Nem com os Mísseis de Washington, Nem com os Fuzis de Teerã: A Guerra é a Mesma Morte para o Povo

As guerras são a saúde do Estado. Esta máxima, cunhada há mais de um século pelo sociólogo Randolph Bourne, permanece mais atual do que nunca. Em fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel desencadearam mais um ataque militar contra o Irã. Enquanto os mísseis teleguiados cruzam as fronteiras e as bombas inteligentes são lançadas com precisão cirúrgica sobre alvos “estratégicos”, o que vemos é a engrenagem mais fundamental do poder estatal sendo lubrificada com sangue.

A máquina de guerra não é um desvio na trajetória dos Estados; ela é o seu motor principal. Para os Estados Unidos, o complexo industrial-militar é uma fatia crucial da economia: contratos bilionários com a Lockheed Martin, a Raytheon, a General Dynamics. As ações sobem, os acionistas lucram, os generais ganham promoções e os políticos recebem financiamentos de campanha. A guerra no Irã não é um acidente de percurso, é um negócio. É a garantia de que o Pentágono continuará a consumir mais recursos do que qualquer programa social. Enquanto isso, jovens americanos são enviados para morrer ou matar em nome da “segurança nacional”, quando na verdade estão servindo aos lucros de uma elite que nunca verá um campo de batalha.

Mas não nos enganemos: o Estado iraniano, alvo dos bombardeios, é tão vil quanto seus agressores. O mesmo regime que agora vê seu território ser violado por potências estrangeiras é o mesmo que, em janeiro de 2026, assassinou a sangue frio pelo menos 250 mulheres nos protestos internos. É o mesmo que, em 2025, executou 55 mulheres, prendeu arbitrariamente outras 182 e condenou 80 ativistas a penas de prisão, açoites e morte. É o regime que registrou, no mínimo, 207 feminicídios no mesmo período, muitos deles disfarçados de “crimes de honra”. As mulheres curdas, em particular, sofrem uma dupla opressão: 24 delas foram mortas nas manifestações de janeiro, e outras 30 foram vítimas de feminicídio apenas nas províncias curdas em 2025.

O ataque dos EUA e de Israel não é uma missão de libertação. Não se enganem com o discurso humanitário que tenta justificar a intervenção. Os mesmos Estados que bombardeiam Teerã são os que armam e financiam ditaduras na região, os que fecham os olhos para os massacres quando convém. A “preocupação” com as mulheres iranianas é uma cortina de fumaça para esconder interesses geopolíticos: petróleo, gás, corredores estratégicos, hegemonia regional. Enquanto isso, as verdadeiras vítimas — as mulheres, os curdos, os bahá’ís, os ativistas — continuam sendo esmagadas entre o martelo do Estado teocrático iraniano e a bigorna do imperialismo ocidental.

A guerra fortalece os Estados de ambos os lados. Em Teerã, o ataque estrangeiro serve para unificar a população em torno do regime, silenciar as vozes dissidentes e justificar uma repressão ainda mais brutal. Em Washington, a guerra desvia a atenção dos problemas internos, infla o orçamento militar e reforça o controle social sob o manto do patriotismo. Os Estados se alimentam mutuamente, como predadores que competem pela mesma presa: a população.

Nós, anarquistas, não temos pátria, nem exército, nem bandeira. Não torcemos por um Estado contra o outro. Nos opomos a todos os Estados, a todas as fronteiras, a todos os exércitos. Denunciamos a hipocrisia dos que falam em direitos humanos enquanto vendem armas. Denunciamos a tirania dos aiatolás e a tirania dos generais do Pentágono. Ambas se sustentam pela violência, pela hierarquia e pela exploração.

A verdadeira solidariedade não está em escolher lados na guerra entre Estados, como alegremente a Esquerda faz, mas em apoiar as lutas autônomas das pessoas comuns contra toda forma de dominação. As mulheres do Irã que enfrentaram os fuzis da Guarda Revolucionária em janeiro merecem nosso apoio incondicional — não os mísseis que agora caem sobre suas cabeças em nome de uma “libertação” que nunca chegará.

Fora com a guerra dos Estados! Abaixo o patriarcado e o capitalismo que a alimentam! Que as armas se calem e que as ruas voltem a ser das pessoas, não dos exércitos.

Sem deuses, sem senhores, sem pátrias, sem fronteiras. Pela autonomia e pela vida.

English:

Not with Washington’s Missiles, Nor with Tehran’s Rifles: War is the Same Death for the People

Wars are the health of the State. This maxim, coined over a century ago by sociologist Randolph Bourne, remains more relevant than ever. In February 2026, the United States and Israel unleashed yet another military attack against Iran. While guided missiles cross borders and smart bombs are dropped with surgical precision on “strategic” targets, what we witness is the most fundamental gear of state power being lubricated with blood.

The war machine is not a deviation in the trajectory of States; it is their main engine. For the United States, the military-industrial complex is a crucial slice of the economy: billion-dollar contracts with Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics. Stocks rise, shareholders profit, generals get promotions, and politicians receive campaign funding. The war in Iran is not an accident; it is business. It is the guarantee that the Pentagon will continue to consume more resources than any social program. Meanwhile, young Americans are sent to die or kill in the name of “national security,” when in reality they are serving the profits of an elite that will never see a battlefield.

But let us not deceive ourselves: the Iranian state, target of the bombings, is as vile as its aggressors. The same regime that now sees its territory violated by foreign powers is the same one that, in January 2026, cold-bloodedly murdered at least 250 women in internal protests. It is the same one that, in 2025, executed 55 women, arbitrarily arrested another 182, and sentenced 80 activists to prison terms, floggings, and death. It is the regime that recorded at least 207 femicides in the same period, many disguised as “honor crimes.” Kurdish women, in particular, suffer a double oppression: 24 of them were killed in the January demonstrations, and another 30 were victims of femicide in the Kurdish provinces alone in 2025.

The attack by the US and Israel is not a liberation mission. Do not be fooled by the humanitarian rhetoric trying to justify the intervention. The same States that bomb Tehran are the ones that arm and finance dictatorships in the region, the ones that turn a blind eye to massacres when convenient. The “concern” for Iranian women is a smokescreen to hide geopolitical interests: oil, gas, strategic corridors, regional hegemony. Meanwhile, the real victims — women, Kurds, Bahá’ís, activists — continue to be crushed between the hammer of the Iranian theocratic state and the anvil of Western imperialism.

War strengthens States on both sides. In Tehran, the foreign attack serves to unify the population around the regime, silence dissident voices, and justify even more brutal repression. In Washington, war diverts attention from internal problems, inflates the military budget, and reinforces social control under the cloak of patriotism. States feed on each other, like predators competing for the same prey: the population.

We, anarchists, have no homeland, no army, no flag. We do not cheer for one State against another. We oppose all States, all borders, all armies. We denounce the hypocrisy of those who speak of human rights while selling weapons. We denounce the tyranny of the ayatollahs and the tyranny of the Pentagon generals. Both are sustained by violence, hierarchy, and exploitation.

True solidarity does not lie in choosing sides in the war between States, as the Left happily does, but in supporting the autonomous struggles of ordinary people against all forms of domination. The women of Iran who faced the rifles of the Revolutionary Guard in January deserve our unconditional support — not the missiles now falling on their heads in the name of a “liberation” that will never come.

Away with the war of States! Down with the patriarchy and capitalism that feed it! May the guns fall silent and may the streets once again belong to the people, not the armies.

No gods, no masters, no homelands, no borders. For autonomy and for life.

Español:


Ni con los Misiles de Washington, ni con los Fusiles de Teherán: La Guerra es la Misma Muerte para el Pueblo

Las guerras son la salud del Estado. Esta máxima, acuñada hace más de un siglo por el sociólogo Randolph Bourne, sigue más vigente que nunca. En febrero de 2026, Estados Unidos e Israel desencadenaron otro ataque militar contra Irán. Mientras los misiles teledirigidos cruzan las fronteras y las bombas inteligentes caen con precisión quirúrgica sobre objetivos “estratégicos”, lo que vemos es el engranaje más fundamental del poder estatal siendo lubricado con sangre.

La máquina de guerra no es un desvío en la trayectoria de los Estados; es su motor principal. Para Estados Unidos, el complejo industrial-militar es una tajada crucial de la economía: contratos multimillonarios con Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics. Las acciones suben, los accionistas lucran, los generales ascienden y los políticos reciben financiación de campaña. La guerra en Irán no es un accidente, es un negocio. Es la garantía de que el Pentágono seguirá consumiendo más recursos que cualquier programa social. Mientras tanto, jóvenes estadounidenses son enviados a morir o matar en nombre de la “seguridad nacional”, cuando en realidad están sirviendo a las ganancias de una élite que nunca verá un campo de batalla.

Pero no nos engañemos: el Estado iraní, objetivo de los bombardeos, es tan vil como sus agresores. El mismo régimen que ahora ve su territorio violado por potencias extranjeras es el mismo que, en enero de 2026, asesinó a sangre fría al menos a 250 mujeres en las protestas internas. Es el mismo que, en 2025, ejecutó a 55 mujeres, arrestó arbitrariamente a otras 182 y condenó a 80 activistas a penas de prisión, azotes y muerte. Es el régimen que registró, al menos, 207 feminicidios en el mismo período, muchos de ellos disfrazados de “crímenes de honor”. Las mujeres kurdas, en particular, sufren una doble opresión: 24 de ellas murieron en las manifestaciones de enero, y otras 30 fueron víctimas de feminicidio solo en las provincias kurdas en 2025.

El ataque de EE.UU. e Israel no es una misión de liberación. No se dejen engañar por el discurso humanitario que intenta justificar la intervención. Los mismos Estados que bombardean Teherán son los que arman y financian dictaduras en la región, los que cierran los ojos ante las masacres cuando les conviene. La “preocupación” por las mujeres iraníes es una cortina de humo para ocultar intereses geopolíticos: petróleo, gas, corredores estratégicos, hegemonía regional. Mientras tanto, las verdaderas víctimas —las mujeres, los kurdos, los bahá’ís, los activistas— siguen siendo aplastadas entre el martillo del Estado teocrático iraní y el yunque del imperialismo occidental.

La guerra fortalece a los Estados de ambos lados. En Teherán, el ataque extranjero sirve para unificar a la población en torno al régimen, silenciar las voces disidentes y justificar una represión aún más brutal. En Washington, la guerra desvía la atención de los problemas internos, infla el presupuesto militar y refuerza el control social bajo el manto del patriotismo. Los Estados se alimentan mutuamente, como depredadores que compiten por la misma presa: la población.

Nosotros, los anarquistas, no tenemos patria, ni ejército, ni bandera. No animamos a un Estado contra otro. Nos oponemos a todos los Estados, a todas las fronteras, a todos los ejércitos. Denunciamos la hipocresía de los que hablan de derechos humanos mientras venden armas. Denunciamos la tiranía de los ayatolás y la tiranía de los generales del Pentágono. Ambas se sostienen por la violencia, la jerarquía y la explotación.

La verdadera solidaridad no está en elegir bando en la guerra entre Estados, como alegremente hace la Izquierda, sino en apoyar las luchas autónomas de la gente común contra toda forma de dominación. Las mujeres de Irán que enfrentaron los fusiles de la Guardia Revolucionaria en enero merecen nuestro apoyo incondicional — no los misiles que ahora caen sobre sus cabezas en nombre de una “liberación” que nunca llegará.

¡Fuera la guerra de los Estados! ¡Abajo el patriarcado y el capitalismo que la alimentan! Que las armas callen y que las calles vuelvan a ser de la gente, no de los ejércitos.

Sin dioses, sin amos, sin patrias, sin fronteras. Por la autonomía y por la vida.

Da Crueldade à Revolução: O Caso Orelha como Sintoma do Capitalismo e Chamado à Insurreição

O assassinato do cão Orelha não é um ato de crueldade isolado, um desvio patológico de alguns adolescentes ricos. É o sintoma podre e lógico de uma sociedade capitalista em estágio terminal, uma sociedade que metaboliza a violência, a dessensibilização e a dominação como seu princípio vital. O mesmo sistema que diariamente espolia trabalhadores, envenena rios, e destrói comunidades inteiras em nome do lucro, é o mesmo que gera indivíduos capazes de espancar um animal comunitário até a morte por diversão. A brutalidade não é uma anomalia; é o produto de um mundo que reduz tudo – vidas, naturezas, afetos – a mercadoria ou a obstáculo. O capitalismo é a escola primária da violência, e seus alunos mais aplicados estão apenas refletindo, em atos hediondos, a lógica de exploração e descarte que respiram.

A revolta justa e pulsante que tomou as ruas e as redes sociais após a morte de Orelha é, no entanto, habilmente canalizada pelos mesmos mecanismos estatais que sustentam o status quo. Enquanto a multidão clama por “Justiça”, o Estado oferece seu catálogo de espetáculos punitivistas: a internação de um adolescente, o endurecimento pontual de uma lei. É um teatro macabro que serve para conter a fúria social dentro dos limites seguros da legalidade burguesa. Transforma uma crítica profunda à cultura da violência em um mero ajuste processual, perpetuando a ilusão de que o sistema judicial e penal, estruturalmente classista e racista, pode algum dia produzir justiça verdadeira. Enquanto isso, a violência econômica, a violência do despejo, a violência da fome – todas muito mais letais e disseminadas – seguem sendo negócios autorizados e protegidos por lei.

Para que a revolta por Orelha não seja em vão, ela precisa romper essa camisa de força jurídica e perceber que o inimigo não são apenas os braços executores da barbárie, mas o coração que a bombeia: a propriedade privada, a mercantilização da vida, o Estado garantidor deste desastre. O cão comunitário era, em sua existência simples, uma negação viva da lógica privatista. Era um bem comum, um nó de afetos compartilhados, cuidado coletivamente sem dono ou certificado. Sua eliminação foi um ataque simbólico à possibilidade mesma do comum, àquilo que escapa ao controle do mercado e do individualismo possessivo. Defender sua memória, portanto, exige atacar o sistema que necessita erradicar tais formas de convívio livre e solidário.

A mesma frieza que permite ver um animal como um objeto para extração de diversão sádica é a que permite ver um trabalhador como um recurso humano descartável, uma floresta como um estoque de madeira, um território indígena como um empecilho ao progresso. É a psicopatia socializada do capital. Concentrar a indignação apenas no ato individual é ignorar o tumor social que o produz. A luta contra a violência animal, para ser consequente, deve ser inseparável da luta contra a violência sobre todos os corpos exploráveis. Deve ser anticapitalista, pois é o capital que cria a hierarquia de valores que justifica o domínio e a crueldade. Deve ser antiestatal, pois é o Estado que, com sua polícia e suas leis, protege a propriedade dos meios de produção que geram essa miséria material e espiritual.

Portanto, que a hashtag #JustiçaPorOrelha se transforme em um grito de guerra contra toda a ordem que fabrica Orelhas todos os dias. Que os abrigos comunitários ocupados se tornem bases de apoio mútuo não apenas para animais, mas para todos os seres precarizados. Que a energia dos protestos seja direcionada não para pressionar deputados, mas para organizar a defesa comunitária, para expropriar os recursos monopolizados por uma elite, para construir aqui e agora, nas rachaduras deste mundo moribundo, a sociedade baseada no cuidado e não na exploração, na solidariedade e não na competição, na liberdade e não na posse.

O capitalismo é o verdadeiro crime de maus-tratos em escala planetária. O Estado é seu cúmplice e carcereiro. A morte de Orelha é um episódio horrível dessa guerra permanente. Honrar sua vida não será conseguir uma nova pena no código penal de Santa Catarina. Será dedicar nossa fúria organizada e inteligente à tarefa imensa de demolir os alicerces desse matadouro social e, sobre seus escombros, aprender a viver de um modo onde nenhuma vida, humana ou não-humana, seja novamente tratada como coisa a ser usada, quebrada e descartada. A justiça verdadeira só virá com a revolução social.

Liberto Herrera.

A Última Súplica

Não me falem de um trono nas nuvens vazias,
de um pastor celestial contando seus rebanhos.
Cada altar é uma pedra sobre um peito livre,
cada hino, uma cantiga para adormecer órfãos.
Inventaram um pai perfeito para justificar a culpa,
uma culpa primordial que herdamos sem pecado.
É uma teia fina, Deus, tecida com medo do escuro,
com o pavor ancestral da noite e do silêncio.
Arrancamos esse véu. Não há juízo final,
só a responsagem tremenda e bela
de sermos, enfim, os únicos artesãos do amanhã.
A divindade que buscamos ruge nas mãos unidas,
no pacto humano, nu e cru, sem intermediários.

Liberto Herrera.

O Colapso Que Nos Convoca

O edifício podre do capitalismo global entra em convulsão terminal. Suas fundações, erguidas sobre exploração e ecocídio, rangem até à exaustão. Este não é um acidente de percurso, mas o desfecho lógico de um sistema que consome vidas e planetas com a mesma frieza. Diante desse iminente colapso civilizacional, a pergunta crucial não é como salvar as ruínas, mas como garantir que, na queda, esmaguemos de vez o altar do Capital, do Estado e de toda hierarquia. E a resposta, clara e urgente, é a da ação anarquista: que os explorados e oprimidos sejam, sem qualquer mediação ou piedade, os atores conscientes da derrocada deste mundo doente.

Os arautos do poder, em pânico, já oferecem suas soluções envenenadas: mais Estado, mais controle, mais “capitalismo verde” para gerir a escassez que eles próprios criaram. Querem nos convencer a confiar novamente nos carcereiros, agora como supostos bombeiros. É uma fraude histórica. O Estado, longe de ser um antídoto, é o braço armado e o gestor burocrático da catástrofe. Sua lógica é a da soberania sobre pessoas e territórios, da triagem social em meio ao caos, da perpetuação de uma elite em bunkers mentais e materiais. Confiar nele para nos guiar no colapso é como entregar o rebanho ao lobo para que o proteja.

Portanto, a única força histórica capaz de não apenas sobreviver ao colapso, mas de forjar no seu fogo algo radicalmente novo, somos nós: a multidão dos sem-poder, dos precarizados, dos racializados, dos esmagados pela máquina. Não temos interesse em preservar este mundo, pois ele nunca nos pertenceu. Nosso poder reside exatamente no que o sistema nos negou: a desvinculação afetiva de suas instituições moribundas e a capacidade criativa de quem sempre teve que reinventar a vida nas frestas. O colapso não é o fim da nossa história; é a demolição necessária do palco onde sempre fomos coadjuvantes.

A hora não é de petições, nem de esperar por salvadores políticos. É a hora da ação direta, da organização horizontal e da solidariedade agressiva. Cada greve selvagem que paralisa os fluxos do capital, cada centro social ocupado que vira base de apoio mútuo, cada infraestrutura comunitária que ignora o Estado e o mercado, são laboratórios do futuro e golpes diretos no presente caduco. É na prática concreta das assembleias populares, das redes de abastecimento autogeridas, da defesa comunitária, que se forja a consciência e o poder de que precisamos. É assim que se desmonta um mundo: criando, aqui e agora, os embriões do que virá.

Rejeitamos com todo vigor qualquer pacto faustiano que nos ofereça migalhas de “estabilidade” em troca do desarme de nossa rebeldia. A esquerda autoritária, com sua nostalgia de Estados fortes e vanguardas iluminadas, é um beco sem saída. Ela só reproduz, com nova roupagem, a mesma lógica de comando e obediência que nos levou ao abismo. Nosso caminho é outro: não a tomada do poder, mas a sua dissolução. Não a gestão da crise, mas a explosão criativa a partir dos seus escombros.

Que o medo, portanto, seja combustível, não paralisia. O sistema se alimenta do nosso temor do caos, vendendo segurança em troca de liberdade. Mas o verdadeiro caos é a ordem atual, que diariamente destrói ecossistemas e condena gerações. Nossa ousadia deve ser proporcional à monstruosidade que enfrentamos. “Não há nada a perder, exceto nossas próprias correntes”. E há um mundo a ganhar: um mundo sem senhores, sem fronteiras, sem a máquina de moer corpos e sonhos; um mundo onde a liberdade individual seja indissociável da comunidade livre, onde a necessidade de destruir ande de mãos dadas com a paixão de construir.

O colapso iminente não é um apocalipse, é um parto. Doloroso, caótico, mas carregado de uma possibilidade imensa. Cabe a nós, anarquistas e rebeldes de todas as bandeiras, ser a parteira desta nova era. Não com discursos, mas com mãos que desmontam o velho e erguem o novo. Não com líderes, mas com a força coletiva dos que ousam governar a si mesmos. Que a derrocada do mundo doente seja a nossa obra mais ousada, e o caos que se avizinha, a tela em branco onde, enfim, pintaremos a liberdade.

Liberto Herrera.

Desconstruindo Altares: Por um Anarquismo Sem Gurus e Sem Compromissos com o Poder

A figura do guru, do intelectual estrela ou do “companheiro de luta” celebridade é um veneno que corrói pela raiz os princípios do anarquismo. O caso exposto sobre Noam Chomsky é a prova cabal e vergonhosa dessa contradição. Aqui temos um homem celebrado por setores do movimento como um farol libertário, enquanto na prática cavava relações privilegiadas com bilionários como Epstein, acumulava uma fortuna milionária sob a gestão dessa mesma elite que diz combater e usava sua influência para defender o indefensável, de negacionistas a regimes autoritários de esquerda. Isso não é um deslize; é a marca registrada de quem opera dentro da lógica do poder, não contra ela. O anarquismo não precisa de heróis em pedestais, precisa de coerência nas trincheiras.

A adulação a celebridades como Chomsky revela uma preguiça intelectual e uma submissão psicológica profundamente anti-libertárias. Em vez de construirmos coletivamente nossas análises a partir das lutas concretas, corremos o risco de delegar o pensamento crítico a uma figura supostamente iluminada. Passamos a seguir frases de efeito, a repetir chavões e a justificar, por lealdade cega a um nome, contradições inadmissíveis. Como pode um movimento que prega a autogestão e a desconfiança do poder constituído cair na armadilha de criar seus próprios ídolos? Cada guru que erguemos é um passo atrás na longa marcha pela emancipação total.

O anti-imperialismo de salão, aquele que faz vista grossa às ditaduras “do lado de cá” em nome de combater o Império, é uma doença oportunista que Chomsky exemplifica tragicamente. Solidariedade seletiva não é solidariedade, é realpolitik disfarçada de radicalismo. Enquanto, por exemplo, silenciava sobre a perseguição brutal a dissidentes cubanos na “Primavera Negra”, sua voz era alta para defender figuras abjetas na Europa. Essa dupla moral revela que, para alguns, a causa libertária é um palco para performance, não um compromisso inquebrantável com os oprimidos, sem asteriscos nem exceções convenientes.

A relação com Jeffrey Epstein é a face mais nua e repugnante dessa capitulação. Não se trata apenas de uma “má escolha” de assessor financeiro. Trata-se da normalização, pelo apoio pessoal e pela minimização dos crimes, de um monstro que representa o ápice da depravação patriarcal e capitalista. O que diz sobre um “anarquista” que, diante de acusações de tráfico sexual infantil, responde com preocupação sobre o “tratamento pela imprensa” do seu amigo bilionário? Diz tudo. Diz que os laços de classe e de privilégio, no fim, falaram mais alto que qualquer princípio.

Portanto, é hora de uma limpeza ética radical em nossos círculos. Anarquismo não é um clube de fãs, nem uma marca que precisa de embaixadores famosos. É uma prática diária de horizontalidade, de apoio mútuo e de confronto direto com todas as hierarquias. Nossas referências devem ser os coletivos em luta, os movimentos de base, as pessoas comuns que organizam a raiva e a esperança no cotidiano, não os professores renomados que negociam com o diabo nos corredores do poder. A confiança deve estar dispersa, nunca concentrada em um único nome.

Que o caso Chomsky sirva como lição final: nenhum ícone é insubstituível, e nenhuma celebridade está imune à corrupção do sistema que diz combater. Nossa força reside na nossa capacidade de pensar e agir por nós mesmos, coletivamente, sem intermediários e sem pastores. Desfaçamos os altares, queimemos os livros sagrados de autores intocáveis e sigamos em frente, com os pés no chão da luta e os olhos voltados para um horizonte sem ídolos, onde a liberdade de cada um seja obra de todos. Nem líderes, nem gurus, nem mestres. Apenas companheirismo solidário e crítica permanente. 

Liberto Herrera.

Haikais soltos

Coral de sapos –
na lagoa sem mestre,
até o coaxar é livre.

*

Pelos fios do poder,
os pardais tecem ninhos
de desobediência.

*

O pudor, um véu
para esconder o terror
da hipocrisia.

*

A ética nasce
do apoio mútuo, não
de tábuas de pedra.

*

Pichação no muro:
a tinta é verbo, o muro
é a página do povo.

Rasura o Céu da Bala

Não é por Estado, nem por bandeira,

nem por fronteira cravada no chão.

É pela carne que a terra alveja,

pelo pó que era lar, e agora é só pó.

.

O canhão fala a língua do Império,

a farda é a pele do opressor.

Eles erguem muros de concreto e desprezo,

escrevendo estatísticas com sangue e suor.

.

Mas a Anarquia grita no peito da praça,

na rede que tecem sem rei nem patrão:

é a solidariedade que cruza a trincheira,

o pão compartilhado, a única nação.

.

Enquanto o drone, frio zumbido da Morte,

despeja o fósforo sobre o quintal,

cresce no escombro uma semente teimosa,

que não é do Hamas, nem de Israel.

.

É da vida que insiste, da raiva que abraça,

do povo que é povo, sem Estado ou senhor.

É o “Basta!” que ecoa da faixa de Gaza,

um grito sem dono, de puro terror.

.

Contra a máquina de moer corpos,

erguemos as mãos, não por um novo poder,

mas pela ausência de todos os cárceres,

pelo direito simples de simplesmente ser.

.

Abaixo a bota que esmaga o poema,

o genocídio que vestem de “guerra”.

A única lei é a do apoio mútuo,

a única pátria, a Terra Inteira.

Liberto Herrera*.

*Publicado em novembro de 2025.

Haikais

Canção sem letra:
assobio nos becos
desafia hinos de Estado.

*

Cicatrizes antigas –
a pele guarda revoltas
que os livros apagaram.

*

Rebelião íntima:
quem domina o próprio medo
derruba impérios

Liberto Herrera.