RECORDEM, COMPANHEIROS: O ANARQUISMO NÃO SE VOTA, SE CONSTRÓI NAS RUAS!

Mais um ano de 2026 se anuncia, e com ele a velha farsa eleitoral que a cada quatro anos tenta nos convencer de que a mudança vem das urnas. Mas nós, anarquistas, não esquecemos: o Estado é o nosso inimigo. Não importa se vista a camisa vermelha, azul ou verde; não importa o nome do ditador de plantão ou do “representante do povo”. O Estado é a espinha dorsal da opressão, a máquina que monopoliza a violência legal, que prende, explora, mata e decide quem vive e quem morre. Participar do jogo eleitoral é dar legitimidade a essa máquina assassina. É reconhecer que alguns seres humanos têm o direito de comandar os outros. E isso, companheiros, é a própria negação do anarquismo.

Não se deixem enganar pelas promessas de “mudança pela política”. Cada voto depositado na urna é um tijolo que reforça os muros da prisão que nos contém. Quando vocês entram na cabine de votação, estão dizendo ao sistema: “Aceito suas regras, aceito seus mestres, aceito que minha liberdade seja representada por um ladrão de terno”. Lembrem-se: toda eleição é uma cerimônia de legitimação da dominação. Os candidatos não são porta-vozes do povo — são capatazes do capital, da propriedade privada e da ordem estabelecida. E ao votar, vocês se tornam cúmplices dessa farsa, alimentando a ilusão de que a opressão pode ser humanizada. Ela não pode. Ela só pode ser destruída.

Nós não queremos reformar o Estado. Queremos extingui-lo. A história já nos mostrou: anarquistas que se renderam à lógica eleitoral abandonaram a essência da luta. Não existe “voto anarquista”, assim como não existe “cadeia anarquista” ou “exército anarquista”. O que existe é a ação direta, a autogestão, a organização de baixo para cima, sem patrões nem governantes. Quando boicotamos as eleições, estamos dizendo não apenas “não voto”, mas sim “não reconheço sua autoridade”. Cada eleição que ignoramos é um golpe na imagem de que o Estado é necessário. Cada hora que deixamos de gastar em comícios ou propagandas eleitorais é uma hora a mais dedicada à construção de redes de apoio mútuo, ocupações, cooperativas e assembléias populares.

Este ano de 2026, os donos do poder tentarão de novo nos chamar para o teatro. As telas se encherão de promessas, os debates fingirão debate, e os cofres públicos serão saqueados para financiar mentiras. Mas nós, que sabemos que a liberdade não se mendiga nem se vota, vamos responder com desobediência. Vamos recusar a urna como recusamos a algema. Vamos rir dos que nos chamam de “alienados” — alienado é quem entrega sua vontade a um pedaço de papel. A nossa pátria é o mundo, e nosso governo é a solidariedade horizontal entre iguais. Não queremos representantes, queremos ação. Não queremos promessas, queremos práticas libertárias.

Portanto, companheiros, quando setembro de 2026 chegar e os meios de comunicação bradarem sobre a “importância do voto consciente”, mantenham-se firmes. Boicotem as eleições. Façam campanha anti-eleitoral nos bairros, nos sindicatos, nas escolas. Digam em alto e bom som: o anarquismo é antiestatal ou não é nada. E que os candidatos, os juízes eleitorais e os políticos de todas as faixas saibam: nossa luta não é por uma vaga no parlamento. Nossa luta é pela abolição de todo o parlamento, de toda a cadeia de comando, de toda a hierarquia. Enquanto eles contam votos, nós plantaremos árvores, ocuparemos terras, criaremos bibliotecas populares, montaremos hortas comunitárias, organizaremos defesas mútuas. Esse é o caminho. Não atrás de um governante. Mas ao lado dos nossos iguais. Viva a luta antiestatal! Abaixo as eleições! O futuro é autogestionário ou não será.

Liberto Herrera.

Español:

RECUERDEN, COMPAÑEROS: ¡EL ANARQUISMO NO SE VOTA, SE CONSTRUYE EN LAS CALLES!

Otro año 2026 se anuncia, y con él la vieja farsa electoral que cada cuatro años intenta convencernos de que el cambio viene de las urnas. Pero nosotros, anarquistas, no olvidamos: el Estado es nuestro enemigo. No importa si se vista de camisa roja, azul o verde; no importa el nombre del dictador de turno o del “representante del pueblo”. El Estado es la columna vertebral de la opresión, la máquina que monopoliza la violencia legal, que encarcela, explota, mata y decide quién vive y quién muere. Participar en el juego electoral es dar legitimidad a esa máquina asesina. Es reconocer que algunos seres humanos tienen el derecho de mandar sobre otros. Y eso, compañeros, es la propia negación del anarquismo.

No se dejen engañar por las promesas de “cambio a través de la política”. Cada voto depositado en la urna es un ladrillo que refuerza los muros de la prisión que nos contiene. Cuando entran en la cabina de votación, le están diciendo al sistema: “Acepto tus reglas, acepto tus amos, acepto que mi libertad sea representada por un ladrón de traje”. Recuerden: toda elección es una ceremonia de legitimación de la dominación. Los candidatos no son portavoces del pueblo — son capataces del capital, de la propiedad privada y del orden establecido. Y al votar, se vuelven cómplices de esa farsa, alimentando la ilusión de que la opresión puede ser humanizada. No puede. Solo puede ser destruida.

Nosotros no queremos reformar el Estado. Queremos extinguirlo. La historia ya nos ha mostrado: los anarquistas que se rindieron a la lógica electoral abandonaron la esencia de la lucha. No existe el “voto anarquista”, como no existe la “cárcel anarquista” ni el “ejército anarquista”. Lo que existe es la acción directa, la autogestión, la organización de abajo hacia arriba, sin patrones ni gobernantes. Cuando boicoteamos las elecciones, no solo decimos “no voto”, sino “no reconozco tu autoridad”. Cada elección que ignoramos es un golpe a la imagen de que el Estado es necesario. Cada hora que dejamos de gastar en mítines o propaganda electoral es una hora más dedicada a construir redes de apoyo mutuo, ocupaciones, cooperativas y asambleas populares.

Este año 2026, los dueños del poder intentarán nuevamente llamarnos al teatro. Las pantallas se llenarán de promesas, los debates fingirán debate, y las arcas públicas serán saqueadas para financiar mentiras. Pero nosotros, que sabemos que la libertad no se mendiga ni se vota, responderemos con desobediencia. Rechazaremos la urna como rechazamos las esposas. Nos reiremos de quienes nos llaman “alienados” — alienado es quien entrega su voluntad a un pedazo de papel. Nuestra patria es el mundo, y nuestro gobierno es la solidaridad horizontal entre iguales. No queremos representantes, queremos acción. No queremos promesas, queremos prácticas libertarias.

Por lo tanto, compañeros, cuando llegue septiembre de 2026 y los medios de comunicación clamen sobre la “importancia del voto consciente”, manténganse firmes. Boicoteen las elecciones. Hagan campaña antielectoral en los barrios, en los sindicatos, en las escuelas. Digan alto y claro: el anarquismo es antiestatal o no es nada. Y que los candidatos, los jueces electorales y los políticos de toda calaña sepan: nuestra lucha no es por un escaño en el parlamento. Nuestra lucha es por la abolición de todo el parlamento, de toda la cadena de mando, de toda jerarquía. Mientras ellos cuentan votos, nosotros plantaremos árboles, ocuparemos tierras, crearemos bibliotecas populares, montaremos huertas comunitarias, organizaremos defensas mutuas. Ese es el camino. No detrás de un gobernante. Sino al lado de nuestros iguales. ¡Viva la lucha antiestatal! ¡Abajo las elecciones! El futuro es autogestionario o no será.

Liberto Herrera.

English:

REMEMBER, COMRADES: ANARCHISM IS NOT VOTED, IT IS BUILT IN THE STREETS!

Another year 2026 is announced, and with it the old electoral farce that every four years tries to convince us that change comes from the ballot box. But we anarchists have not forgotten: the State is our enemy. It doesn’t matter if it wears a red, blue, or green shirt; it doesn’t matter the name of the current dictator or the “people’s representative.” The State is the backbone of oppression, the machine that monopolizes legal violence, that imprisons, exploits, kills, and decides who lives and who dies. Participating in the electoral game is giving legitimacy to that murderous machine. It is acknowledging that some human beings have the right to rule over others. And that, comrades, is the very negation of anarchism.

Do not be fooled by promises of “change through politics.” Every vote cast in the ballot box is a brick that reinforces the prison walls that contain us. When you enter the voting booth, you are telling the system: “I accept your rules, I accept your masters, I accept that my freedom be represented by a suited thief.” Remember: every election is a ceremony legitimizing domination. Candidates are not spokespeople for the people — they are foremen for capital, private property, and the established order. And by voting, you become complicit in that farce, feeding the illusion that oppression can be humanized. It cannot. It can only be destroyed.

We do not want to reform the State. We want to abolish it. History has already shown us: anarchists who surrendered to electoral logic abandoned the essence of struggle. There is no such thing as an “anarchist vote,” just as there is no “anarchist prison” or “anarchist army.” What exists is direct action, self-management, organization from below, without bosses or rulers. When we boycott elections, we are saying not only “I don’t vote,” but “I do not recognize your authority.” Every election we ignore is a blow to the image that the State is necessary. Every hour we don’t waste on rallies or electoral propaganda is one more hour dedicated to building mutual aid networks, occupations, cooperatives, and popular assemblies.

This year 2026, the powers that be will try once more to summon us to their theater. Screens will fill with promises, debates will feign debate, and public coffers will be looted to finance lies. But we, who know that freedom is neither begged for nor voted for, will respond with disobedience. We will refuse the ballot box just as we refuse the handcuffs. We will laugh at those who call us “alienated” — the alienated one is the one who hands over their will to a piece of paper. Our homeland is the world, and our government is horizontal solidarity among equals. We do not want representatives, we want action. We do not want promises, we want libertarian practices.

Therefore, comrades, when September 2026 arrives and the media cries out about the “importance of conscious voting,” remain steadfast. Boycott the elections. Run anti-electoral campaigns in neighborhoods, unions, and schools. Say it loud and clear: anarchism is anti-state or it is nothing. And let the candidates, electoral judges, and politicians of all stripes know: our struggle is not for a seat in parliament. Our struggle is for the abolition of all parliament, of the entire chain of command, of all hierarchy. While they count votes, we will plant trees, occupy land, create popular libraries, set up community gardens, organize mutual defense. That is the path. Not behind a ruler. But alongside our equals. Long live the anti-state struggle! Down with elections! The future is self-managed or it will not be.

Liberto Herrera.

O 1º de Maio horizontal da UAF e FACA

Companheirxs da União Anarquista Federal (UAF) e da Federação Anarquista Capixaba (FACA), meu punho cerrado e meu coração em chamas vão para vocês neste Primeiro de Maio que ainda ecoa nas ruas!

Enquanto os sindicalistas de mesa e os políticos de gabinete negociavam migalhas nos palanques oficiais, vocês fizeram o que sempre fez a classe que se nega a ser rebanho: desceram aos territórios, sujaram as botas na lama da luta e ocuparam as esquinas com bandeiras negras e vermelhas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, passando por cada cidade de interior onde o giz e a coragem escrevem “propriedade é roubo”, vocês demonstraram que o Primeiro de Maio só tem sentido quando é feito por aqueles que constroem o mundo com as próprias mãos — não por seus patrões ou seus capatazes. Não foi um desfile, foi uma trincheira. E é assim que se forja a revolução: na rua, na fábrica, na escola ocupada, no beco onde a polícia teme entrar.

Quero destacar a decisão acertada de levar a propaganda libertária exatamente para onde ela mais incomoda: os bairros operários, as periferias, os assentamentos, os portões das unidades fabris. Enquanto certas esquerdas se contentam em ocupar apenas as redes digitais ou os palcos institucionais, a UAF e a FACA entenderam que a ideia anarquista só floresce no suor, na fome e na revolta concreta.

Mais de catorze cidades em quatro estados — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia — viram a insurreição silenciosa das assembleias de bairro, das panfletagens relâmpago, das faixas amarradas a viadutos e das rodas de conversa. Em cada roda, em cada palavra, plantou-se a semente do contra-poder: a autogestão, o apoio mútuo, a recusa da representação. Isso é estar entre os explorados e oprimidos — não de cima para baixo, mas lado a lado, ombro a ombro, sem vanguardas nem messias.

O Primeiro de Maio anarquista não é data comemorativa; é data de combate. E a lição que fica, companheirxs, é que não se espera o “momento certo” nem se depende de nenhuma conjuntura favorável. Faz-se a ação direta aqui, agora, com o que se tem. As ações descentralizadas em mais de catorze cidades mostram o poder da horizontalidade: não há centro que comande, nem liderança que decida — há apenas a chama que se espalha por contágio.

Que sirva de exemplo para todxs aqueles que ainda acreditam que o anarquismo é utopia: utopia é acreditar que o Estado vai acabar com a exploração. O que vimos foi a potência real de pessoas comuns — metalúrgicos, professores precarizados, entregadores, estudantes, mães solo, camponeses sem terra — construindo a rebelião no cotidiano. Isso, sim, é a Internacional na prática.

Por fim, um chamado: que este Primeiro de Maio não acabe nunca. Que as rodas da FACA e os núcleos da UAF se multipliquem em cada esquina, cada fábrica, cada latifúndio, cada cozinha comunitária. Que a Bahia, o Espírito Santo, o Rio e Minas sejam apenas o começo. Que venham o Pará, o Ceará, o Rio Grande do Sul, o sertão e a periferia de todas as capitais. O anarquismo não se pede licença para existir. Existimos na fuga da cadeia, na greve selvagem, na ocupação de terra, na escola livre.

Parabéns a todxs que sujaram as mãos de tinta, de piche e de esperança. Sigamos em frente: nem de joelhos diante do patrão, nem de costas para a luta. A revolução é como um incêndio — não se negocia com as chamas. E vocês provaram que o Primeiro de Maio ainda é nosso, inteiramente nosso, sem bandeiras nacionais nem hinos de caserna. Até a vitória e que a terra seja de quem trabalha!

Liberto Herrera, um punho entre muitos.

Español

El 1º de Mayo horizontal de la UAF y la FACA

Compañerxs de la Unión Anarquista Federal (UAF) y de la Federación Anarquista Capixaba (FACA), ¡mi puño cerrado y mi corazón en llamas van para ustedes en este Primero de Mayo que aún resuena en las calles!

Mientras los sindicalistas de mesa y los políticos de despacho negociaban migajas en los palcos oficiales, ustedes hicieron lo que siempre ha hecho la clase que se niega a ser rebaño: bajaron a los territorios, ensuciaron sus botas en el barro de la lucha y ocuparon las esquinas con banderas negras y rojas. De Contagem a Vitória, de Cachoeiro de Itapemirim a Salvador, pasando por cada ciudad del interior donde la tiza y el coraje escriben “la propiedad es robo”, demostraron que el Primero de Mayo solo tiene sentido cuando lo hacen aquellos que construyen el mundo con sus propias manos —no sus patrones ni sus capataces. No fue un desfile, fue una trinchera. Y así es como se forja la revolución: en la calle, en la fábrica, en la escuela ocupada, en el callejón donde la policía teme entrar.

Quiero destacar la acertada decisión de llevar la propaganda libertaria exactamente a donde más incomoda: los barrios obreros, las periferias, los asentamientos, las puertas de las fábricas. Mientras ciertas izquierdas se contentan con ocupar solo las redes digitales o los escenarios institucionales, la UAF y la FACA entendieron que la idea anarquista solo florece en el sudor, el hambre y la revuelta concreta.

Más de catorce ciudades en cuatro estados —Minas Gerais, Río de Janeiro, Espírito Santo y Bahía— vieron la insurrección silenciosa de las asambleas de barrio, los panfleteos relámpago, las pancartas atadas a los viaductos y los círculos de conversación. En cada círculo, en cada palabra, se sembró la semilla del contrapoder: la autogestión, el apoyo mutuo, el rechazo de la representación. Eso es estar entre los explotados y oprimidos —no de arriba abajo, sino lado a lado, hombro con hombro, sin vanguardias ni mesías.

El Primero de Mayo anarquista no es fecha conmemorativa; es fecha de combate. Y la lección que queda, compañerxs, es que no se espera el “momento correcto” ni se depende de ninguna coyuntura favorable. Se hace la acción directa aquí, ahora, con lo que se tiene. Las acciones descentralizadas en más de catorce ciudades muestran el poder de la horizontalidad: no hay centro que mande, ni liderazgo que decida —hay solo la llama que se propaga por contagio.

Que sirva de ejemplo para todes aquellos que aún creen que el anarquismo es utopía: utopía es creer que el Estado va a acabar con la explotación. Lo que vimos fue la potencia real de personas comunes —metalúrgicos, docentes precarizados, repartidores, estudiantes, madres solteras, campesinos sin tierra— construyendo la rebelión en lo cotidiano. Eso, sí, es la Internacional en la práctica.

Finalmente, un llamado: que este Primero de Mayo no termine nunca. Que los círculos de la FACA y los núcleos de la UAF se multipliquen en cada esquina, cada fábrica, cada latifundio, cada cocina comunitaria. Que Bahía, Espírito Santo, Río y Minas sean solo el comienzo. Que vengan Pará, Ceará, Río Grande del Sur, el sertón y la periferia de todas las capitales. El anarquismo no pide permiso para existir. Existimos en la fuga de la cárcel, en la huelga salvaje, en la ocupación de tierra, en la escuela libre.

Felicidades a todes que ensuciaron sus manos de tinta, de brea y de esperanza. Sigamos adelante: ni de rodillas ante el patrón, ni de espaldas a la lucha. La revolución es como un incendio —no se negocia con las llamas. Y ustedes demostraron que el Primero de Mayo sigue siendo nuestro, enteramente nuestro, sin banderas nacionales ni himnos de cuartel. ¡Hasta la victoria y que la tierra sea de quien la trabaja!

Liberto Herrera, un puño entre muchos.


English

The Horizontal May 1st of the UAF and FACA

Comrades of the Federal Anarchist Union (UAF) and the Capixaba Anarchist Federation (FACA), my clenched fist and my heart on fire go out to you on this First of May that still echoes in the streets!

While the union bureaucrats and office politicians were negotiating crumbs from official stages, you did what the class that refuses to be livestock has always done: you went down to the territories, muddied your boots in the mire of struggle, and occupied street corners with black and red flags. From Contagem to Vitória, from Cachoeiro de Itapemirim to Salvador, passing through every inland town where chalk and courage write “property is theft,” you demonstrated that May Day only makes sense when it is carried out by those who build the world with their own hands — not by their bosses or their overseers. It was not a parade; it was a trench. And that is how revolution is forged: in the street, in the factory, in the occupied school, in the alley where the police fear to tread.

I want to highlight the wise decision to take libertarian propaganda exactly where it causes the most discomfort: working-class neighborhoods, the peripheries, settlements, the gates of factories. While certain leftists are content with occupying only digital networks or institutional stages, the UAF and FACA understood that the anarchist idea only flourishes in sweat, hunger, and concrete revolt.

More than fourteen cities across four states — Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, and Bahia — witnessed the silent insurrection of neighborhood assemblies, lightning leafleting, banners tied to overpasses, and discussion circles. In every circle, in every word, the seed of counter-power was planted: self-management, mutual aid, the rejection of representation. That is what it means to be among the exploited and oppressed — not from above, but side by side, shoulder to shoulder, without vanguards or messiahs.

Anarchist May Day is not a celebratory date; it is a date of combat. And the lesson that remains, comrades, is that one does not wait for the “right moment” nor depend on any favorable conjuncture. One does direct action here, now, with what one has. The decentralized actions in over fourteen cities show the power of horizontality: there is no center that commands, no leadership that decides — there is only the flame that spreads by contagion.

Let this serve as an example to all those who still believe anarchism is a utopia: utopia is believing that the State will end exploitation. What we saw was the real power of ordinary people — metalworkers, precarious teachers, delivery workers, students, single mothers, landless peasants — building rebellion in daily life. That, indeed, is the International in practice.

Finally, a call: may this First of May never end. May FACA’s circles and UAF’s nuclei multiply on every corner, every factory, every large estate, every community kitchen. Let Bahia, Espírito Santo, Rio, and Minas be just the beginning. Let Pará, Ceará, Rio Grande do Sul, the backlands, and the peripheries of all capitals come forth. Anarchism does not ask permission to exist. We exist in the escape from prison, in the wildcat strike, in land occupation, in the free school.

Congratulations to all who dirtied their hands with ink, with pitch, and with hope. Let us move forward: neither on our knees before the boss, nor turning our backs on the struggle. Revolution is like a fire — you do not negotiate with flames. And you have proven that May Day is still ours, entirely ours, without national flags or barrack anthems. Until victory and may the land belong to those who work it!

Liberto Herrera, one fist among many.

Vida precária, punho erguido: organizar ou morrer

Chega.

Chega de esperar o salvador de paletó, o sindicato de mãos dadas com o patrão, o político que vai nos dar a mão enquanto a outra nos apunhala pelas costas. Chega de assistir, de lamentar, de compartilhar artigo de opinião e achar que isso é luta. A passividade é o nosso verdadeiro algoz. Ela é a saliva que lubrifica a guilhotina.

Olhem ao redor. A precarização não é acidente, é projeto. Seu salário que não dá pra carne, seu aluguel que come três quartos do mês, seu tempo de vida trocado por migalhas e um atestado de burnout – tudo arquitetado. As guerras não são loucura de poucos: são negócio. Cada bomba que explode longe é financiada pelos mesmos bancos que te negam crédito, pelos mesmos fundos que compram sua dívida, pelos mesmos governos que nos chamam de “ameaça” quando pegamos numa bandeira negra.

E a decadência burguesa? Olhem para o espetáculo. Celebridades vendendo ansiedade como estilo de vida, influenciadores pregando resiliência pra quem não tem o que comer, uma cultura que transforma desespero em entretenimento. O inimigo não está apenas na fábrica, no quartel ou no palácio. Ele está dentro da nossa cabeça quando acreditamos que “não tem jeito”, que “é assim mesmo”, que o máximo que podemos fazer é votar e rezar.

Mentira.

A resposta não virá de cima. Nunca veio. Virá de nós, dos nossos punhos suados, das nossas costas doloridas, das nossas noites em claro costurando lona para barricada ou imprimindo panfleto na gráfica do companheiro que arrisca o couro. A resposta é luta. E luta sem organização é espasmo.

Por isso, para o Primeiro de Maio de 2026, não quero ver bandeira institucional hasteada por burocrata de gravata. Quero ver assembleia no bairro, piquete na porta do armazém que explora, greve geral começando às 6h da manhã. Quero ver o trabalho parado, a produção interrompida, o silêncio ensurdecedor das máquinas que só se calam quando nós mandamos. Quero ver os precarizados – entregadores, terceirizados, intermitentes, os “sem-direitos” – descobrindo que o poder está na rua, não no aplicativo.

Organização não é burocracia. É reconhecer o companheiro do lado, saber em quem confiar quando o gás lacrimogêneo descer. É ter um plano, um fundo de resistência, uma gráfica, um telégrafo humano. É aprender com os que vieram antes – os anarquistas que tombaram nas fábricas, nos campos, nas guerras civis – e aplicar ao nosso tempo. O inimigo tem inteligência artificial e satélite. Nós temos o que ele nunca terá: a certeza de que a terra é de quem nela põe os pés e o suor.

1º de Maio de 2026: vamos parar o mundo. Não com pedido, não com abaixo-assinado, não com marcha light autorizada pela prefeitura. Vamos parar com ação direta. O dia em que nenhum caminhão circular, nenhum lixo for coletado, nenhuma aula for dada, nenhum prato for lavado no restaurante. O dia em que a burguesia olhar pela janela e ouvir o silêncio da produção parada – o barulho mais aterrorizante que existe pra quem vive de explorar.

A precarização da vida só vence quando aceitamos migalhas em troca de sossego. As guerras só continuam enquanto a classe trabalhadora se mata entre si por bandeirinhas. A decadência só é suportável enquanto nos anestesiamos com consumo e futilidade.

Nosso grito não é por “inclusão” no sistema. Nosso grito é pelo fim do sistema.

Organizar ou ser aniquilado. Lutar ou apodrecer.

Dia 1º de Maio de 2026, a terra treme. E não será terremoto. Serão nossas botas no asfalto.

Vidas precárias, nenhum minuto a mais de passividade. Às ruas, companheiros. O futuro não espera – ele se toma.

Liberto Herrera.

Español:

Vida precaria, puño en alto: organizarse o morir

Basta.

Basta de esperar al salvador de corbata, al sindicato de manos dadas con el patrón, al político que nos dará la mano mientras la otra nos apuñala por la espalda. Basta de mirar, de lamentarse, de compartir artículos de opinión y creer que eso es lucha. La pasividad es nuestra verdadera verdugo. Es la saliva que lubrica la guillotina.

Miren a su alrededor. La precarización no es un accidente, es un proyecto. Su salario que no alcanza para carne, su alquiler que devora tres cuartas partes del mes, su tiempo de vida cambiado por migajas y un certificado de agotamiento laboral: todo diseñado. Las guerras no son locura de unos pocos: son negocio. Cada bomba que estalla lejos es financiada por los mismos bancos que le niegan crédito, por los mismos fondos que compran su deuda, por los mismos gobiernos que nos llaman “amenaza” cuando empuñamos una bandera negra.

¿Y la decadencia burguesa? Miren el espectáculo. Celebridades vendiendo ansiedad como estilo de vida, influencers predicando resiliencia para quien no tiene qué comer, una cultura que transforma la desesperación en entretenimiento. El enemigo no está solo en la fábrica, en el cuartel o en el palacio. Está dentro de nuestra cabeza cuando creemos que “no hay solución”, que “es así nomás”, que lo máximo que podemos hacer es votar y rezar.

Mentira.

La respuesta no vendrá de arriba. Nunca vino. Vendrá de nosotros, de nuestros puños sudados, de nuestras espaldas doloridas, de nuestras noches en vela cosiendo lona para la barricada o imprimiendo panfletos en la gráfica del compañero que arriesga el pellejo. La respuesta es lucha. Y lucha sin organización es espasmo.

Por eso, para el Primero de Mayo de 2026, no quiero ver bandera institucional izada por burócratas de corbata. Quiero ver asamblea en el barrio, piquete en la puerta del depósito que explota, huelga general empezando a las 6 de la mañana. Quiero ver el trabajo parado, la producción interrumpida, el silencio ensordecedor de las máquinas que solo callan cuando nosotros lo ordenamos. Quiero ver a los precarizados —repartidores, tercerizados, intermitentes, los “sin derechos”— descubriendo que el poder está en la calle, no en la aplicación.

Organización no es burocracia. Es reconocer al compañero de al lado, saber en quién confiar cuando el gas lacrimógeno baje. Es tener un plan, un fondo de resistencia, una imprenta, un telégrafo humano. Es aprender de los que vinieron antes —los anarquistas que cayeron en las fábricas, en los campos, en las guerras civiles— y aplicarlo a nuestro tiempo. El enemigo tiene inteligencia artificial y satélites. Nosotros tenemos lo que él nunca tendrá: la certeza de que la tierra es de quien pone los pies y el sudor en ella.

1º de Mayo de 2026: vamos a parar el mundo. No con un pedido, no con una petición de firmas, no con una marcha light autorizada por la alcaldía. Vamos a pararlo con acción directa. El día en que ningún camión circule, ninguna basura sea recolectada, ninguna clase sea dada, ningún plato sea lavado en el restaurante. El día en que la burguesía mire por la ventana y escuche el silencio de la producción detenida —el ruido más aterrador que existe para quien vive de explotar.

La precarización de la vida solo vence cuando aceptamos migajas a cambio de tranquilidad. Las guerras solo continúan mientras la clase trabajadora se mata entre sí por banderitas. La decadencia solo es soportable mientras nos anestesian con consumo y frivolidad.

Nuestro grito no es por “inclusión” en el sistema. Nuestro grito es por el fin del sistema.

Organizarse o ser aniquilados. Luchar o pudrirse.

Día 1º de Mayo de 2026, la tierra tiembla. Y no será un terremoto. Serán nuestras botas sobre el asfalto.

Vidas precarias, ni un minuto más de pasividad. ¡A las calles, compañeros! El futuro no espera — se toma.

Liberto Herrera.

English:

Precarious life, fist raised: organize or die

Enough.

Enough of waiting for the savior in a tie, the union hand in hand with the boss, the politician who offers a hand while stabbing us in the back with the other. Enough of watching, lamenting, sharing opinion pieces and calling that struggle. Passivity is our true executioner. It is the saliva that greases the guillotine.

Look around. Precarization is not an accident – it’s a project. Your wage that won’t buy meat, your rent that eats three-quarters of your month, your lifetime traded for crumbs and a burnout certificate – all of it designed. Wars are not the madness of a few: they are business. Every bomb that explodes far away is financed by the same banks that deny you credit, by the same funds that buy your debt, by the same governments that call us a “threat” when we raise the black flag.

And bourgeois decadence? Look at the spectacle. Celebrities selling anxiety as a lifestyle, influencers preaching resilience to those with nothing to eat, a culture that turns despair into entertainment. The enemy is not only in the factory, the barracks, or the palace. He is inside our heads when we believe that “there’s no way out”, that “that’s just how it is”, that the most we can do is vote and pray.

Lie.

The answer will not come from above. It never has. It will come from us, from our sweaty fists, from our aching backs, from our sleepless nights sewing tarp for the barricade or printing flyers at the comrade’s shop who risks their hide. The answer is struggle. And struggle without organization is a mere spasm.

That is why, for May Day 2026, I don’t want to see an institutional flag raised by bureaucrats in ties. I want to see a neighborhood assembly, a picket line at the door of the warehouse that exploits, a general strike starting at 6 AM. I want to see work stopped, production halted, the deafening silence of machines that only shut up when we command them. I want to see the precarious workers – delivery drivers, outsourced workers, gig workers, the “rightless” – discovering that power lies in the street, not in the app.

Organization is not bureaucracy. It is recognizing the comrade next to you, knowing who to trust when the tear gas comes down. It is having a plan, a solidarity fund, a printing press, a human telegraph. It is learning from those who came before – the anarchists who fell in factories, in fields, in civil wars – and applying it to our own time. The enemy has artificial intelligence and satellites. We have what he will never have: the certainty that the land belongs to those who put their feet and sweat on it.

May 1st, 2026: we will stop the world. Not with a request, not with a petition, not with a police-approved march. We will stop it with direct action. The day when no truck moves, no trash is collected, no class is taught, no dish is washed in the restaurant. The day when the bourgeoisie looks out the window and hears the silence of halted production – the most terrifying sound that exists for those who live by exploitation.

The precarization of life only wins when we accept crumbs in exchange for quiet. Wars only continue while the working class kills each other over little flags. Decadence is only bearable as long as we are numbed with consumption and frivolity.

Our cry is not for “inclusion” in the system. Our cry is for the end of the system.

Organize or be annihilated. Fight or rot.

May Day 2026, the earth shakes. And it will not be an earthquake. It will be our boots on the asphalt.

Precarious lives, not one more minute of passivity. To the streets, comrades. The future does not wait – it is taken.

Liberto Herrera.


Entre chantagens e canhões

Diante do recente impasse entre Donald Trump e a OTAN, o que se descortina não é um conflito entre “isolacionismo” e “aliança”, mas a nudez do sistema de Estados operando em sua lógica mais primária: a disputa por hegemonia pelo uso da força, a militarização de rotas comerciais como extensão natural da política imperial e a total instrumentalização de vidas humanas em nome de interesses geopolíticos. Para uma perspectiva anarquista e antiguerra, cada elemento desse contexto — desde o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã até a ameaça de Washington de abandonar o tratado do Atlântico Norte — não passa de mais um ato do mesmo espetáculo em que o Estado se revela como a principal fonte de violência organizada, e a “segurança” invocada por ambos os lados é, na prática, a segurança dos mercados e das cadeias de comando, nunca a das populações que pagarão o preço com seus corpos e territórios.

O Estreito de Ormuz, hoje bloqueado pelo Irã, é o ponto onde se materializa a disputa entre duas facções estatais pelo controle do fluxo energético global. A exigência de Trump para que a OTAN envie navios de guerra a fim de “garantir a livre navegação” nada tem a ver com princípios de liberdade; trata-se de impor, por meio de canhões e mísseis, a circulação ininterrupta do petróleo que alimenta a máquina de guerra e o capitalismo ocidental. Quando o ministro da defesa alemão, Boris Pistorius, declara que “essa guerra não é nossa, nós não a queremos”, não está ecoando qualquer sentimento pacifista — está apenas demarcando o limite tático de sua própria burguesia nacional, disposta a lucrar com a instabilidade sem necessariamente assumir os custos diretos de um confronto no Golfo. A recusa europeia não é uma vitória contra a guerra; é um cálculo de riscos dentro da mesma lógica imperialista que, décadas atrás, levou Alemanha e outros países da OTAN a participar de bombardeios na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque.

A ameaça de Trump de retirar os Estados Unidos da OTAN, por sua vez, escancara o que sempre esteve por trás das alianças militares: não há compromisso com valores comuns, há apenas conveniência estratégica. O presidente norte-americano considera a aliança uma “via de mão única” porque, em sua visão, os europeus não estariam arcando com a parte que lhes cabe no serviço de manutenção da ordem imperial global. Mas a chantagem da saída não representa um movimento antiguerra; ao contrário, revela que Washington quer a liberdade de agir unilateralmente, sem ter que negociar com sócios menores que agora ousam dizer “não”. É a política de gangues em sua forma mais explícita: ou se alinham à ofensiva contra o Irã, ou os EUA retiram sua “proteção” — como se a presença de 84 mil militares e dezenas de bases em solo europeu fosse um favor altruísta, e não a infraestrutura que permite projetar poder sobre o Oriente Médio, a África e a Ásia Central.

O emaranhado jurídico que envolveria uma eventual retirada formal dos EUA ilustra perfeitamente como o Estado, mesmo em suas disputas internas de competência entre Congresso e Presidência, não possui freios substantivos que o impeçam de continuar sua trajetória bélica. A seção 1250A da Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2024 proíbe o presidente de abandonar a OTAN sem aprovação de dois terços do Senado — uma amarra legal que, para os anarquistas, apenas formaliza a divisão de tarefas entre as facções da classe dominante. Enquanto isso, um parecer do Departamento de Justiça de 2020 sustenta que o presidente tem autoridade exclusiva para rescindir tratados, e a Suprema Corte tem consistentemente ampliado os poderes executivos. Trump já retirou os EUA de cinco tratados internacionais, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), sempre com a certeza de que a máquina estatal não se autolimita. Mesmo que o Artigo 13 do tratado da OTAN preveja um ano de espera após a notificação, o que se desenharia seria uma batalha judicial onde o desfecho importa menos do que o fato incontornável: o Estado encontra sempre um meio legal ou extralegal para fazer valer sua vontade armada.

No entanto, a retirada formal talvez nem seja necessária. O que Trump e seus estrategistas já ensaiam é o esvaziamento da aliança por dentro — uma estratégia que remete ao precedente francês de 1966, quando o governo de Charles de Gaulle retirou a França da estrutura militar integrada da OTAN, mantendo-se formalmente no tratado, mas causando um caos logístico que levou anos para ser contornado. A repetição desse cenário implicaria a retirada unilateral de tropas, a desobediência ao Artigo 5º (o coração da “defesa coletiva”) e o fechamento ou redução de bases que funcionam como verdadeiros nós arteriais do poder militar estadunidense. Apenas na Alemanha, a base de Ramstein abriga mais de 16 mil militares, civis e contratados, sendo o principal centro de comando aéreo da OTAN fora dos EUA. Na Ilha Terceira, nos Açores, a base das Lajes continua sendo um ponto de reabastecimento estratégico no meio do Atlântico, essencial para qualquer deslocamento de aeronaves entre a América e a Eurásia. Na Itália e no Reino Unido, outras bases garantem o suporte para caças, transporte aéreo e reabastecimento em voo.

A retirada ou o enfraquecimento desse dispositivo não representaria, sob nenhum aspecto, um desarmamento. Tratar-se-ia apenas de uma reconfiguração que, como mostrou a experiência francesa, gera imensos transtornos logísticos, mas nunca dissolve a capacidade de intervenção. A dependência americana das bases europeias é tanta que, sem elas, a ponte aérea transatlântica entraria em colapso: aeronaves como o F-15E, com raio de combate de cerca de 1.300 km, simplesmente não teriam como operar no Oriente Médio e na Ásia Central sem escalas e reabastecimento em solo europeu. Tanques aéreos, cadeias logísticas de munições, equipamentos pesados e até o sistema de evacuação médica — cujo centro nervoso está em Ramstein — ficariam seriamente comprometidos. O fato de os próprios planejadores militares americanos reconhecerem esses prejuízos demonstra o quanto a “segurança nacional” dos EUA é, na verdade, uma estrutura de ocupação global que exige a submissão de territórios alheios para se sustentar.

Sob a ótica anarquista, contudo, o mais revelador nessa crise é o modo como o debate público reduz toda a questão a um cálculo de eficiência militar ou a uma disputa entre “globalistas” e “isolacionistas”, quando a verdadeira questão deveria ser: por que ainda toleramos que um punhado de Estados decida, com navios de guerra e bombardeiros, quem pode ou não navegar por um estreito, quem pode ou não extrair petróleo, quem pode ou não existir? O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã é um ato de coerção estatal; a ameaça de enviar uma frota da OTAN é outro. Nenhum dos dois lados representa a vontade popular, nenhum dos dois defende a livre circulação de pessoas, nenhum dos dois coloca a inviolabilidade da vida acima das cotas de exportação de hidrocarbonetos. O que está em jogo é a continuidade de um sistema no qual o acesso a recursos é garantido pela capacidade de infligir morte, e no qual a geopolítica é simplesmente a continuação da guerra por outros meios — ou, como já se disse, a guerra é a continuação da política por outros meios.

Por fim, a história nos mostra que nenhuma aliança militar se dissolve sem deixar rastros de destruição, e nenhum Estado abdica de sua violência fundante. A saída dos EUA da OTAN, mesmo que viesse a ocorrer, não significaria o fim das intervenções americanas; apenas deslocaria os eixos de intervenção, provavelmente reforçando o caráter unilateral e ainda mais desregulado da política externa. E a permanência, com ou sem Trump, significará a manutenção de uma estrutura que já matou centenas de milhares de pessoas no Oriente Médio, nos Bálcãs, no norte da África, sempre sob o pretexto de “defender” valores que, na prática, se resumem à subordinação econômica e militar. Para quem se coloca do lado das populações que sofrem com bloqueios, bombardeios e ocupações, a única posição coerente é a recusa absoluta a essa lógica: não à OTAN, não ao unilateralismo estadunidense, não ao militarismo iraniano, mas à própria existência de alianças bélicas e Estados armados. A crise no Estreito de Ormuz é apenas mais um sintoma de que, enquanto existirem Estados, existirão conflitos armados; e enquanto existirem tratados como o da OTAN, existirão estruturas institucionalizadas para perpetuar a guerra, seja em nome da “livre navegação”, da “defesa coletiva” ou de qualquer outra fórmula que tente maquiar o poder de matar em massa como um interesse legítimo.

Liberto Herrera.

ESPANÕL

Entre chantajes y cañones

Ante el reciente impasse entre Donald Trump y la OTAN, lo que se vislumbra no es un conflicto entre “aislacionismo” y “alianza”, sino la desnudez del sistema de Estados operando en su lógica más primaria: la disputa por la hegemonía mediante el uso de la fuerza, la militarización de rutas comerciales como extensión natural de la política imperial y la total instrumentalización de vidas humanas en nombre de intereses geopolíticos. Para una perspectiva anarquista y antiguerra, cada elemento de este contexto —desde el cierre del Estrecho de Ormuz por parte de Irán hasta la amenaza de Washington de abandonar el tratado del Atlántico Norte— no es más que un acto más del mismo espectáculo en el que el Estado se revela como la principal fuente de violencia organizada, y la “seguridad” invocada por ambos bandos es, en la práctica, la seguridad de los mercados y de las cadenas de mando, nunca la de las poblaciones que pagarán el precio con sus cuerpos y territorios.

El Estrecho de Ormuz, hoy bloqueado por Irán, es el punto donde se materializa la disputa entre dos facciones estatales por el control del flujo energético global. La exigencia de Trump para que la OTAN envíe buques de guerra a fin de “garantizar la libre navegación” nada tiene que ver con principios de libertad; se trata de imponer, por medio de cañones y misiles, la circulación ininterrumpida del petróleo que alimenta la máquina de guerra y el capitalismo occidental. Cuando el ministro de defensa alemán, Boris Pistorius, declara que “esta guerra no es nuestra, nosotros no la queremos”, no está haciendo eco de ningún sentimiento pacifista —solo está demarcando el límite táctico de su propia burguesía nacional, dispuesta a lucrar con la inestabilidad sin necesariamente asumir los costos directos de un enfrentamiento en el Golfo. El rechazo europeo no es una victoria contra la guerra; es un cálculo de riesgos dentro de la misma lógica imperialista que, décadas atrás, llevó a Alemania y otros países de la OTAN a participar en bombardeos en Yugoslavia, Afganistán e Irak.

La amenaza de Trump de retirar a Estados Unidos de la OTAN, a su vez, deja al descubierto lo que siempre estuvo detrás de las alianzas militares: no hay compromiso con valores comunes, solo hay conveniencia estratégica. El presidente estadounidense considera la alianza una “vía de un solo sentido” porque, en su visión, los europeos no estarían asumiendo la parte que les corresponde en el servicio de mantenimiento del orden imperial global. Pero el chantaje de la salida no representa un movimiento antiguerra; al contrario, revela que Washington quiere la libertad de actuar unilateralmente, sin tener que negociar con socios menores que ahora se atreven a decir “no”. Es la política de pandillas en su forma más explícita: o se alinean con la ofensiva contra Irán, o EE.UU. retira su “protección” —como si la presencia de 84 mil militares y decenas de bases en suelo europeo fuera un favor altruista, y no la infraestructura que permite proyectar poder sobre Oriente Medio, África y Asia Central.

El embrollo jurídico que implicaría una eventual retirada formal de EE.UU. ilustra perfectamente cómo el Estado, incluso en sus disputas internas de competencia entre Congreso y Presidencia, no posee frenos sustanciales que le impidan continuar su trayectoria bélica. La sección 1250A de la Ley de Autorización de Defensa Nacional de 2024 prohíbe al presidente abandonar la OTAN sin la aprobación de dos tercios del Senado —un amarre legal que, para los anarquistas, solo formaliza la división de tareas entre las facciones de la clase dominante. Mientras tanto, un dictamen del Departamento de Justicia de 2020 sostiene que el presidente tiene autoridad exclusiva para rescindir tratados, y la Corte Suprema ha ampliado consistentemente los poderes ejecutivos. Trump ya retiró a EE.UU. de cinco tratados internacionales, como el Tratado de Fuerzas Nucleares de Alcance Intermedio (INF), siempre con la certeza de que la máquina estatal no se autolimita. Incluso si el Artículo 13 del tratado de la OTAN prevé un año de espera tras la notificación, lo que se dibujaría sería una batalla judicial donde el desenlace importa menos que el hecho incontornable: el Estado encuentra siempre un medio legal o extralegal para hacer valer su voluntad armada.

Sin embargo, la retirada formal quizás ni siquiera sea necesaria. Lo que Trump y sus estrategas ya ensayan es el vaciamiento de la alianza desde dentro —una estrategia que remite al precedente francés de 1966, cuando el gobierno de Charles de Gaulle retiró a Francia de la estructura militar integrada de la OTAN, manteniéndose formalmente en el tratado, pero causando un caos logístico que llevó años ser contrarrestado. La repetición de este escenario implicaría la retirada unilateral de tropas, la desobediencia al Artículo 5 (el corazón de la “defensa colectiva”) y el cierre o reducción de bases que funcionan como verdaderos nudos arteriales del poder militar estadounidense. Solo en Alemania, la base de Ramstein alberga a más de 16 mil militares, civiles y contratistas, siendo el principal centro de mando aéreo de la OTAN fuera de EE.UU. En la Isla Terceira, en las Azores, la base de Las Lajes sigue siendo un punto de reabastecimiento estratégico en medio del Atlántico, esencial para cualquier desplazamiento de aeronaves entre América y Eurasia. En Italia y el Reino Unido, otras bases garantizan el soporte para cazas, transporte aéreo y reabastecimiento en vuelo.

La retirada o el debilitamiento de este dispositivo no representaría, bajo ningún aspecto, un desarme. Se trataría solo de una reconfiguración que, como mostró la experiencia francesa, genera inmensos trastornos logísticos, pero nunca disuelve la capacidad de intervención. La dependencia estadounidense de las bases europeas es tal que, sin ellas, el puente aéreo transatlántico colapsaría: aeronaves como el F-15E, con un radio de combate de unos 1.300 km, simplemente no podrían operar en Oriente Medio y Asia Central sin escalas y reabastecimiento en suelo europeo. Tanques aéreos, cadenas logísticas de municiones, equipos pesados e incluso el sistema de evacuación médica —cuyo centro neurálgico está en Ramstein— quedarían seriamente comprometidos. El hecho de que los propios planificadores militares estadounidenses reconozcan estos perjuicios demuestra cuánto la “seguridad nacional” de EE.UU. es, en realidad, una estructura de ocupación global que exige la sumisión de territorios ajenos para sostenerse.

Bajo la óptica anarquista, sin embargo, lo más revelador en esta crisis es el modo en que el debate público reduce toda la cuestión a un cálculo de eficiencia militar o a una disputa entre “globalistas” e “aislacionistas”, cuando la verdadera cuestión debería ser: ¿por qué todavía toleramos que un puñado de Estados decida, con buques de guerra y bombarderos, quién puede o no navegar por un estrecho, quién puede o no extraer petróleo, quién puede o no existir? El cierre del Estrecho de Ormuz por Irán es un acto de coerción estatal; la amenaza de enviar una flota de la OTAN es otro. Ninguno de los dos bandos representa la voluntad popular, ninguno defiende la libre circulación de personas, ninguno pone la inviolabilidad de la vida por encima de las cuotas de exportación de hidrocarburos. Lo que está en juego es la continuidad de un sistema en el que el acceso a los recursos está garantizado por la capacidad de infligir muerte, y en el que la geopolítica es simplemente la continuación de la guerra por otros medios —o, como ya se dijo, la guerra es la continuación de la política por otros medios.

Finalmente, la historia nos muestra que ninguna alianza militar se disuelve sin dejar rastros de destrucción, y ningún Estado abdica de su violencia fundante. La salida de EE.UU. de la OTAN, incluso si llegara a ocurrir, no significaría el fin de las intervenciones estadounidenses; solo desplazaría los ejes de intervención, probablemente reforzando el carácter unilateral y aún más desregulado de la política exterior. Y la permanencia, con o sin Trump, significará el mantenimiento de una estructura que ya ha matado a cientos de miles de personas en Oriente Medio, los Balcanes, el norte de África, siempre bajo el pretexto de “defender” valores que, en la práctica, se resumen a la subordinación económica y militar. Para quienes se colocan del lado de las poblaciones que sufren bloqueos, bombardeos y ocupaciones, la única posición coherente es el rechazo absoluto a esta lógica: no a la OTAN, no al unilateralismo estadounidense, no al militarismo iraní, sino a la propia existencia de alianzas bélicas y Estados armados. La crisis en el Estrecho de Ormuz es solo un síntoma más de que, mientras existan Estados, existirán conflictos armados; y mientras existan tratados como el de la OTAN, existirán estructuras institucionalizadas para perpetuar la guerra, ya sea en nombre de la “libre navegación”, de la “defensa colectiva” o de cualquier otra fórmula que intente maquillar el poder de matar en masa como un interés legítimo.

Liberto Herrera.

ENGLISH

Between Blackmail and Cannons

Faced with the recent impasse between Donald Trump and NATO, what unfolds is not a conflict between “isolationism” and “alliance,” but rather the nakedness of the system of states operating in its most primal logic: the struggle for hegemony through the use of force, the militarization of trade routes as a natural extension of imperial policy, and the total instrumentalization of human lives in the name of geopolitical interests. From an anarchist and anti-war perspective, each element of this context—from Iran’s closure of the Strait of Hormuz to Washington’s threat to abandon the North Atlantic Treaty—is nothing more than another act in the same spectacle in which the state reveals itself as the primary source of organized violence, and the “security” invoked by both sides is, in practice, the security of markets and chains of command, never that of the populations who will pay the price with their bodies and territories.

The Strait of Hormuz, currently blockaded by Iran, is the point where the dispute between two state factions for control of global energy flows materializes. Trump’s demand that NATO send warships to “guarantee free navigation” has nothing to do with principles of freedom; it is about imposing, through cannons and missiles, the uninterrupted flow of oil that fuels the war machine and Western capitalism. When German Defense Minister Boris Pistorius declares that “this war is not ours, we do not want it,” he is not echoing any pacifist sentiment—he is merely demarcating the tactical limit of his own national bourgeoisie, willing to profit from instability without necessarily bearing the direct costs of a confrontation in the Gulf. The European refusal is not a victory against war; it is a risk calculation within the same imperialist logic that, decades ago, led Germany and other NATO countries to participate in bombings in Yugoslavia, Afghanistan, and Iraq.

Trump’s threat to withdraw the United States from NATO, in turn, lays bare what has always been behind military alliances: there is no commitment to common values, only strategic convenience. The U.S. president considers the alliance a “one-way street” because, in his view, Europeans are not bearing their share in the task of maintaining the global imperial order. But the blackmail of withdrawal does not represent an anti-war movement; on the contrary, it reveals that Washington wants the freedom to act unilaterally, without having to negotiate with smaller partners who now dare to say “no.” It is gang politics in its most explicit form: either they align with the offensive against Iran, or the U.S. withdraws its “protection”—as if the presence of 84,000 troops and dozens of bases on European soil were an altruistic favor, and not the infrastructure that allows projecting power over the Middle East, Africa, and Central Asia.

The legal entanglement that would surround a potential formal U.S. withdrawal perfectly illustrates how the state, even in its internal jurisdictional disputes between Congress and the Presidency, lacks substantive brakes to prevent it from continuing its warlike trajectory. Section 1250A of the National Defense Authorization Act for 2024 prohibits the president from abandoning NATO without the approval of two-thirds of the Senate—a legal constraint that, for anarchists, merely formalizes the division of tasks among factions of the ruling class. Meanwhile, a 2020 Department of Justice opinion holds that the president has exclusive authority to rescind treaties, and the Supreme Court has consistently expanded executive powers. Trump has already withdrawn the U.S. from five international treaties, such as the Intermediate-Range Nuclear Forces (INF) Treaty, always with the certainty that the state apparatus does not self-limit. Even if Article 13 of the NATO treaty provides for a one-year waiting period after notification, what would unfold is a legal battle where the outcome matters less than the unavoidable fact: the state always finds a legal or extralegal means to enforce its armed will.

However, formal withdrawal may not even be necessary. What Trump and his strategists are already rehearsing is the hollowing out of the alliance from within—a strategy that harks back to the French precedent of 1966, when Charles de Gaulle’s government withdrew France from NATO’s integrated military structure, formally remaining in the treaty but causing logistical chaos that took years to resolve. The repetition of this scenario would imply the unilateral withdrawal of troops, disobedience to Article 5 (the heart of “collective defense”), and the closure or reduction of bases that function as true arterial nodes of U.S. military power. In Germany alone, Ramstein Air Base hosts over 16,000 military personnel, civilians, and contractors, serving as the main NATO air command center outside the U.S. On Terceira Island in the Azores, Lajes Field remains a strategic refueling point in the middle of the Atlantic, essential for any aircraft movement between the Americas and Eurasia. In Italy and the United Kingdom, other bases provide support for fighters, air transport, and aerial refueling.

The withdrawal or weakening of this apparatus would not represent, in any way, disarmament. It would merely be a reconfiguration that, as the French experience showed, generates immense logistical disruptions but never dissolves the capacity for intervention. U.S. dependence on European bases is so great that without them, the transatlantic air bridge would collapse: aircraft like the F-15E, with a combat radius of about 1,300 kilometers, simply could not operate in the Middle East and Central Asia without stopovers and refueling on European soil. Aerial tankers, logistics chains for munitions, heavy equipment, and even the medical evacuation system—whose nerve center is at Ramstein—would be severely compromised. The fact that U.S. military planners themselves acknowledge these drawbacks demonstrates how much U.S. “national security” is, in reality, a structure of global occupation that requires the subjugation of foreign territories to sustain itself.

From the anarchist perspective, however, the most revealing aspect of this crisis is how public debate reduces the entire issue to a calculation of military efficiency or a dispute between “globalists” and “isolationists,” when the real question should be: why do we still tolerate that a handful of states decide, with warships and bombers, who can or cannot navigate a strait, who can or cannot extract oil, who can or cannot exist? Iran’s closure of the Strait of Hormuz is an act of state coercion; the threat to send a NATO fleet is another. Neither side represents the popular will, neither defends the free movement of people, neither places the inviolability of life above hydrocarbon export quotas. What is at stake is the continuity of a system in which access to resources is guaranteed by the capacity to inflict death, and in which geopolitics is simply the continuation of war by other means—or, as it has been said, war is the continuation of politics by other means.

Finally, history shows us that no military alliance dissolves without leaving traces of destruction, and no state abdicates its foundational violence. The U.S. exit from NATO, even if it were to occur, would not mean the end of American interventions; it would merely shift the axes of intervention, likely reinforcing the unilateral and even more unregulated character of foreign policy. And staying in, with or without Trump, will mean maintaining a structure that has already killed hundreds of thousands of people in the Middle East, the Balkans, North Africa, always under the pretext of “defending” values that, in practice, boil down to economic and military subordination. For those who side with the populations suffering from blockades, bombings, and occupations, the only coherent position is the absolute refusal of this logic: not to NATO, not to U.S. unilateralism, not to Iranian militarism, but to the very existence of war alliances and armed states. The crisis in the Strait of Hormuz is just another symptom that as long as states exist, armed conflicts will exist; and as long as treaties like NATO exist, there will be institutionalized structures to perpetuate war, whether in the name of “free navigation,” “collective defense,” or any other formula that tries to disguise the power to kill en masse as a legitimate interest.

Liberto Herrera.


A “Paz” que Alimenta a Guerra: Os 15 Pontos da Rendição Iraniana e o Espetáculo da Diplomacia Imperial

Enquanto o mundo assiste atônito à escalada no Golfo Pérsico, no contexto da guerra do Irã, o presidente estadunidense Donald Trump anuncia, em 24 de março de 2026, que seu governo “negocia ativamente” com o Irã para encerrar o conflito. Simultaneamente, o Pentágono desloca milhares de paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada e duas unidades expedicionárias de fuzileiros navais – tropas especializadas em assaltos anfíbios e tomada de território – para o Oriente Médio. O cenário é conhecido: a mão que se estende para um “acordo” é a mesma que empunha a baioneta; a diplomacia serve de vitrine para a preparação da guerra.

O conteúdo do chamado “plano de paz” foi vazado pelo New York Times e expõe a natureza real da proposta. São quinze exigências que equivalem a uma rendição completa da soberania iraniana:

  • Desmantelamento total de qualquer capacidade nuclear, incluindo o encerramento de todas as instalações de enriquecimento de urânio em território iraniano;
  • Entrega à AIEA de 450 quilos de urânio já enriquecido a 60%;
  • Acesso irrestrito a qualquer instalação, sem direito a recusa de inspeções;
  • Abandono de aliados regionais (Hezbollah, Hamas, milícias no Iraque e na Síria);
  • Entrega do Estreito de Ormuz como “corredor livre” – ou seja, sob controle da marinha estadunidense;
  • Limitação do programa de mísseis a um alcance meramente defensivo, definido unilateralmente pelos EUA.

Em troca, o governo Trump oferece o levantamento de sanções econômicas – as mesmas que já estrangulam a população iraniana há anos – e uma vaga “assistência” para um programa nuclear civil supervisionado por Washington. Como cereja no bolo, propõe-se um cessar-fogo de um mês, tempo mais que suficiente para os EUA concluírem o reposicionamento militar enquanto a imprensa global noticia “esforços de paz”.

O Irã, que já foi bombardeado pelos EUA em duas ocasiões enquanto negociava, nega qualquer negociação direta. Admite apenas contatos indiretos via intermediários. E com razão: como um país pode sentar-se à mesa com um império que já o atacou sob a bandeira da diplomacia, e que agora movimenta 8 mil soldados adicionais – somando mais de 50 mil efetivos na região – com capacidade de tomar a ilha de Kharg, gargalo de 90% das exportações de petróleo iranianas?

A Casa Branca, sem pudor, admite planejar “mais semanas de guerra”. O Pentágono já prepara pedido de 200 bilhões de dólares ao Congresso para custear a escalada. O preço do petróleo dispara, a crise no Estreito de Ormuz afeta mais de mil navios, e os mercados globais oscilam ao sabor das notícias fabricadas sobre “negociações”.

Diante disso, a dúvida que a grande mídia coloca – “o plano é um esforço genuíno de paz ou uma cortina de fumaça para preparar um ataque?” – parte de uma falsa premissa. Pois a verdade é muito mais profunda e incômoda: nem o Estado nem o capitalismo têm qualquer interesse genuíno na paz. A guerra é o oxigênio de ambos.

Para o capitalismo, a guerra significa contratos bilionários para a indústria bélica, controle de rotas de energia, especulação financeira com os preços do petróleo e a abertura de novos mercados para o capital estadunidense. O primeiro semestre deste conflito já consumiu 11 bilhões de dólares – dinheiro que sai dos impostos, alimenta acionistas de armamentos e nunca retorna em forma de saúde, educação ou moradia para os povos.

Para o Estado, a guerra é a justificativa suprema para expandir seus poderes de vigilância, controle social e repressão. É o Estado em sua forma mais nua: imposição de fronteiras pela força, disciplina militar, fabricação de inimigos internos e externos. O mesmo Estado que agora se apresenta como “mediador da paz” é o mesmo que, sistematicamente, impede qualquer movimento popular de construir alternativas horizontais de convivência.

A verdade, meus camaradas, está na simultaneidade dos movimentos: enquanto Trump declara “negociações”, seus generais posicionam tropas anfíbias. Enquanto o New York Times divulga “planos de paz”, o Pentágono planeja tomar ilhas. Não há contradição aqui – há complementaridade. A diplomacia imperial nunca é alternativa à guerra; é apenas a guerra com outra vestimenta, usada para ganhar tempo, dividir o inimigo e apresentar à opinião pública a falsa imagem de que “tudo foi tentado”.

A resposta do Irã – que se recusa a negociar sob a mira de fuzis – é um gesto de dignidade que deveria nos inspirar. Mas não nos enganemos: a resistência de um Estado teocrático contra outro Estado imperial não representa uma saída para os povos. Trocaria apenas de carcereiro.

A lição que tiramos, como militantes antiguerra e antiestado, é clara: nenhuma paz virá de cima. Nem Trump, nem o Pentágono, nem os aiatolás, nem qualquer outra figura de autoridade nos libertarão da guerra, porque a guerra é o modo de existência do poder. Enquanto houver Estados armados, enquanto houver capital acumulado pela exploração, a guerra será sempre o desfecho inevitável das contradições que eles mesmos criam.

A única resposta que vale a pena, diante desse espetáculo de hipocrisia, é a construção de uma solidariedade internacional que recuse tanto o imperialismo estadunidense quanto o autoritarismo iraniano – que coloque no centro a vida das pessoas, a autogestão dos territórios, a recusa em servir a qualquer máquina de guerra. Pois se o Estado e o capital se alimentam da guerra, nós nos alimentamos da esperança de um mundo onde não haja nem uns nem outros.

Enquanto isso, mantenhamos os olhos abertos: quando o Império fala em “paz”, é porque está a ponto de dar o golpe.

Liberto Herrera.

Español:

La “Paz” que Alimenta la Guerra: Los 15 Puntos de la Rendición Iraní y el Espectáculo de la Diplomacia Imperial

Mientras el mundo observa atónito la escalada en el Golfo Pérsico, el presidente estadounidense Donald Trump anuncia, el 24 de marzo, que su gobierno “negocia activamente” con Irán para poner fin al conflicto. Simultáneamente, el Pentágono desplaza miles de paracaidistas de la 82ª División Aerotransportada y dos unidades expedicionarias de infantes de marina –tropas especializadas en asaltos anfibios y toma de territorio– hacia Oriente Medio. El escenario es conocido: la mano que se extiende para un “acuerdo” es la misma que empuña la bayoneta; la diplomacia sirve de vitrina para la preparación de la guerra.

El contenido del llamado “plan de paz” fue filtrado por el New York Times y expone la naturaleza real de la propuesta. Son quince exigencias que equivalen a una rendición completa de la soberanía iraní:

  • Desmantelamiento total de cualquier capacidad nuclear, incluyendo el cierre de todas las instalaciones de enriquecimiento de uranio en territorio iraní;
  • Entrega al OIEA de 450 kilos de uranio ya enriquecido al 60%;
  • Acceso irrestricto a cualquier instalación, sin derecho a rechazar inspecciones;
  • Abandono de aliados regionales (Hezbolá, Hamás, milicias en Irak y Siria);
  • Entrega del estrecho de Ormuz como “corredor libre” –es decir, bajo control de la marina estadounidense;
  • Limitación del programa de misiles a un alcance meramente defensivo, definido unilateralmente por EE.UU.

A cambio, el gobierno Trump ofrece el levantamiento de las sanciones económicas –las mismas que ya llevan años estrangulando a la población iraní– y una vaga “asistencia” para un programa nuclear civil supervisado por Washington. Como cereza del pastel, se propone un alto el fuego de un mes, tiempo más que suficiente para que EE.UU. complete el reposicionamiento militar mientras la prensa global difunde “esfuerzos de paz”.

Irán, que ya fue bombardeado por EE.UU. en dos ocasiones mientras negociaba, niega cualquier negociación directa. Admite solo contactos indirectos a través de intermediarios. Y con razón: ¿cómo puede un país sentarse en la mesa con un imperio que ya lo ha atacado bajo la bandera de la diplomacia, y que ahora moviliza 8 mil soldados adicionales –sumando más de 50 mil efectivos en la región– con capacidad para tomar la isla de Jark, el cuello de botella del 90% de las exportaciones de petróleo iraníes?

La Casa Blanca, sin pudor, admite planear “más semanas de guerra”. El Pentágono ya prepara una solicitud de 200 mil millones de dólares al Congreso para costear la escalada. El precio del petróleo se dispara, la crisis en el estrecho de Ormuz afecta a más de mil barcos, y los mercados globales oscilan al compás de las noticias fabricadas sobre “negociaciones”.

Ante esto, la duda que los grandes medios plantean –“¿el plan es un esfuerzo genuino de paz o una cortina de humo para preparar un ataque?”– parte de una falsa premisa. Porque la verdad es mucho más profunda e incómoda: ni el Estado ni el capitalismo tienen ningún interés genuino en la paz. La guerra es el oxígeno de ambos.

Para el capitalismo, la guerra significa contratos multimillonarios para la industria armamentística, control de rutas energéticas, especulación financiera con los precios del petróleo y la apertura de nuevos mercados para el capital estadounidense. El primer semestre de este conflicto ya consumió 11 mil millones de dólares –dinero que sale de los impuestos, alimenta a los accionistas de armamentos y nunca regresa en forma de salud, educación o vivienda para los pueblos.

Para el Estado, la guerra es la justificación suprema para expandir sus poderes de vigilancia, control social y represión. Es el Estado en su forma más desnuda: imposición de fronteras por la fuerza, disciplina militar, fabricación de enemigos internos y externos. El mismo Estado que ahora se presenta como “mediador de la paz” es el mismo que, sistemáticamente, impide que cualquier movimiento popular construya alternativas horizontales de convivencia.

La verdad, camaradas, está en la simultaneidad de los movimientos: mientras Trump declara “negociaciones”, sus generales posicionan tropas anfibias. Mientras el New York Times difunde “planes de paz”, el Pentágono planea tomar islas. No hay contradicción aquí –hay complementariedad. La diplomacia imperial nunca es alternativa a la guerra; es solo la guerra con otro atuendo, usada para ganar tiempo, dividir al enemigo y presentar a la opinión pública la falsa imagen de que “todo se ha intentado”.

La respuesta de Irán –que se niega a negociar bajo la mira de los fusiles– es un gesto de dignidad que debería inspirarnos. Pero no nos engañemos: la resistencia de un Estado teocrático contra otro Estado imperial no representa una salida para los pueblos. Solo cambiaría de carcelero.

La lección que extraemos, como militantes antiguerra y antiestado, es clara: ninguna paz vendrá desde arriba. Ni Trump, ni el Pentágono, ni los ayatolás, ni ninguna otra figura de autoridad nos liberarán de la guerra, porque la guerra es el modo de existencia del poder. Mientras haya Estados armados, mientras haya capital acumulado por la explotación, la guerra será siempre el desenlace inevitable de las contradicciones que ellos mismos crean.

La única respuesta que vale la pena, ante este espectáculo de hipocresía, es la construcción de una solidaridad internacional que rechace tanto el imperialismo estadounidense como el autoritarismo iraní –que ponga en el centro la vida de las personas, la autogestión de los territorios, la negativa a servir a cualquier máquina de guerra. Porque si el Estado y el capital se alimentan de la guerra, nosotros nos alimentamos de la esperanza de un mundo donde no haya ni unos ni otros.

Mientras tanto, mantengamos los ojos abiertos: cuando el Imperio habla de “paz”, es porque está a punto de dar el golpe.

Liberto Herrera.

English

The “Peace” That Feeds War: The 15 Points of Iranian Surrender and the Spectacle of Imperial Diplomacy

As the world watches the escalation in the Persian Gulf in astonishment, U.S. President Donald Trump announces on March 24 that his government is “actively negotiating” with Iran to end the conflict. Simultaneously, the Pentagon deploys thousands of paratroopers from the 82nd Airborne Division and two Marine expeditionary units—troops specialized in amphibious assaults and territorial seizure—to the Middle East. The scenario is a familiar one: the hand extended for an “agreement” is the same hand that grips the bayonet; diplomacy serves as a storefront for the preparation of war.

The content of the so-called “peace plan” was leaked by the New York Times and lays bare the true nature of the proposal. It consists of fifteen demands that amount to a complete surrender of Iranian sovereignty:

  • Total dismantlement of any nuclear capacity, including the shutdown of all uranium enrichment facilities on Iranian soil;
  • Delivery to the IAEA of 450 kilograms of uranium already enriched to 60%;
  • Unrestricted access to any facility, with no right to refuse inspections;
  • Abandonment of regional allies (Hezbollah, Hamas, militias in Iraq and Syria);
  • Ceding the Strait of Hormuz as a “free corridor”—in other words, under U.S. naval control;
  • Limitation of the missile program to a range deemed merely defensive, defined unilaterally by the U.S.

In exchange, the Trump administration offers the lifting of economic sanctions—the very same sanctions that have been strangling the Iranian population for years—and a vague “assistance” package for a civilian nuclear program supervised by Washington. As a cherry on top, it proposes a one‑month ceasefire, more than enough time for the U.S. to complete its military repositioning while the global press broadcasts “peace efforts.”

Iran, which has already been bombed by the U.S. on two occasions while negotiating, denies any direct talks. It admits only to indirect contacts through intermediaries. And rightly so: how can a country sit at the table with an empire that has already attacked it under the banner of diplomacy, and that is now moving 8,000 additional troops—bringing the total to more than 50,000 in the region—with the capacity to seize Kharg Island, the bottleneck through which 90% of Iran’s oil exports pass?

The White House, without shame, admits it is planning for “more weeks of war.” The Pentagon is already preparing a request for $200 billion from Congress to fund the escalation. Oil prices spike, the crisis in the Strait of Hormuz affects over a thousand ships, and global markets swing to the rhythm of manufactured news about “negotiations.”

Faced with this, the question posed by the mainstream media—“is the plan a genuine peace effort or a smoke screen to prepare an attack?”—rests on a false premise. Because the truth is far deeper and more uncomfortable: neither the State nor capitalism has any genuine interest in peace. War is the oxygen of both.

For capitalism, war means billion‑dollar contracts for the arms industry, control over energy routes, financial speculation on oil prices, and the opening of new markets for U.S. capital. The first half of this conflict has already consumed $11 billion—money that comes from taxes, feeds weapons shareholders, and never returns in the form of health, education, or housing for ordinary people.

For the State, war is the supreme justification for expanding its powers of surveillance, social control, and repression. It is the State in its most naked form: the imposition of borders by force, military discipline, the fabrication of internal and external enemies. The same State that now presents itself as a “mediator for peace” is the same State that systematically prevents any popular movement from building horizontal alternatives for coexistence.

The truth, comrades, lies in the simultaneity of the moves: while Trump declares “negotiations,” his generals position amphibious troops. While the New York Times publicizes “peace plans,” the Pentagon plans to seize islands. There is no contradiction here—there is complementarity. Imperial diplomacy is never an alternative to war; it is simply war in a different costume, used to buy time, divide the enemy, and present the public with the false image that “everything has been tried.”

Iran’s response—its refusal to negotiate at gunpoint—is a gesture of dignity that should inspire us. But let us not be deceived: the resistance of a theocratic State against an imperial State does not represent a way out for ordinary people. It would only change the jailer.

The lesson we draw, as anti‑war and anti‑state militants, is clear: no peace will come from above. Neither Trump, nor the Pentagon, nor the ayatollahs, nor any other figure of authority will free us from war, because war is the mode of existence of power. As long as there are armed States, as long as there is capital accumulated through exploitation, war will always be the inevitable outcome of the contradictions they themselves create.

The only response worth pursuing, in the face of this spectacle of hypocrisy, is the construction of an international solidarity that rejects both U.S. imperialism and Iranian authoritarianism—one that places at its center people’s lives, territorial self‑management, and the refusal to serve any war machine. For if the State and capital feed on war, we feed on the hope of a world in which neither exists.

In the meantime, let us keep our eyes open: when the Empire speaks of “peace,” it is because it is about to strike.

Liberto Herrera.


Nem com os Mísseis de Washington, Nem com os Fuzis de Teerã: A Guerra é a Mesma Morte para o Povo

As guerras são a saúde do Estado. Esta máxima, cunhada há mais de um século pelo sociólogo Randolph Bourne, permanece mais atual do que nunca. Em fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel desencadearam mais um ataque militar contra o Irã. Enquanto os mísseis teleguiados cruzam as fronteiras e as bombas inteligentes são lançadas com precisão cirúrgica sobre alvos “estratégicos”, o que vemos é a engrenagem mais fundamental do poder estatal sendo lubrificada com sangue.

A máquina de guerra não é um desvio na trajetória dos Estados; ela é o seu motor principal. Para os Estados Unidos, o complexo industrial-militar é uma fatia crucial da economia: contratos bilionários com a Lockheed Martin, a Raytheon, a General Dynamics. As ações sobem, os acionistas lucram, os generais ganham promoções e os políticos recebem financiamentos de campanha. A guerra no Irã não é um acidente de percurso, é um negócio. É a garantia de que o Pentágono continuará a consumir mais recursos do que qualquer programa social. Enquanto isso, jovens americanos são enviados para morrer ou matar em nome da “segurança nacional”, quando na verdade estão servindo aos lucros de uma elite que nunca verá um campo de batalha.

Mas não nos enganemos: o Estado iraniano, alvo dos bombardeios, é tão vil quanto seus agressores. O mesmo regime que agora vê seu território ser violado por potências estrangeiras é o mesmo que, em janeiro de 2026, assassinou a sangue frio pelo menos 250 mulheres nos protestos internos. É o mesmo que, em 2025, executou 55 mulheres, prendeu arbitrariamente outras 182 e condenou 80 ativistas a penas de prisão, açoites e morte. É o regime que registrou, no mínimo, 207 feminicídios no mesmo período, muitos deles disfarçados de “crimes de honra”. As mulheres curdas, em particular, sofrem uma dupla opressão: 24 delas foram mortas nas manifestações de janeiro, e outras 30 foram vítimas de feminicídio apenas nas províncias curdas em 2025.

O ataque dos EUA e de Israel não é uma missão de libertação. Não se enganem com o discurso humanitário que tenta justificar a intervenção. Os mesmos Estados que bombardeiam Teerã são os que armam e financiam ditaduras na região, os que fecham os olhos para os massacres quando convém. A “preocupação” com as mulheres iranianas é uma cortina de fumaça para esconder interesses geopolíticos: petróleo, gás, corredores estratégicos, hegemonia regional. Enquanto isso, as verdadeiras vítimas — as mulheres, os curdos, os bahá’ís, os ativistas — continuam sendo esmagadas entre o martelo do Estado teocrático iraniano e a bigorna do imperialismo ocidental.

A guerra fortalece os Estados de ambos os lados. Em Teerã, o ataque estrangeiro serve para unificar a população em torno do regime, silenciar as vozes dissidentes e justificar uma repressão ainda mais brutal. Em Washington, a guerra desvia a atenção dos problemas internos, infla o orçamento militar e reforça o controle social sob o manto do patriotismo. Os Estados se alimentam mutuamente, como predadores que competem pela mesma presa: a população.

Nós, anarquistas, não temos pátria, nem exército, nem bandeira. Não torcemos por um Estado contra o outro. Nos opomos a todos os Estados, a todas as fronteiras, a todos os exércitos. Denunciamos a hipocrisia dos que falam em direitos humanos enquanto vendem armas. Denunciamos a tirania dos aiatolás e a tirania dos generais do Pentágono. Ambas se sustentam pela violência, pela hierarquia e pela exploração.

A verdadeira solidariedade não está em escolher lados na guerra entre Estados, como alegremente a Esquerda faz, mas em apoiar as lutas autônomas das pessoas comuns contra toda forma de dominação. As mulheres do Irã que enfrentaram os fuzis da Guarda Revolucionária em janeiro merecem nosso apoio incondicional — não os mísseis que agora caem sobre suas cabeças em nome de uma “libertação” que nunca chegará.

Fora com a guerra dos Estados! Abaixo o patriarcado e o capitalismo que a alimentam! Que as armas se calem e que as ruas voltem a ser das pessoas, não dos exércitos.

Sem deuses, sem senhores, sem pátrias, sem fronteiras. Pela autonomia e pela vida.

English:

Not with Washington’s Missiles, Nor with Tehran’s Rifles: War is the Same Death for the People

Wars are the health of the State. This maxim, coined over a century ago by sociologist Randolph Bourne, remains more relevant than ever. In February 2026, the United States and Israel unleashed yet another military attack against Iran. While guided missiles cross borders and smart bombs are dropped with surgical precision on “strategic” targets, what we witness is the most fundamental gear of state power being lubricated with blood.

The war machine is not a deviation in the trajectory of States; it is their main engine. For the United States, the military-industrial complex is a crucial slice of the economy: billion-dollar contracts with Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics. Stocks rise, shareholders profit, generals get promotions, and politicians receive campaign funding. The war in Iran is not an accident; it is business. It is the guarantee that the Pentagon will continue to consume more resources than any social program. Meanwhile, young Americans are sent to die or kill in the name of “national security,” when in reality they are serving the profits of an elite that will never see a battlefield.

But let us not deceive ourselves: the Iranian state, target of the bombings, is as vile as its aggressors. The same regime that now sees its territory violated by foreign powers is the same one that, in January 2026, cold-bloodedly murdered at least 250 women in internal protests. It is the same one that, in 2025, executed 55 women, arbitrarily arrested another 182, and sentenced 80 activists to prison terms, floggings, and death. It is the regime that recorded at least 207 femicides in the same period, many disguised as “honor crimes.” Kurdish women, in particular, suffer a double oppression: 24 of them were killed in the January demonstrations, and another 30 were victims of femicide in the Kurdish provinces alone in 2025.

The attack by the US and Israel is not a liberation mission. Do not be fooled by the humanitarian rhetoric trying to justify the intervention. The same States that bomb Tehran are the ones that arm and finance dictatorships in the region, the ones that turn a blind eye to massacres when convenient. The “concern” for Iranian women is a smokescreen to hide geopolitical interests: oil, gas, strategic corridors, regional hegemony. Meanwhile, the real victims — women, Kurds, Bahá’ís, activists — continue to be crushed between the hammer of the Iranian theocratic state and the anvil of Western imperialism.

War strengthens States on both sides. In Tehran, the foreign attack serves to unify the population around the regime, silence dissident voices, and justify even more brutal repression. In Washington, war diverts attention from internal problems, inflates the military budget, and reinforces social control under the cloak of patriotism. States feed on each other, like predators competing for the same prey: the population.

We, anarchists, have no homeland, no army, no flag. We do not cheer for one State against another. We oppose all States, all borders, all armies. We denounce the hypocrisy of those who speak of human rights while selling weapons. We denounce the tyranny of the ayatollahs and the tyranny of the Pentagon generals. Both are sustained by violence, hierarchy, and exploitation.

True solidarity does not lie in choosing sides in the war between States, as the Left happily does, but in supporting the autonomous struggles of ordinary people against all forms of domination. The women of Iran who faced the rifles of the Revolutionary Guard in January deserve our unconditional support — not the missiles now falling on their heads in the name of a “liberation” that will never come.

Away with the war of States! Down with the patriarchy and capitalism that feed it! May the guns fall silent and may the streets once again belong to the people, not the armies.

No gods, no masters, no homelands, no borders. For autonomy and for life.

Español:


Ni con los Misiles de Washington, ni con los Fusiles de Teherán: La Guerra es la Misma Muerte para el Pueblo

Las guerras son la salud del Estado. Esta máxima, acuñada hace más de un siglo por el sociólogo Randolph Bourne, sigue más vigente que nunca. En febrero de 2026, Estados Unidos e Israel desencadenaron otro ataque militar contra Irán. Mientras los misiles teledirigidos cruzan las fronteras y las bombas inteligentes caen con precisión quirúrgica sobre objetivos “estratégicos”, lo que vemos es el engranaje más fundamental del poder estatal siendo lubricado con sangre.

La máquina de guerra no es un desvío en la trayectoria de los Estados; es su motor principal. Para Estados Unidos, el complejo industrial-militar es una tajada crucial de la economía: contratos multimillonarios con Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics. Las acciones suben, los accionistas lucran, los generales ascienden y los políticos reciben financiación de campaña. La guerra en Irán no es un accidente, es un negocio. Es la garantía de que el Pentágono seguirá consumiendo más recursos que cualquier programa social. Mientras tanto, jóvenes estadounidenses son enviados a morir o matar en nombre de la “seguridad nacional”, cuando en realidad están sirviendo a las ganancias de una élite que nunca verá un campo de batalla.

Pero no nos engañemos: el Estado iraní, objetivo de los bombardeos, es tan vil como sus agresores. El mismo régimen que ahora ve su territorio violado por potencias extranjeras es el mismo que, en enero de 2026, asesinó a sangre fría al menos a 250 mujeres en las protestas internas. Es el mismo que, en 2025, ejecutó a 55 mujeres, arrestó arbitrariamente a otras 182 y condenó a 80 activistas a penas de prisión, azotes y muerte. Es el régimen que registró, al menos, 207 feminicidios en el mismo período, muchos de ellos disfrazados de “crímenes de honor”. Las mujeres kurdas, en particular, sufren una doble opresión: 24 de ellas murieron en las manifestaciones de enero, y otras 30 fueron víctimas de feminicidio solo en las provincias kurdas en 2025.

El ataque de EE.UU. e Israel no es una misión de liberación. No se dejen engañar por el discurso humanitario que intenta justificar la intervención. Los mismos Estados que bombardean Teherán son los que arman y financian dictaduras en la región, los que cierran los ojos ante las masacres cuando les conviene. La “preocupación” por las mujeres iraníes es una cortina de humo para ocultar intereses geopolíticos: petróleo, gas, corredores estratégicos, hegemonía regional. Mientras tanto, las verdaderas víctimas —las mujeres, los kurdos, los bahá’ís, los activistas— siguen siendo aplastadas entre el martillo del Estado teocrático iraní y el yunque del imperialismo occidental.

La guerra fortalece a los Estados de ambos lados. En Teherán, el ataque extranjero sirve para unificar a la población en torno al régimen, silenciar las voces disidentes y justificar una represión aún más brutal. En Washington, la guerra desvía la atención de los problemas internos, infla el presupuesto militar y refuerza el control social bajo el manto del patriotismo. Los Estados se alimentan mutuamente, como depredadores que compiten por la misma presa: la población.

Nosotros, los anarquistas, no tenemos patria, ni ejército, ni bandera. No animamos a un Estado contra otro. Nos oponemos a todos los Estados, a todas las fronteras, a todos los ejércitos. Denunciamos la hipocresía de los que hablan de derechos humanos mientras venden armas. Denunciamos la tiranía de los ayatolás y la tiranía de los generales del Pentágono. Ambas se sostienen por la violencia, la jerarquía y la explotación.

La verdadera solidaridad no está en elegir bando en la guerra entre Estados, como alegremente hace la Izquierda, sino en apoyar las luchas autónomas de la gente común contra toda forma de dominación. Las mujeres de Irán que enfrentaron los fusiles de la Guardia Revolucionaria en enero merecen nuestro apoyo incondicional — no los misiles que ahora caen sobre sus cabezas en nombre de una “liberación” que nunca llegará.

¡Fuera la guerra de los Estados! ¡Abajo el patriarcado y el capitalismo que la alimentan! Que las armas callen y que las calles vuelvan a ser de la gente, no de los ejércitos.

Sin dioses, sin amos, sin patrias, sin fronteras. Por la autonomía y por la vida.

Da Crueldade à Revolução: O Caso Orelha como Sintoma do Capitalismo e Chamado à Insurreição

O assassinato do cão Orelha não é um ato de crueldade isolado, um desvio patológico de alguns adolescentes ricos. É o sintoma podre e lógico de uma sociedade capitalista em estágio terminal, uma sociedade que metaboliza a violência, a dessensibilização e a dominação como seu princípio vital. O mesmo sistema que diariamente espolia trabalhadores, envenena rios, e destrói comunidades inteiras em nome do lucro, é o mesmo que gera indivíduos capazes de espancar um animal comunitário até a morte por diversão. A brutalidade não é uma anomalia; é o produto de um mundo que reduz tudo – vidas, naturezas, afetos – a mercadoria ou a obstáculo. O capitalismo é a escola primária da violência, e seus alunos mais aplicados estão apenas refletindo, em atos hediondos, a lógica de exploração e descarte que respiram.

A revolta justa e pulsante que tomou as ruas e as redes sociais após a morte de Orelha é, no entanto, habilmente canalizada pelos mesmos mecanismos estatais que sustentam o status quo. Enquanto a multidão clama por “Justiça”, o Estado oferece seu catálogo de espetáculos punitivistas: a internação de um adolescente, o endurecimento pontual de uma lei. É um teatro macabro que serve para conter a fúria social dentro dos limites seguros da legalidade burguesa. Transforma uma crítica profunda à cultura da violência em um mero ajuste processual, perpetuando a ilusão de que o sistema judicial e penal, estruturalmente classista e racista, pode algum dia produzir justiça verdadeira. Enquanto isso, a violência econômica, a violência do despejo, a violência da fome – todas muito mais letais e disseminadas – seguem sendo negócios autorizados e protegidos por lei.

Para que a revolta por Orelha não seja em vão, ela precisa romper essa camisa de força jurídica e perceber que o inimigo não são apenas os braços executores da barbárie, mas o coração que a bombeia: a propriedade privada, a mercantilização da vida, o Estado garantidor deste desastre. O cão comunitário era, em sua existência simples, uma negação viva da lógica privatista. Era um bem comum, um nó de afetos compartilhados, cuidado coletivamente sem dono ou certificado. Sua eliminação foi um ataque simbólico à possibilidade mesma do comum, àquilo que escapa ao controle do mercado e do individualismo possessivo. Defender sua memória, portanto, exige atacar o sistema que necessita erradicar tais formas de convívio livre e solidário.

A mesma frieza que permite ver um animal como um objeto para extração de diversão sádica é a que permite ver um trabalhador como um recurso humano descartável, uma floresta como um estoque de madeira, um território indígena como um empecilho ao progresso. É a psicopatia socializada do capital. Concentrar a indignação apenas no ato individual é ignorar o tumor social que o produz. A luta contra a violência animal, para ser consequente, deve ser inseparável da luta contra a violência sobre todos os corpos exploráveis. Deve ser anticapitalista, pois é o capital que cria a hierarquia de valores que justifica o domínio e a crueldade. Deve ser antiestatal, pois é o Estado que, com sua polícia e suas leis, protege a propriedade dos meios de produção que geram essa miséria material e espiritual.

Portanto, que a hashtag #JustiçaPorOrelha se transforme em um grito de guerra contra toda a ordem que fabrica Orelhas todos os dias. Que os abrigos comunitários ocupados se tornem bases de apoio mútuo não apenas para animais, mas para todos os seres precarizados. Que a energia dos protestos seja direcionada não para pressionar deputados, mas para organizar a defesa comunitária, para expropriar os recursos monopolizados por uma elite, para construir aqui e agora, nas rachaduras deste mundo moribundo, a sociedade baseada no cuidado e não na exploração, na solidariedade e não na competição, na liberdade e não na posse.

O capitalismo é o verdadeiro crime de maus-tratos em escala planetária. O Estado é seu cúmplice e carcereiro. A morte de Orelha é um episódio horrível dessa guerra permanente. Honrar sua vida não será conseguir uma nova pena no código penal de Santa Catarina. Será dedicar nossa fúria organizada e inteligente à tarefa imensa de demolir os alicerces desse matadouro social e, sobre seus escombros, aprender a viver de um modo onde nenhuma vida, humana ou não-humana, seja novamente tratada como coisa a ser usada, quebrada e descartada. A justiça verdadeira só virá com a revolução social.

Liberto Herrera.

O Colapso Que Nos Convoca

O edifício podre do capitalismo global entra em convulsão terminal. Suas fundações, erguidas sobre exploração e ecocídio, rangem até à exaustão. Este não é um acidente de percurso, mas o desfecho lógico de um sistema que consome vidas e planetas com a mesma frieza. Diante desse iminente colapso civilizacional, a pergunta crucial não é como salvar as ruínas, mas como garantir que, na queda, esmaguemos de vez o altar do Capital, do Estado e de toda hierarquia. E a resposta, clara e urgente, é a da ação anarquista: que os explorados e oprimidos sejam, sem qualquer mediação ou piedade, os atores conscientes da derrocada deste mundo doente.

Os arautos do poder, em pânico, já oferecem suas soluções envenenadas: mais Estado, mais controle, mais “capitalismo verde” para gerir a escassez que eles próprios criaram. Querem nos convencer a confiar novamente nos carcereiros, agora como supostos bombeiros. É uma fraude histórica. O Estado, longe de ser um antídoto, é o braço armado e o gestor burocrático da catástrofe. Sua lógica é a da soberania sobre pessoas e territórios, da triagem social em meio ao caos, da perpetuação de uma elite em bunkers mentais e materiais. Confiar nele para nos guiar no colapso é como entregar o rebanho ao lobo para que o proteja.

Portanto, a única força histórica capaz de não apenas sobreviver ao colapso, mas de forjar no seu fogo algo radicalmente novo, somos nós: a multidão dos sem-poder, dos precarizados, dos racializados, dos esmagados pela máquina. Não temos interesse em preservar este mundo, pois ele nunca nos pertenceu. Nosso poder reside exatamente no que o sistema nos negou: a desvinculação afetiva de suas instituições moribundas e a capacidade criativa de quem sempre teve que reinventar a vida nas frestas. O colapso não é o fim da nossa história; é a demolição necessária do palco onde sempre fomos coadjuvantes.

A hora não é de petições, nem de esperar por salvadores políticos. É a hora da ação direta, da organização horizontal e da solidariedade agressiva. Cada greve selvagem que paralisa os fluxos do capital, cada centro social ocupado que vira base de apoio mútuo, cada infraestrutura comunitária que ignora o Estado e o mercado, são laboratórios do futuro e golpes diretos no presente caduco. É na prática concreta das assembleias populares, das redes de abastecimento autogeridas, da defesa comunitária, que se forja a consciência e o poder de que precisamos. É assim que se desmonta um mundo: criando, aqui e agora, os embriões do que virá.

Rejeitamos com todo vigor qualquer pacto faustiano que nos ofereça migalhas de “estabilidade” em troca do desarme de nossa rebeldia. A esquerda autoritária, com sua nostalgia de Estados fortes e vanguardas iluminadas, é um beco sem saída. Ela só reproduz, com nova roupagem, a mesma lógica de comando e obediência que nos levou ao abismo. Nosso caminho é outro: não a tomada do poder, mas a sua dissolução. Não a gestão da crise, mas a explosão criativa a partir dos seus escombros.

Que o medo, portanto, seja combustível, não paralisia. O sistema se alimenta do nosso temor do caos, vendendo segurança em troca de liberdade. Mas o verdadeiro caos é a ordem atual, que diariamente destrói ecossistemas e condena gerações. Nossa ousadia deve ser proporcional à monstruosidade que enfrentamos. “Não há nada a perder, exceto nossas próprias correntes”. E há um mundo a ganhar: um mundo sem senhores, sem fronteiras, sem a máquina de moer corpos e sonhos; um mundo onde a liberdade individual seja indissociável da comunidade livre, onde a necessidade de destruir ande de mãos dadas com a paixão de construir.

O colapso iminente não é um apocalipse, é um parto. Doloroso, caótico, mas carregado de uma possibilidade imensa. Cabe a nós, anarquistas e rebeldes de todas as bandeiras, ser a parteira desta nova era. Não com discursos, mas com mãos que desmontam o velho e erguem o novo. Não com líderes, mas com a força coletiva dos que ousam governar a si mesmos. Que a derrocada do mundo doente seja a nossa obra mais ousada, e o caos que se avizinha, a tela em branco onde, enfim, pintaremos a liberdade.

Liberto Herrera.

Desconstruindo Altares: Por um Anarquismo Sem Gurus e Sem Compromissos com o Poder

A figura do guru, do intelectual estrela ou do “companheiro de luta” celebridade é um veneno que corrói pela raiz os princípios do anarquismo. O caso exposto sobre Noam Chomsky é a prova cabal e vergonhosa dessa contradição. Aqui temos um homem celebrado por setores do movimento como um farol libertário, enquanto na prática cavava relações privilegiadas com bilionários como Epstein, acumulava uma fortuna milionária sob a gestão dessa mesma elite que diz combater e usava sua influência para defender o indefensável, de negacionistas a regimes autoritários de esquerda. Isso não é um deslize; é a marca registrada de quem opera dentro da lógica do poder, não contra ela. O anarquismo não precisa de heróis em pedestais, precisa de coerência nas trincheiras.

A adulação a celebridades como Chomsky revela uma preguiça intelectual e uma submissão psicológica profundamente anti-libertárias. Em vez de construirmos coletivamente nossas análises a partir das lutas concretas, corremos o risco de delegar o pensamento crítico a uma figura supostamente iluminada. Passamos a seguir frases de efeito, a repetir chavões e a justificar, por lealdade cega a um nome, contradições inadmissíveis. Como pode um movimento que prega a autogestão e a desconfiança do poder constituído cair na armadilha de criar seus próprios ídolos? Cada guru que erguemos é um passo atrás na longa marcha pela emancipação total.

O anti-imperialismo de salão, aquele que faz vista grossa às ditaduras “do lado de cá” em nome de combater o Império, é uma doença oportunista que Chomsky exemplifica tragicamente. Solidariedade seletiva não é solidariedade, é realpolitik disfarçada de radicalismo. Enquanto, por exemplo, silenciava sobre a perseguição brutal a dissidentes cubanos na “Primavera Negra”, sua voz era alta para defender figuras abjetas na Europa. Essa dupla moral revela que, para alguns, a causa libertária é um palco para performance, não um compromisso inquebrantável com os oprimidos, sem asteriscos nem exceções convenientes.

A relação com Jeffrey Epstein é a face mais nua e repugnante dessa capitulação. Não se trata apenas de uma “má escolha” de assessor financeiro. Trata-se da normalização, pelo apoio pessoal e pela minimização dos crimes, de um monstro que representa o ápice da depravação patriarcal e capitalista. O que diz sobre um “anarquista” que, diante de acusações de tráfico sexual infantil, responde com preocupação sobre o “tratamento pela imprensa” do seu amigo bilionário? Diz tudo. Diz que os laços de classe e de privilégio, no fim, falaram mais alto que qualquer princípio.

Portanto, é hora de uma limpeza ética radical em nossos círculos. Anarquismo não é um clube de fãs, nem uma marca que precisa de embaixadores famosos. É uma prática diária de horizontalidade, de apoio mútuo e de confronto direto com todas as hierarquias. Nossas referências devem ser os coletivos em luta, os movimentos de base, as pessoas comuns que organizam a raiva e a esperança no cotidiano, não os professores renomados que negociam com o diabo nos corredores do poder. A confiança deve estar dispersa, nunca concentrada em um único nome.

Que o caso Chomsky sirva como lição final: nenhum ícone é insubstituível, e nenhuma celebridade está imune à corrupção do sistema que diz combater. Nossa força reside na nossa capacidade de pensar e agir por nós mesmos, coletivamente, sem intermediários e sem pastores. Desfaçamos os altares, queimemos os livros sagrados de autores intocáveis e sigamos em frente, com os pés no chão da luta e os olhos voltados para um horizonte sem ídolos, onde a liberdade de cada um seja obra de todos. Nem líderes, nem gurus, nem mestres. Apenas companheirismo solidário e crítica permanente. 

Liberto Herrera.

Do DOI-CODI à Favela: O Estado Genocida e Sua Nova Máscara

Dada a conjuntura atual, mais do que nunca, é necessário que abramos os olhos e rompamos o véu enganoso da “redemocratização” no território dominado pelo Estado Brasileiro! Eles nos vendem a farsa de que a ditadura militar acabou, mas nós, das ruas e das lutas sociais, sabemos a verdade sangrenta: o monstro apenas trocou de pele. Torturas, prisões, sequestros, assassinatos, delação, censura – os mesmos instrumentos de terror que assombraram o Brasil sob os gorilas fardados continuam a ser a política de Estado contra os pobres, os negros, os indígenas e os militantes. A pergunta que ecoa das favelas aos quilombos é: a ditadura realmente acabou ou apenas mudou de nome?

Eles trocaram os porões do DOI-CODI pelas operações de “Garantia da Lei e da Ordem” nas periferias. A tortura saiu dos quartéis e se instalou nas abordagens policiais, nas violações de autos de resistência, nas humilhações cotidianas do sistema prisional. O sequestro de corpos negros segue uma lógica industrial, seja no extermínio pela polícia, seja no encarceramento em massa que arranca milhares de suas comunidades. O método é o mesmo: o terror como ferramenta de controle social e a aniquilação daqueles que o sistema marca como indesejáveis.

O aparato de perseguição política foi modernizado e recebeu roupagem “legal”. As prisões preventivas, as delações premiadas coagidas e a criminalização dos movimentos sociais são as novas facetas do arbítrio. A Lei de Segurança Nacional, herança maldita da ditadura, é brandida contra quem ousa criticar os poderosos. Eles não precisam mais de AI-5 quando têm um Judiciário conivente e uma mídia mercenária que legitima a perseguição, construindo narrativas que transformam militantes em “terroristas” e protestos em “atos de guerra”.

A censura não morreu; tornou-se digital, algorítmica e estrutural. Ela se disfarça de “política de comunidade” nas redes sociais, de “combate à desinformação” que silencia vozes dissidentes, e da monopolização midiática que mantém o povo intoxicado pela ignorância. A violência do Estado agora é transmitida ao vivo, mas a mesma máquina que a exibe tenta justificá-la como “necessária”. O genocídio negro, o etnocídio indígena e a repressão aos pobres são a prova viva de que o Estado brasileiro mantém sua essência autoritária.

E a farsa eleitoral? Trocar os generais por políticos profissionais não altera a natureza do Estado. Enquanto o poder permanecer nas mãos das elites econômicas, das corporações militares e de um Judiciário de exceção, a democracia seguirá sendo uma piada de mau gosto. O mesmo sistema que financiou a ditadura segue no poder, renovando sua maquiagem a cada pleito para preservar seus privilégios. A “Nova República” não passou de um pacto de elites para manter o povo sob jugo, agora com métodos mais “sofisticados” de repressão.

Portanto, a resposta é clara: a ditadura nunca acabou, apenas se recombinou. Ela agora é civil, militar, jurídica e midiática. Mas nossa resistência também se reinventa. Não depositaremos fé em salvadores da pátria ou nas instituições podres desse Estado genocida. Nossa luta é pelo fim da polícia, dos exércitos, pelo fim do sistema prisional, pelo fim da justiça de classe e por uma verdadeira desagregação desse Estado assassino (e de seu irmão, o Capital). A memória dos torturados e assassinados nos grita: não passarão! Pela liberdade de todos e pelo fim de TODAS as ditaduras, ação direta e luta nas ruas!

Pela anarquia.

Liberto Herrera*.

*Publicado em novembro de 2025.