A Fúria Necessária

Não vos venho trazer flores nem ilusões. Venho falar da verdade que muitos camaradas preferem adoçar para não assustar os recém-chegados: a repressão não é um acidente de percurso na luta anarquista; ela é a sua sombra inevitável, o eco metálico que a nossa ação provoca nas engrenagens do Leviatã. Quem sonha com uma revolução sem cicatrizes, sem sangue e sem cadeias, está a sonhar com uma aventura ou uma festa, não com a destruição da ordem burguesa. A tese que vos trago é dura, mas necessária: a repressão é inerente à nossa luta porque o poder não cede o seu espólio sem violência; ainda assim, mesmo que o terreno esteja minado, mesmo que as probabilidades sejam de aniquilamento, a luta deve prosseguir por todos os meios possíveis. A tensão entre a ordem burguesa e o mundo novo que carregamos em nossas entranhas não é um mal-entendido que se resolva com diálogos de salão; é um antagonismo ontológico, uma contradição irreconciliável. E é precisamente da superação violenta e radical dessa ordem que a vitória libertária há de surgir — o que, por sua vez, nos conduz, inexoravelmente, de volta ao fogo da resistência.

Comecemos pelo óbvio que os acadêmicos e os reformistas se recusam a ver: o Estado burguês não é uma entidade neutra, um mero árbitro de conflitos sociais. Ele é a comissão executiva dos exploradores, o guarda-costas armado da propriedade privada e das hierarquias que dela emanam. A sua essência é a coerção monopolizada. A lei que ele aplica não é a justiça; é a codificação da espoliação. Quando nos organizamos em conselhos livres, quando ocupamos terras e fábricas, quando recusamos a obediência e a servidão voluntária, não estamos a fazer um pedido de mudança; estamos a desferir um golpe na própria base de sua legitimidade. A reação do Estado a esse golpe não pode ser outra senão a repressão. Não é um “risco” calculado; é uma certeza física, como a queda de um corpo. A história está repleta de exemplos — desde a Comuna de Paris, afogada em sangue, até a Ucrânia Livre, esmagada pelo exército vermelho e pelos brancos; desde os mártires de Chicago até as celas de prisão que abrigam os camaradas de hoje. A repressão não é o “preço” a pagar; ela é a resposta natural do sistema à nossa existência.

Neste ponto, muitos se acovardam. Dizem: “O terreno é desfavorável. A burguesia está fortalecida. O proletariado está atomizado. Esperemos o momento oportuno.” Que covardia disfarçada de pragmatismo! Quando, pergunto eu, o terreno foi favorável para os oprimidos? Quando é que os donos do mundo se sentaram à mesa e disseram: “Agora estamos frágeis, podem atacar”? O terreno desfavorável é o único terreno que a classe trabalhadora conhece. A fábrica é desfavorável, a mina é desfavorável, o gueto é desfavorável. A história não é uma escada rolante que nos leva suavemente à liberdade; é um abismo que só se transpõe com um salto — e o salto exige pernas fortes, mesmo que o chão trema. Esperar por condições ideais é esperar pela morte da nossa própria iniciativa. É entregar ao inimigo o monopólio do tempo. A luta não se faz quando a vitória é certa; faz-se porque a vitória precisa ser conquistada, e a única maneira de torná-la possível é travá-la, agora, com as ferramentas que temos, mesmo que sejam apenas as nossas mãos nuas e a nossa vontade inquebrantável.

Agora, detenhamo-nos sobre essa tensão inevitável. O que é a ordem burguesa senão um sistema de mediações hierárquicas — o patrão sobre o operário, o homem sobre a mulher, o branco sobre o negro, o burocrata sobre o cidadão? É uma teia de comandos e obediências que se reproduz diariamente nas escolas, nas igrejas, nos quartéis e nos parlamentos. O anarquismo, em sua essência, é a negação absoluta dessa mediação. Nós não queremos reformar a cadeia, queremos quebrá-la. Não queremos um patrão mais humano, queremos a autogestão. Não queremos um Estado mais paternalista, queremos a federação livre de comunas. Essa negação não é uma abstração filosófica; ela se traduz em atos concretos: a desobediência, a greve selvagem, a sabotagem, a expropriação. Cada um desses atos colide frontalmente com o código penal burguês, com a sua polícia e com os seus exércitos. A tensão, portanto, é uma guerra de movimento perpétuo.

E é nesse embate, nessa dialética violenta, que reside a nossa esperança. Porque a superação da ordem burguesa não virá de um voto, nem de uma declaração da ONU, nem de um manifesto pacífico que pede gentilmente que os opressores se convertam. A superação virá da crise, do choque, do momento em que a repressão do Estado se torna tão brutal, tão descarnada, que o véu da legalidade se rasga e as massas veem o tigre por trás da máscara. É a repressão que educa as massas na escola da necessidade. É a violência policial que radicaliza o operário moderado. É a prisão do militante que inspira a rebelião da vizinhança. Nesse sentido, a repressão é uma faca de dois gumes: o inimigo a usa para nos imolar, mas nós a usamos como uma forja que tempera a nossa determinação e revela a verdadeira face do poder. Quanto mais o Estado aperta o cerco, mais ele demonstra que não tem argumentos, apenas balas. E quando uma estrutura só tem balas para oferecer, a sua queda é apenas uma questão de tempo e de fúria acumulada.

Mas atenção: essa vitória libertária, que emerge da superação da ordem, não é um ponto de chegada estático, um paraíso onde os problemas se dissolvem. Ela é um processo contínuo de auto-emancipação. E é precisamente por isso que a luta, e todos os meios possíveis para travá-la, se tornam a categoria central da nossa existência. Defender que a luta deve prosseguir “por todos os meios possíveis” não é um apelo cego à violência; é o reconhecimento de que, numa guerra de extermínio contra a nossa humanidade, temos o direito moral e histórico de usar todas as armas disponíveis. Se o Estado usa a leis para nos prender, usemos a ilegalidade para expropriar o que foi roubado. Se o Estado usa a mídia para mentir, usemos a palavra impressa e a ação direta para desmascarar. Se o Estado usa as balas, usemos as barricadas. A ética do oprimido não pode ser a ética do opressor. Enquanto eles têm a propriedade, nós temos a fome; enquanto eles têm o exército, nós temos o número; enquanto eles têm a tecnologia da vigilância, nós temos a solidariedade orgânica das ruas. A luta por todos os meios significa utilizar a greve geral como arma política, a ocupação como ato de justiça distributiva, a sabotagem como interrupção do lucro, e a insurreição popular como o momento culminante em que o povo, armado com a sua própria coragem, toma para si os destinos da vida social.

Reconheçamos, no entanto, a dureza do caminho. As derrotas são amargas. As fileiras se diminuem. Os camaradas tombam. E o terreno, muitas vezes, parece mais estéril do que nunca. A pergunta que ecoa nos porões das delegacias e nos exílios forçados é: “Por que continuar?” A resposta é tão simples quanto absoluta: porque parar é aceitar a morte em vida. Porque a interrupção da luta não é uma trégua; é uma derrota definitiva que consagra a ordem burguesa como eterna. A continuidade da resistência, mesmo em terreno árido, é a única garantia de que a chama não se apaga. Cada ato de rebeldia, por menor que seja, é uma negação prática do “fim da história” proclamado pelos ideólogos do capital. Quando um grupo de trabalhadores ocupa uma fábrica falida, mesmo que despejados no dia seguinte, eles plantaram uma semente: a semente da autogestão possível. Quando um bairro se organiza em milícias populares para enfrentar a repressão policial, mesmo que massacrados, eles escreveram uma página na memória coletiva que nenhum juiz pode apagar. A luta não se justifica apenas pela vitória final; ela se justifica pela dignidade que confere a cada instante da resistência. A vitória libertária virá, mas virá como um corolário de inúmeras batalhas perdidas, de inúmeros mártires, de inúmeros “fracassos” que, somados, constroem a subjetividade revolucionária.

Esta é a dialética cruel que nos move: a ordem burguesa não pode coexistir com a liberdade anárquica. Ela a perseguirá, a caluniará e a esmagará com todas as suas forças. Mas, ao fazer isso, ela gera o seu próprio antídoto. Ela unifica os dispersos, ela radicaliza os moderados, ela prova a sua própria incapacidade de resolver as crises que ela mesma cria. A superação, portanto, não é uma fuga da realidade; é um mergulho nela até ao fundo, até ao ponto em que a tensão se rompe e o novo emerge das cinzas do velho. E esse novo mundo — a sociedade federada, igualitária e livre — não será construído com preces, mas com os escombros do edifício derrubado.

Por fim, caros camaradas, não nos enganemos com o canto da sereia do realismo político. O realismo burguês é a aceitação da servidão. O nosso realismo é a consciência da força do inimigo aliada à certeza da nossa necessidade de o destruir. A repressão está aí, nos porões, nas delegacias, nos canhões. Mas a nossa vontade de resistir também está aí, nas oficinas, nos campos, nos bairros periféricos. Que a repressão nos encontre de pé. Que o terreno desfavorável nos encontre em movimento. Que a tensão nos encontre na trincheira. Porque a vitória libertária não é um prêmio para os prudentes; é uma conquista para os audazes. É a superação da ordem burguesa que nos trará a alvorada, mas essa superação exige que cada um de nós, agora, neste instante, empunhe a sua ferramenta, a sua palavra, o seu punho ou a sua inteligência para golpear as cadeias.

A luta continua. Não porque temos esperança de um amanhã fácil, mas porque o hoje, sem luta, é insuportável. Não porque o futuro nos garante o triunfo, mas porque o presente nos exige a rebeldia. A repressão é inerente, o terreno é hostil, a tensão é absoluta. Mas a resistência é a nossa essência. E enquanto houver um único explorado, uma única mulher oprimida, um único trabalhador acorrentado, haverá um anarquista a plantar a dinamite da liberdade. Avante, pois. A vitória é o próprio caminho, e o caminho é a luta até ao fim.

Liberto Herrera.

CASTELLANO:

La Furia Necesaria

No vengo a traeros flores ni ilusiones. Vengo a hablaros de la verdad que muchos camaradas prefieren endulzar para no asustar a los recién llegados: la represión no es un accidente de trayecto en la lucha anarquista; es su sombra inevitable, el eco metálico que nuestra acción provoca en los engranajes del Leviatán. Quien sueña con una revolución sin cicatrices, sin sangre y sin cadenas, está soñando con una aventura o una fiesta, no con la destrucción del orden burgués. La tesis que os traigo es dura, pero necesaria: la represión es inherente a nuestra lucha porque el poder no cede su botín sin violencia; aun así, aunque el terreno esté minado, aunque las probabilidades sean de aniquilamiento, la lucha debe proseguir por todos los medios posibles. La tensión entre el orden burgués y el mundo nuevo que llevamos en nuestras entrañas no es un malentendido que se resuelva con diálogos de salón; es un antagonismo ontológico, una contradicción irreconciliable. Y es precisamente de la superación violenta y radical de ese orden de donde ha de surgir la victoria libertaria — lo que, a su vez, nos conduce, inexorablemente, de vuelta al fuego de la resistencia.

Comencemos por lo obvio que los académicos y los reformistas se niegan a ver: el Estado burgués no es una entidad neutra, un mero árbitro de conflictos sociales. Es la comisión ejecutiva de los explotadores, el guardaespaldas armado de la propiedad privada y de las jerarquías que de ella emanan. Su esencia es la coerción monopolizada. La ley que aplica no es la justicia; es la codificación del despojo. Cuando nos organizamos en consejos libres, cuando ocupamos tierras y fábricas, cuando rehusamos la obediencia y la servidumbre voluntaria, no estamos haciendo una petición de cambio; estamos asestando un golpe en la base misma de su legitimidad. La reacción del Estado a ese golpe no puede ser otra que la represión. No es un “riesgo” calculado; es una certeza física, como la caída de un cuerpo. La historia está repleta de ejemplos — desde la Comuna de París, ahogada en sangre, hasta la Ucrania Libre, aplastada por el ejército rojo y los blancos; desde los mártires de Chicago hasta las celdas de prisión que albergan a los camaradas de hoy. La represión no es el “precio” a pagar; es la respuesta natural del sistema a nuestra existencia.

En este punto, muchos se acobardan. Dicen: “El terreno es desfavorable. La burguesía está fortalecida. El proletariado está atomizado. Esperemos el momento oportuno.” ¡Qué cobardía disfrazada de pragmatismo! ¿Cuándo, pregunto yo, fue el terreno favorable para los oprimidos? ¿Cuándo es que los dueños del mundo se sentaron a la mesa y dijeron: “Ahora estamos débiles, pueden atacar”? El terreno desfavorable es el único terreno que conoce la clase trabajadora. La fábrica es desfavorable, la mina es desfavorable, el gueto es desfavorable. La historia no es una escalera mecánica que nos lleve suavemente a la libertad; es un abismo que solo se traspona con un salto — y el salto exige piernas fuertes, aunque el suelo tiemble. Esperar condiciones ideales es esperar la muerte de nuestra propia iniciativa. Es entregar al enemigo el monopolio del tiempo. La lucha no se libra cuando la victoria es segura; se libra porque la victoria debe ser conquistada, y la única manera de hacerla posible es librarla, ahora, con las herramientas que tenemos, aunque sean solo nuestras manos desnudas y nuestra voluntad inquebrantable.

Ahora, detengámonos en esa tensión inevitable. ¿Qué es el orden burgués sino un sistema de mediaciones jerárquicas — el patrón sobre el obrero, el hombre sobre la mujer, el blanco sobre el negro, el burócrata sobre el ciudadano? Es una telaraña de mandatos y obediencias que se reproduce diariamente en las escuelas, en las iglesias, en los cuarteles y en los parlamentos. El anarquismo, en su esencia, es la negación absoluta de esa mediación. Nosotros no queremos reformar la cadena, queremos romperla. No queremos un patrón más humano, queremos la autogestión. No queremos un Estado más paternalista, queremos la federación libre de comunas. Esa negación no es una abstracción filosófica; se traduce en actos concretos: la desobediencia, la huelga salvaje, el sabotaje, la expropiación. Cada uno de esos actos choca frontalmente con el código penal burgués, con su policía y con sus ejércitos. La tensión, por tanto, es una guerra de movimiento perpetuo.

Y es en ese embate, en esa dialéctica violenta, donde reside nuestra esperanza. Porque la superación del orden burgués no vendrá de un voto, ni de una declaración de la ONU, ni de un manifiesto pacífico que pide amablemente a los opresores que se conviertan. La superación vendrá de la crisis, del choque, del momento en que la represión del Estado se vuelve tan brutal, tan descarnada, que el velo de la legalidad se rasga y las masas ven al tigre detrás de la máscara. Es la represión la que educa a las masas en la escuela de la necesidad. Es la violencia policial la que radicaliza al obrero moderado. Es la prisión del militante la que inspira la rebelión del vecindario. En ese sentido, la represión es un arma de doble filo: el enemigo la usa para inmolaros, pero nosotros la usamos como una forja que templa nuestra determinación y revela el verdadero rostro del poder. Cuanto más aprieta el cerco el Estado, más demuestra que no tiene argumentos, solo balas. Y cuando una estructura solo tiene balas para ofrecer, su caída es solo cuestión de tiempo y de furia acumulada.

Pero atención: esa victoria libertaria, que emerge de la superación del orden, no es un punto de llegada estático, un paraíso donde los problemas se disuelven. Es un proceso continuo de autoemancipación. Y es precisamente por eso que la lucha, y todos los medios posibles para librarla, se convierten en la categoría central de nuestra existencia. Defender que la lucha debe proseguir “por todos los medios posibles” no es un llamamiento ciego a la violencia; es el reconocimiento de que, en una guerra de exterminio contra nuestra humanidad, tenemos el derecho moral e histórico de usar todas las armas disponibles. Si el Estado usa las leyes para encarcelarnos, usemos la ilegalidad para expropiar lo que fue robado. Si el Estado usa los medios para mentir, usemos la palabra impresa y la acción directa para desenmascarar. Si el Estado usa las balas, usemos las barricadas. La ética del oprimido no puede ser la ética del opresor. Mientras ellos tienen la propiedad, nosotros tenemos el hambre; mientras ellos tienen el ejército, nosotros tenemos el número; mientras ellos tienen la tecnología de la vigilancia, nosotros tenemos la solidaridad orgánica de las calles. La lucha por todos los medios significa utilizar la huelga general como arma política, la ocupación como acto de justicia distributiva, el sabotaje como interrupción del beneficio, y la insurrección popular como el momento culminante en que el pueblo, armado con su propio coraje, toma para sí los destinos de la vida social.

Reconozcamos, sin embargo, la dureza del camino. Las derrotas son amargas. Las filas se disminuyen. Los camaradas caen. Y el terreno, a menudo, parece más estéril que nunca. La pregunta que resuena en los sótanos de las comisarías y en los exilios forzados es: “¿Por qué continuar?” La respuesta es tan simple como absoluta: porque parar es aceptar la muerte en vida. Porque la interrupción de la lucha no es una tregua; es una derrota definitiva que consagra el orden burgués como eterno. La continuidad de la resistencia, incluso en terreno árido, es la única garantía de que la llama no se apague. Cada acto de rebeldía, por pequeño que sea, es una negación práctica del “fin de la historia” proclamado por los ideólogos del capital. Cuando un grupo de trabajadores ocupa una fábrica en quiebra, aunque sean desalojados al día siguiente, han plantado una semilla: la semilla de la autogestión posible. Cuando un barrio se organiza en milicias populares para enfrentar la represión policial, aunque sean masacrados, han escrito una página en la memoria colectiva que ningún juez puede borrar. La lucha no se justifica solo por la victoria final; se justifica por la dignidad que confiere a cada instante de la resistencia. La victoria libertaria vendrá, pero vendrá como un corolario de innumerables batallas perdidas, de innumerables mártires, de innumerables “fracasos” que, sumados, construyen la subjetividad revolucionaria.

Esta es la dialéctica cruel que nos mueve: el orden burgués no puede coexistir con la libertad anárquica. La perseguirá, la calumniará y la aplastará con todas sus fuerzas. Pero, al hacer eso, genera su propio antídoto. Unifica a los dispersos, radicaliza a los moderados, prueba su propia incapacidad para resolver las crisis que ella misma crea. La superación, por tanto, no es una huida de la realidad; es una inmersión en ella hasta el fondo, hasta el punto en que la tensión se rompe y lo nuevo emerge de las cenizas de lo viejo. Y ese mundo nuevo — la sociedad federada, igualitaria y libre — no será construido con plegarias, sino con los escombros del edificio derrumbado.

Finalmente, queridos camaradas, no nos engañemos con el canto de sirena del realismo político. El realismo burgués es la aceptación de la servidumbre. Nuestro realismo es la conciencia de la fuerza del enemigo aliada a la certeza de nuestra necesidad de destruirlo. La represión está ahí, en los sótanos, en las comisarías, en los cañones. Pero nuestra voluntad de resistir también está ahí, en los talleres, en los campos, en los barrios periféricos. Que la represión nos encuentre de pie. Que el terreno desfavorable nos encuentre en movimiento. Que la tensión nos encuentre en la trinchera. Porque la victoria libertaria no es un premio para los prudentes; es una conquista para los audaces. Es la superación del orden burgués la que nos traerá el alba, pero esa superación exige que cada uno de nosotros, ahora, en este instante, empuñe su herramienta, su palabra, su puño o su inteligencia para golpear las cadenas.

La lucha continúa. No porque tengamos esperanza de un mañana fácil, sino porque el hoy, sin lucha, es insoportable. No porque el futuro nos garantice el triunfo, sino porque el presente nos exige la rebeldía. La represión es inherente, el terreno es hostil, la tensión es absoluta. Pero la resistencia es nuestra esencia. Y mientras haya un solo explotado, una sola mujer oprimida, un solo trabajador encadenado, habrá un anarquista plantando la dinamita de la libertad. Adelante, pues. La victoria es el propio camino, y el camino es la lucha hasta el final.

Liberto Herrera.


ENGLISH:

The Necessary Fury

I do not come to bring you flowers or illusions. I come to speak to you of the truth that many comrades prefer to sweeten so as not to frighten the newcomers: repression is not a mishap along the anarchist struggle; it is its inevitable shadow, the metallic echo that our action provokes in the gears of the Leviathan. Whoever dreams of a revolution without scars, without blood and without chains, is dreaming of an adventure or a party, not of the destruction of the bourgeois order. The thesis I bring you is harsh, but necessary: repression is inherent to our struggle because power does not relinquish its spoils without violence; even so, even if the ground is mined, even if the odds are annihilation, the struggle must continue by all possible means. The tension between the bourgeois order and the new world we carry in our guts is not a misunderstanding to be resolved with parlor-room dialogues; it is an ontological antagonism, an irreconcilable contradiction. And it is precisely from the violent and radical overcoming of that order that the libertarian victory shall emerge — which, in turn, leads us, inexorably, back into the fire of resistance.

Let us begin with the obvious that academics and reformists refuse to see: the bourgeois State is not a neutral entity, a mere arbiter of social conflicts. It is the executive committee of the exploiters, the armed bodyguard of private property and the hierarchies that emanate from it. Its essence is monopolized coercion. The law it enforces is not justice; it is the codification of plunder. When we organize ourselves into free councils, when we occupy lands and factories, when we refuse obedience and voluntary servitude, we are not making a request for change; we are striking at the very foundation of its legitimacy. The State’s reaction to that blow can be nothing other than repression. It is not a calculated “risk”; it is a physical certainty, like the fall of a body. History is replete with examples — from the Paris Commune, drowned in blood, to Free Ukraine, crushed by the Red Army and the Whites; from the martyrs of Chicago to the prison cells that house today’s comrades. Repression is not the “price” to be paid; it is the system’s natural response to our existence.

At this point, many lose their nerve. They say: “The terrain is unfavorable. The bourgeoisie is strengthened. The proletariat is atomized. Let us wait for the opportune moment.” What cowardice disguised as pragmatism! When, I ask, was the terrain favorable for the oppressed? When did the owners of the world sit down at the table and say, “Now we are fragile, you may attack”? The unfavorable terrain is the only terrain the working class has ever known. The factory is unfavorable, the mine is unfavorable, the ghetto is unfavorable. History is not an escalator smoothly carrying us to freedom; it is an abyss that can only be crossed with a leap — and the leap requires strong legs, even if the ground trembles. Waiting for ideal conditions is waiting for the death of our own initiative. It is handing over to the enemy the monopoly on time. The struggle is not waged when victory is certain; it is waged because victory must be won, and the only way to make it possible is to wage it, now, with the tools we have, even if they are only our bare hands and our unbreakable will.

Now, let us dwell on this inevitable tension. What is the bourgeois order but a system of hierarchical mediations — the boss over the worker, man over woman, white over black, the bureaucrat over the citizen? It is a web of commands and obediences that reproduces itself daily in schools, churches, barracks, and parliaments. Anarchism, in its essence, is the absolute negation of that mediation. We do not want to reform the chain; we want to break it. We do not want a more humane boss; we want self-management. We do not want a more paternalistic State; we want the free federation of communes. This negation is not a philosophical abstraction; it translates into concrete acts: disobedience, wildcat strikes, sabotage, expropriation. Each of these acts collides head-on with the bourgeois penal code, with its police, and with its armies. The tension, therefore, is a perpetual war of movement.

And it is in this clash, in this violent dialectic, that our hope resides. Because the overcoming of the bourgeois order will not come from a vote, nor from a UN declaration, nor from a peaceful manifesto kindly asking the oppressors to convert. The overcoming will come from the crisis, from the shock, from the moment when the State’s repression becomes so brutal, so stark, that the veil of legality tears and the masses see the tiger behind the mask. It is repression that educates the masses in the school of necessity. It is police violence that radicalizes the moderate worker. It is the militant’s imprisonment that inspires the neighborhood’s rebellion. In this sense, repression is a double-edged sword: the enemy uses it to immolate us, but we use it as a forge that tempers our determination and reveals the true face of power. The more the State tightens the siege, the more it demonstrates that it has no arguments, only bullets. And when a structure has only bullets to offer, its fall is merely a matter of time and accumulated fury.

But beware: this libertarian victory, which emerges from the overcoming of the order, is not a static endpoint, a paradise where problems dissolve. It is a continuous process of self-emancipation. And it is precisely for this reason that the struggle, and all possible means of waging it, become the central category of our existence. Arguing that the struggle must continue “by all possible means” is not a blind call to violence; it is the recognition that, in a war of extermination against our humanity, we have the moral and historical right to use all available weapons. If the State uses laws to imprison us, let us use illegality to expropriate what was stolen. If the State uses the media to lie, let us use the printed word and direct action to expose it. If the State uses bullets, let us use barricades. The ethics of the oppressed cannot be the ethics of the oppressor. While they have property, we have hunger; while they have the army, we have numbers; while they have surveillance technology, we have the organic solidarity of the streets. The struggle by all means means using the general strike as a political weapon, occupation as an act of distributive justice, sabotage as an interruption of profit, and popular insurrection as the culminating moment in which the people, armed with their own courage, take into their own hands the destinies of social life.

Let us recognize, however, the harshness of the path. Defeats are bitter. The ranks thin out. Comrades fall. And the terrain often seems more barren than ever. The question that echoes in the basements of police stations and in forced exiles is: “Why continue?” The answer is as simple as it is absolute: because stopping is accepting death in life. Because the interruption of the struggle is not a truce; it is a definitive defeat that consecrates the bourgeois order as eternal. The continuity of resistance, even on arid ground, is the only guarantee that the flame does not go out. Each act of rebellion, however small, is a practical negation of the “end of history” proclaimed by the ideologues of capital. When a group of workers occupies a bankrupt factory, even if evicted the next day, they have planted a seed: the seed of possible self-management. When a neighborhood organizes itself into popular militias to confront police repression, even if massacred, they have written a page in the collective memory that no judge can erase. The struggle is not justified solely by the final victory; it is justified by the dignity it confers on every moment of resistance. The libertarian victory will come, but it will come as a corollary of countless lost battles, countless martyrs, countless “failures” which, added together, construct the revolutionary subjectivity.

This is the cruel dialectic that moves us: the bourgeois order cannot coexist with anarchic freedom. It will pursue it, slander it, and crush it with all its might. But in doing so, it generates its own antidote. It unifies the scattered, it radicalizes the moderate, it proves its own inability to resolve the crises it itself creates. The overcoming, therefore, is not an escape from reality; it is a dive into it, to the very bottom, to the point where the tension breaks and the new emerges from the ashes of the old. And this new world — the federated, egalitarian, and free society — will not be built with prayers, but with the rubble of the toppled edifice.

Finally, dear comrades, let us not deceive ourselves with the siren song of political realism. Bourgeois realism is the acceptance of servitude. Our realism is the awareness of the enemy’s strength allied with the certainty of our need to destroy it. Repression is there, in the basements, in the police stations, in the cannons. But our will to resist is also there, in the workshops, in the fields, in the peripheral neighborhoods. Let repression find us on our feet. Let the unfavorable terrain find us in motion. Let the tension find us in the trench. Because libertarian victory is not a prize for the prudent; it is a conquest for the audacious. It is the overcoming of the bourgeois order that will bring us the dawn, but this overcoming demands that each one of us, now, in this instant, wield our tool, our word, our fist, or our intelligence to strike the chains.

The struggle continues. Not because we hope for an easy tomorrow, but because today, without struggle, is unbearable. Not because the future guarantees us triumph, but because the present demands rebellion from us. Repression is inherent, the terrain is hostile, the tension is absolute. But resistance is our essence. And as long as there is a single exploited person, a single oppressed woman, a single chained worker, there will be an anarchist planting the dynamite of freedom. Forward, then. Victory is the very path, and the path is the struggle to the end.

Liberto Herrera.

MEMÓRIA CONTRA O APAGAMENTO: A IMPORTÂNCIA DA OBRA DE EDGAR RODRIGUES PARA A HISTÓRIA DAS LUTAS DOS TRABALHADORES E DOS LIBERTÁRIOS

Resumo: Este artigo analisa a importância da obra do historiador, arquivista e militante libertário Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, para a preservação da história das lutas dos trabalhadores e das tradições anarquistas no Brasil e em Portugal. Parte-se de uma perspectiva de história social comprometida com a recuperação das experiências de sujeitos subalternizados e com a crítica dos mecanismos de apagamento produzidos pelo Estado, pelas classes dominantes e pelas narrativas historiográficas centradas em instituições oficiais. Mediante revisão bibliográfica e análise qualitativa de obras selecionadas de Rodrigues, argumenta-se que sua contribuição ultrapassa a função de fonte auxiliar: ela constitui uma intervenção política e memorial que nomeia militantes, recupera periódicos, transcreve documentos e restitui densidade humana a movimentos frequentemente reduzidos a episódios marginais. Embora sua produção autodidata apresente limites de sistematização teórica e de explicitação metodológica, tais limites não anulam seu caráter pioneiro, seu valor documental nem a coerência ética de um projeto orientado pela solidariedade, pela liberdade e pela emancipação social. Conclui-se que preservar, digitalizar, catalogar e estudar criticamente o legado de Edgar Rodrigues é tarefa indispensável para uma história plural do trabalho e dos libertários.

1 INTRODUÇÃO

A história das classes trabalhadoras não se conserva por inércia. Ela depende de pessoas, coletivos e instituições capazes de recolher vestígios frágeis: jornais de curta duração, atas sindicais, cartas, fotografias, panfletos, memórias, prontuários policiais e relatos orais. Em contextos de repressão, esses materiais são destruídos deliberadamente; em períodos de normalidade institucional, podem desaparecer por descaso, falta de recursos ou desvalorização acadêmica. A obra de Edgar Rodrigues deve ser compreendida nesse campo de disputa pela sobrevivência do passado.

Edgar Rodrigues, pseudônimo de Antônio Francisco Correia, nasceu em Angeiras, no norte de Portugal, em 12 de março de 1921, e morreu no Rio de Janeiro em 14 de maio de 2009. Filho de trabalhador ligado ao anarco-sindicalismo, viveu desde cedo os efeitos sociais da perseguição política salazarista. Em 1951, emigrou para o Brasil, onde se integrou a redes libertárias, colaborou com a imprensa anarquista, participou de centros de estudos e desenvolveu, ao longo de mais de cinco décadas, uma produção que reuniu dezenas de livros e aproximadamente mil e oitocentos artigos (Addor, 2012; Ferreira, 2014a).

O problema central deste artigo pode ser formulado da seguinte maneira: em que sentido a obra de Edgar Rodrigues contribuiu não apenas para o conhecimento, mas para a própria preservação da história das lutas dos trabalhadores e dos anarquistas? A hipótese defendida é que Rodrigues realizou uma forma de história militante que reuniu três funções inseparáveis. Primeiro, atuou como coletor e guardião de documentos ameaçados de desaparecimento. Segundo, organizou narrativas de longa duração sobre sindicalismo, imprensa operária, repressão e experiências anarquistas. Terceiro, devolveu nomes e trajetórias a homens e mulheres que a historiografia oficial frequentemente tratava como massa indiferenciada.

A abordagem adotada é solidária ao horizonte humanista e libertário do autor. Essa escolha não implica abandonar a crítica, mas explicitar o lugar interpretativo do trabalho. A pretensão de neutralidade absoluta é especialmente problemática quando o objeto é uma tradição política submetida a perseguições, silenciamentos e caricaturas. Tomar a sério os valores de liberdade, igualdade, apoio mútuo, autogestão e emancipação que atravessam a obra de Rodrigues permite compreender por que a pesquisa histórica, para ele, não era um exercício de carreira, e sim uma responsabilidade ética perante gerações derrotadas e futuras.

Tal perspectiva aproxima-se da “história vista de baixo”, interessada na experiência das classes trabalhadoras e na sua capacidade de produzir cultura, organização e consciência histórica. Thompson (1987) mostrou que classe não é uma categoria estática, mas uma relação construída por experiências comuns, conflitos e formas de ação. Rodrigues, mesmo sem empregar esse vocabulário teórico de maneira sistemática, reuniu materiais que permitem observar precisamente esse processo: trabalhadores criando sindicatos, jornais, escolas, bibliotecas, grupos de teatro, congressos e redes internacionais.

Também é produtivo relacionar seu trabalho à discussão sobre memória social. Pollak (1989) ressaltou que memórias subterrâneas persistem em oposição às versões oficiais, aguardando condições para emergir. Benjamin (2012), por sua vez, advertiu que a história dominante tende a celebrar os vencedores e a converter derrotas em esquecimento. A escrita de Rodrigues pode ser lida como recusa dessa continuidade triunfal: ela busca recolher fragmentos de experiências vencidas sem tratá-las como inúteis, fracassadas ou ultrapassadas.

2 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

O artigo baseia-se em pesquisa bibliográfica e análise qualitativa de um conjunto representativo da produção de Edgar Rodrigues e de estudos dedicados à sua trajetória. Entre as obras do autor, destacam-se Socialismo e sindicalismo no Brasil (1969), Nacionalismo e cultura social (1972), Pequena história da imprensa social no Brasil (1997), a coleção Os companheiros (1998) e Lembranças incompletas (2007). Esses títulos permitem examinar diferentes dimensões de seu projeto: sínteses cronológicas, inventários documentais, biografias militantes, história da imprensa e memória autobiográfica.

Como bibliografia crítica, são centrais a tese de Carlos Augusto Addor (2012), os artigos de José Maria Carvalho Ferreira (2014a; 2014b), o estudo de Anna Gicelle Garcia Alaniz (2009) e a apreciação de Adelaide Maria Gonçalves Pereira e Allyson Bruno (2002). Tais trabalhos convergem ao reconhecer a amplitude da coleta documental, o compromisso social e a função memorial da escrita de Rodrigues, ainda que assinalem tensões entre sua linguagem militante e os protocolos acadêmicos de pesquisa.

O caráter engajado de Rodrigues exige um cuidado metodológico específico. Não se deve avaliar sua obra apenas pelo grau de adequação a padrões universitários consolidados posteriormente. A comparação anacrônica obscureceria as condições materiais de produção: pesquisa realizada nas horas livres, financiamento próprio, circulação em pequenas editoras, acesso precário a arquivos públicos e dependência de redes pessoais de antigos militantes. Ao mesmo tempo, uma leitura simpatizante não pode transformar toda afirmação em prova suficiente. É necessário confrontar datas, identificar repetições, distinguir testemunho de documentação e reconhecer interpretações marcadas por disputas internas do campo libertário.

3 ENTRE DUAS PÁTRIAS: EXPERIÊNCIA SOCIAL E FORMAÇÃO LIBERTÁRIA

A formação de Antônio Francisco Correia ocorreu sob a ditadura do Estado Novo português. A prisão de seu pai, militante anarco-sindicalista da construção civil, atingiu diretamente a economia e a vida cotidiana da família. O jovem trabalhador conheceu, portanto, a repressão não como abstração jurídica, mas como desemprego, medo, vigilância e carestia. Essa experiência ajuda a explicar a continuidade, em sua obra, entre denúncia política, solidariedade com perseguidos e pesquisa histórica (Ferreira, 2014a).

Impedido de seguir uma trajetória escolar convencional, Rodrigues construiu sua formação pela leitura, pela convivência com militantes, pelo teatro amador e pela cultura associativa. O autodidatismo, nesse caso, não significa isolamento individual. Tratou-se de aprendizagem coletiva em circuitos populares de educação: bibliotecas, jornais, reuniões, correspondências e grupos dramáticos. O conhecimento aparecia como bem comum e instrumento de autonomia, não como capital simbólico reservado a especialistas.

A emigração para o Brasil, em 1951, ampliou esse circuito. No Rio de Janeiro, Rodrigues aproximou-se de José Oiticica, Ideal Peres, Afonso Vieira, Roberto das Neves, Edgard Leuenroth e outros integrantes de redes anarquistas luso-brasileiras. Passou a colaborar com o jornal Ação Direta e adotou o pseudônimo pelo qual se tornaria conhecido. Sua inserção não foi a de um observador externo: ele participou de iniciativas culturais, editoriais e organizativas que mais tarde seriam objeto de sua própria narrativa.

Essa dupla condição — militante e pesquisador — é fundamental. Rodrigues escrevia sobre comunidades das quais fazia parte e sobre pessoas com quem mantinha relações de amizade, solidariedade ou conflito. A proximidade produzia riscos evidentes de parcialidade, mas também oferecia acesso raro a testemunhos, acervos domésticos e detalhes biográficos. Em vez de fingir distância absoluta, sua obra assume uma ética de lealdade às experiências libertárias, procurando transmitir o que poderia desaparecer com a morte dos protagonistas.

4 A ESCRITA DA HISTÓRIA COMO MILITÂNCIA

Para Edgar Rodrigues, pesquisar e publicar eram formas de ação política. A militância não aparecia apenas nos juízos normativos favoráveis ao anarquismo, mas na própria escolha do que deveria ser lembrado. Recolher um jornal operário, copiar uma ata, registrar o nome de uma tipógrafa ou entrevistar um antigo sindicalista eram atos contra o apagamento. Pereira e Bruno (2002) sintetizam essa preocupação ao mostrar que sua prioridade era impedir a perda de documentos e divulgar uma história ocultada ou deformada do movimento social.

Essa concepção difere da ideia de arquivo como lugar passivo. Rodrigues buscava materiais, convencia famílias a preservá-los, trocava correspondência, produzia cópias e fazia circular informações. Em 1986, participou da criação do Círculo Alfa de Estudos Históricos, concebido como espaço para reunir, organizar e difundir documentos libertários. O projeto expressava consciência aguda de que acervos privados e periódicos militantes podiam desaparecer por repressão, incêndio, umidade, disputas internas ou simples abandono (Ferreira, 2014b).

A publicação era extensão do arquivo. Em seus livros, longas transcrições de manifestos, estatutos, resoluções de congressos, notícias de jornais e listas de militantes ocupam espaço considerável. Do ponto de vista de uma escrita acadêmica mais sintética, isso pode parecer excesso documental. Contudo, em condições de acesso restrito, reproduzir fontes era uma estratégia de preservação e democratização. Muitas pessoas conheceram documentos raros não por consulta ao original, mas porque Rodrigues os incorporou a seus volumes.

5 A LUTA DOS TRABALHADORES RESTITUÍDA À HISTÓRIA

A contribuição mais evidente de Rodrigues está na reconstrução da ação coletiva dos trabalhadores. Socialismo e sindicalismo no Brasil (1969), Nacionalismo e cultura social (1972), Novos rumos e Alvorada operária compõem um amplo painel sobre associações, congressos, greves, correntes ideológicas e formas de repressão. Esses livros foram produzidos quando a história operária ainda ocupava posição secundária em grande parte da historiografia brasileira e quando o anarquismo era frequentemente descrito como doutrina estrangeira, desorganizada ou politicamente irrelevante.

Rodrigues contestou essa marginalização ao demonstrar a presença ativa de libertários na formação de sindicatos, federações, escolas, jornais e campanhas contra a carestia. Sua narrativa enfatiza que os trabalhadores não foram receptores passivos de leis estatais ou lideranças partidárias. Eles criaram instituições próprias, experimentaram formas de ação direta e formularam projetos de transformação social. O associativismo aparece como espaço de aprendizagem democrática, solidariedade e produção cultural.

Esse deslocamento é decisivo para a história social. Quando a trajetória do trabalho é narrada exclusivamente a partir da legislação, dos ministérios ou dos partidos, a autonomia operária tende a desaparecer. Rodrigues recoloca no centro assembleias, comissões de fábrica, boicotes, greves, conferências e redes de apoio. Mesmo suas discordâncias com comunistas, trabalhistas e sindicalistas vinculados ao Estado revelam um problema histórico relevante: a disputa entre formas autônomas e burocratizadas de representação dos trabalhadores.

Outro mérito é a atenção à pluralidade de práticas. A luta não se restringe à greve econômica. Inclui educação racionalista, anticlericalismo, teatro, poesia, imprensa, campanhas antimilitaristas, apoio a presos, defesa de exilados e sociabilidade cotidiana. Em Pequena história da imprensa social no Brasil (1997), jornais e revistas são tratados como instrumentos de formação intelectual e ligação entre grupos dispersos. A cultura operária torna-se parte constitutiva da política, e não ornamento.

Essa ampliação do conceito de luta permite compreender a persistência libertária em períodos de refluxo sindical. Quando grandes organizações foram destruídas ou incorporadas pelo Estado, pequenos jornais, centros de cultura, editoras e círculos de estudo mantiveram ideias e vínculos. Rodrigues documentou essas continuidades, sobretudo após o Estado Novo e durante a ditadura civil-militar. Assim, recusou a tese de que o anarquismo brasileiro teria simplesmente desaparecido nos anos 1930.

6 BIOGRAFIAS, NOMES E MEMÓRIA LIBERTÁRIA

A coleção Os companheiros representa uma das expressões mais fortes do compromisso de Rodrigues com a memória individual e coletiva. Em cinco volumes, reuniu informações sobre militantes conhecidos e anônimos, recuperando trajetórias que dificilmente encontrariam lugar em dicionários oficiais. O gesto tem significado político: recusar que o trabalhador apareça apenas como número, multidão ou categoria abstrata.

Nomear é produzir reconhecimento. Ao registrar ofício, origem, vínculos familiares, participação em jornais, prisões, expulsões e iniciativas culturais, Rodrigues restitui singularidade aos sujeitos. Essa operação aproxima sua obra de uma prosopografia popular, ainda que não organizada por métodos estatísticos. As biografias curtas formam um mosaico no qual a história do anarquismo emerge de relações entre tipógrafos, professoras, sapateiros, jornalistas, atrizes, pedreiros, médicos, domésticas e trabalhadores de diferentes ramos.

O valor das biografias também está em mostrar que ideias políticas são vividas. A liberdade, a solidariedade e o anticlericalismo aparecem em escolhas de educação dos filhos, uniões afetivas, funerais civis, práticas vegetarianas, apoio a presos e recusa do militarismo. A história libertária deixa de ser somente história de doutrinas para tornar-se história de formas de vida. Essa dimensão é sociologicamente relevante porque evidencia a produção cotidiana de valores alternativos às instituições dominantes.

A preservação libertária enfrenta uma dificuldade específica: movimentos descentralizados raramente dispõem de burocracias permanentes capazes de arquivar sistematicamente sua documentação. Essa ausência é coerente com a desconfiança em relação a estruturas centralizadas, mas aumenta a vulnerabilidade dos registros. Pereira e Bruno (2002) observam que memórias ácratas tendem a permanecer desconhecidas justamente porque não existe uma máquina institucional de consagração comparável à de partidos, igrejas ou Estados.

Rodrigues respondeu a esse problema com trabalho voluntário e persistente. Seu acervo foi construído por doações, intercâmbios, cópias e buscas pessoais. A precariedade material torna o resultado ainda mais notável. Ao mesmo tempo, ela impõe responsabilidade pública: documentos reunidos por esforço coletivo não devem permanecer inacessíveis, deteriorar-se ou ficar submetidos a disputas privadas. Preservação física, catalogação profissional e acesso democrático são condições para que a memória cumpra sua função social.

7 UMA HISTÓRIA LIBERTÁRIA ENTRE BRASIL E PORTUGAL

A expressão “entre duas pátrias”, utilizada por Ferreira (2014a; 2014b), é útil para caracterizar a obra de Rodrigues, desde que não se perca seu internacionalismo. Portugal e Brasil foram os principais espaços de sua vida, mas a comunidade política imaginada pelo autor era mais ampla: trabalhadores e libertários ligados por uma humanidade comum. A fronteira nacional aparece como realidade histórica — com seus Estados, polícias e ditaduras —, mas também como obstáculo a solidariedades que o anarquismo procurava ampliar.

A experiência das ditaduras marcou profundamente seu entendimento da memória. O salazarismo perseguiu seu ambiente familiar e forçou a emigração; a ditadura brasileira reprimiu o Centro de Estudos Professor José Oiticica, prendeu militantes e apreendeu materiais. Rodrigues conheceu, portanto, a relação entre poder autoritário e destruição de arquivos. Guardar documentos não era atividade neutra: podia significar proteger pessoas, preservar provas e assegurar que a violência estatal não controlasse integralmente a narrativa do passado.

Essa dimensão transnacional também aparece na atenção aos trabalhadores imigrantes. Em Os anarquistas: trabalhadores italianos no Brasil, por exemplo, a migração é tratada como circulação de experiências políticas e profissionais. Os imigrantes não são apresentados apenas como portadores de uma ideologia pronta; participam da formação de um movimento operário situado, no qual repertórios europeus se transformam em contato com relações de trabalho, desigualdades e culturas locais.

A solidariedade internacional ocupa lugar normativo central. Rodrigues não compreendia a emancipação dos trabalhadores como projeto limitado à cidadania nacional. A crítica ao militarismo, ao fascismo, ao colonialismo e às ditaduras decorre da defesa de uma igualdade humana radical. O princípio sintetizado pela frase “um homem vale um homem” recusa hierarquias de nacionalidade, classe, autoridade e prestígio. É essa convicção que confere unidade moral a uma produção extensa e heterogênea.

8 CONTRIBUIÇÕES E TENSÕES COM A HISTORIOGRAFIA ACADÊMICA

A recepção acadêmica de Rodrigues foi ambivalente. Seus livros tornaram-se fontes recorrentes, mas ele próprio nem sempre foi reconhecido como historiador. Críticas mencionam falta de explicitação metodológica, organização irregular, repetição de informações, juízos militantes e tratamento desigual das fontes. Tais observações são legítimas e devem orientar o uso crítico de sua produção. Nenhum compromisso político dispensa verificação documental.

Entretanto, reduzir a obra a essas limitações reproduz uma hierarquia entre saber universitário e conhecimento militante. Rodrigues trabalhou em condições que diferem das oferecidas por programas de pós-graduação, bolsas, arquivos institucionalizados e editoras acadêmicas. Sua pesquisa foi sustentada por trabalho assalariado, recursos próprios e redes voluntárias. Avaliar o resultado sem considerar essa materialidade significa ignorar o caráter social da produção do conhecimento.

Addor (2012) propõe defini-lo como memorialista do anarquismo e “pesquisador instintivo”. A formulação é produtiva porque reconhece que sua obra combina história, memória e militância. Contudo, o termo “instintivo” não deve sugerir ausência de método. Rodrigues desenvolveu procedimentos práticos: coleta prolongada, cruzamento de relatos, correspondência com testemunhas, reprodução de documentos e construção de cronologias. O método era pouco formalizado, mas existia como saber de ofício.

Sua principal contribuição epistemológica consiste em alterar a escala de visibilidade. Onde narrativas tradicionais enxergavam tendências abstratas, Rodrigues via pessoas, periódicos e pequenos grupos. Onde a história política privilegiava líderes estatais, ele observava redes de base. Onde o cânone celebrava organizações vitoriosas, ele preservava movimentos derrotados. Essa mudança de objeto aproximou sua produção de questões que mais tarde ganhariam força na história social, na micro-história, nos estudos de memória e na história pública.

Uma leitura científica da obra deve distinguir pelo menos três camadas. A primeira é documental: transcrições, listas, notícias e dados biográficos que podem ser conferidos. A segunda é narrativa: a forma como Rodrigues seleciona períodos, organiza acontecimentos e constrói continuidades. A terceira é normativa: sua defesa do anarquismo e sua crítica ao Estado, ao capitalismo e à burocratização sindical. Separar analiticamente essas camadas permite usar a documentação sem ocultar o projeto político que a estrutura.

9 ATUALIDADE DO LEGADO E POLÍTICAS DE PRESERVAÇÃO

Preservar seu legado exige um programa articulado. O primeiro passo é identificar a localização e o estado de conservação de livros, cartas, fotografias, jornais, gravações e manuscritos associados a Rodrigues. O segundo é realizar higienização, acondicionamento e catalogação segundo critérios arquivísticos. O terceiro é digitalizar materiais frágeis em formatos duráveis, com metadados completos e cópias de segurança. O quarto é criar instrumentos públicos de pesquisa, respeitando direitos autorais e informações sensíveis.

Outro eixo é a educação. A obra de Rodrigues pode integrar disciplinas de história do Brasil, sociologia do trabalho, ciência política, arquivologia e história da educação. Projetos escolares podem utilizar biografias de trabalhadores locais, periódicos operários e mapas de associações. Exposições, podcasts, documentários e edições comentadas ampliariam o público sem reduzir a complexidade. A memória libertária não deve ficar confinada a especialistas ou círculos militantes.

Sua crítica ao sindicalismo subordinado ao Estado também dialoga com debates atuais sobre autonomia, burocratização e distância entre direções e bases. O contexto mudou, e seria inadequado transportar respostas do início do século XX de forma mecânica. Contudo, a pergunta permanece: como construir organizações capazes de defender interesses imediatos sem renunciar à participação direta e à transformação das relações de poder? Rodrigues preservou experiências úteis para pensar esse dilema.

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra de Edgar Rodrigues ocupa lugar singular na história social do trabalho e do anarquismo. Seu valor não decorre apenas da quantidade de livros e artigos, mas da articulação entre experiência, pesquisa, arquivo e compromisso político. Rodrigues compreendeu que a derrota de um movimento pode ser aprofundada pelo desaparecimento de seus documentos e pela apropriação de sua história por adversários. Por isso, fez da preservação uma forma de resistência.

Ao recolher periódicos, entrevistar militantes, transcrever atas, reconstruir congressos e publicar biografias, ele criou condições para que trabalhadores e libertários fossem reconhecidos como produtores de história. Seus livros contestam narrativas que apresentam a classe trabalhadora como objeto passivo de tutela estatal. Neles, homens e mulheres aparecem organizando sindicatos, escolas, teatros, jornais, campanhas e redes de solidariedade. Essa restituição de agência é uma contribuição científica e política de primeira ordem.

A simpatia pelas ideias de Rodrigues, assumida neste artigo, fundamenta-se no caráter humanista de seu projeto. A defesa de que cada pessoa possui igual dignidade, a crítica à dominação e a confiança na capacidade de auto-organização dos trabalhadores conferem unidade à sua produção. Em vez de celebrar o poder, ele escolheu lembrar os perseguidos, os derrotados e os anônimos. Tal escolha aproxima sua escrita de uma ética da história comprometida com a emancipação.

Isso não significa ignorar limites. A obra apresenta repetições, lacunas, conflitos de interpretação e insuficiente formalização metodológica. Algumas narrativas exigem confronto com outras fontes; determinadas categorias podem ser revistas; grupos sociais sub-representados precisam ganhar maior atenção. Contudo, esses problemas são próprios de um campo de pesquisa vivo e não autorizam o descarte de um trabalho pioneiro. A crítica responsável começa pelo reconhecimento da dívida documental.

Em síntese, Rodrigues foi mais do que cronista de uma tradição política. Foi construtor de uma infraestrutura de memória sem a qual parte significativa da história operária e anarquista seria hoje inacessível. Estudar criticamente sua obra e preservar os materiais que reuniu constituem tarefas complementares. Ambas afirmam que as lutas por liberdade e igualdade, mesmo derrotadas em determinados momentos, continuam a interpelar o presente e a ampliar o horizonte do possível.

A obra de Edgar Rodrigues permanece importante porque não encerra o passado; ela o transmite como problema e possibilidade. Seus volumes fornecem dados, mas também formulam uma pergunta ética: quem será lembrado e quem será condenado ao anonimato? Responder de modo democrático implica reconhecer que a história pertence igualmente aos que trabalharam, lutaram, educaram, imprimiram, acolheram perseguidos e imaginaram formas livres de vida coletiva.

A preservação de seu legado demanda ações concretas: inventário do acervo, conservação física, digitalização, descrição arquivística, disponibilização pública, edições críticas e formação de pesquisadores. Essas medidas são urgentes porque o tempo material dos documentos não acompanha o tempo lento das instituições, sobretudo burguesas. Cada jornal deteriorado e cada carta perdida reduzem as possibilidades de compreender a experiência dos trabalhadores.

A atualização de seu legado requer ampliar o repertório de sujeitos visíveis. As pistas reunidas por Rodrigues podem orientar estudos sobre mulheres, trabalhadores negros, migrantes e militantes de regiões menos representadas, realizando de modo mais consequente o princípio de que nenhuma pessoa deve ser reduzida ao anonimato.

Essa conclusão possui consequências para a prática da pesquisa. Os dados oferecidos por Rodrigues podem/devem ser confrontados com arquivos públicos, coleções particulares e estudos recentes, mas o confronto precisa reconhecer a assimetria entre quem preservou documentos em condições precárias e quem posteriormente pôde analisá-los com apoio institucional. O rigor científico não se opõe à gratidão intelectual; ele a transforma em citação responsável, crítica transparente e compromisso com a continuidade do acervo.

Liberto Herrera.

REFERÊNCIAS

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ALANIZ, Anna Gicelle Garcia. A sementeira de ideias: Edgar Rodrigues, uma vida dedicada à memória anarquista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2009.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 241-252.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 1]. Verve, São Paulo, n. 25, p. 13-29, 2014a. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30683. Acesso em: 22 jul. 2026.

FERREIRA, José Maria Carvalho. Edgar Rodrigues: um anarquista entre duas pátrias [parte 2]. Verve, São Paulo, n. 26, p. 49-81, 2014b. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/30783. Acesso em: 22 jul. 2026.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 7. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

PEREIRA, Adelaide Maria Gonçalves; BRUNO, Allyson. Edgar Rodrigues: dedicação e compromisso social. Trajetos: Revista de História da UFC, Fortaleza, v. 1, n. 2, p. 193-197, 2002. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/17197. Acesso em: 22 jul. 2026.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

RODRIGUES, Edgar. Socialismo e sindicalismo no Brasil: 1675-1913. Rio de Janeiro: Laemmert, 1969.

RODRIGUES, Edgar. Nacionalismo e cultura social: 1913-1922. Rio de Janeiro: Laemmert, 1972.

RODRIGUES, Edgar. Pequena história da imprensa social no Brasil. Florianópolis: Insular, 1997.

RODRIGUES, Edgar. Os companheiros. 5 v. Florianópolis: Insular, 1998.

RODRIGUES, Edgar. Lembranças incompletas. Guarujá: Opúsculo Libertário, 2007.

THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 3 v.

Propriedade é roubo, e quem defende é cúmplice

Sempre é lícito recordar que a propriedade privada dos meios de produção não nasceu do trabalho, nasceu da espada. Cercar a terra, declarar-se dono do que é de todos e expulsar quem nela vivia — esse é o ato fundante do Capital. Proudhon tinha razão: se um homem chega e diz “isto é meu”, sem ter colocado um tijolo, sem ter regado o chão, ele está roubando. E o Estado não apenas valida esse roubo com leis e polícia, como o canoniza como “direito sagrado”. Roubo legalizado continua sendo roubo.

Quem defende a propriedade privada das fábricas, da terra, das máquinas, está do lado do ladrão. Não existe “propriedade mista”, “função social da propriedade” ou “capitalismo consciente”. Esses termos são cortinas de fumaça para manter o essencial: a expropriação do trabalho. O patrão não é mais produtivo que o operário; ele é mais armado. O banqueiro não cria riqueza; ele a concentra. Defender a propriedade é ser cúmplice da violência silenciosa que transforma necessidade em lucro, suor em mais-valia, vida em mercadoria.

O capitalismo não é um sistema econômico — é uma guerra contínua contra quem não possui. E a primeira trincheira dessa guerra é a propriedade. Sem ela, não há exploração; sem exploração, não há Estado; sem Estado, não há hierarquia. Por isso a defesa da propriedade privada é tão feroz: ela é o nervo central da dominação. Cada argumento sobre “incentivo ao trabalho” ou “direito de herança” esconde o mesmo horror: alguém possui o que não fez, e muitos não possuem o que fazem.

Não se reforma o roubo, se devolve. E devolver não significa pedir licença ao ladrão. Significa ocupar, reivindicar, expropriar. Toda fábrica abandonada, todo latifúndio improdutivo, todo imóvel vazio é um roubo em curso. E a cúmplice silenciosa é a sociedade que normaliza a chave na porta, a cerca de arame farpado, o contrato de gaveta. Enquanto houver alguém pagando aluguel para quem nunca construiu, enquanto houver trabalhador recebendo migalhas do que ele mesmo produziu, o roubo segue impune.

Portanto, a luta anticapitalista é uma luta antirroubo. Não pedimos reforma agrária — pedimos terra livre. Não pedimos taxação de grandes fortunas — pedimos abolição da fortuna. Não pedimos participação nos lucros — pedimos a gestão operária de tudo. E a cada um que diz “mas a propriedade é direito”, respondemos: o direito do ladrão é o dever da vítima. Cúmplice é quem cala, quem negocia, quem vota no menos ladrão. Nós escolhemos devolver, sem pedir licença.

Abaixo a propriedade! Roubado é roubado!

Liberto Herrera.

Espanha 1936–2026: O Fogo que a História Não Conseguiu Apagar

Noventa anos. Noventa primaveras desde que a chama da insurreição libertária varreu a Península Ibérica com a força de um furacão consciente. Não se trata de um fóssil histórico para contemplação acadêmica, mas do eco pulsante dos passos das milícias, do rumor ensurdecedor das fábricas autogeridas e do sopro do vento livre sobre os campos outrora cercados de latifúndios. A Revolução Espanhola de 1936 não foi uma simples rebelião; foi o despertar furioso de um povo que, cansado de séculos de grilhões, decidiu com as próprias mãos forjar o seu céu na terra, recusando-se a esperar por salvadores ou messias de gabinete.

Esqueçam as narrativas dos mansos e dos historiadores de serviço. A Espanha daqueles dias provou, com fatos concretos e números irrefutáveis, que os explorados e oprimidos não precisam de patrões, nem de burocratas, nem de tiranos. Em Barcelona, os bondes eram dos trabalhadores; as minas, das comunidades; a terra, de quem a suava com as próprias costas. A produção industrial não apenas se manteve – ela floresceu sob a lógica da solidariedade e da necessidade, destruindo para sempre o mito cínico de que a “natureza humana” é egoísta. Foi a comprovação material, palpável, de que a ordem pode nascer do caos criativo, e que a justiça social é filha legítima da livre associação, não da caridade estatal.

E fizeram tudo isso diante do inferno. Com o fascismo batendo às portas, com a penúria de armas, o bloqueio internacional e a espinha dorsal do mercado capitalista latejando contra eles, os anarquistas não apenas resistiram: construíram. A viabilidade do anarquismo não se provou nos livros de Kropotkin ou Bakunin, mas no fragor da batalha e no suor da jornada de trabalho coletiva. Em Aragão, o sonho libertário tornou-se pão e vinho, distribuídos pela régua da justiça e não pela ganância dos abutres; nas cidades, os comitês de bairro eram escolas vivas de autogoverno, onde cada decisão era debatida, suada e executada horizontalmente. A Revolução mostrou que, mesmo diante da escassez e da guerra, a cooperação vence a competição – e vence produzindo vida, não lucro.

Claro, os dogmáticos de todas as estirpes – os stalinistas que nos apunhalaram pelas costas e os democratas burgueses que nos temeram mais que a Franco – lembram-nos constantemente da derrota militar. Que lembrem. Mas a derrota dos corpos não é a derrota da ideia; a queda de uma experiência histórica não é a falência de um princípio. Se a Revolução foi esmagada pelas balas e pela traição, o legado que nos deixou é indestrutível. Ela provou, diante da história, que existe uma alternativa real à barbárie do Estado e do capital. A lição não está na efemeridade da vitória tática, mas na eternidade do exemplo: quando o povo age por si, sem tutelas ou vanguardas iluminadas, a história se curva – ainda que por um instante glorioso – à vontade coletiva.

Noventa anos depois, enquanto o mundo regurgita as mesmas velhas receitas de exploração, guerras imperialistas e crise ecológica, a Revolução Espanhola permanece como uma estrela-guia do horizonte libertário. Não como um fetiche empoeirado do passado, mas como uma ferramenta viva em nossas mãos, um manual prático de como se organizar sem chefes. Cada greve horizontal, cada ocupação de terra, cada mutirão comunitário e cada movimento autogestionário que brota hoje é a continuidade daquela primavera vermelha e negra. Recordar é reavivar a chama; celebrar os 90 anos é reafirmar, com a certeza de quem já viu o impossível acontecer, que sim, é possível. E mais: é urgentemente necessário.

Liberto Herrera.

Español:

España 1936–2026: El Fuego que la Historia no Pudo Apagar

Noventa años. Noventa primaveras desde que la llama de la insurrección libertaria arrasó la Península Ibérica con la fuerza de un huracán consciente. No se trata de un fósil histórico para la contemplación académica, sino del eco palpitante de los pasos de las milicias, del rumor ensordecedor de las fábricas autogestionadas y del soplo del viento libre sobre los campos antaño cercados de latifundios. La Revolución Española de 1936 no fue una simple rebelión; fue el despertar furioso de un pueblo que, cansado de siglos de cadenas, decidió con sus propias manos forjar su cielo en la tierra, negándose a esperar por salvadores o mesías de despacho.

Olviden las narrativas de los mansos y de los historiadores de turno. La España de aquellos días probó, con hechos concretos y números irrefutables, que los explotados y oprimidos no necesitan de patrones, ni de burócratas, ni de tiranos. En Barcelona, los tranvías eran de los trabajadores; las minas, de las comunidades; la tierra, de quien la trabajaba con el sudor de su propia espalda. La producción industrial no solo se mantuvo – floreció bajo la lógica de la solidaridad y la necesidad, destruyendo para siempre el mito cínico de que la “naturaleza humana” es egoísta. Fue la comprobación material, palpable, de que el orden puede nacer del caos creativo, y de que la justicia social es hija legítima de la libre asociación, no de la caridad estatal.

Y todo lo hicieron frente al infierno. Con el fascismo golpeando las puertas, con la penuria de armas, el bloqueo internacional y la columna vertebral del mercado capitalista latiendo contra ellos, los anarquistas no solo resistieron: construyeron. La viabilidad del anarquismo no se probó en los libros de Kropotkin o Bakunin, sino en el fragor de la batalla y en el sudor de la jornada de trabajo colectiva. En Aragón, el sueño libertario se convirtió en pan y vino, distribuidos por la regla de la justicia y no por la codicia de los buitres; en las ciudades, los comités de barrio eran escuelas vivas de autogobierno, donde cada decisión era debatida, sudada y ejecutada horizontalmente. La Revolución mostró que, incluso ante la escasez y la guerra, la cooperación vence a la competencia – y vence produciendo vida, no lucro.

Claro, los dogmáticos de todas las estirpes – los estalinistas que nos apuñalaron por la espalda y los demócratas burgueses que nos temieron más que a Franco – nos recuerdan constantemente la derrota militar. Que lo recuerden. Pero la derrota de los cuerpos no es la derrota de la idea; la caída de una experiencia histórica no es la quiebra de un principio. Si la Revolución fue aplastada por las balas y la traición, el legado que nos dejó es indestructible. Probó, ante la historia, que existe una alternativa real a la barbarie del Estado y del capital. La lección no está en la fugacidad de la victoria táctica, sino en la eternidad del ejemplo: cuando el pueblo actúa por sí mismo, sin tutelas ni vanguardias iluminadas, la historia se curva – aunque sea por un instante glorioso – ante la voluntad colectiva.

Noventa años después, mientras el mundo regurgita las mismas viejas recetas de explotación, guerras imperialistas y crisis ecológica, la Revolución Española permanece como una estrella-guía del horizonte libertario. No como un fetiche polvoriento del pasado, sino como una herramienta viva en nuestras manos, un manual práctico de cómo organizarse sin jefes. Cada huelga horizontal, cada ocupación de tierra, cada faena comunitaria y cada movimiento autogestionario que brota hoy es la continuidad de aquella primavera roja y negra. Recordar es reavivar la llama; celebrar los 90 años es reafirmar, con la certeza de quien ya vio lo imposible hacerse realidad, que sí, es posible. Y más: es urgentemente necesario.

Liberto Herrera.


English:

Spain 1936–2026: The Fire That History Could Not Extinguish

Ninety years. Ninety springs since the flame of libertarian insurrection swept across the Iberian Peninsula with the force of a conscious hurricane. This is not a historical fossil for academic contemplation, but the pulsating echo of the militias’ footsteps, the deafening hum of self-managed factories, and the breath of free wind over the fields once fenced in by vast estates. The Spanish Revolution of 1936 was not a simple rebellion; it was the furious awakening of a people who, tired of centuries of shackles, decided with their own hands to forge their heaven on earth, refusing to wait for saviors or messiahs from the cabinet.

Forget the narratives of the meek and the official historians. The Spain of those days proved, with concrete facts and irrefutable numbers, that the exploited and oppressed do not need bosses, bureaucrats, or tyrants. In Barcelona, the trams belonged to the workers; the mines, to the communities; the land, to those who worked it with the sweat of their own backs. Industrial production not only held steady – it flourished under the logic of solidarity and necessity, forever destroying the cynical myth that “human nature” is selfish. It was the material, palpable proof that order can be born from creative chaos, and that social justice is the legitimate daughter of free association, not of state charity.

And they did all this in the face of hell. With fascism knocking at the door, with a shortage of weapons, the international blockade, and the backbone of the capitalist market throbbing against them, the anarchists did not merely resist: they built. The viability of anarchism was not proven in the books of Kropotkin or Bakunin, but in the roar of battle and the sweat of the collective workday. In Aragon, the libertarian dream became bread and wine, distributed by the yardstick of justice and not by the greed of vultures; in the cities, neighborhood committees were living schools of self-governance, where every decision was debated, sweated over, and executed horizontally. The Revolution showed that, even in the face of scarcity and war, cooperation defeats competition – and it defeats it by producing life, not profit.

Of course, the dogmatists of all stripes – the Stalinists who stabbed us in the back and the bourgeois democrats who feared us more than they feared Franco – constantly remind us of the military defeat. Let them remember. But the defeat of bodies is not the defeat of the idea; the fall of a historical experiment is not the bankruptcy of a principle. If the Revolution was crushed by bullets and betrayal, the legacy it left us is indestructible. It proved, before history, that there is a real alternative to the barbarism of the State and capital. The lesson does not lie in the transience of tactical victory, but in the eternity of the example: when the people act for themselves, without tutelage or enlightened vanguards, history bows – even if for a glorious instant – to the collective will.

Ninety years later, while the world regurgitates the same old recipes of exploitation, imperialist wars, and ecological crisis, the Spanish Revolution remains a guiding star on the libertarian horizon. Not as a dusty fetish of the past, but as a living tool in our hands, a practical manual on how to organize without bosses. Every horizontal strike, every land occupation, every community collective effort, and every self-managed movement that emerges today is the continuity of that red and black spring. To remember is to rekindle the flame; to celebrate the 90 years is to reaffirm, with the certainty of those who have already seen the impossible happen, that yes, it is possible. And more: it is urgently necessary.

Liberto Herrera.

Transbordar a Solidariedade, Materializar a Anarquia

Ergamos bem alto a bandeira negra do apoio mútuo, esse fator de evolução que Kropotkin desenterrou das entranhas da vida para demolir a mentira da competição como destino.

O anarquismo não é uma doutrina empoeirada à espera do grande terremoto redentor: é uma ética insurreta que se prova no calor de cada gesto, no aqui-agora das relações. Transbordar o apoio mútuo para o cotidiano é arrancar o anarquismo dos livros e das declarações solenes e fazê-lo pulsar na rua, na cozinha coletiva, na oficina compartilhada, no cuidado com a vizinhança. É declarar, sem pedir licença, que a solidariedade não é caridade — é luta, é tecido conjuntivo de uma humanidade que se recusa a ser lobo de si mesma.

Romper as amarras do individualismo canibal que o capital nos enfia goela abaixo exige que cada relação seja minada pela lógica da horizontalidade radical. No trabalho, quebremos a hierarquia gerencial com autogestão real: decisões em assembleia, rotação de tarefas, renda partilhada. Na casa, desintegremos o patriarcado com a socialização do cuidado — creches autogeridas, marmitas comunitárias, mutirões de reparos que não distinguem gênero. Na rua, disputemos cada metro quadrado com hortas rebeldes, bibliotecas livres, saraus de ocupação. Tudo isso é apoio mútuo em ato, é a pré-figuração da sociedade sem Estado que começa a ser construída agora, nas brechas, sem esperar a licença de nenhum comitê central ou a promessa de um amanhã que nunca vem.

Transformar relações é o coração da contracultura anarquista, pois o poder se esgueira pelos vínculos que reproduzem submissão, machismo, racismo, transfobia. O apoio mútuo, quando vivido com intencionalidade revolucionária, desata esses nós. Uma escuta atenta num coletivo que acolhe a fala de uma pessoa trans sem interrompê-la, uma rede de economia solidária que prioriza produtoras negras, um sarau onde a palavra da quebrada ecoa mais alto que a do acadêmico — isso não é detalhe, é programa. A amizade como aliança política, o amor livre como força antiautoritária, o prazer compartilhado como sabotagem ao produtivismo. Cada vínculo refeito nessa base é uma fagulha de utopia queimando a velha ordem na esfera mais íntima do cotidiano.

Materializar utopias não é delírio de quem ignora a dureza da realidade; é a teimosia lúcida de quem sabe que a sociedade futura não cairá pronta do céu. Ela se ensaia, se erra e se corrige nas ocupações de imóveis vazios, nas cozinhas solidárias que enfrentam a fome enquanto o Estado desvia verba, nos bancos comunitários que subvertem a finança predatória, nas brigadas de defesa territorial contra a milícia e a polícia. O apoio mútuo é a argamassa que une esses pedaços de mundo novo — é ele que transforma um galpão abandonado num centro social autogerido, uma praça esquecida num jardim de ervas medicinais livres, um grupo de pessoas precarizadas numa cooperativa de resistência. Utopia concreta se faz com as mãos enlameadas de presente, não com a testa franzida de quem só repete versículos.

Fazer o anarquismo vivo é declarar guerra ao dogmatismo que mumifica a revolta e a transforma em seita. Não existe “O” anarquismo: existem anarquismos, tantos quantas forem as constelações de apoio mútuo que se armam contra a tristeza capitalista. A ação direta que supre um telhado sem pedir autorização à prefeitura, a rede de apoio a pessoas em situação de rua que opera na margem da lei, a cadeia de solidariedade que se forma em minutos num desastre enquanto o governo só envia repressão — são manifestações dessa anarquia viva, que não é desordem, mas ordem voluntária e insurgente. Contra a frieza burocrática das esquerdas estatólatras, a ternura combativa de quem cuida das feridas da companheirada enquanto destrói as cercas do mundo.

Portanto, que cada manhã seja uma assembleia cotidiana onde decidimos, na prática, viver como se a anarquia já fosse realidade. Não peça, faça; não delegue, organize-se; não espere, estenda a mão. O apoio mútuo não é adereço poético de um manifesto, é a respiração de um corpo coletivo que aprende a andar com as próprias pernas, sem patrão, sem Estado, sem deus. Companheirxs, a revolução não está marcada no calendário — ela brota no instante em que você oferece o que sabe, partilha o que tem e cuida de quem está ao lado. Sejamos a anarquia que nos habita: viva, insubmissa, solidária. Nem deus, nem patrão, nem estado: vida. E vida em abundância, transbordada, tecida nos fios quentes do apoio mútuo.

Liberto Herrera

Español:

Desbordar la Solidaridad, Materializar la Anarquía

Levantemos bien alto la bandera negra del apoyo mutuo, ese factor de evolución que Kropotkin desenterró de las entrañas de la vida para demoler la mentira de la competencia como destino.

El anarquismo no es una doctrina polvorienta a la espera del gran terremoto redentor: es una ética insurrecta que se prueba en el calor de cada gesto, en el aquí-ahora de las relaciones. Desbordar el apoyo mutuo a lo cotidiano es arrancar el anarquismo de los libros y las declaraciones solemnes y hacerlo latir en la calle, en la cocina colectiva, en el taller compartido, en el cuidado del vecindario. Es declarar, sin pedir permiso, que la solidaridad no es caridad — es lucha, es tejido conjuntivo de una humanidad que se niega a ser lobo de sí misma.

Romper las ataduras del individualismo caníbal que el capital nos mete garganta abajo exige que cada relación sea minada por la lógica de la horizontalidad radical. En el trabajo, rompamos la jerarquía gerencial con autogestión real: decisiones en asamblea, rotación de tareas, ingreso compartido. En la casa, desintegremos el patriarcado con la socialización del cuidado — guarderías autogestionadas, ollas comunes, brigadas de reparaciones que no distinguen género. En la calle, disputemos cada metro cuadrado con huertas rebeldes, bibliotecas libres, veladas de ocupación. Todo esto es apoyo mutuo en acto, es la prefiguración de la sociedad sin Estado que comienza a construirse ahora, en las grietas, sin esperar el permiso de ningún comité central ni la promesa de un mañana que nunca llega.

Transformar relaciones es el corazón de la contracultura anarquista, pues el poder se desliza por los vínculos que reproducen sumisión, machismo, racismo, transfobia. El apoyo mutuo, cuando se vive con intencionalidad revolucionaria, desata esos nudos. Una escucha atenta en un colectivo que acoge la palabra de una persona trans sin interrumpirla, una red de economía solidaria que prioriza productoras negras, una velada donde la palabra del barrio resuena más alto que la del académico — eso no es detalle, es programa. La amistad como alianza política, el amor libre como fuerza antiautoritaria, el placer compartido como sabotaje al productivismo. Cada vínculo rehecho sobre esta base es una chispa de utopía quemando el viejo orden en la esfera más íntima de lo cotidiano.

Materializar utopías no es delirio de quien ignora la dureza de la realidad; es la terquedad lúcida de quien sabe que la sociedad futura no caerá hecha del cielo. Se ensaya, se equivoca y se corrige en las ocupaciones de inmuebles vacíos, en las cocinas solidarias que enfrentan el hambre mientras el Estado desvía fondos, en los bancos comunitarios que subvierten las finanzas predatorias, en las brigadas de defensa territorial contra la milicia y la policía. El apoyo mutuo es el mortero que une esos pedazos de mundo nuevo — es él quien transforma un galpón abandonado en un centro social autogestionado, una plaza olvidada en un jardín de hierbas medicinales libres, un grupo de personas precarizadas en una cooperativa de resistencia. La utopía concreta se hace con las manos embarradas de presente, no con la frente fruncida de quien solo repite versículos.

Hacer el anarquismo vivo es declarar la guerra al dogmatismo que momifica la revuelta y la convierte en secta. No existe “El” anarquismo: existen anarquismos, tantos como constelaciones de apoyo mutuo que se arman contra la tristeza capitalista. La acción directa que repara un techo sin pedir autorización al ayuntamiento, la red de apoyo a personas en situación de calle que opera al margen de la ley, la cadena de solidaridad que se forma en minutos durante un desastre mientras el gobierno solo envía represión — son manifestaciones de esa anarquía viva, que no es desorden, sino orden voluntaria e insurgente. Contra la frialdad burocrática de las izquierdas estatólatras, la ternura combativa de quien cuida las heridas de la compañerada mientras destruye las cercas del mundo.

Por tanto, que cada mañana sea una asamblea cotidiana donde decidimos, en la práctica, vivir como si la anarquía ya fuera realidad. No pidas, haz; no delegues, organízate; no esperes, extiende la mano. El apoyo mutuo no es adorno poético de un manifiesto, es la respiración de un cuerpo colectivo que aprende a caminar con sus propias piernas, sin patrón, sin Estado, sin dios. Compañerxs, la revolución no está marcada en el calendario — brota en el instante en que ofreces lo que sabes, compartes lo que tienes y cuidas de quien está al lado. Seamos la anarquía que nos habita: viva, insumisa, solidaria. Ni dios, ni patrón, ni estado: vida. Y vida en abundancia, desbordada, tejida en los hilos cálidos del apoyo mutuo.

Liberto Herrera

English:

Overflow Solidarity, Materialize Anarchy

Let us raise high the black flag of mutual aid, that factor of evolution which Kropotkin unearthed from the bowels of life to demolish the lie of competition as destiny.

Anarchism is not a dusty doctrine awaiting the great redemptive earthquake: it is an insurgent ethic that proves itself in the heat of every gesture, in the here-and-now of relationships. Making mutual aid overflow into everyday life means tearing anarchism from books and solemn declarations and making it pulse in the street, in the collective kitchen, in the shared workshop, in care for the neighborhood. It means declaring, without asking permission, that solidarity is not charity — it is struggle, it is the connective tissue of a humanity that refuses to be a wolf unto itself.

Breaking the chains of cannibalistic individualism that capital shoves down our throats requires that every relationship be undermined by the logic of radical horizontality. At work, let’s break managerial hierarchy with real self-management: decisions by assembly, task rotation, shared income. At home, let’s disintegrate patriarchy with the socialization of care — self-managed daycare centers, community kitchens, repair crews that make no gender distinctions. On the street, let’s contest every square meter with rebel gardens, free libraries, occupation poetry slams. All of this is mutual aid in action, it is the prefiguration of a stateless society that begins to be built now, in the cracks, without waiting for permission from any central committee or the promise of a tomorrow that never comes.

Transforming relationships is the heart of anarchist counterculture, because power sneaks in through the bonds that reproduce submission, sexism, racism, transphobia. Mutual aid, when lived with revolutionary intentionality, unties those knots. Attentive listening in a collective that welcomes a trans person’s speech without interrupting them, a solidarity economy network that prioritizes Black women producers, a poetry slam where the voice of the hood echoes louder than that of the academic — this is not a detail, it’s a program. Friendship as political alliance, free love as anti-authoritarian force, shared pleasure as sabotage of productivism. Each bond remade on this basis is a spark of utopia burning the old order in the most intimate sphere of daily life.

Materializing utopias is not the delusion of those who ignore the harshness of reality; it is the lucid stubbornness of those who know that the future society will not fall ready-made from the sky. It is rehearsed, mistaken, and corrected in occupations of empty buildings, in solidarity kitchens that fight hunger while the state diverts funds, in community banks that subvert predatory finance, in territorial defense brigades against militias and police. Mutual aid is the mortar that unites these pieces of a new world — it is what transforms an abandoned warehouse into a self-managed social center, a forgotten square into a garden of free medicinal herbs, a group of precarious people into a cooperative of resistance. Concrete utopia is made with hands muddied by the present, not with the furrowed brow of those who only recite verses.

Making anarchism alive means declaring war on the dogmatism that mummifies revolt and turns it into a sect. There is no “The” anarchism: there are anarchisms, as many as there are constellations of mutual aid that arm themselves against capitalist sadness. Direct action that fixes a roof without asking permission from city hall, the support network for unhoused people that operates on the margins of the law, the chain of solidarity that forms in minutes during a disaster while the government only sends repression — these are manifestations of that living anarchy, which is not disorder but voluntary and insurgent order. Against the bureaucratic coldness of state-worshipping leftists, the combative tenderness of those who care for their comrades’ wounds while destroying the fences of the world.

Therefore, let every morning be a daily assembly where we decide, in practice, to live as if anarchy were already reality. Don’t ask, do; don’t delegate, organize; don’t wait, reach out your hand. Mutual aid is not a poetic accessory of a manifesto, it is the breath of a collective body learning to walk on its own legs, without boss, without State, without god. Comrades, the revolution is not marked on the calendar — it sprouts in the instant you offer what you know, share what you have, and care for those beside you. Let us be the anarchy that dwells within us: alive, unsubmissive, solidary. No god, no boss, no state: life. And life in abundance, overflowing, woven in the warm threads of mutual aid.

Liberto Herrera

Onze mercenários contra o povo

Enquanto a FIFA e seus patrocinadores – Coca-Cola, Visa, Adidas – esfregam as mãos com os lucros projetados de US$ 11 bilhões para a Copa do Mundo de Futebol de 2026, estendido por 16 cidades na América do Norte, a classe trabalhadora novamente será convocada a bater palmas para o próprio cárcere.

Aqui, não se trata de amor ao futebol, paixão que poderia ser vivida em campos de várzea e peladas de bairro, mas sim de um ritual meticulosamente fabricado para sequestrar nosso desejo de comunidade e transformá-lo em mercadoria. O espetáculo burguês não é diversão: é o ópio dopado com isopor e telões, a última instância da alienação em tempos de crise. Enquanto desviamos o olhar para o drible do craque ou a polêmica do VAR, o capital avança na precarização do trabalho, na especulação imobiliária sobre os estádios e na militarização das cidades-sede – tudo sob o verniz da “festa”.

O que os cartolas chamam de “legado” é, na verdade, um rastro de despejos, superfaturamento e dívidas públicas impagáveis. Dados do próprio movimento “FIFA Watch” indicam que, nas últimas cinco Copas, mais de 70% dos estádios construídos ou reformados estão subutilizados ou abandonados – como o Estádio da Amazônia, em Manaus, que custou R$ 600 milhões e hoje serve de depósito. Para 2026, a promessa é de “estádios existentes” – mas isso não impede que cidades como Vancouver e Los Angeles estejam gastando centenas de milhões em “adequações” bilionárias enquanto seus sem-teto são varridos com jatos d’água em pleno inverno. O Estado, fiel cão de guarda do capital, criminaliza moradores de rua para “embelezar” a vitrine, e a grande mídia aplaude a “modernização”. Não há paixão que justifique um único despejo: há apenas a lógica do lucro travestida de celebração planetária.

A Copa é também o maior espetáculo de militarização consentida. Para o Mundial de 2026, o Departamento de Segurança Interna dos EUA já anunciou um esquema inédito de vigilância por drones, reconhecimento facial em massa e um “perímetro de segurança” que transformará bairros inteiros em zonas de exceção.

No México, o exército ocupará as ruas, com os mesmos fuzis que assassinam camponeses e estudantes agora “protegendo” os turistas. Os dados são nauseantes: o Brasil gastou R$1,2 bilhões em aparato repressivo na Copa de 2014. Para 2026, o Mundial ocorrerá em três países e se desviarão mais de USD 3 bilhões de áreas como saúde e educação para financiar esse estado de sítio festivo. O torcedor, hipnotizado pela bola, não vê que a mesma estrutura que revista sua mochila nas catracas é a que reprime greves e ocupa territórios periféricos. A alienação se completa quando aplaudimos a própria corrente que nos aperta.

Diante disso, a atitude libertária é recusar o espetáculo em todas as suas formas: não consumir a transmissão, não comprar o ingresso, não aplaudir os heróis fabricados. Que venham os campeonatos de rua sem juiz, as peladas mistas na laje, a festa que não precise de patrocínio nem de polícia.

Enquanto a FIFA lucra com nossa passividade, a tarefa é construir contra-espetáculos: invadir os telões públicos com projeções de dados reais sobre os mortos da militarização, transformar os dias de jogo em atos de despejo simbólico das marcas, fazer do impedimento uma alegoria política: tudo que sustenta a Copa é impedido de ser justo. A bola, roubada do campo privatizado, pode rolar livre – mas só quando deixar de ser vitrine para voltar a ser brinquedo.

Liberto Herrera.

Hierarquia não se reforma, se destrói

Toda hierarquia nasce da violência e se alimenta da obediência. Estado e Capital são faces da mesma moeda: um garante a propriedade, o outro a exploração. E nenhum deles jamais cedeu poder por bondade. Concessões vieram de lutas, nunca de mesas de negociação com o algoz. Reformar a hierarquia é como podar os galhos de uma árvore envenenada — a raiz continua intacta, sugando a vida de baixo.

O reformismo é a armadilha mais sofisticada do poder. Dizem que com o voto se muda a polícia, com leis se controla o patrão, com conselhos se humaniza o Estado. Mentira. A polícia continua matando, o patrão continua roubando a mais-valia, e o Estado segue protegendo os dois. Enquanto existir um chefe com poder de demitir, um juiz com poder de prender, um gerente com poder de humilhar, a hierarquia segue funcionando — apenas com verniz de ternura.

Não se conserta uma corrente. Se corta. A história nos ensina que cada migalha de direito foi arrancada às pressas quando o medo mudou de lado. Mas assim que a ameaça passa, a engrenagem volta a moer ossos. Por isso a autonomia não se pede, se exerce. Organização horizontal, decisão coletiva, poder difuso — não são métodos, são a própria antítese da dominação. Sem delegados, sem representantes, sem salvadores.

O anarquismo não negocia com o carcereiro sobre o tamanho da cela. Quer derrubar os muros. E isso significa recusar qualquer tentativa de “aperfeiçoamento” do Estado ou do Capital. Não existe Estado democrático de direito quando a fábrica continua sendo uma ditadura. Não existe capitalismo com rosto humano quando o despejo e a fome são leis de mercado. Reformar a hierarquia é perpetuar o cativeiro com novas algemas de plástico reciclável.

Portanto, a tarefa é clara: desmontar, desobedecer, desfazer. Toda vez que um líder se auto proclama, desconfie. Toda vez que uma instituição pede “paciência e diálogo”, corra. A destruição não é violência — é defesa. E enquanto restar um único cargo de mando, um único orçamento secreto, uma única ordem sem consentimento, a luta segue. Hierarquia não se repara, se extirpa. Portanto, fogo na base e autogestão já!

Liberto Herrera.

RECORDEM, COMPANHEIROS: O ANARQUISMO NÃO SE VOTA, SE CONSTRÓI NAS RUAS!

Mais um ano de 2026 se anuncia, e com ele a velha farsa eleitoral que a cada quatro anos tenta nos convencer de que a mudança vem das urnas. Mas nós, anarquistas, não esquecemos: o Estado é o nosso inimigo. Não importa se vista a camisa vermelha, azul ou verde; não importa o nome do ditador de plantão ou do “representante do povo”. O Estado é a espinha dorsal da opressão, a máquina que monopoliza a violência legal, que prende, explora, mata e decide quem vive e quem morre. Participar do jogo eleitoral é dar legitimidade a essa máquina assassina. É reconhecer que alguns seres humanos têm o direito de comandar os outros. E isso, companheiros, é a própria negação do anarquismo.

Não se deixem enganar pelas promessas de “mudança pela política”. Cada voto depositado na urna é um tijolo que reforça os muros da prisão que nos contém. Quando vocês entram na cabine de votação, estão dizendo ao sistema: “Aceito suas regras, aceito seus mestres, aceito que minha liberdade seja representada por um ladrão de terno”. Lembrem-se: toda eleição é uma cerimônia de legitimação da dominação. Os candidatos não são porta-vozes do povo — são capatazes do capital, da propriedade privada e da ordem estabelecida. E ao votar, vocês se tornam cúmplices dessa farsa, alimentando a ilusão de que a opressão pode ser humanizada. Ela não pode. Ela só pode ser destruída.

Nós não queremos reformar o Estado. Queremos extingui-lo. A história já nos mostrou: anarquistas que se renderam à lógica eleitoral abandonaram a essência da luta. Não existe “voto anarquista”, assim como não existe “cadeia anarquista” ou “exército anarquista”. O que existe é a ação direta, a autogestão, a organização de baixo para cima, sem patrões nem governantes. Quando boicotamos as eleições, estamos dizendo não apenas “não voto”, mas sim “não reconheço sua autoridade”. Cada eleição que ignoramos é um golpe na imagem de que o Estado é necessário. Cada hora que deixamos de gastar em comícios ou propagandas eleitorais é uma hora a mais dedicada à construção de redes de apoio mútuo, ocupações, cooperativas e assembléias populares.

Este ano de 2026, os donos do poder tentarão de novo nos chamar para o teatro. As telas se encherão de promessas, os debates fingirão debate, e os cofres públicos serão saqueados para financiar mentiras. Mas nós, que sabemos que a liberdade não se mendiga nem se vota, vamos responder com desobediência. Vamos recusar a urna como recusamos a algema. Vamos rir dos que nos chamam de “alienados” — alienado é quem entrega sua vontade a um pedaço de papel. A nossa pátria é o mundo, e nosso governo é a solidariedade horizontal entre iguais. Não queremos representantes, queremos ação. Não queremos promessas, queremos práticas libertárias.

Portanto, companheiros, quando setembro de 2026 chegar e os meios de comunicação bradarem sobre a “importância do voto consciente”, mantenham-se firmes. Boicotem as eleições. Façam campanha anti-eleitoral nos bairros, nos sindicatos, nas escolas. Digam em alto e bom som: o anarquismo é antiestatal ou não é nada. E que os candidatos, os juízes eleitorais e os políticos de todas as faixas saibam: nossa luta não é por uma vaga no parlamento. Nossa luta é pela abolição de todo o parlamento, de toda a cadeia de comando, de toda a hierarquia. Enquanto eles contam votos, nós plantaremos árvores, ocuparemos terras, criaremos bibliotecas populares, montaremos hortas comunitárias, organizaremos defesas mútuas. Esse é o caminho. Não atrás de um governante. Mas ao lado dos nossos iguais. Viva a luta antiestatal! Abaixo as eleições! O futuro é autogestionário ou não será.

Liberto Herrera.

Español:

RECUERDEN, COMPAÑEROS: ¡EL ANARQUISMO NO SE VOTA, SE CONSTRUYE EN LAS CALLES!

Otro año 2026 se anuncia, y con él la vieja farsa electoral que cada cuatro años intenta convencernos de que el cambio viene de las urnas. Pero nosotros, anarquistas, no olvidamos: el Estado es nuestro enemigo. No importa si se vista de camisa roja, azul o verde; no importa el nombre del dictador de turno o del “representante del pueblo”. El Estado es la columna vertebral de la opresión, la máquina que monopoliza la violencia legal, que encarcela, explota, mata y decide quién vive y quién muere. Participar en el juego electoral es dar legitimidad a esa máquina asesina. Es reconocer que algunos seres humanos tienen el derecho de mandar sobre otros. Y eso, compañeros, es la propia negación del anarquismo.

No se dejen engañar por las promesas de “cambio a través de la política”. Cada voto depositado en la urna es un ladrillo que refuerza los muros de la prisión que nos contiene. Cuando entran en la cabina de votación, le están diciendo al sistema: “Acepto tus reglas, acepto tus amos, acepto que mi libertad sea representada por un ladrón de traje”. Recuerden: toda elección es una ceremonia de legitimación de la dominación. Los candidatos no son portavoces del pueblo — son capataces del capital, de la propiedad privada y del orden establecido. Y al votar, se vuelven cómplices de esa farsa, alimentando la ilusión de que la opresión puede ser humanizada. No puede. Solo puede ser destruida.

Nosotros no queremos reformar el Estado. Queremos extinguirlo. La historia ya nos ha mostrado: los anarquistas que se rindieron a la lógica electoral abandonaron la esencia de la lucha. No existe el “voto anarquista”, como no existe la “cárcel anarquista” ni el “ejército anarquista”. Lo que existe es la acción directa, la autogestión, la organización de abajo hacia arriba, sin patrones ni gobernantes. Cuando boicoteamos las elecciones, no solo decimos “no voto”, sino “no reconozco tu autoridad”. Cada elección que ignoramos es un golpe a la imagen de que el Estado es necesario. Cada hora que dejamos de gastar en mítines o propaganda electoral es una hora más dedicada a construir redes de apoyo mutuo, ocupaciones, cooperativas y asambleas populares.

Este año 2026, los dueños del poder intentarán nuevamente llamarnos al teatro. Las pantallas se llenarán de promesas, los debates fingirán debate, y las arcas públicas serán saqueadas para financiar mentiras. Pero nosotros, que sabemos que la libertad no se mendiga ni se vota, responderemos con desobediencia. Rechazaremos la urna como rechazamos las esposas. Nos reiremos de quienes nos llaman “alienados” — alienado es quien entrega su voluntad a un pedazo de papel. Nuestra patria es el mundo, y nuestro gobierno es la solidaridad horizontal entre iguales. No queremos representantes, queremos acción. No queremos promesas, queremos prácticas libertarias.

Por lo tanto, compañeros, cuando llegue septiembre de 2026 y los medios de comunicación clamen sobre la “importancia del voto consciente”, manténganse firmes. Boicoteen las elecciones. Hagan campaña antielectoral en los barrios, en los sindicatos, en las escuelas. Digan alto y claro: el anarquismo es antiestatal o no es nada. Y que los candidatos, los jueces electorales y los políticos de toda calaña sepan: nuestra lucha no es por un escaño en el parlamento. Nuestra lucha es por la abolición de todo el parlamento, de toda la cadena de mando, de toda jerarquía. Mientras ellos cuentan votos, nosotros plantaremos árboles, ocuparemos tierras, crearemos bibliotecas populares, montaremos huertas comunitarias, organizaremos defensas mutuas. Ese es el camino. No detrás de un gobernante. Sino al lado de nuestros iguales. ¡Viva la lucha antiestatal! ¡Abajo las elecciones! El futuro es autogestionario o no será.

Liberto Herrera.

English:

REMEMBER, COMRADES: ANARCHISM IS NOT VOTED, IT IS BUILT IN THE STREETS!

Another year 2026 is announced, and with it the old electoral farce that every four years tries to convince us that change comes from the ballot box. But we anarchists have not forgotten: the State is our enemy. It doesn’t matter if it wears a red, blue, or green shirt; it doesn’t matter the name of the current dictator or the “people’s representative.” The State is the backbone of oppression, the machine that monopolizes legal violence, that imprisons, exploits, kills, and decides who lives and who dies. Participating in the electoral game is giving legitimacy to that murderous machine. It is acknowledging that some human beings have the right to rule over others. And that, comrades, is the very negation of anarchism.

Do not be fooled by promises of “change through politics.” Every vote cast in the ballot box is a brick that reinforces the prison walls that contain us. When you enter the voting booth, you are telling the system: “I accept your rules, I accept your masters, I accept that my freedom be represented by a suited thief.” Remember: every election is a ceremony legitimizing domination. Candidates are not spokespeople for the people — they are foremen for capital, private property, and the established order. And by voting, you become complicit in that farce, feeding the illusion that oppression can be humanized. It cannot. It can only be destroyed.

We do not want to reform the State. We want to abolish it. History has already shown us: anarchists who surrendered to electoral logic abandoned the essence of struggle. There is no such thing as an “anarchist vote,” just as there is no “anarchist prison” or “anarchist army.” What exists is direct action, self-management, organization from below, without bosses or rulers. When we boycott elections, we are saying not only “I don’t vote,” but “I do not recognize your authority.” Every election we ignore is a blow to the image that the State is necessary. Every hour we don’t waste on rallies or electoral propaganda is one more hour dedicated to building mutual aid networks, occupations, cooperatives, and popular assemblies.

This year 2026, the powers that be will try once more to summon us to their theater. Screens will fill with promises, debates will feign debate, and public coffers will be looted to finance lies. But we, who know that freedom is neither begged for nor voted for, will respond with disobedience. We will refuse the ballot box just as we refuse the handcuffs. We will laugh at those who call us “alienated” — the alienated one is the one who hands over their will to a piece of paper. Our homeland is the world, and our government is horizontal solidarity among equals. We do not want representatives, we want action. We do not want promises, we want libertarian practices.

Therefore, comrades, when September 2026 arrives and the media cries out about the “importance of conscious voting,” remain steadfast. Boycott the elections. Run anti-electoral campaigns in neighborhoods, unions, and schools. Say it loud and clear: anarchism is anti-state or it is nothing. And let the candidates, electoral judges, and politicians of all stripes know: our struggle is not for a seat in parliament. Our struggle is for the abolition of all parliament, of the entire chain of command, of all hierarchy. While they count votes, we will plant trees, occupy land, create popular libraries, set up community gardens, organize mutual defense. That is the path. Not behind a ruler. But alongside our equals. Long live the anti-state struggle! Down with elections! The future is self-managed or it will not be.

Liberto Herrera.

O 1º de Maio horizontal da UAF e FACA

Companheirxs da União Anarquista Federal (UAF) e da Federação Anarquista Capixaba (FACA), meu punho cerrado e meu coração em chamas vão para vocês neste Primeiro de Maio que ainda ecoa nas ruas!

Enquanto os sindicalistas de mesa e os políticos de gabinete negociavam migalhas nos palanques oficiais, vocês fizeram o que sempre fez a classe que se nega a ser rebanho: desceram aos territórios, sujaram as botas na lama da luta e ocuparam as esquinas com bandeiras negras e vermelhas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, passando por cada cidade de interior onde o giz e a coragem escrevem “propriedade é roubo”, vocês demonstraram que o Primeiro de Maio só tem sentido quando é feito por aqueles que constroem o mundo com as próprias mãos — não por seus patrões ou seus capatazes. Não foi um desfile, foi uma trincheira. E é assim que se forja a revolução: na rua, na fábrica, na escola ocupada, no beco onde a polícia teme entrar.

Quero destacar a decisão acertada de levar a propaganda libertária exatamente para onde ela mais incomoda: os bairros operários, as periferias, os assentamentos, os portões das unidades fabris. Enquanto certas esquerdas se contentam em ocupar apenas as redes digitais ou os palcos institucionais, a UAF e a FACA entenderam que a ideia anarquista só floresce no suor, na fome e na revolta concreta.

Mais de catorze cidades em quatro estados — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia — viram a insurreição silenciosa das assembleias de bairro, das panfletagens relâmpago, das faixas amarradas a viadutos e das rodas de conversa. Em cada roda, em cada palavra, plantou-se a semente do contra-poder: a autogestão, o apoio mútuo, a recusa da representação. Isso é estar entre os explorados e oprimidos — não de cima para baixo, mas lado a lado, ombro a ombro, sem vanguardas nem messias.

O Primeiro de Maio anarquista não é data comemorativa; é data de combate. E a lição que fica, companheirxs, é que não se espera o “momento certo” nem se depende de nenhuma conjuntura favorável. Faz-se a ação direta aqui, agora, com o que se tem. As ações descentralizadas em mais de catorze cidades mostram o poder da horizontalidade: não há centro que comande, nem liderança que decida — há apenas a chama que se espalha por contágio.

Que sirva de exemplo para todxs aqueles que ainda acreditam que o anarquismo é utopia: utopia é acreditar que o Estado vai acabar com a exploração. O que vimos foi a potência real de pessoas comuns — metalúrgicos, professores precarizados, entregadores, estudantes, mães solo, camponeses sem terra — construindo a rebelião no cotidiano. Isso, sim, é a Internacional na prática.

Por fim, um chamado: que este Primeiro de Maio não acabe nunca. Que as rodas da FACA e os núcleos da UAF se multipliquem em cada esquina, cada fábrica, cada latifúndio, cada cozinha comunitária. Que a Bahia, o Espírito Santo, o Rio e Minas sejam apenas o começo. Que venham o Pará, o Ceará, o Rio Grande do Sul, o sertão e a periferia de todas as capitais. O anarquismo não se pede licença para existir. Existimos na fuga da cadeia, na greve selvagem, na ocupação de terra, na escola livre.

Parabéns a todxs que sujaram as mãos de tinta, de piche e de esperança. Sigamos em frente: nem de joelhos diante do patrão, nem de costas para a luta. A revolução é como um incêndio — não se negocia com as chamas. E vocês provaram que o Primeiro de Maio ainda é nosso, inteiramente nosso, sem bandeiras nacionais nem hinos de caserna. Até a vitória e que a terra seja de quem trabalha!

Liberto Herrera, um punho entre muitos.

Español

El 1º de Mayo horizontal de la UAF y la FACA

Compañerxs de la Unión Anarquista Federal (UAF) y de la Federación Anarquista Capixaba (FACA), ¡mi puño cerrado y mi corazón en llamas van para ustedes en este Primero de Mayo que aún resuena en las calles!

Mientras los sindicalistas de mesa y los políticos de despacho negociaban migajas en los palcos oficiales, ustedes hicieron lo que siempre ha hecho la clase que se niega a ser rebaño: bajaron a los territorios, ensuciaron sus botas en el barro de la lucha y ocuparon las esquinas con banderas negras y rojas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, pasando por cada ciudad del interior donde la tiza y el coraje escriben “la propiedad es robo”, demostraron que el Primero de Mayo solo tiene sentido cuando lo hacen aquellos que construyen el mundo con sus propias manos —no sus patrones ni sus capataces. No fue un desfile, fue una trinchera. Y así es como se forja la revolución: en la calle, en la fábrica, en la escuela ocupada, en el callejón donde la policía teme entrar.

Quiero destacar la acertada decisión de llevar la propaganda libertaria exactamente a donde más incomoda: los barrios obreros, las periferias, los asentamientos, las puertas de las fábricas. Mientras ciertas izquierdas se contentan con ocupar solo las redes digitales o los escenarios institucionales, la UAF y la FACA entendieron que la idea anarquista solo florece en el sudor, el hambre y la revuelta concreta.

Más de catorce ciudades en cuatro estados —Minas Gerais, Río de Janeiro, Espírito Santo y Bahía— vieron la insurrección silenciosa de las asambleas de barrio, los panfleteos relámpago, las pancartas atadas a los viaductos y los círculos de conversación. En cada círculo, en cada palabra, se sembró la semilla del contrapoder: la autogestión, el apoyo mutuo, el rechazo de la representación. Eso es estar entre los explotados y oprimidos —no de arriba abajo, sino lado a lado, hombro con hombro, sin vanguardias ni mesías.

El Primero de Mayo anarquista no es fecha conmemorativa; es fecha de combate. Y la lección que queda, compañerxs, es que no se espera el “momento correcto” ni se depende de ninguna coyuntura favorable. Se hace la acción directa aquí, ahora, con lo que se tiene. Las acciones descentralizadas en más de catorce ciudades muestran el poder de la horizontalidad: no hay centro que mande, ni liderazgo que decida —hay solo la llama que se propaga por contagio.

Que sirva de ejemplo para todes aquellos que aún creen que el anarquismo es utopía: utopía es creer que el Estado va a acabar con la explotación. Lo que vimos fue la potencia real de personas comunes —metalúrgicos, docentes precarizados, repartidores, estudiantes, madres solteras, campesinos sin tierra— construyendo la rebelión en lo cotidiano. Eso, sí, es la Internacional en la práctica.

Finalmente, un llamado: que este Primero de Mayo no termine nunca. Que los círculos de la FACA y los núcleos de la UAF se multipliquen en cada esquina, cada fábrica, cada latifundio, cada cocina comunitaria. Que Bahía, Espírito Santo, Río y Minas sean solo el comienzo. Que vengan Pará, Ceará, Río Grande del Sur, el sertón y la periferia de todas las capitales. El anarquismo no pide permiso para existir. Existimos en la fuga de la cárcel, en la huelga salvaje, en la ocupación de tierra, en la escuela libre.

Felicidades a todes que ensuciaron sus manos de tinta, de brea y de esperanza. Sigamos adelante: ni de rodillas ante el patrón, ni de espaldas a la lucha. La revolución es como un incendio —no se negocia con las llamas. Y ustedes demostraron que el Primero de Mayo sigue siendo nuestro, enteramente nuestro, sin banderas nacionales ni himnos de cuartel. ¡Hasta la victoria y que la tierra sea de quien la trabaja!

Liberto Herrera, un puño entre muchos.


English

The Horizontal May 1st of the UAF and FACA

Comrades of the Federal Anarchist Union (UAF) and the Capixaba Anarchist Federation (FACA), my clenched fist and my heart on fire go out to you on this First of May that still echoes in the streets!

While the union bureaucrats and office politicians were negotiating crumbs from official stages, you did what the class that refuses to be livestock has always done: you went down to the territories, muddied your boots in the mire of struggle, and occupied street corners with black and red flags. From Contagem to Vitória, from Cachoeiro de Itapemirim to Salvador, passing through every inland town where chalk and courage write “property is theft,” you demonstrated that May Day only makes sense when it is carried out by those who build the world with their own hands — not by their bosses or their overseers. It was not a parade; it was a trench. And that is how revolution is forged: in the street, in the factory, in the occupied school, in the alley where the police fear to tread.

I want to highlight the wise decision to take libertarian propaganda exactly where it causes the most discomfort: working-class neighborhoods, the peripheries, settlements, the gates of factories. While certain leftists are content with occupying only digital networks or institutional stages, the UAF and FACA understood that the anarchist idea only flourishes in sweat, hunger, and concrete revolt.

More than fourteen cities across four states — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, and Bahia — witnessed the silent insurrection of neighborhood assemblies, lightning leafleting, banners tied to overpasses, and discussion circles. In every circle, in every word, the seed of counter-power was planted: self-management, mutual aid, the rejection of representation. That is what it means to be among the exploited and oppressed — not from above, but side by side, shoulder to shoulder, without vanguards or messiahs.

Anarchist May Day is not a celebratory date; it is a date of combat. And the lesson that remains, comrades, is that one does not wait for the “right moment” nor depend on any favorable conjuncture. One does direct action here, now, with what one has. The decentralized actions in over fourteen cities show the power of horizontality: there is no center that commands, no leadership that decides — there is only the flame that spreads by contagion.

Let this serve as an example to all those who still believe anarchism is a utopia: utopia is believing that the State will end exploitation. What we saw was the real power of ordinary people — metalworkers, precarious teachers, delivery workers, students, single mothers, landless peasants — building rebellion in daily life. That, indeed, is the International in practice.

Finally, a call: may this First of May never end. May FACA’s circles and UAF’s nuclei multiply on every corner, every factory, every large estate, every community kitchen. Let Bahia, Espírito Santo, Rio, and Minas be just the beginning. Let Pará, Ceará, Rio Grande do Sul, the backlands, and the peripheries of all capitals come forth. Anarchism does not ask permission to exist. We exist in the escape from prison, in the wildcat strike, in land occupation, in the free school.

Congratulations to all who dirtied their hands with ink, with pitch, and with hope. Let us move forward: neither on our knees before the boss, nor turning our backs on the struggle. Revolution is like a fire — you do not negotiate with flames. And you have proven that May Day is still ours, entirely ours, without national flags or barrack anthems. Until victory and may the land belong to those who work it!

Liberto Herrera, one fist among many.

Vida precária, punho erguido: organizar ou morrer

Chega.

Chega de esperar o salvador de paletó, o sindicato de mãos dadas com o patrão, o político que vai nos dar a mão enquanto a outra nos apunhala pelas costas. Chega de assistir, de lamentar, de compartilhar artigo de opinião e achar que isso é luta. A passividade é o nosso verdadeiro algoz. Ela é a saliva que lubrifica a guilhotina.

Olhem ao redor. A precarização não é acidente, é projeto. Seu salário que não dá pra carne, seu aluguel que come três quartos do mês, seu tempo de vida trocado por migalhas e um atestado de burnout – tudo arquitetado. As guerras não são loucura de poucos: são negócio. Cada bomba que explode longe é financiada pelos mesmos bancos que te negam crédito, pelos mesmos fundos que compram sua dívida, pelos mesmos governos que nos chamam de “ameaça” quando pegamos numa bandeira negra.

E a decadência burguesa? Olhem para o espetáculo. Celebridades vendendo ansiedade como estilo de vida, influenciadores pregando resiliência pra quem não tem o que comer, uma cultura que transforma desespero em entretenimento. O inimigo não está apenas na fábrica, no quartel ou no palácio. Ele está dentro da nossa cabeça quando acreditamos que “não tem jeito”, que “é assim mesmo”, que o máximo que podemos fazer é votar e rezar.

Mentira.

A resposta não virá de cima. Nunca veio. Virá de nós, dos nossos punhos suados, das nossas costas doloridas, das nossas noites em claro costurando lona para barricada ou imprimindo panfleto na gráfica do companheiro que arrisca o couro. A resposta é luta. E luta sem organização é espasmo.

Por isso, para o Primeiro de Maio de 2026, não quero ver bandeira institucional hasteada por burocrata de gravata. Quero ver assembleia no bairro, piquete na porta do armazém que explora, greve geral começando às 6h da manhã. Quero ver o trabalho parado, a produção interrompida, o silêncio ensurdecedor das máquinas que só se calam quando nós mandamos. Quero ver os precarizados – entregadores, terceirizados, intermitentes, os “sem-direitos” – descobrindo que o poder está na rua, não no aplicativo.

Organização não é burocracia. É reconhecer o companheiro do lado, saber em quem confiar quando o gás lacrimogêneo descer. É ter um plano, um fundo de resistência, uma gráfica, um telégrafo humano. É aprender com os que vieram antes – os anarquistas que tombaram nas fábricas, nos campos, nas guerras civis – e aplicar ao nosso tempo. O inimigo tem inteligência artificial e satélite. Nós temos o que ele nunca terá: a certeza de que a terra é de quem nela põe os pés e o suor.

1º de Maio de 2026: vamos parar o mundo. Não com pedido, não com abaixo-assinado, não com marcha light autorizada pela prefeitura. Vamos parar com ação direta. O dia em que nenhum caminhão circular, nenhum lixo for coletado, nenhuma aula for dada, nenhum prato for lavado no restaurante. O dia em que a burguesia olhar pela janela e ouvir o silêncio da produção parada – o barulho mais aterrorizante que existe pra quem vive de explorar.

A precarização da vida só vence quando aceitamos migalhas em troca de sossego. As guerras só continuam enquanto a classe trabalhadora se mata entre si por bandeirinhas. A decadência só é suportável enquanto nos anestesiamos com consumo e futilidade.

Nosso grito não é por “inclusão” no sistema. Nosso grito é pelo fim do sistema.

Organizar ou ser aniquilado. Lutar ou apodrecer.

Dia 1º de Maio de 2026, a terra treme. E não será terremoto. Serão nossas botas no asfalto.

Vidas precárias, nenhum minuto a mais de passividade. Às ruas, companheiros. O futuro não espera – ele se toma.

Liberto Herrera.

Español:

Vida precaria, puño en alto: organizarse o morir

Basta.

Basta de esperar al salvador de corbata, al sindicato de manos dadas con el patrón, al político que nos dará la mano mientras la otra nos apuñala por la espalda. Basta de mirar, de lamentarse, de compartir artículos de opinión y creer que eso es lucha. La pasividad es nuestra verdadera verdugo. Es la saliva que lubrica la guillotina.

Miren a su alrededor. La precarización no es un accidente, es un proyecto. Su salario que no alcanza para carne, su alquiler que devora tres cuartas partes del mes, su tiempo de vida cambiado por migajas y un certificado de agotamiento laboral: todo diseñado. Las guerras no son locura de unos pocos: son negocio. Cada bomba que estalla lejos es financiada por los mismos bancos que le niegan crédito, por los mismos fondos que compran su deuda, por los mismos gobiernos que nos llaman “amenaza” cuando empuñamos una bandera negra.

¿Y la decadencia burguesa? Miren el espectáculo. Celebridades vendiendo ansiedad como estilo de vida, influencers predicando resiliencia para quien no tiene qué comer, una cultura que transforma la desesperación en entretenimiento. El enemigo no está solo en la fábrica, en el cuartel o en el palacio. Está dentro de nuestra cabeza cuando creemos que “no hay solución”, que “es así nomás”, que lo máximo que podemos hacer es votar y rezar.

Mentira.

La respuesta no vendrá de arriba. Nunca vino. Vendrá de nosotros, de nuestros puños sudados, de nuestras espaldas doloridas, de nuestras noches en vela cosiendo lona para la barricada o imprimiendo panfletos en la gráfica del compañero que arriesga el pellejo. La respuesta es lucha. Y lucha sin organización es espasmo.

Por eso, para el Primero de Mayo de 2026, no quiero ver bandera institucional izada por burócratas de corbata. Quiero ver asamblea en el barrio, piquete en la puerta del depósito que explota, huelga general empezando a las 6 de la mañana. Quiero ver el trabajo parado, la producción interrumpida, el silencio ensordecedor de las máquinas que solo callan cuando nosotros lo ordenamos. Quiero ver a los precarizados —repartidores, tercerizados, intermitentes, los “sin derechos”— descubriendo que el poder está en la calle, no en la aplicación.

Organización no es burocracia. Es reconocer al compañero de al lado, saber en quién confiar cuando el gas lacrimógeno baje. Es tener un plan, un fondo de resistencia, una imprenta, un telégrafo humano. Es aprender de los que vinieron antes —los anarquistas que cayeron en las fábricas, en los campos, en las guerras civiles— y aplicarlo a nuestro tiempo. El enemigo tiene inteligencia artificial y satélites. Nosotros tenemos lo que él nunca tendrá: la certeza de que la tierra es de quien pone los pies y el sudor en ella.

1º de Mayo de 2026: vamos a parar el mundo. No con un pedido, no con una petición de firmas, no con una marcha light autorizada por la alcaldía. Vamos a pararlo con acción directa. El día en que ningún camión circule, ninguna basura sea recolectada, ninguna clase sea dada, ningún plato sea lavado en el restaurante. El día en que la burguesía mire por la ventana y escuche el silencio de la producción detenida —el ruido más aterrador que existe para quien vive de explotar.

La precarización de la vida solo vence cuando aceptamos migajas a cambio de tranquilidad. Las guerras solo continúan mientras la clase trabajadora se mata entre sí por banderitas. La decadencia solo es soportable mientras nos anestesian con consumo y frivolidad.

Nuestro grito no es por “inclusión” en el sistema. Nuestro grito es por el fin del sistema.

Organizarse o ser aniquilados. Luchar o pudrirse.

Día 1º de Mayo de 2026, la tierra tiembla. Y no será un terremoto. Serán nuestras botas sobre el asfalto.

Vidas precarias, ni un minuto más de pasividad. ¡A las calles, compañeros! El futuro no espera — se toma.

Liberto Herrera.

English:

Precarious life, fist raised: organize or die

Enough.

Enough of waiting for the savior in a tie, the union hand in hand with the boss, the politician who offers a hand while stabbing us in the back with the other. Enough of watching, lamenting, sharing opinion pieces and calling that struggle. Passivity is our true executioner. It is the saliva that greases the guillotine.

Look around. Precarization is not an accident – it’s a project. Your wage that won’t buy meat, your rent that eats three-quarters of your month, your lifetime traded for crumbs and a burnout certificate – all of it designed. Wars are not the madness of a few: they are business. Every bomb that explodes far away is financed by the same banks that deny you credit, by the same funds that buy your debt, by the same governments that call us a “threat” when we raise the black flag.

And bourgeois decadence? Look at the spectacle. Celebrities selling anxiety as a lifestyle, influencers preaching resilience to those with nothing to eat, a culture that turns despair into entertainment. The enemy is not only in the factory, the barracks, or the palace. He is inside our heads when we believe that “there’s no way out”, that “that’s just how it is”, that the most we can do is vote and pray.

Lie.

The answer will not come from above. It never has. It will come from us, from our sweaty fists, from our aching backs, from our sleepless nights sewing tarp for the barricade or printing flyers at the comrade’s shop who risks their hide. The answer is struggle. And struggle without organization is a mere spasm.

That is why, for May Day 2026, I don’t want to see an institutional flag raised by bureaucrats in ties. I want to see a neighborhood assembly, a picket line at the door of the warehouse that exploits, a general strike starting at 6 AM. I want to see work stopped, production halted, the deafening silence of machines that only shut up when we command them. I want to see the precarious workers – delivery drivers, outsourced workers, gig workers, the “rightless” – discovering that power lies in the street, not in the app.

Organization is not bureaucracy. It is recognizing the comrade next to you, knowing who to trust when the tear gas comes down. It is having a plan, a solidarity fund, a printing press, a human telegraph. It is learning from those who came before – the anarchists who fell in factories, in fields, in civil wars – and applying it to our own time. The enemy has artificial intelligence and satellites. We have what he will never have: the certainty that the land belongs to those who put their feet and sweat on it.

May 1st, 2026: we will stop the world. Not with a request, not with a petition, not with a police-approved march. We will stop it with direct action. The day when no truck moves, no trash is collected, no class is taught, no dish is washed in the restaurant. The day when the bourgeoisie looks out the window and hears the silence of halted production – the most terrifying sound that exists for those who live by exploitation.

The precarization of life only wins when we accept crumbs in exchange for quiet. Wars only continue while the working class kills each other over little flags. Decadence is only bearable as long as we are numbed with consumption and frivolity.

Our cry is not for “inclusion” in the system. Our cry is for the end of the system.

Organize or be annihilated. Fight or rot.

May Day 2026, the earth shakes. And it will not be an earthquake. It will be our boots on the asphalt.

Precarious lives, not one more minute of passivity. To the streets, comrades. The future does not wait – it is taken.

Liberto Herrera.