindicalismo compulsório ou governo irresponsável diante dos governados. Estratégias podem mudar; a dignidade humana não pode ser negociada.

9 ATUALIDADE E LIMITES DA CRÍTICA DE EDGAR RODRIGUES

A obra de Rodrigues permanece atual porque o autoritarismo raramente retorna com a mesma aparência. Pode apresentar-se como defesa da segurança, recuperação moral, eficiência administrativa, proteção da revolução ou combate a inimigos internos. Em todos os casos, pede-se que a sociedade entregue poder a especialistas, militares, líderes carismáticos ou partidos disciplinados. A pergunta anarquista continua necessária: que controles existem sobre quem decide e que espaços permanecem para organização autônoma?

A crítica ao partido-Estado também dialoga com organizações progressistas. Movimentos emancipatórios podem reproduzir centralismo, silenciamento e personalismo mesmo fora do governo. A memória das experiências bolcheviques, tal como reconstruída por Rodrigues, adverte que a burocratização começa quando a base perde capacidade de decidir e a direção passa a confundir sua permanência com a sobrevivência da causa. Democracia interna não é obstáculo à transformação; é parte de seu conteúdo.

Há, entretanto, limites que precisam ser reconhecidos. Rodrigues emprega por vezes categorias amplas, apresenta o marxismo como bloco relativamente homogêneo e utiliza analogias que aproximam excessivamente regimes distintos. Sua linguagem de combate pode reduzir a complexidade de conflitos internos às esquerdas. Estudos posteriores devem confrontar seus juízos com outras fontes, distinguir marxismos, como por exemplo os conselhistas e antiestalinistas, e aprofundar dimensões como raça, gênero e colonialidade.

Esses limites não anulam sua contribuição. A força de Rodrigues está menos em oferecer uma teoria completa dos totalitarismos e mais em preservar uma posição ética submetida a repetidos testes históricos. Ele recusou a ditadura que perseguiu sua família, a ditadura que o prendeu no Brasil e as ditaduras que se apresentavam como realização do socialismo. Essa continuidade confere credibilidade a sua defesa da liberdade: ela não variava conforme o governante estivesse ou não próximo de seu campo político.

Por fim, sua atualidade reside na associação entre crítica e construção. Denunciar autoritarismos é insuficiente sem criar práticas alternativas: assembleias reais, mandatos revogáveis, transparência, educação crítica, cooperativas, sindicatos independentes, imprensa livre e redes de apoio mútuo. A liberdade sobrevive quando deixa de ser palavra cerimonial e se converte em hábito institucional e Rodrigues oferece materiais históricos para imaginar esse aprendizado coletivo.

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As posições de Edgar Rodrigues contra o fascismo, o nazismo, o marxismo autoritário e as formas gerais de dominação compõem um mesmo projeto anarquista. Sua crítica nasce da experiência sob o salazarismo, amadurece na militância anarquista e é confirmada pela repressão da ditadura brasileira. Ao longo de décadas, ele registrou prisões, censuras, sindicatos destruídos, exílios e resistências, recusando que a violência de Estado fosse legitimada por nacionalismo, religião, segurança ou revolução.

Diante do fascismo, Rodrigues denunciou a unidade nacional imposta, o corporativismo, o culto ao chefe e a destruição da autonomia operária. Diante do nazismo, seu igualitarismo radical opôs-se à hierarquia racial, ao militarismo e à transformação da pessoa em material do Estado. Diante do bolchevismo e do marxismo de Estado, recusou o partido único, a ditadura denominada proletária e a substituição da iniciativa dos trabalhadores por uma burocracia que governava em seu nome.

A análise mostrou que essas críticas não autorizam apagar diferenças históricas. Fascismo, nazismo e experiências marxistas-leninistas possuem origens, projetos e violências específicas. A expressão fascismo vermelho deve ser entendida como linguagem militante sobre a forma ditatorial, não como conceito capaz de esgotar tais diferenças. Ainda assim, a comparação de Rodrigues preserva uma verdade essencial: discursos opostos podem convergir quando concentram poder, silenciam dissidências e transformam seres humanos em instrumentos de um aparelho.

Sua contribuição mais profunda é a afirmação de que os meios já contêm relações do mundo futuro. Não se constrói liberdade mediante obediência, igualdade mediante privilégio burocrático, solidariedade mediante terror ou autonomia mediante tutela. Uma revolução que suspende indefinidamente a participação prepara uma sociedade de comandantes e comandados. Por isso, a autogestão, a ação direta, o federalismo, a educação libertária e o apoio mútuo não são complementos posteriores; são formas presentes de aprender a viver sem dominação.

A simpatia assumida neste artigo fundamenta-se nessa coerência. Rodrigues podia ser duro, polemista e por vezes excessivamente abrangente em suas classificações, mas não concedeu licença moral às tiranias do próprio campo. Sua liberdade não dependia da cor da bandeira. O preso político, o trabalhador submetido, o exilado, a minoria perseguida e o dissidente possuíam dignidade anterior às razões de Estado. Essa fidelidade ao ser humano é um legado intelectual e político de grande importância.

Defender intransigentemente a liberdade não significa ignorar exploração, desigualdade ou violência estrutural. Significa afirmar que sua superação só merece o nome de emancipação quando amplia a capacidade comum de decidir. A liberdade libertária é inseparável de igualdade material e responsabilidade coletiva; não é direito do mais forte, mas condição compartilhada para que ninguém seja governado como objeto. Ela exige instituições abertas, poderes limitados e participação permanente.

Em consequência, a defesa intransigente da liberdade deve ser reconhecida como pedra angular para a construção de um mundo novo. Sem ela, o novo reduz-se a troca de administradores, símbolos e justificativas, conservando a velha separação entre quem manda e quem obedece. Com ela, a transformação pode orientar-se para uma sociedade em que trabalhadores e comunidades governem diretamente sua vida, diferenças não se convertam em hierarquias e nenhuma ideia seja colocada acima da dignidade humana.

Liberto Herrera.

REFERÊNCIAS

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FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 2]. Verve, São Paulo, n. 26, p. 49-81, 2014b. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30783. Acesso em: 22 jul. 2026.

GONÇALVES, Adelaide Maria; BRUNO, Allyson. Edgar Rodrigues: dedicação e compromisso social. Trajetos: Revista de História da UFC, Fortaleza, v. 1, n. 2, p. 193-197, 2002. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/17197. Acesso em: 22 jul. 2026.

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MEMÓRIA CONTRA O APAGAMENTO: A IMPORTÂNCIA DA OBRA DE EDGAR RODRIGUES PARA A HISTÓRIA DAS LUTAS DOS TRABALHADORES E DOS LIBERTÁRIOS

Resumo: Este artigo analisa a importância da obra do historiador, arquivista e militante libertário Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, para a preservação da história das lutas dos trabalhadores e das tradições anarquistas no Brasil e em Portugal. Parte-se de uma perspectiva de história social comprometida com a recuperação das experiências de sujeitos subalternizados e com a crítica dos mecanismos de apagamento produzidos pelo Estado, pelas classes dominantes e pelas narrativas historiográficas centradas em instituições oficiais. Mediante revisão bibliográfica e análise qualitativa de obras selecionadas de Rodrigues, argumenta-se que sua contribuição ultrapassa a função de fonte auxiliar: ela constitui uma intervenção política e memorial que nomeia militantes, recupera periódicos, transcreve documentos e restitui densidade humana a movimentos frequentemente reduzidos a episódios marginais. Embora sua produção autodidata apresente limites de sistematização teórica e de explicitação metodológica, tais limites não anulam seu caráter pioneiro, seu valor documental nem a coerência ética de um projeto orientado pela solidariedade, pela liberdade e pela emancipação social. Conclui-se que preservar, digitalizar, catalogar e estudar criticamente o legado de Edgar Rodrigues é tarefa indispensável para uma história plural do trabalho e dos libertários.

1 INTRODUÇÃO

A história das classes trabalhadoras não se conserva por inércia. Ela depende de pessoas, coletivos e instituições capazes de recolher vestígios frágeis: jornais de curta duração, atas sindicais, cartas, fotografias, panfletos, memórias, prontuários policiais e relatos orais. Em contextos de repressão, esses materiais são destruídos deliberadamente; em períodos de normalidade institucional, podem desaparecer por descaso, falta de recursos ou desvalorização acadêmica. A obra de Edgar Rodrigues deve ser compreendida nesse campo de disputa pela sobrevivência do passado.

Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, nasceu em Angeiras, no norte de Portugal, em 12 de março de 1921, e morreu no Rio de Janeiro em 14 de maio de 2009. Filho de trabalhador ligado ao anarco-sindicalismo, viveu desde cedo os efeitos sociais da perseguição política salazarista. Em 1951, emigrou para o Brasil, onde se integrou a redes libertárias, colaborou com a imprensa anarquista, participou de centros de estudos e desenvolveu, ao longo de mais de cinco décadas, uma produção que reuniu dezenas de livros e aproximadamente mil e oitocentos artigos (Addor, 2012; Ferreira, 2014a).

O problema central deste artigo pode ser formulado da seguinte maneira: em que sentido a obra de Edgar Rodrigues contribuiu não apenas para o conhecimento, mas para a própria preservação da história das lutas dos trabalhadores e dos anarquistas? A hipótese defendida é que Rodrigues realizou uma forma de história militante que reuniu três funções inseparáveis. Primeiro, atuou como coletor e guardião de documentos ameaçados de desaparecimento. Segundo, organizou narrativas de longa duração sobre sindicalismo, imprensa operária, repressão e experiências anarquistas. Terceiro, devolveu nomes e trajetórias a homens e mulheres que a historiografia oficial frequentemente tratava como massa indiferenciada.

A abordagem adotada é solidária ao horizonte humanista e libertário do autor. Essa escolha não implica abandonar a crítica, mas explicitar o lugar interpretativo do trabalho. A pretensão de neutralidade absoluta é especialmente problemática quando o objeto é uma tradição política submetida a perseguições, silenciamentos e caricaturas. Tomar a sério os valores de liberdade, igualdade, apoio mútuo, autogestão e emancipação que atravessam a obra de Rodrigues permite compreender por que a pesquisa histórica, para ele, não era um exercício de carreira, e sim uma responsabilidade ética perante gerações derrotadas e futuras.

Tal perspectiva aproxima-se da “história vista de baixo”, interessada na experiência das classes trabalhadoras e na sua capacidade de produzir cultura, organização e consciência histórica. Thompson (1987) mostrou que classe não é uma categoria estática, mas uma relação construída por experiências comuns, conflitos e formas de ação. Rodrigues, mesmo sem empregar esse vocabulário teórico de maneira sistemática, reuniu materiais que permitem observar precisamente esse processo: trabalhadores criando sindicatos, jornais, escolas, bibliotecas, grupos de teatro, congressos e redes internacionais.

Também é produtivo relacionar seu trabalho à discussão sobre memória social. Pollak (1989) ressaltou que memórias subterrâneas persistem em oposição às versões oficiais, aguardando condições para emergir. Benjamin (2012), por sua vez, advertiu que a história dominante tende a celebrar os vencedores e a converter derrotas em esquecimento. A escrita de Rodrigues pode ser lida como recusa dessa continuidade triunfal: ela busca recolher fragmentos de experiências vencidas sem tratá-las como inúteis, fracassadas ou ultrapassadas.

2 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

O artigo baseia-se em pesquisa bibliográfica e análise qualitativa de um conjunto representativo da produção de Edgar Rodrigues e de estudos dedicados à sua trajetória. Entre as obras do autor, destacam-se Socialismo e sindicalismo no Brasil (1969), Nacionalismo e cultura social (1972), Pequena história da imprensa social no Brasil (1997), a coleção Os companheiros (1998) e Lembranças incompletas (2007). Esses títulos permitem examinar diferentes dimensões de seu projeto: sínteses cronológicas, inventários documentais, biografias militantes, história da imprensa e memória autobiográfica.

Como bibliografia crítica, são centrais a tese de Carlos Augusto Addor (2012), os artigos de José Maria Carvalho Ferreira (2014a; 2014b), o estudo de Anna Gicelle Garcia Alaniz (2009) e a apreciação de Adelaide Maria Gonçalves Pereira e Allyson Bruno (2002). Tais trabalhos convergem ao reconhecer a amplitude da coleta documental, o compromisso social e a função memorial da escrita de Rodrigues, ainda que assinalem tensões entre sua linguagem militante e os protocolos acadêmicos de pesquisa.

O caráter engajado de Rodrigues exige um cuidado metodológico específico. Não se deve avaliar sua obra apenas pelo grau de adequação a padrões universitários consolidados posteriormente. A comparação anacrônica obscureceria as condições materiais de produção: pesquisa realizada nas horas livres, financiamento próprio, circulação em pequenas editoras, acesso precário a arquivos públicos e dependência de redes pessoais de antigos militantes. Ao mesmo tempo, uma leitura simpatizante não pode transformar toda afirmação em prova suficiente. É necessário confrontar datas, identificar repetições, distinguir testemunho de documentação e reconhecer interpretações marcadas por disputas internas do campo libertário.

3 ENTRE DUAS PÁTRIAS: EXPERIÊNCIA SOCIAL E FORMAÇÃO LIBERTÁRIA

A formação de Antônio Francisco Correia ocorreu sob a ditadura do Estado Novo português. A prisão de seu pai, militante anarco-sindicalista da construção civil, atingiu diretamente a economia e a vida cotidiana da família. O jovem trabalhador conheceu, portanto, a repressão não como abstração jurídica, mas como desemprego, medo, vigilância e carestia. Essa experiência ajuda a explicar a continuidade, em sua obra, entre denúncia política, solidariedade com perseguidos e pesquisa histórica (Ferreira, 2014a).

Impedido de seguir uma trajetória escolar convencional, Rodrigues construiu sua formação pela leitura, pela convivência com militantes, pelo teatro amador e pela cultura associativa. O autodidatismo, nesse caso, não significa isolamento individual. Tratou-se de aprendizagem coletiva em circuitos populares de educação: bibliotecas, jornais, reuniões, correspondências e grupos dramáticos. O conhecimento aparecia como bem comum e instrumento de autonomia, não como capital simbólico reservado a especialistas.

A emigração para o Brasil, em 1951, ampliou esse circuito. No Rio de Janeiro, Rodrigues aproximou-se de José Oiticica, Ideal Peres, Afonso Vieira, Roberto das Neves, Edgard Leuenroth e outros integrantes de redes anarquistas luso-brasileiras. Passou a colaborar com o jornal Ação Direta e adotou o pseudônimo pelo qual se tornaria conhecido. Sua inserção não foi a de um observador externo: ele participou de iniciativas culturais, editoriais e organizativas que mais tarde seriam objeto de sua própria narrativa.

Essa dupla condição — militante e pesquisador — é fundamental. Rodrigues escrevia sobre comunidades das quais fazia parte e sobre pessoas com quem mantinha relações de amizade, solidariedade ou conflito. A proximidade produzia riscos evidentes de parcialidade, mas também oferecia acesso raro a testemunhos, acervos domésticos e detalhes biográficos. Em vez de fingir distância absoluta, sua obra assume uma ética de lealdade às experiências libertárias, procurando transmitir o que poderia desaparecer com a morte dos protagonistas.

4 A ESCRITA DA HISTÓRIA COMO MILITÂNCIA

Para Edgar Rodrigues, pesquisar e publicar eram formas de ação política. A militância não aparecia apenas nos juízos normativos favoráveis ao anarquismo, mas na própria escolha do que deveria ser lembrado. Recolher um jornal operário, copiar uma ata, registrar o nome de uma tipógrafa ou entrevistar um antigo sindicalista eram atos contra o apagamento. Pereira e Bruno (2002) sintetizam essa preocupação ao mostrar que sua prioridade era impedir a perda de documentos e divulgar uma história ocultada ou deformada do movimento social.

Essa concepção difere da ideia de arquivo como lugar passivo. Rodrigues buscava materiais, convencia famílias a preservá-los, trocava correspondência, produzia cópias e fazia circular informações. Em 1986, participou da criação do Círculo Alfa de Estudos Históricos, concebido como espaço para reunir, organizar e difundir documentos libertários. O projeto expressava consciência aguda de que acervos privados e periódicos militantes podiam desaparecer por repressão, incêndio, umidade, disputas internas ou simples abandono (Ferreira, 2014b).

A publicação era extensão do arquivo. Em seus livros, longas transcrições de manifestos, estatutos, resoluções de congressos, notícias de jornais e listas de militantes ocupam espaço considerável. Do ponto de vista de uma escrita acadêmica mais sintética, isso pode parecer excesso documental. Contudo, em condições de acesso restrito, reproduzir fontes era uma estratégia de preservação e democratização. Muitas pessoas conheceram documentos raros não por consulta ao original, mas porque Rodrigues os incorporou a seus volumes.

5 A LUTA DOS TRABALHADORES RESTITUÍDA À HISTÓRIA

A contribuição mais evidente de Rodrigues está na reconstrução da ação coletiva dos trabalhadores. Socialismo e sindicalismo no Brasil (1969), Nacionalismo e cultura social (1972), Novos rumos e Alvorada operária compõem um amplo painel sobre associações, congressos, greves, correntes ideológicas e formas de repressão. Esses livros foram produzidos quando a história operária ainda ocupava posição secundária em grande parte da historiografia brasileira e quando o anarquismo era frequentemente descrito como doutrina estrangeira, desorganizada ou politicamente irrelevante.

Rodrigues contestou essa marginalização ao demonstrar a presença ativa de libertários na formação de sindicatos, federações, escolas, jornais e campanhas contra a carestia. Sua narrativa enfatiza que os trabalhadores não foram receptores passivos de leis estatais ou lideranças partidárias. Eles criaram instituições próprias, experimentaram formas de ação direta e formularam projetos de transformação social. O associativismo aparece como espaço de aprendizagem democrática, solidariedade e produção cultural.

Esse deslocamento é decisivo para a história social. Quando a trajetória do trabalho é narrada exclusivamente a partir da legislação, dos ministérios ou dos partidos, a autonomia operária tende a desaparecer. Rodrigues recoloca no centro assembleias, comissões de fábrica, boicotes, greves, conferências e redes de apoio. Mesmo suas discordâncias com comunistas, trabalhistas e sindicalistas vinculados ao Estado revelam um problema histórico relevante: a disputa entre formas autônomas e burocratizadas de representação dos trabalhadores.

Outro mérito é a atenção à pluralidade de práticas. A luta não se restringe à greve econômica. Inclui educação racionalista, anticlericalismo, teatro, poesia, imprensa, campanhas antimilitaristas, apoio a presos, defesa de exilados e sociabilidade cotidiana. Em Pequena história da imprensa social no Brasil (1997), jornais e revistas são tratados como instrumentos de formação intelectual e ligação entre grupos dispersos. A cultura operária torna-se parte constitutiva da política, e não ornamento.

Essa ampliação do conceito de luta permite compreender a persistência libertária em períodos de refluxo sindical. Quando grandes organizações foram destruídas ou incorporadas pelo Estado, pequenos jornais, centros de cultura, editoras e círculos de estudo mantiveram ideias e vínculos. Rodrigues documentou essas continuidades, sobretudo após o Estado Novo e durante a ditadura civil-militar. Assim, recusou a tese de que o anarquismo brasileiro teria simplesmente desaparecido nos anos 1930.

6 BIOGRAFIAS, NOMES E MEMÓRIA LIBERTÁRIA

A coleção Os companheiros representa uma das expressões mais fortes do compromisso de Rodrigues com a memória individual e coletiva. Em cinco volumes, reuniu informações sobre militantes conhecidos e anônimos, recuperando trajetórias que dificilmente encontrariam lugar em dicionários oficiais. O gesto tem significado político: recusar que o trabalhador apareça apenas como número, multidão ou categoria abstrata.

Nomear é produzir reconhecimento. Ao registrar ofício, origem, vínculos familiares, participação em jornais, prisões, expulsões e iniciativas culturais, Rodrigues restitui singularidade aos sujeitos. Essa operação aproxima sua obra de uma prosopografia popular, ainda que não organizada por métodos estatísticos. As biografias curtas formam um mosaico no qual a história do anarquismo emerge de relações entre tipógrafos, professoras, sapateiros, jornalistas, atrizes, pedreiros, médicos, domésticas e trabalhadores de diferentes ramos.

O valor das biografias também está em mostrar que ideias políticas são vividas. A liberdade, a solidariedade e o anticlericalismo aparecem em escolhas de educação dos filhos, uniões afetivas, funerais civis, práticas vegetarianas, apoio a presos e recusa do militarismo. A história libertária deixa de ser somente história de doutrinas para tornar-se história de formas de vida. Essa dimensão é sociologicamente relevante porque evidencia a produção cotidiana de valores alternativos às instituições dominantes.

A preservação libertária enfrenta uma dificuldade específica: movimentos descentralizados raramente dispõem de burocracias permanentes capazes de arquivar sistematicamente sua documentação. Essa ausência é coerente com a desconfiança em relação a estruturas centralizadas, mas aumenta a vulnerabilidade dos registros. Pereira e Bruno (2002) observam que memórias ácratas tendem a permanecer desconhecidas justamente porque não existe uma máquina institucional de consagração comparável à de partidos, igrejas ou Estados.

Rodrigues respondeu a esse problema com trabalho voluntário e persistente. Seu acervo foi construído por doações, intercâmbios, cópias e buscas pessoais. A precariedade material torna o resultado ainda mais notável. Ao mesmo tempo, ela impõe responsabilidade pública: documentos reunidos por esforço coletivo não devem permanecer inacessíveis, deteriorar-se ou ficar submetidos a disputas privadas. Preservação física, catalogação profissional e acesso democrático são condições para que a memória cumpra sua função social.

7 UMA HISTÓRIA LIBERTÁRIA ENTRE BRASIL E PORTUGAL

A expressão “entre duas pátrias”, utilizada por Ferreira (2014a; 2014b), é útil para caracterizar a obra de Rodrigues, desde que não se perca seu internacionalismo. Portugal e Brasil foram os principais espaços de sua vida, mas a comunidade política imaginada pelo autor era mais ampla: trabalhadores e libertários ligados por uma humanidade comum. A fronteira nacional aparece como realidade histórica — com seus Estados, polícias e ditaduras —, mas também como obstáculo a solidariedades que o anarquismo procurava ampliar.

A experiência das ditaduras marcou profundamente seu entendimento da memória. O salazarismo perseguiu seu ambiente familiar e forçou a emigração; a ditadura brasileira reprimiu o Centro de Estudos Professor José Oiticica, prendeu militantes e apreendeu materiais. Rodrigues conheceu, portanto, a relação entre poder autoritário e destruição de arquivos. Guardar documentos não era atividade neutra: podia significar proteger pessoas, preservar provas e assegurar que a violência estatal não controlasse integralmente a narrativa do passado.

Essa dimensão transnacional também aparece na atenção aos trabalhadores imigrantes. Em Os anarquistas: trabalhadores italianos no Brasil, por exemplo, a migração é tratada como circulação de experiências políticas e profissionais. Os imigrantes não são apresentados apenas como portadores de uma ideologia pronta; participam da formação de um movimento operário situado, no qual repertórios europeus se transformam em contato com relações de trabalho, desigualdades e culturas locais.

A solidariedade internacional ocupa lugar normativo central. Rodrigues não compreendia a emancipação dos trabalhadores como projeto limitado à cidadania nacional. A crítica ao militarismo, ao fascismo, ao colonialismo e às ditaduras decorre da defesa de uma igualdade humana radical. O princípio sintetizado pela frase “um homem vale um homem” recusa hierarquias de nacionalidade, classe, autoridade e prestígio. É essa convicção que confere unidade moral a uma produção extensa e heterogênea.

8 CONTRIBUIÇÕES E TENSÕES COM A HISTORIOGRAFIA ACADÊMICA

A recepção acadêmica de Rodrigues foi ambivalente. Seus livros tornaram-se fontes recorrentes, mas ele próprio nem sempre foi reconhecido como historiador. Críticas mencionam falta de explicitação metodológica, organização irregular, repetição de informações, juízos militantes e tratamento desigual das fontes. Tais observações são legítimas e devem orientar o uso crítico de sua produção. Nenhum compromisso político dispensa verificação documental.

Entretanto, reduzir a obra a essas limitações reproduz uma hierarquia entre saber universitário e conhecimento militante. Rodrigues trabalhou em condições que diferem das oferecidas por programas de pós-graduação, bolsas, arquivos institucionalizados e editoras acadêmicas. Sua pesquisa foi sustentada por trabalho assalariado, recursos próprios e redes voluntárias. Avaliar o resultado sem considerar essa materialidade significa ignorar o caráter social da produção do conhecimento.

Addor (2012) propõe defini-lo como memorialista do anarquismo e “pesquisador instintivo”. A formulação é produtiva porque reconhece que sua obra combina história, memória e militância. Contudo, o termo “instintivo” não deve sugerir ausência de método. Rodrigues desenvolveu procedimentos práticos: coleta prolongada, cruzamento de relatos, correspondência com testemunhas, reprodução de documentos e construção de cronologias. O método era pouco formalizado, mas existia como saber de ofício.

Sua principal contribuição epistemológica consiste em alterar a escala de visibilidade. Onde narrativas tradicionais enxergavam tendências abstratas, Rodrigues via pessoas, periódicos e pequenos grupos. Onde a história política privilegiava líderes estatais, ele observava redes de base. Onde o cânone celebrava organizações vitoriosas, ele preservava movimentos derrotados. Essa mudança de objeto aproximou sua produção de questões que mais tarde ganhariam força na história social, na micro-história, nos estudos de memória e na história pública.

Uma leitura científica da obra deve distinguir pelo menos três camadas. A primeira é documental: transcrições, listas, notícias e dados biográficos que podem ser conferidos. A segunda é narrativa: a forma como Rodrigues seleciona períodos, organiza acontecimentos e constrói continuidades. A terceira é normativa: sua defesa do anarquismo e sua crítica ao Estado, ao capitalismo e à burocratização sindical. Separar analiticamente essas camadas permite usar a documentação sem ocultar o projeto político que a estrutura.

9 ATUALIDADE DO LEGADO E POLÍTICAS DE PRESERVAÇÃO

Preservar seu legado exige um programa articulado. O primeiro passo é identificar a localização e o estado de conservação de livros, cartas, fotografias, jornais, gravações e manuscritos associados a Rodrigues. O segundo é realizar higienização, acondicionamento e catalogação segundo critérios arquivísticos. O terceiro é digitalizar materiais frágeis em formatos duráveis, com metadados completos e cópias de segurança. O quarto é criar instrumentos públicos de pesquisa, respeitando direitos autorais e informações sensíveis.

Outro eixo é a educação. A obra de Rodrigues pode integrar disciplinas de história do Brasil, sociologia do trabalho, ciência política, arquivologia e história da educação. Projetos escolares podem utilizar biografias de trabalhadores locais, periódicos operários e mapas de associações. Exposições, podcasts, documentários e edições comentadas ampliariam o público sem reduzir a complexidade. A memória libertária não deve ficar confinada a especialistas ou círculos militantes.

Sua crítica ao sindicalismo subordinado ao Estado também dialoga com debates atuais sobre autonomia, burocratização e distância entre direções e bases. O contexto mudou, e seria inadequado transportar respostas do início do século XX de forma mecânica. Contudo, a pergunta permanece: como construir organizações capazes de defender interesses imediatos sem renunciar à participação direta e à transformação das relações de poder? Rodrigues preservou experiências úteis para pensar esse dilema.

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra de Edgar Rodrigues ocupa lugar singular na história social do trabalho e do anarquismo. Seu valor não decorre apenas da quantidade de livros e artigos, mas da articulação entre experiência, pesquisa, arquivo e compromisso político. Rodrigues compreendeu que a derrota de um movimento pode ser aprofundada pelo desaparecimento de seus documentos e pela apropriação de sua história por adversários. Por isso, fez da preservação uma forma de resistência.

Ao recolher periódicos, entrevistar militantes, transcrever atas, reconstruir congressos e publicar biografias, ele criou condições para que trabalhadores e libertários fossem reconhecidos como produtores de história. Seus livros contestam narrativas que apresentam a classe trabalhadora como objeto passivo de tutela estatal. Neles, homens e mulheres aparecem organizando sindicatos, escolas, teatros, jornais, campanhas e redes de solidariedade. Essa restituição de agência é uma contribuição científica e política de primeira ordem.

A simpatia pelas ideias de Rodrigues, assumida neste artigo, fundamenta-se no caráter humanista de seu projeto. A defesa de que cada pessoa possui igual dignidade, a crítica à dominação e a confiança na capacidade de auto-organização dos trabalhadores conferem unidade à sua produção. Em vez de celebrar o poder, ele escolheu lembrar os perseguidos, os derrotados e os anônimos. Tal escolha aproxima sua escrita de uma ética da história comprometida com a emancipação.

Isso não significa ignorar limites. A obra apresenta repetições, lacunas, conflitos de interpretação e insuficiente formalização metodológica. Algumas narrativas exigem confronto com outras fontes; determinadas categorias podem ser revistas; grupos sociais sub-representados precisam ganhar maior atenção. Contudo, esses problemas são próprios de um campo de pesquisa vivo e não autorizam o descarte de um trabalho pioneiro. A crítica responsável começa pelo reconhecimento da dívida documental.

Em síntese, Rodrigues foi mais do que cronista de uma tradição política. Foi construtor de uma infraestrutura de memória sem a qual parte significativa da história operária e anarquista seria hoje inacessível. Estudar criticamente sua obra e preservar os materiais que reuniu constituem tarefas complementares. Ambas afirmam que as lutas por liberdade e igualdade, mesmo derrotadas em determinados momentos, continuam a interpelar o presente e a ampliar o horizonte do possível.

A obra de Edgar Rodrigues permanece importante porque não encerra o passado; ela o transmite como problema e possibilidade. Seus volumes fornecem dados, mas também formulam uma pergunta ética: quem será lembrado e quem será condenado ao anonimato? Responder de modo democrático implica reconhecer que a história pertence igualmente aos que trabalharam, lutaram, educaram, imprimiram, acolheram perseguidos e imaginaram formas livres de vida coletiva.

A preservação de seu legado demanda ações concretas: inventário do acervo, conservação física, digitalização, descrição arquivística, disponibilização pública, edições críticas e formação de pesquisadores. Essas medidas são urgentes porque o tempo material dos documentos não acompanha o tempo lento das instituições, sobretudo burguesas. Cada jornal deteriorado e cada carta perdida reduzem as possibilidades de compreender a experiência dos trabalhadores.

A atualização de seu legado requer ampliar o repertório de sujeitos visíveis. As pistas reunidas por Rodrigues podem orientar estudos sobre mulheres, trabalhadores negros, migrantes e militantes de regiões menos representadas, realizando de modo mais consequente o princípio de que nenhuma pessoa deve ser reduzida ao anonimato.

Essa conclusão possui consequências para a prática da pesquisa. Os dados oferecidos por Rodrigues podem/devem ser confrontados com arquivos públicos, coleções particulares e estudos recentes, mas o confronto precisa reconhecer a assimetria entre quem preservou documentos em condições precárias e quem posteriormente pôde analisá-los com apoio institucional. O rigor científico não se opõe à gratidão intelectual; ele a transforma em citação responsável, crítica transparente e compromisso com a continuidade do acervo.

Liberto Herrera.

REFERÊNCIAS

ADDOR, Carlos Augusto. Um homem vale um homem: memória, história e anarquismo na obra de Edgar Rodrigues. 2012. 404 f. Tese (Doutorado em História) — Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2012. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1387.pdf. Acesso em: 22 jul. 2026.

ALANIZ, Anna Gicelle Garcia. A sementeira de ideias: Edgar Rodrigues, uma vida dedicada à memória anarquista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2009.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 241-252.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 1]. Verve, São Paulo, n. 25, p. 13-29, 2014a. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30683. Acesso em: 22 jul. 2026.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 2]. Verve, São Paulo, n. 26, p. 49-81, 2014b. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30783. Acesso em: 22 jul. 2026.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 7. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

PEREIRA, Adelaide Maria Gonçalves; BRUNO, Allyson. Edgar Rodrigues: dedicação e compromisso social. Trajetos: Revista de História da UFC, Fortaleza, v. 1, n. 2, p. 193-197, 2002. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/17197. Acesso em: 22 jul. 2026.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

RODRIGUES, Edgar. Socialismo e sindicalismo no Brasil: 1675-1913. Rio de Janeiro: Laemmert, 1969.

RODRIGUES, Edgar. Nacionalismo e cultura social: 1913-1922. Rio de Janeiro: Laemmert, 1972.

RODRIGUES, Edgar. Pequena história da imprensa social no Brasil. Florianópolis: Insular, 1997.

RODRIGUES, Edgar. Os companheiros. 5 v. Florianópolis: Insular, 1998.

RODRIGUES, Edgar. Lembranças incompletas. Guarujá: Opúsculo Libertário, 2007.

THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 3 v.

Espanha 1936–2026: O Fogo que a História Não Conseguiu Apagar

Noventa anos. Noventa primaveras desde que a chama da insurreição libertária varreu a Península Ibérica com a força de um furacão consciente. Não se trata de um fóssil histórico para contemplação acadêmica, mas do eco pulsante dos passos das milícias, do rumor ensurdecedor das fábricas autogeridas e do sopro do vento livre sobre os campos outrora cercados de latifúndios. A Revolução Espanhola de 1936 não foi uma simples rebelião; foi o despertar furioso de um povo que, cansado de séculos de grilhões, decidiu com as próprias mãos forjar o seu céu na terra, recusando-se a esperar por salvadores ou messias de gabinete.

Esqueçam as narrativas dos mansos e dos historiadores de serviço. A Espanha daqueles dias provou, com fatos concretos e números irrefutáveis, que os explorados e oprimidos não precisam de patrões, nem de burocratas, nem de tiranos. Em Barcelona, os bondes eram dos trabalhadores; as minas, das comunidades; a terra, de quem a suava com as próprias costas. A produção industrial não apenas se manteve – ela floresceu sob a lógica da solidariedade e da necessidade, destruindo para sempre o mito cínico de que a “natureza humana” é egoísta. Foi a comprovação material, palpável, de que a ordem pode nascer do caos criativo, e que a justiça social é filha legítima da livre associação, não da caridade estatal.

E fizeram tudo isso diante do inferno. Com o fascismo batendo às portas, com a penúria de armas, o bloqueio internacional e a espinha dorsal do mercado capitalista latejando contra eles, os anarquistas não apenas resistiram: construíram. A viabilidade do anarquismo não se provou nos livros de Kropotkin ou Bakunin, mas no fragor da batalha e no suor da jornada de trabalho coletiva. Em Aragão, o sonho libertário tornou-se pão e vinho, distribuídos pela régua da justiça e não pela ganância dos abutres; nas cidades, os comitês de bairro eram escolas vivas de autogoverno, onde cada decisão era debatida, suada e executada horizontalmente. A Revolução mostrou que, mesmo diante da escassez e da guerra, a cooperação vence a competição – e vence produzindo vida, não lucro.

Claro, os dogmáticos de todas as estirpes – os stalinistas que nos apunhalaram pelas costas e os democratas burgueses que nos temeram mais que a Franco – lembram-nos constantemente da derrota militar. Que lembrem. Mas a derrota dos corpos não é a derrota da ideia; a queda de uma experiência histórica não é a falência de um princípio. Se a Revolução foi esmagada pelas balas e pela traição, o legado que nos deixou é indestrutível. Ela provou, diante da história, que existe uma alternativa real à barbárie do Estado e do capital. A lição não está na efemeridade da vitória tática, mas na eternidade do exemplo: quando o povo age por si, sem tutelas ou vanguardas iluminadas, a história se curva – ainda que por um instante glorioso – à vontade coletiva.

Noventa anos depois, enquanto o mundo regurgita as mesmas velhas receitas de exploração, guerras imperialistas e crise ecológica, a Revolução Espanhola permanece como uma estrela-guia do horizonte libertário. Não como um fetiche empoeirado do passado, mas como uma ferramenta viva em nossas mãos, um manual prático de como se organizar sem chefes. Cada greve horizontal, cada ocupação de terra, cada mutirão comunitário e cada movimento autogestionário que brota hoje é a continuidade daquela primavera vermelha e negra. Recordar é reavivar a chama; celebrar os 90 anos é reafirmar, com a certeza de quem já viu o impossível acontecer, que sim, é possível. E mais: é urgentemente necessário.

Liberto Herrera.

Español:

España 1936–2026: El Fuego que la Historia no Pudo Apagar

Noventa años. Noventa primaveras desde que la llama de la insurrección libertaria arrasó la Península Ibérica con la fuerza de un huracán consciente. No se trata de un fósil histórico para la contemplación académica, sino del eco palpitante de los pasos de las milicias, del rumor ensordecedor de las fábricas autogestionadas y del soplo del viento libre sobre los campos antaño cercados de latifundios. La Revolución Española de 1936 no fue una simple rebelión; fue el despertar furioso de un pueblo que, cansado de siglos de cadenas, decidió con sus propias manos forjar su cielo en la tierra, negándose a esperar por salvadores o mesías de despacho.

Olviden las narrativas de los mansos y de los historiadores de turno. La España de aquellos días probó, con hechos concretos y números irrefutables, que los explotados y oprimidos no necesitan de patrones, ni de burócratas, ni de tiranos. En Barcelona, los tranvías eran de los trabajadores; las minas, de las comunidades; la tierra, de quien la trabajaba con el sudor de su propia espalda. La producción industrial no solo se mantuvo – floreció bajo la lógica de la solidaridad y la necesidad, destruyendo para siempre el mito cínico de que la “naturaleza humana” es egoísta. Fue la comprobación material, palpable, de que el orden puede nacer del caos creativo, y de que la justicia social es hija legítima de la libre asociación, no de la caridad estatal.

Y todo lo hicieron frente al infierno. Con el fascismo golpeando las puertas, con la penuria de armas, el bloqueo internacional y la columna vertebral del mercado capitalista latiendo contra ellos, los anarquistas no solo resistieron: construyeron. La viabilidad del anarquismo no se probó en los libros de Kropotkin o Bakunin, sino en el fragor de la batalla y en el sudor de la jornada de trabajo colectiva. En Aragón, el sueño libertario se convirtió en pan y vino, distribuidos por la regla de la justicia y no por la codicia de los buitres; en las ciudades, los comités de barrio eran escuelas vivas de autogobierno, donde cada decisión era debatida, sudada y ejecutada horizontalmente. La Revolución mostró que, incluso ante la escasez y la guerra, la cooperación vence a la competencia – y vence produciendo vida, no lucro.

Claro, los dogmáticos de todas las estirpes – los estalinistas que nos apuñalaron por la espalda y los demócratas burgueses que nos temieron más que a Franco – nos recuerdan constantemente la derrota militar. Que lo recuerden. Pero la derrota de los cuerpos no es la derrota de la idea; la caída de una experiencia histórica no es la quiebra de un principio. Si la Revolución fue aplastada por las balas y la traición, el legado que nos dejó es indestructible. Probó, ante la historia, que existe una alternativa real a la barbarie del Estado y del capital. La lección no está en la fugacidad de la victoria táctica, sino en la eternidad del ejemplo: cuando el pueblo actúa por sí mismo, sin tutelas ni vanguardias iluminadas, la historia se curva – aunque sea por un instante glorioso – ante la voluntad colectiva.

Noventa años después, mientras el mundo regurgita las mismas viejas recetas de explotación, guerras imperialistas y crisis ecológica, la Revolución Española permanece como una estrella-guía del horizonte libertario. No como un fetiche polvoriento del pasado, sino como una herramienta viva en nuestras manos, un manual práctico de cómo organizarse sin jefes. Cada huelga horizontal, cada ocupación de tierra, cada faena comunitaria y cada movimiento autogestionario que brota hoy es la continuidad de aquella primavera roja y negra. Recordar es reavivar la llama; celebrar los 90 años es reafirmar, con la certeza de quien ya vio lo imposible hacerse realidad, que sí, es posible. Y más: es urgentemente necesario.

Liberto Herrera.


English:

Spain 1936–2026: The Fire That History Could Not Extinguish

Ninety years. Ninety springs since the flame of libertarian insurrection swept across the Iberian Peninsula with the force of a conscious hurricane. This is not a historical fossil for academic contemplation, but the pulsating echo of the militias’ footsteps, the deafening hum of self-managed factories, and the breath of free wind over the fields once fenced in by vast estates. The Spanish Revolution of 1936 was not a simple rebellion; it was the furious awakening of a people who, tired of centuries of shackles, decided with their own hands to forge their heaven on earth, refusing to wait for saviors or messiahs from the cabinet.

Forget the narratives of the meek and the official historians. The Spain of those days proved, with concrete facts and irrefutable numbers, that the exploited and oppressed do not need bosses, bureaucrats, or tyrants. In Barcelona, the trams belonged to the workers; the mines, to the communities; the land, to those who worked it with the sweat of their own backs. Industrial production not only held steady – it flourished under the logic of solidarity and necessity, forever destroying the cynical myth that “human nature” is selfish. It was the material, palpable proof that order can be born from creative chaos, and that social justice is the legitimate daughter of free association, not of state charity.

And they did all this in the face of hell. With fascism knocking at the door, with a shortage of weapons, the international blockade, and the backbone of the capitalist market throbbing against them, the anarchists did not merely resist: they built. The viability of anarchism was not proven in the books of Kropotkin or Bakunin, but in the roar of battle and the sweat of the collective workday. In Aragon, the libertarian dream became bread and wine, distributed by the yardstick of justice and not by the greed of vultures; in the cities, neighborhood committees were living schools of self-governance, where every decision was debated, sweated over, and executed horizontally. The Revolution showed that, even in the face of scarcity and war, cooperation defeats competition – and it defeats it by producing life, not profit.

Of course, the dogmatists of all stripes – the Stalinists who stabbed us in the back and the bourgeois democrats who feared us more than they feared Franco – constantly remind us of the military defeat. Let them remember. But the defeat of bodies is not the defeat of the idea; the fall of a historical experiment is not the bankruptcy of a principle. If the Revolution was crushed by bullets and betrayal, the legacy it left us is indestructible. It proved, before history, that there is a real alternative to the barbarism of the State and capital. The lesson does not lie in the transience of tactical victory, but in the eternity of the example: when the people act for themselves, without tutelage or enlightened vanguards, history bows – even if for a glorious instant – to the collective will.

Ninety years later, while the world regurgitates the same old recipes of exploitation, imperialist wars, and ecological crisis, the Spanish Revolution remains a guiding star on the libertarian horizon. Not as a dusty fetish of the past, but as a living tool in our hands, a practical manual on how to organize without bosses. Every horizontal strike, every land occupation, every community collective effort, and every self-managed movement that emerges today is the continuity of that red and black spring. To remember is to rekindle the flame; to celebrate the 90 years is to reaffirm, with the certainty of those who have already seen the impossible happen, that yes, it is possible. And more: it is urgently necessary.

Liberto Herrera.

O 1º de Maio horizontal da UAF e FACA

Companheirxs da União Anarquista Federal (UAF) e da Federação Anarquista Capixaba (FACA), meu punho cerrado e meu coração em chamas vão para vocês neste Primeiro de Maio que ainda ecoa nas ruas!

Enquanto os sindicalistas de mesa e os políticos de gabinete negociavam migalhas nos palanques oficiais, vocês fizeram o que sempre fez a classe que se nega a ser rebanho: desceram aos territórios, sujaram as botas na lama da luta e ocuparam as esquinas com bandeiras negras e vermelhas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, passando por cada cidade de interior onde o giz e a coragem escrevem “propriedade é roubo”, vocês demonstraram que o Primeiro de Maio só tem sentido quando é feito por aqueles que constroem o mundo com as próprias mãos — não por seus patrões ou seus capatazes. Não foi um desfile, foi uma trincheira. E é assim que se forja a revolução: na rua, na fábrica, na escola ocupada, no beco onde a polícia teme entrar.

Quero destacar a decisão acertada de levar a propaganda libertária exatamente para onde ela mais incomoda: os bairros operários, as periferias, os assentamentos, os portões das unidades fabris. Enquanto certas esquerdas se contentam em ocupar apenas as redes digitais ou os palcos institucionais, a UAF e a FACA entenderam que a ideia anarquista só floresce no suor, na fome e na revolta concreta.

Mais de catorze cidades em quatro estados — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia — viram a insurreição silenciosa das assembleias de bairro, das panfletagens relâmpago, das faixas amarradas a viadutos e das rodas de conversa. Em cada roda, em cada palavra, plantou-se a semente do contra-poder: a autogestão, o apoio mútuo, a recusa da representação. Isso é estar entre os explorados e oprimidos — não de cima para baixo, mas lado a lado, ombro a ombro, sem vanguardas nem messias.

O Primeiro de Maio anarquista não é data comemorativa; é data de combate. E a lição que fica, companheirxs, é que não se espera o “momento certo” nem se depende de nenhuma conjuntura favorável. Faz-se a ação direta aqui, agora, com o que se tem. As ações descentralizadas em mais de catorze cidades mostram o poder da horizontalidade: não há centro que comande, nem liderança que decida — há apenas a chama que se espalha por contágio.

Que sirva de exemplo para todxs aqueles que ainda acreditam que o anarquismo é utopia: utopia é acreditar que o Estado vai acabar com a exploração. O que vimos foi a potência real de pessoas comuns — metalúrgicos, professores precarizados, entregadores, estudantes, mães solo, camponeses sem terra — construindo a rebelião no cotidiano. Isso, sim, é a Internacional na prática.

Por fim, um chamado: que este Primeiro de Maio não acabe nunca. Que as rodas da FACA e os núcleos da UAF se multipliquem em cada esquina, cada fábrica, cada latifúndio, cada cozinha comunitária. Que a Bahia, o Espírito Santo, o Rio e Minas sejam apenas o começo. Que venham o Pará, o Ceará, o Rio Grande do Sul, o sertão e a periferia de todas as capitais. O anarquismo não se pede licença para existir. Existimos na fuga da cadeia, na greve selvagem, na ocupação de terra, na escola livre.

Parabéns a todxs que sujaram as mãos de tinta, de piche e de esperança. Sigamos em frente: nem de joelhos diante do patrão, nem de costas para a luta. A revolução é como um incêndio — não se negocia com as chamas. E vocês provaram que o Primeiro de Maio ainda é nosso, inteiramente nosso, sem bandeiras nacionais nem hinos de caserna. Até a vitória e que a terra seja de quem trabalha!

Liberto Herrera, um punho entre muitos.

Español

El 1º de Mayo horizontal de la UAF y la FACA

Compañerxs de la Unión Anarquista Federal (UAF) y de la Federación Anarquista Capixaba (FACA), ¡mi puño cerrado y mi corazón en llamas van para ustedes en este Primero de Mayo que aún resuena en las calles!

Mientras los sindicalistas de mesa y los políticos de despacho negociaban migajas en los palcos oficiales, ustedes hicieron lo que siempre ha hecho la clase que se niega a ser rebaño: bajaron a los territorios, ensuciaron sus botas en el barro de la lucha y ocuparon las esquinas con banderas negras y rojas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, pasando por cada ciudad del interior donde la tiza y el coraje escriben “la propiedad es robo”, demostraron que el Primero de Mayo solo tiene sentido cuando lo hacen aquellos que construyen el mundo con sus propias manos —no sus patrones ni sus capataces. No fue un desfile, fue una trinchera. Y así es como se forja la revolución: en la calle, en la fábrica, en la escuela ocupada, en el callejón donde la policía teme entrar.

Quiero destacar la acertada decisión de llevar la propaganda libertaria exactamente a donde más incomoda: los barrios obreros, las periferias, los asentamientos, las puertas de las fábricas. Mientras ciertas izquierdas se contentan con ocupar solo las redes digitales o los escenarios institucionales, la UAF y la FACA entendieron que la idea anarquista solo florece en el sudor, el hambre y la revuelta concreta.

Más de catorce ciudades en cuatro estados —Minas Gerais, Río de Janeiro, Espírito Santo y Bahía— vieron la insurrección silenciosa de las asambleas de barrio, los panfleteos relámpago, las pancartas atadas a los viaductos y los círculos de conversación. En cada círculo, en cada palabra, se sembró la semilla del contrapoder: la autogestión, el apoyo mutuo, el rechazo de la representación. Eso es estar entre los explotados y oprimidos —no de arriba abajo, sino lado a lado, hombro con hombro, sin vanguardias ni mesías.

El Primero de Mayo anarquista no es fecha conmemorativa; es fecha de combate. Y la lección que queda, compañerxs, es que no se espera el “momento correcto” ni se depende de ninguna coyuntura favorable. Se hace la acción directa aquí, ahora, con lo que se tiene. Las acciones descentralizadas en más de catorce ciudades muestran el poder de la horizontalidad: no hay centro que mande, ni liderazgo que decida —hay solo la llama que se propaga por contagio.

Que sirva de ejemplo para todes aquellos que aún creen que el anarquismo es utopía: utopía es creer que el Estado va a acabar con la explotación. Lo que vimos fue la potencia real de personas comunes —metalúrgicos, docentes precarizados, repartidores, estudiantes, madres solteras, campesinos sin tierra— construyendo la rebelión en lo cotidiano. Eso, sí, es la Internacional en la práctica.

Finalmente, un llamado: que este Primero de Mayo no termine nunca. Que los círculos de la FACA y los núcleos de la UAF se multipliquen en cada esquina, cada fábrica, cada latifundio, cada cocina comunitaria. Que Bahía, Espírito Santo, Río y Minas sean solo el comienzo. Que vengan Pará, Ceará, Río Grande del Sur, el sertón y la periferia de todas las capitales. El anarquismo no pide permiso para existir. Existimos en la fuga de la cárcel, en la huelga salvaje, en la ocupación de tierra, en la escuela libre.

Felicidades a todes que ensuciaron sus manos de tinta, de brea y de esperanza. Sigamos adelante: ni de rodillas ante el patrón, ni de espaldas a la lucha. La revolución es como un incendio —no se negocia con las llamas. Y ustedes demostraron que el Primero de Mayo sigue siendo nuestro, enteramente nuestro, sin banderas nacionales ni himnos de cuartel. ¡Hasta la victoria y que la tierra sea de quien la trabaja!

Liberto Herrera, un puño entre muchos.


English

The Horizontal May 1st of the UAF and FACA

Comrades of the Federal Anarchist Union (UAF) and the Capixaba Anarchist Federation (FACA), my clenched fist and my heart on fire go out to you on this First of May that still echoes in the streets!

While the union bureaucrats and office politicians were negotiating crumbs from official stages, you did what the class that refuses to be livestock has always done: you went down to the territories, muddied your boots in the mire of struggle, and occupied street corners with black and red flags. From Contagem to Vitória, from Cachoeiro de Itapemirim to Salvador, passing through every inland town where chalk and courage write “property is theft,” you demonstrated that May Day only makes sense when it is carried out by those who build the world with their own hands — not by their bosses or their overseers. It was not a parade; it was a trench. And that is how revolution is forged: in the street, in the factory, in the occupied school, in the alley where the police fear to tread.

I want to highlight the wise decision to take libertarian propaganda exactly where it causes the most discomfort: working-class neighborhoods, the peripheries, settlements, the gates of factories. While certain leftists are content with occupying only digital networks or institutional stages, the UAF and FACA understood that the anarchist idea only flourishes in sweat, hunger, and concrete revolt.

More than fourteen cities across four states — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, and Bahia — witnessed the silent insurrection of neighborhood assemblies, lightning leafleting, banners tied to overpasses, and discussion circles. In every circle, in every word, the seed of counter-power was planted: self-management, mutual aid, the rejection of representation. That is what it means to be among the exploited and oppressed — not from above, but side by side, shoulder to shoulder, without vanguards or messiahs.

Anarchist May Day is not a celebratory date; it is a date of combat. And the lesson that remains, comrades, is that one does not wait for the “right moment” nor depend on any favorable conjuncture. One does direct action here, now, with what one has. The decentralized actions in over fourteen cities show the power of horizontality: there is no center that commands, no leadership that decides — there is only the flame that spreads by contagion.

Let this serve as an example to all those who still believe anarchism is a utopia: utopia is believing that the State will end exploitation. What we saw was the real power of ordinary people — metalworkers, precarious teachers, delivery workers, students, single mothers, landless peasants — building rebellion in daily life. That, indeed, is the International in practice.

Finally, a call: may this First of May never end. May FACA’s circles and UAF’s nuclei multiply on every corner, every factory, every large estate, every community kitchen. Let Bahia, Espírito Santo, Rio, and Minas be just the beginning. Let Pará, Ceará, Rio Grande do Sul, the backlands, and the peripheries of all capitals come forth. Anarchism does not ask permission to exist. We exist in the escape from prison, in the wildcat strike, in land occupation, in the free school.

Congratulations to all who dirtied their hands with ink, with pitch, and with hope. Let us move forward: neither on our knees before the boss, nor turning our backs on the struggle. Revolution is like a fire — you do not negotiate with flames. And you have proven that May Day is still ours, entirely ours, without national flags or barrack anthems. Until victory and may the land belong to those who work it!

Liberto Herrera, one fist among many.

Vida precária, punho erguido: organizar ou morrer

Chega.

Chega de esperar o salvador de paletó, o sindicato de mãos dadas com o patrão, o político que vai nos dar a mão enquanto a outra nos apunhala pelas costas. Chega de assistir, de lamentar, de compartilhar artigo de opinião e achar que isso é luta. A passividade é o nosso verdadeiro algoz. Ela é a saliva que lubrifica a guilhotina.

Olhem ao redor. A precarização não é acidente, é projeto. Seu salário que não dá pra carne, seu aluguel que come três quartos do mês, seu tempo de vida trocado por migalhas e um atestado de burnout – tudo arquitetado. As guerras não são loucura de poucos: são negócio. Cada bomba que explode longe é financiada pelos mesmos bancos que te negam crédito, pelos mesmos fundos que compram sua dívida, pelos mesmos governos que nos chamam de “ameaça” quando pegamos numa bandeira negra.

E a decadência burguesa? Olhem para o espetáculo. Celebridades vendendo ansiedade como estilo de vida, influenciadores pregando resiliência pra quem não tem o que comer, uma cultura que transforma desespero em entretenimento. O inimigo não está apenas na fábrica, no quartel ou no palácio. Ele está dentro da nossa cabeça quando acreditamos que “não tem jeito”, que “é assim mesmo”, que o máximo que podemos fazer é votar e rezar.

Mentira.

A resposta não virá de cima. Nunca veio. Virá de nós, dos nossos punhos suados, das nossas costas doloridas, das nossas noites em claro costurando lona para barricada ou imprimindo panfleto na gráfica do companheiro que arrisca o couro. A resposta é luta. E luta sem organização é espasmo.

Por isso, para o Primeiro de Maio de 2026, não quero ver bandeira institucional hasteada por burocrata de gravata. Quero ver assembleia no bairro, piquete na porta do armazém que explora, greve geral começando às 6h da manhã. Quero ver o trabalho parado, a produção interrompida, o silêncio ensurdecedor das máquinas que só se calam quando nós mandamos. Quero ver os precarizados – entregadores, terceirizados, intermitentes, os “sem-direitos” – descobrindo que o poder está na rua, não no aplicativo.

Organização não é burocracia. É reconhecer o companheiro do lado, saber em quem confiar quando o gás lacrimogêneo descer. É ter um plano, um fundo de resistência, uma gráfica, um telégrafo humano. É aprender com os que vieram antes – os anarquistas que tombaram nas fábricas, nos campos, nas guerras civis – e aplicar ao nosso tempo. O inimigo tem inteligência artificial e satélite. Nós temos o que ele nunca terá: a certeza de que a terra é de quem nela põe os pés e o suor.

1º de Maio de 2026: vamos parar o mundo. Não com pedido, não com abaixo-assinado, não com marcha light autorizada pela prefeitura. Vamos parar com ação direta. O dia em que nenhum caminhão circular, nenhum lixo for coletado, nenhuma aula for dada, nenhum prato for lavado no restaurante. O dia em que a burguesia olhar pela janela e ouvir o silêncio da produção parada – o barulho mais aterrorizante que existe pra quem vive de explorar.

A precarização da vida só vence quando aceitamos migalhas em troca de sossego. As guerras só continuam enquanto a classe trabalhadora se mata entre si por bandeirinhas. A decadência só é suportável enquanto nos anestesiamos com consumo e futilidade.

Nosso grito não é por “inclusão” no sistema. Nosso grito é pelo fim do sistema.

Organizar ou ser aniquilado. Lutar ou apodrecer.

Dia 1º de Maio de 2026, a terra treme. E não será terremoto. Serão nossas botas no asfalto.

Vidas precárias, nenhum minuto a mais de passividade. Às ruas, companheiros. O futuro não espera – ele se toma.

Liberto Herrera.

Español:

Vida precaria, puño en alto: organizarse o morir

Basta.

Basta de esperar al salvador de corbata, al sindicato de manos dadas con el patrón, al político que nos dará la mano mientras la otra nos apuñala por la espalda. Basta de mirar, de lamentarse, de compartir artículos de opinión y creer que eso es lucha. La pasividad es nuestra verdadera verdugo. Es la saliva que lubrica la guillotina.

Miren a su alrededor. La precarización no es un accidente, es un proyecto. Su salario que no alcanza para carne, su alquiler que devora tres cuartas partes del mes, su tiempo de vida cambiado por migajas y un certificado de agotamiento laboral: todo diseñado. Las guerras no son locura de unos pocos: son negocio. Cada bomba que estalla lejos es financiada por los mismos bancos que le niegan crédito, por los mismos fondos que compran su deuda, por los mismos gobiernos que nos llaman “amenaza” cuando empuñamos una bandera negra.

¿Y la decadencia burguesa? Miren el espectáculo. Celebridades vendiendo ansiedad como estilo de vida, influencers predicando resiliencia para quien no tiene qué comer, una cultura que transforma la desesperación en entretenimiento. El enemigo no está solo en la fábrica, en el cuartel o en el palacio. Está dentro de nuestra cabeza cuando creemos que “no hay solución”, que “es así nomás”, que lo máximo que podemos hacer es votar y rezar.

Mentira.

La respuesta no vendrá de arriba. Nunca vino. Vendrá de nosotros, de nuestros puños sudados, de nuestras espaldas doloridas, de nuestras noches en vela cosiendo lona para la barricada o imprimiendo panfletos en la gráfica del compañero que arriesga el pellejo. La respuesta es lucha. Y lucha sin organización es espasmo.

Por eso, para el Primero de Mayo de 2026, no quiero ver bandera institucional izada por burócratas de corbata. Quiero ver asamblea en el barrio, piquete en la puerta del depósito que explota, huelga general empezando a las 6 de la mañana. Quiero ver el trabajo parado, la producción interrumpida, el silencio ensordecedor de las máquinas que solo callan cuando nosotros lo ordenamos. Quiero ver a los precarizados —repartidores, tercerizados, intermitentes, los “sin derechos”— descubriendo que el poder está en la calle, no en la aplicación.

Organización no es burocracia. Es reconocer al compañero de al lado, saber en quién confiar cuando el gas lacrimógeno baje. Es tener un plan, un fondo de resistencia, una imprenta, un telégrafo humano. Es aprender de los que vinieron antes —los anarquistas que cayeron en las fábricas, en los campos, en las guerras civiles— y aplicarlo a nuestro tiempo. El enemigo tiene inteligencia artificial y satélites. Nosotros tenemos lo que él nunca tendrá: la certeza de que la tierra es de quien pone los pies y el sudor en ella.

1º de Mayo de 2026: vamos a parar el mundo. No con un pedido, no con una petición de firmas, no con una marcha light autorizada por la alcaldía. Vamos a pararlo con acción directa. El día en que ningún camión circule, ninguna basura sea recolectada, ninguna clase sea dada, ningún plato sea lavado en el restaurante. El día en que la burguesía mire por la ventana y escuche el silencio de la producción detenida —el ruido más aterrador que existe para quien vive de explotar.

La precarización de la vida solo vence cuando aceptamos migajas a cambio de tranquilidad. Las guerras solo continúan mientras la clase trabajadora se mata entre sí por banderitas. La decadencia solo es soportable mientras nos anestesian con consumo y frivolidad.

Nuestro grito no es por “inclusión” en el sistema. Nuestro grito es por el fin del sistema.

Organizarse o ser aniquilados. Luchar o pudrirse.

Día 1º de Mayo de 2026, la tierra tiembla. Y no será un terremoto. Serán nuestras botas sobre el asfalto.

Vidas precarias, ni un minuto más de pasividad. ¡A las calles, compañeros! El futuro no espera — se toma.

Liberto Herrera.

English:

Precarious life, fist raised: organize or die

Enough.

Enough of waiting for the savior in a tie, the union hand in hand with the boss, the politician who offers a hand while stabbing us in the back with the other. Enough of watching, lamenting, sharing opinion pieces and calling that struggle. Passivity is our true executioner. It is the saliva that greases the guillotine.

Look around. Precarization is not an accident – it’s a project. Your wage that won’t buy meat, your rent that eats three-quarters of your month, your lifetime traded for crumbs and a burnout certificate – all of it designed. Wars are not the madness of a few: they are business. Every bomb that explodes far away is financed by the same banks that deny you credit, by the same funds that buy your debt, by the same governments that call us a “threat” when we raise the black flag.

And bourgeois decadence? Look at the spectacle. Celebrities selling anxiety as a lifestyle, influencers preaching resilience to those with nothing to eat, a culture that turns despair into entertainment. The enemy is not only in the factory, the barracks, or the palace. He is inside our heads when we believe that “there’s no way out”, that “that’s just how it is”, that the most we can do is vote and pray.

Lie.

The answer will not come from above. It never has. It will come from us, from our sweaty fists, from our aching backs, from our sleepless nights sewing tarp for the barricade or printing flyers at the comrade’s shop who risks their hide. The answer is struggle. And struggle without organization is a mere spasm.

That is why, for May Day 2026, I don’t want to see an institutional flag raised by bureaucrats in ties. I want to see a neighborhood assembly, a picket line at the door of the warehouse that exploits, a general strike starting at 6 AM. I want to see work stopped, production halted, the deafening silence of machines that only shut up when we command them. I want to see the precarious workers – delivery drivers, outsourced workers, gig workers, the “rightless” – discovering that power lies in the street, not in the app.

Organization is not bureaucracy. It is recognizing the comrade next to you, knowing who to trust when the tear gas comes down. It is having a plan, a solidarity fund, a printing press, a human telegraph. It is learning from those who came before – the anarchists who fell in factories, in fields, in civil wars – and applying it to our own time. The enemy has artificial intelligence and satellites. We have what he will never have: the certainty that the land belongs to those who put their feet and sweat on it.

May 1st, 2026: we will stop the world. Not with a request, not with a petition, not with a police-approved march. We will stop it with direct action. The day when no truck moves, no trash is collected, no class is taught, no dish is washed in the restaurant. The day when the bourgeoisie looks out the window and hears the silence of halted production – the most terrifying sound that exists for those who live by exploitation.

The precarization of life only wins when we accept crumbs in exchange for quiet. Wars only continue while the working class kills each other over little flags. Decadence is only bearable as long as we are numbed with consumption and frivolity.

Our cry is not for “inclusion” in the system. Our cry is for the end of the system.

Organize or be annihilated. Fight or rot.

May Day 2026, the earth shakes. And it will not be an earthquake. It will be our boots on the asphalt.

Precarious lives, not one more minute of passivity. To the streets, comrades. The future does not wait – it is taken.

Liberto Herrera.


Agir hoje para não obedecer amanhã: a força cotidiana da autonomia

A autonomia não é uma promessa distante, uma miragem que surgirá no horizonte depois da revolução. Ela se faz no suor do agora, no gesto cotidiano de recusar as amarras que nos sufocam. Enquanto muitos se perdem na ilusão de que a transformação social é um evento futuro — uma grande noite em que, finalmente, tomaremos o poder —, nós, anarquistas, sabemos que o amanhã é moldado pelas mãos que ousam construir hoje. A autonomia não é herança que se recebe; é conquista que se tece na desobediência de cada instante. Esperar é consentir. Agir é existir.

A história nos mostra que as mudanças radicais nunca foram decretadas de cima para baixo, mas brotaram das trincheiras da vida real. As fábricas recuperadas, os hortos comunitários, as escolas livres, as redes de apoio mútuo: todas essas sementes de emancipação não aguardaram a permissão de um Estado ou a data marcada por uma vanguarda. Elas surgiram quando pessoas comuns, cansadas da espera, disseram “basta” e estenderam as mãos para construir o novo sob os escombros do velho. É nesse terreno — áspero, imediato, imperfeito — que a autonomia deixa de ser ideia e se torna força viva.

Dizer que agimos “enquanto esperamos” a grande transformação é um contrassenso perigoso. É justamente o contrário: são as práticas autônomas de hoje que forjam a subjetividade rebelde de amanhã. Se nos acostumamos a delegar, a obedecer, a adiar a nossa potência, estaremos apenas reproduzindo dentro do movimento a mesma lógica de dominação que dizemos combater. A autonomia não é um ponto de chegada; é um método. Cada vez que decidimos coletivamente sobre nossas vidas, cada vez que rompemos com a lógica do consumo e da hierarquia, estamos antecipando o mundo que queremos ver. E nessa antecipação, criamos as condições materiais e subjetivas que tornam a revolução não apenas possível, mas inevitável.

Acreditar que a liberdade plena só virá depois de uma “tomada do poder” é cair na armadilha do pensamento autoritário. Para o anarquismo, os meios e os fins são indissociáveis. Se usamos meios autoritários, hierárquicos ou adiamos a liberdade para um futuro incerto, jamais chegaremos a um resultado libertário. Por isso, a construção da autonomia é uma militância de todos os dias. É no presente que forjamos a confiança mútua, a solidariedade concreta e a capacidade de autogestão. É agora que ensaiamos, erramos, aprendemos e fortalacemos os laços que farão frente ao leviatã quando ele tremer.

Não há transformação social sem sujeitos transformados, e esses sujeitos não nascem da noite para o dia. Eles são forjados na prática incessante da autonomia: na vizinha que organiza com as outras a segurança do beco contra a violência policial, no coletivo que ocupa um prédio abandonado e decide em assembleia os rumos da moradia, nos trabalhadores que retomam os meios de produção sem pedir licença ao patrão. Cada ato de recusa e criação é uma célula do novo mundo. E quanto mais células formamos, mais o corpo social adoece de liberdade, até que a estrutura do poder já não tenha onde se sustentar.

Portanto, camaradas, deixemos de lado a ansiedade pelo “grande dia” e concentremos nossa fúria criadora no que podemos fazer com as mãos, agora, neste chão que pisamos. A autonomia não é um prêmio para os que souberem esperar; é uma ferramenta para os que se recusam a esperar. Cada hora vivida em autogestão é uma hora de revolução real. Cada laço horizontal que tecemos é uma derrota para a lógica da dominação. Não construímos autonomia para a revolução: construímos autonomia como a própria revolução em movimento. O amanhã que queremos já começou — e começa agora, na coragem de quem decide ser, hoje, o agente da sua própria vida.

Liberto Herrera.

ESPAÑOL:

Actuar hoy para no obedecer mañana: la fuerza cotidiana de la autonomía

La autonomía no es una promesa lejana, un espejismo que aparecerá en el horizonte después de la revolución. Se forja en el sudor del ahora, en el gesto cotidiano de rechazar las cadenas que nos asfixian. Mientras muchos se pierden en la ilusión de que la transformación social es un evento futuro —una gran noche en la que, finalmente, tomaremos el poder—, nosotros, los anarquistas, sabemos que el mañana se moldea con las manos que se atreven a construir hoy. La autonomía no es herencia que se recibe; es conquista que se teje en la desobediencia de cada instante. Esperar es consentir. Actuar es existir.

La historia nos muestra que los cambios radicales nunca fueron decretados desde arriba, sino que brotaron de las trincheras de la vida real. Las fábricas recuperadas, las huertas comunitarias, las escuelas libres, las redes de apoyo mutuo: todas esas semillas de emancipación no esperaron el permiso de un Estado ni la fecha marcada por una vanguardia. Surgieron cuando personas comunes, hartas de esperar, dijeron “basta” y tendieron las manos para construir lo nuevo sobre los escombros de lo viejo. Es en ese terreno —áspero, inmediato, imperfecto— donde la autonomía deja de ser idea y se convierte en fuerza viva.

Decir que actuamos “mientras esperamos” la gran transformación es un contrasentido peligroso. Es justamente al revés: son las prácticas autónomas de hoy las que forjan la subjetividad rebelde de mañana. Si nos acostumbramos a delegar, a obedecer, a aplazar nuestra potencia, estaremos reproduciendo dentro del movimiento la misma lógica de dominación que decimos combatir. La autonomía no es un punto de llegada; es un método. Cada vez que decidimos colectivamente sobre nuestras vidas, cada vez que rompemos con la lógica del consumo y la jerarquía, estamos anticipando el mundo que queremos ver. Y en esa anticipación, creamos las condiciones materiales y subjetivas que hacen que la revolución no solo sea posible, sino inevitable.

Creer que la libertad plena solo llegará después de una “toma del poder” es caer en la trampa del pensamiento autoritario. Para el anarquismo, los medios y los fines son indisociables. Si usamos medios autoritarios, jerárquicos o aplazamos la libertad para un futuro incierto, jamás alcanzaremos un resultado libertario. Por eso, la construcción de la autonomía es una militancia de cada día. Es en el presente donde forjamos la confianza mutua, la solidaridad concreta y la capacidad de autogestión. Es ahora donde ensayamos, erramos, aprendemos y fortalecemos los lazos que harán frente al Leviatán cuando este tiemble.

No hay transformación social sin sujetos transformados, y esos sujetos no nacen de la noche a la mañana. Se forjan en la práctica incesante de la autonomía: en la vecina que organiza con otras la seguridad del callejón contra la violencia policial, en el colectivo que ocupa un edificio abandonado y decide en asamblea los rumbos de la vivienda, en los trabajadores que retoman los medios de producción sin pedir permiso al patrón. Cada acto de rechazo y creación es una célula del mundo nuevo. Y cuantas más células formamos, más enferma el cuerpo social de libertad, hasta que la estructura del poder ya no tiene dónde sostenerse.

Por tanto, camaradas, dejemos de lado la ansiedad por el “gran día” y concentremos nuestra furia creadora en lo que podemos hacer con las manos, ahora, en este suelo que pisamos. La autonomía no es un premio para quienes saben esperar; es una herramienta para quienes se niegan a esperar. Cada hora vivida en autogestión es una hora de revolución real. Cada lazo horizontal que tejemos es una derrota para la lógica de la dominación. No construimos autonomía para la revolución: construimos autonomía como la propia revolución en movimiento. El mañana que queremos ya comenzó —y comienza ahora, en la valentía de quien decide ser, hoy, el agente de su propia vida.

Liberto Herrera.

ENGLISH:

Act today so as not to obey tomorrow: the everyday force of autonomy

Autonomy is not a distant promise, a mirage that will appear on the horizon after the revolution. It is forged in the sweat of the now, in the everyday gesture of refusing the chains that suffocate us. While many get lost in the illusion that social transformation is a future event—a great night when we will finally seize power—we anarchists know that tomorrow is shaped by the hands that dare to build today. Autonomy is not an inheritance to be received; it is a conquest woven through the disobedience of every moment. To wait is to consent. To act is to exist.

History shows us that radical changes have never been decreed from above; they have sprung from the trenches of real life. Reclaimed factories, community gardens, free schools, mutual aid networks: all these seeds of emancipation did not wait for permission from a state or a date set by a vanguard. They arose when ordinary people, tired of waiting, said “enough” and reached out their hands to build the new upon the ruins of the old. It is on this ground—rough, immediate, imperfect—that autonomy ceases to be an idea and becomes a living force.

To say that we act “while we wait” for the great transformation is a dangerous contradiction. It is precisely the opposite: it is today’s autonomous practices that forge the rebellious subjectivity of tomorrow. If we become accustomed to delegating, obeying, postponing our power, we will be reproducing within the movement the very logic of domination we claim to fight. Autonomy is not a destination; it is a method. Every time we make collective decisions about our lives, every time we break with the logic of consumption and hierarchy, we are anticipating the world we want to see. And in that anticipation, we create the material and subjective conditions that make revolution not only possible, but inevitable.

Believing that full freedom will only come after a “seizure of power” is to fall into the trap of authoritarian thinking. For anarchism, means and ends are inseparable. If we use authoritarian, hierarchical means or postpone freedom for an uncertain future, we will never achieve a libertarian outcome. That is why the construction of autonomy is a day‑to‑day militancy. It is in the present that we forge mutual trust, concrete solidarity, and the capacity for self‑management. It is now that we rehearse, err, learn, and strengthen the bonds that will stand up to Leviathan when it trembles.

There is no social transformation without transformed subjects, and such subjects are not born overnight. They are forged in the relentless practice of autonomy: in the neighbor who organizes with others to secure the alley against police violence, in the collective that occupies an abandoned building and decides by assembly the direction of housing, in the workers who take back the means of production without asking the boss for permission. Every act of refusal and creation is a cell of the new world. And the more cells we form, the more the social body sickens with freedom, until the structure of power has no ground left to stand on.

Therefore, comrades, let us set aside the anxiety for the “great day” and focus our creative fury on what we can do with our hands, now, on this ground we stand on. Autonomy is not a prize for those who know how to wait; it is a tool for those who refuse to wait. Every hour lived in self‑management is an hour of real revolution. Every horizontal bond we weave is a defeat for the logic of domination. We do not build autonomy for the revolution: we build autonomy as the revolution itself in motion. The tomorrow we want has already begun—and it begins now, in the courage of those who decide to be, today, the agents of their own lives.

Liberto Herrera.

Desconstruindo Altares: Por um Anarquismo Sem Gurus e Sem Compromissos com o Poder

A figura do guru, do intelectual estrela ou do “companheiro de luta” celebridade é um veneno que corrói pela raiz os princípios do anarquismo. O caso exposto sobre Noam Chomsky é a prova cabal e vergonhosa dessa contradição. Aqui temos um homem celebrado por setores do movimento como um farol libertário, enquanto na prática cavava relações privilegiadas com bilionários como Epstein, acumulava uma fortuna milionária sob a gestão dessa mesma elite que diz combater e usava sua influência para defender o indefensável, de negacionistas a regimes autoritários de esquerda. Isso não é um deslize; é a marca registrada de quem opera dentro da lógica do poder, não contra ela. O anarquismo não precisa de heróis em pedestais, precisa de coerência nas trincheiras.

A adulação a celebridades como Chomsky revela uma preguiça intelectual e uma submissão psicológica profundamente anti-libertárias. Em vez de construirmos coletivamente nossas análises a partir das lutas concretas, corremos o risco de delegar o pensamento crítico a uma figura supostamente iluminada. Passamos a seguir frases de efeito, a repetir chavões e a justificar, por lealdade cega a um nome, contradições inadmissíveis. Como pode um movimento que prega a autogestão e a desconfiança do poder constituído cair na armadilha de criar seus próprios ídolos? Cada guru que erguemos é um passo atrás na longa marcha pela emancipação total.

O anti-imperialismo de salão, aquele que faz vista grossa às ditaduras “do lado de cá” em nome de combater o Império, é uma doença oportunista que Chomsky exemplifica tragicamente. Solidariedade seletiva não é solidariedade, é realpolitik disfarçada de radicalismo. Enquanto, por exemplo, silenciava sobre a perseguição brutal a dissidentes cubanos na “Primavera Negra”, sua voz era alta para defender figuras abjetas na Europa. Essa dupla moral revela que, para alguns, a causa libertária é um palco para performance, não um compromisso inquebrantável com os oprimidos, sem asteriscos nem exceções convenientes.

A relação com Jeffrey Epstein é a face mais nua e repugnante dessa capitulação. Não se trata apenas de uma “má escolha” de assessor financeiro. Trata-se da normalização, pelo apoio pessoal e pela minimização dos crimes, de um monstro que representa o ápice da depravação patriarcal e capitalista. O que diz sobre um “anarquista” que, diante de acusações de tráfico sexual infantil, responde com preocupação sobre o “tratamento pela imprensa” do seu amigo bilionário? Diz tudo. Diz que os laços de classe e de privilégio, no fim, falaram mais alto que qualquer princípio.

Portanto, é hora de uma limpeza ética radical em nossos círculos. Anarquismo não é um clube de fãs, nem uma marca que precisa de embaixadores famosos. É uma prática diária de horizontalidade, de apoio mútuo e de confronto direto com todas as hierarquias. Nossas referências devem ser os coletivos em luta, os movimentos de base, as pessoas comuns que organizam a raiva e a esperança no cotidiano, não os professores renomados que negociam com o diabo nos corredores do poder. A confiança deve estar dispersa, nunca concentrada em um único nome.

Que o caso Chomsky sirva como lição final: nenhum ícone é insubstituível, e nenhuma celebridade está imune à corrupção do sistema que diz combater. Nossa força reside na nossa capacidade de pensar e agir por nós mesmos, coletivamente, sem intermediários e sem pastores. Desfaçamos os altares, queimemos os livros sagrados de autores intocáveis e sigamos em frente, com os pés no chão da luta e os olhos voltados para um horizonte sem ídolos, onde a liberdade de cada um seja obra de todos. Nem líderes, nem gurus, nem mestres. Apenas companheirismo solidário e crítica permanente. 

Liberto Herrera.

Nem Washington nem Pequim: A Ilusão de Trocar de Carcereiro

Em um grupo do qual participo, solicitaram minha opinião sobre o embate entre Estados Unidos x China, questionando se a ascensão do Dragão não seria um golpe fatal no imperialismo ianque e uma aurora de maior liberdade para os povos oprimidos. Minha resposta é um retumbante e claro NÃO. Irmãs e irmãos, não se deixem enganar pela farsa geopolítica! Não passamos de espectadores de uma troca de guardas na mesma prisão. A queda de um carcereiro não significa a libertação dos presos; significa apenas que um novo algoz, talvez mais eficiente e implacável, assume o controle das chaves.

A China não é o antídoto para o veneno estadunidense; é meramente uma dose mais concentrada do mesmo veneno, disfarçada sob a roupagem de “comunismo” e “harmonia”. Seu modelo de capitalismo de vigilância de Estado, combinando exploração hiper-capitalista com um controle social orwelliano, não é uma alternativa ao imperialismo, mas a sua evolução mais perversa. O que vemos não é o fim da dominação, mas a sua modernização: as correntes do novo senhor não são menos pesadas, apenas são digitais, feitas de reconhecimento facial, crédito social e uma teia de dívidas que amarra o Sul Global num novo tipo de colonialismo. Por exemplo, a tal “Nova Rota da Seda” não é pensada para a solidariedade internacional; é a construção de uma nova espinha dorsal para a extração de riqueza, substituindo o FMI pelo Banco de Desenvolvimento da China, mas mantendo intacta a lógica de subjugação.

Portanto, camaradas, não celebrem esta mudança no topo da pirâmide. É uma ilusão perigosa acreditar que um Leviatã é preferível a outro. O imperialismo não é uma característica exclusiva de uma bandeira ou ideologia; é a manifestação lógica e poderosíssima do Estado e do Capital em sua busca infinita por expansão e controle. Trocar um dominador por outro não abala as fundações do cárcere hierárquico em que vivemos. Nossa luta não é para ver quem ocupa o trono, mas para DESTRUIR o trono e todos os que desejam se assentar nele.

Esta conjuntura de tensão, no entanto, não é de todo ruim. É precisamente nas fissuras criadas pelo choque entre estes dois titãs que nós, anarquistas, encontramos nossa oportunidade. Enquanto os Estados se digladiam pelo domínio global, sua atenção é desviada, seu controle sobre os territórios periféricos pode se fragilizar e brechas se abrem. Nossa tarefa é ocupar estas brechas! Devemos transformar a retórica vazia deles em nossa ação direta: organizar sindicatos autônomos nas fábricas, ocupar terras, criar comunidades de apoio mútuo, erguer barricadas contra a repressão de QUALQUER Estado. Nossa agitação deve expor a farsa dos dois lados e mostrar que a única luta válida é a luta pela libertação total, horizontal e federalista.

Dessa forma, não nos importa quem vencer esta batalha de gigantes. Nosso campo é o do povo em luta, contra todos os senhores. Aproveitemos a crise de hegemonia para semear o caos criativo da Anarquia. Enquanto eles disputam o mundo, nós o construiremos nas ruínas do seu poder. Nossa resposta ao embate imperialista não deve ser torcer por um lado, mas intensificar o ataque contra ambos, transformando nosso ideal em movimentos, ações e agitações que preparem o terreno para um mundo verdadeiramente livre, sem mestres nem imperadores. A luta continua, e ela é contra TODOS os Estados!

Liberto Herrera*.

*Texto escrito e publicado em outubro de 2025.

Honremos Octavio Alberola com Luta e Revolução!

Camaradas, a morte do companheiro Octavio Alberola (1928-2025) não é apenas a partida de um velho militante, mas um chamado à ação para nossa geração. Seu legado nos ensina que o anarquismo não é teoria morta, mas prática incendiária contra o Capital e o Estado. Desde as ruas de San Sebastián até as prisões da França, Alberola mostrou que a ética libertária se constrói na luta direta, sem concessões. Hoje, quando o fascismo ressurge disfarçado de democracia, quando o imperialismo esmaga Gaza, quando o Estado brasileiro massacra favelas e o capital chinês escraviza trabalhadores, só há uma resposta possível: organização, rebeldia e ação. A memória do companheiro não se honra com discursos, mas com fogo revolucionário nas veias!

Alberola nos deixou uma lição clara: o anarquismo que não confronta o poder é traição. Ele não hesitou em atacar Franco, sequestrar fascistas ou desafiar prisões, porque sabia que a liberdade não se negocia. Enquanto reformistas pedem “paciência histórica” e partidos de esquerda burocratizam a revolta, nós, anarquistas, devemos radicalizar as ruas. Seja nas ocupações gregas contra a austeridade, nos levantes populares no Brasil, nas greves selvagens na China ou na resistência palestina, nossa tarefa é desmantelar o Estado onde ele se erguer. Alberola não fugiu da luta — e nós também não podemos!

A história não perdoará os covardes. O capitalismo avança com genocídios, ecocídios e precarização global, e só a ação direta pode detê-lo. Alberola sabia que explosivos simbólicos, greves gerais e solidariedade internacional eram armas mais poderosas que votos ou petições. No Brasil, onde milícias e latifúndio reinam, na Grécia onde a polícia espanca imigrantes, na China onde sindicatos são ilegais e em Gaza onde o sionismo pratica limpeza étnica, a resposta é a mesma: autogestão, apoio mútuo e insurreição. Não há “transição pacífica” possível — só a ruptura!

O reformismo é a morte da revolução. Alberola rejeitou a “Reconciliação Nacional” espanhola porque entendia que pactos com o Estado são derrotas. Hoje, quando falsas esquerdas nos pedem para confiar em governos “progressistas”, devemos lembrar: Lula prende anarquistas, o Syriza entregou a Grécia aos bancos, e na China o PCC esmaga qualquer dissidência. Nossa luta é contra todo poder, sem ilusões. Diversos exemplos históricos mostram o caminho: autodefesa, horizontalidade e internacionalismo. Alberola vive nesses combates!

Camaradas, o século XXI será anarquista ou não será. Octavio Alberola partiu, mas seu espírito incendia cada ocupação, cada barricada, cada gesto de rebeldia. Não o honraremos com velas, mas com pólvora. Não com lamentos, mas com organização popular nos bairros, nas fábricas, nos campos. Do Brasil à Palestina, ergamos a bandeira negra e vermelha da revolução social. Como Alberola gritou até o fim: “Ni Dios, ni Patrón, ni Estado!” A luta continua — e a vitória será nossa!

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em agosto de 2025.