
Enquanto a FIFA e seus patrocinadores – Coca-Cola, Visa, Adidas – esfregam as mãos com os lucros projetados de US$ 11 bilhões para a Copa do Mundo de Futebol de 2026, estendido por 16 cidades na América do Norte, a classe trabalhadora novamente será convocada a bater palmas para o próprio cárcere.
Aqui, não se trata de amor ao futebol, paixão que poderia ser vivida em campos de várzea e peladas de bairro, mas sim de um ritual meticulosamente fabricado para sequestrar nosso desejo de comunidade e transformá-lo em mercadoria. O espetáculo burguês não é diversão: é o ópio dopado com isopor e telões, a última instância da alienação em tempos de crise. Enquanto desviamos o olhar para o drible do craque ou a polêmica do VAR, o capital avança na precarização do trabalho, na especulação imobiliária sobre os estádios e na militarização das cidades-sede – tudo sob o verniz da “festa”.
O que os cartolas chamam de “legado” é, na verdade, um rastro de despejos, superfaturamento e dívidas públicas impagáveis. Dados do próprio movimento “FIFA Watch” indicam que, nas últimas cinco Copas, mais de 70% dos estádios construídos ou reformados estão subutilizados ou abandonados – como o Estádio da Amazônia, em Manaus, que custou R$ 600 milhões e hoje serve de depósito. Para 2026, a promessa é de “estádios existentes” – mas isso não impede que cidades como Vancouver e Los Angeles estejam gastando centenas de milhões em “adequações” bilionárias enquanto seus sem-teto são varridos com jatos d’água em pleno inverno. O Estado, fiel cão de guarda do capital, criminaliza moradores de rua para “embelezar” a vitrine, e a grande mídia aplaude a “modernização”. Não há paixão que justifique um único despejo: há apenas a lógica do lucro travestida de celebração planetária.
A Copa é também o maior espetáculo de militarização consentida. Para o Mundial de 2026, o Departamento de Segurança Interna dos EUA já anunciou um esquema inédito de vigilância por drones, reconhecimento facial em massa e um “perímetro de segurança” que transformará bairros inteiros em zonas de exceção.
No México, o exército ocupará as ruas, com os mesmos fuzis que assassinam camponeses e estudantes agora “protegendo” os turistas. Os dados são nauseantes: o Brasil gastou R$1,2 bilhões em aparato repressivo na Copa de 2014. Para 2026, o Mundial ocorrerá em três países e se desviarão mais de USD 3 bilhões de áreas como saúde e educação para financiar esse estado de sítio festivo. O torcedor, hipnotizado pela bola, não vê que a mesma estrutura que revista sua mochila nas catracas é a que reprime greves e ocupa territórios periféricos. A alienação se completa quando aplaudimos a própria corrente que nos aperta.
Diante disso, a atitude libertária é recusar o espetáculo em todas as suas formas: não consumir a transmissão, não comprar o ingresso, não aplaudir os heróis fabricados. Que venham os campeonatos de rua sem juiz, as peladas mistas na laje, a festa que não precise de patrocínio nem de polícia.
Enquanto a FIFA lucra com nossa passividade, a tarefa é construir contra-espetáculos: invadir os telões públicos com projeções de dados reais sobre os mortos da militarização, transformar os dias de jogo em atos de despejo simbólico das marcas, fazer do impedimento uma alegoria política: tudo que sustenta a Copa é impedido de ser justo. A bola, roubada do campo privatizado, pode rolar livre – mas só quando deixar de ser vitrine para voltar a ser brinquedo.
Liberto Herrera.