A Última Súplica

Não me falem de um trono nas nuvens vazias,
de um pastor celestial contando seus rebanhos.
Cada altar é uma pedra sobre um peito livre,
cada hino, uma cantiga para adormecer órfãos.
Inventaram um pai perfeito para justificar a culpa,
uma culpa primordial que herdamos sem pecado.
É uma teia fina, Deus, tecida com medo do escuro,
com o pavor ancestral da noite e do silêncio.
Arrancamos esse véu. Não há juízo final,
só a responsagem tremenda e bela
de sermos, enfim, os únicos artesãos do amanhã.
A divindade que buscamos ruge nas mãos unidas,
no pacto humano, nu e cru, sem intermediários.

Liberto Herrera.

O Colapso Que Nos Convoca

O edifício podre do capitalismo global entra em convulsão terminal. Suas fundações, erguidas sobre exploração e ecocídio, rangem até à exaustão. Este não é um acidente de percurso, mas o desfecho lógico de um sistema que consome vidas e planetas com a mesma frieza. Diante desse iminente colapso civilizacional, a pergunta crucial não é como salvar as ruínas, mas como garantir que, na queda, esmaguemos de vez o altar do Capital, do Estado e de toda hierarquia. E a resposta, clara e urgente, é a da ação anarquista: que os explorados e oprimidos sejam, sem qualquer mediação ou piedade, os atores conscientes da derrocada deste mundo doente.

Os arautos do poder, em pânico, já oferecem suas soluções envenenadas: mais Estado, mais controle, mais “capitalismo verde” para gerir a escassez que eles próprios criaram. Querem nos convencer a confiar novamente nos carcereiros, agora como supostos bombeiros. É uma fraude histórica. O Estado, longe de ser um antídoto, é o braço armado e o gestor burocrático da catástrofe. Sua lógica é a da soberania sobre pessoas e territórios, da triagem social em meio ao caos, da perpetuação de uma elite em bunkers mentais e materiais. Confiar nele para nos guiar no colapso é como entregar o rebanho ao lobo para que o proteja.

Portanto, a única força histórica capaz de não apenas sobreviver ao colapso, mas de forjar no seu fogo algo radicalmente novo, somos nós: a multidão dos sem-poder, dos precarizados, dos racializados, dos esmagados pela máquina. Não temos interesse em preservar este mundo, pois ele nunca nos pertenceu. Nosso poder reside exatamente no que o sistema nos negou: a desvinculação afetiva de suas instituições moribundas e a capacidade criativa de quem sempre teve que reinventar a vida nas frestas. O colapso não é o fim da nossa história; é a demolição necessária do palco onde sempre fomos coadjuvantes.

A hora não é de petições, nem de esperar por salvadores políticos. É a hora da ação direta, da organização horizontal e da solidariedade agressiva. Cada greve selvagem que paralisa os fluxos do capital, cada centro social ocupado que vira base de apoio mútuo, cada infraestrutura comunitária que ignora o Estado e o mercado, são laboratórios do futuro e golpes diretos no presente caduco. É na prática concreta das assembleias populares, das redes de abastecimento autogeridas, da defesa comunitária, que se forja a consciência e o poder de que precisamos. É assim que se desmonta um mundo: criando, aqui e agora, os embriões do que virá.

Rejeitamos com todo vigor qualquer pacto faustiano que nos ofereça migalhas de “estabilidade” em troca do desarme de nossa rebeldia. A esquerda autoritária, com sua nostalgia de Estados fortes e vanguardas iluminadas, é um beco sem saída. Ela só reproduz, com nova roupagem, a mesma lógica de comando e obediência que nos levou ao abismo. Nosso caminho é outro: não a tomada do poder, mas a sua dissolução. Não a gestão da crise, mas a explosão criativa a partir dos seus escombros.

Que o medo, portanto, seja combustível, não paralisia. O sistema se alimenta do nosso temor do caos, vendendo segurança em troca de liberdade. Mas o verdadeiro caos é a ordem atual, que diariamente destrói ecossistemas e condena gerações. Nossa ousadia deve ser proporcional à monstruosidade que enfrentamos. “Não há nada a perder, exceto nossas próprias correntes”. E há um mundo a ganhar: um mundo sem senhores, sem fronteiras, sem a máquina de moer corpos e sonhos; um mundo onde a liberdade individual seja indissociável da comunidade livre, onde a necessidade de destruir ande de mãos dadas com a paixão de construir.

O colapso iminente não é um apocalipse, é um parto. Doloroso, caótico, mas carregado de uma possibilidade imensa. Cabe a nós, anarquistas e rebeldes de todas as bandeiras, ser a parteira desta nova era. Não com discursos, mas com mãos que desmontam o velho e erguem o novo. Não com líderes, mas com a força coletiva dos que ousam governar a si mesmos. Que a derrocada do mundo doente seja a nossa obra mais ousada, e o caos que se avizinha, a tela em branco onde, enfim, pintaremos a liberdade.

Liberto Herrera.

Desconstruindo Altares: Por um Anarquismo Sem Gurus e Sem Compromissos com o Poder

A figura do guru, do intelectual estrela ou do “companheiro de luta” celebridade é um veneno que corrói pela raiz os princípios do anarquismo. O caso exposto sobre Noam Chomsky é a prova cabal e vergonhosa dessa contradição. Aqui temos um homem celebrado por setores do movimento como um farol libertário, enquanto na prática cavava relações privilegiadas com bilionários como Epstein, acumulava uma fortuna milionária sob a gestão dessa mesma elite que diz combater e usava sua influência para defender o indefensável, de negacionistas a regimes autoritários de esquerda. Isso não é um deslize; é a marca registrada de quem opera dentro da lógica do poder, não contra ela. O anarquismo não precisa de heróis em pedestais, precisa de coerência nas trincheiras.

A adulação a celebridades como Chomsky revela uma preguiça intelectual e uma submissão psicológica profundamente anti-libertárias. Em vez de construirmos coletivamente nossas análises a partir das lutas concretas, corremos o risco de delegar o pensamento crítico a uma figura supostamente iluminada. Passamos a seguir frases de efeito, a repetir chavões e a justificar, por lealdade cega a um nome, contradições inadmissíveis. Como pode um movimento que prega a autogestão e a desconfiança do poder constituído cair na armadilha de criar seus próprios ídolos? Cada guru que erguemos é um passo atrás na longa marcha pela emancipação total.

O anti-imperialismo de salão, aquele que faz vista grossa às ditaduras “do lado de cá” em nome de combater o Império, é uma doença oportunista que Chomsky exemplifica tragicamente. Solidariedade seletiva não é solidariedade, é realpolitik disfarçada de radicalismo. Enquanto, por exemplo, silenciava sobre a perseguição brutal a dissidentes cubanos na “Primavera Negra”, sua voz era alta para defender figuras abjetas na Europa. Essa dupla moral revela que, para alguns, a causa libertária é um palco para performance, não um compromisso inquebrantável com os oprimidos, sem asteriscos nem exceções convenientes.

A relação com Jeffrey Epstein é a face mais nua e repugnante dessa capitulação. Não se trata apenas de uma “má escolha” de assessor financeiro. Trata-se da normalização, pelo apoio pessoal e pela minimização dos crimes, de um monstro que representa o ápice da depravação patriarcal e capitalista. O que diz sobre um “anarquista” que, diante de acusações de tráfico sexual infantil, responde com preocupação sobre o “tratamento pela imprensa” do seu amigo bilionário? Diz tudo. Diz que os laços de classe e de privilégio, no fim, falaram mais alto que qualquer princípio.

Portanto, é hora de uma limpeza ética radical em nossos círculos. Anarquismo não é um clube de fãs, nem uma marca que precisa de embaixadores famosos. É uma prática diária de horizontalidade, de apoio mútuo e de confronto direto com todas as hierarquias. Nossas referências devem ser os coletivos em luta, os movimentos de base, as pessoas comuns que organizam a raiva e a esperança no cotidiano, não os professores renomados que negociam com o diabo nos corredores do poder. A confiança deve estar dispersa, nunca concentrada em um único nome.

Que o caso Chomsky sirva como lição final: nenhum ícone é insubstituível, e nenhuma celebridade está imune à corrupção do sistema que diz combater. Nossa força reside na nossa capacidade de pensar e agir por nós mesmos, coletivamente, sem intermediários e sem pastores. Desfaçamos os altares, queimemos os livros sagrados de autores intocáveis e sigamos em frente, com os pés no chão da luta e os olhos voltados para um horizonte sem ídolos, onde a liberdade de cada um seja obra de todos. Nem líderes, nem gurus, nem mestres. Apenas companheirismo solidário e crítica permanente. 

Liberto Herrera.

Haikais soltos

Coral de sapos –
na lagoa sem mestre,
até o coaxar é livre.

*

Pelos fios do poder,
os pardais tecem ninhos
de desobediência.

*

O pudor, um véu
para esconder o terror
da hipocrisia.

*

A ética nasce
do apoio mútuo, não
de tábuas de pedra.

*

Pichação no muro:
a tinta é verbo, o muro
é a página do povo.

Rasura o Céu da Bala

Não é por Estado, nem por bandeira,

nem por fronteira cravada no chão.

É pela carne que a terra alveja,

pelo pó que era lar, e agora é só pó.

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O canhão fala a língua do Império,

a farda é a pele do opressor.

Eles erguem muros de concreto e desprezo,

escrevendo estatísticas com sangue e suor.

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Mas a Anarquia grita no peito da praça,

na rede que tecem sem rei nem patrão:

é a solidariedade que cruza a trincheira,

o pão compartilhado, a única nação.

.

Enquanto o drone, frio zumbido da Morte,

despeja o fósforo sobre o quintal,

cresce no escombro uma semente teimosa,

que não é do Hamas, nem de Israel.

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É da vida que insiste, da raiva que abraça,

do povo que é povo, sem Estado ou senhor.

É o “Basta!” que ecoa da faixa de Gaza,

um grito sem dono, de puro terror.

.

Contra a máquina de moer corpos,

erguemos as mãos, não por um novo poder,

mas pela ausência de todos os cárceres,

pelo direito simples de simplesmente ser.

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Abaixo a bota que esmaga o poema,

o genocídio que vestem de “guerra”.

A única lei é a do apoio mútuo,

a única pátria, a Terra Inteira.

Liberto Herrera*.

*Publicado em novembro de 2025.

Haikais

Canção sem letra:
assobio nos becos
desafia hinos de Estado.

*

Cicatrizes antigas –
a pele guarda revoltas
que os livros apagaram.

*

Rebelião íntima:
quem domina o próprio medo
derruba impérios

Liberto Herrera.

Do DOI-CODI à Favela: O Estado Genocida e Sua Nova Máscara

Dada a conjuntura atual, mais do que nunca, é necessário que abramos os olhos e rompamos o véu enganoso da “redemocratização” no território dominado pelo Estado Brasileiro! Eles nos vendem a farsa de que a ditadura militar acabou, mas nós, das ruas e das lutas sociais, sabemos a verdade sangrenta: o monstro apenas trocou de pele. Torturas, prisões, sequestros, assassinatos, delação, censura – os mesmos instrumentos de terror que assombraram o Brasil sob os gorilas fardados continuam a ser a política de Estado contra os pobres, os negros, os indígenas e os militantes. A pergunta que ecoa das favelas aos quilombos é: a ditadura realmente acabou ou apenas mudou de nome?

Eles trocaram os porões do DOI-CODI pelas operações de “Garantia da Lei e da Ordem” nas periferias. A tortura saiu dos quartéis e se instalou nas abordagens policiais, nas violações de autos de resistência, nas humilhações cotidianas do sistema prisional. O sequestro de corpos negros segue uma lógica industrial, seja no extermínio pela polícia, seja no encarceramento em massa que arranca milhares de suas comunidades. O método é o mesmo: o terror como ferramenta de controle social e a aniquilação daqueles que o sistema marca como indesejáveis.

O aparato de perseguição política foi modernizado e recebeu roupagem “legal”. As prisões preventivas, as delações premiadas coagidas e a criminalização dos movimentos sociais são as novas facetas do arbítrio. A Lei de Segurança Nacional, herança maldita da ditadura, é brandida contra quem ousa criticar os poderosos. Eles não precisam mais de AI-5 quando têm um Judiciário conivente e uma mídia mercenária que legitima a perseguição, construindo narrativas que transformam militantes em “terroristas” e protestos em “atos de guerra”.

A censura não morreu; tornou-se digital, algorítmica e estrutural. Ela se disfarça de “política de comunidade” nas redes sociais, de “combate à desinformação” que silencia vozes dissidentes, e da monopolização midiática que mantém o povo intoxicado pela ignorância. A violência do Estado agora é transmitida ao vivo, mas a mesma máquina que a exibe tenta justificá-la como “necessária”. O genocídio negro, o etnocídio indígena e a repressão aos pobres são a prova viva de que o Estado brasileiro mantém sua essência autoritária.

E a farsa eleitoral? Trocar os generais por políticos profissionais não altera a natureza do Estado. Enquanto o poder permanecer nas mãos das elites econômicas, das corporações militares e de um Judiciário de exceção, a democracia seguirá sendo uma piada de mau gosto. O mesmo sistema que financiou a ditadura segue no poder, renovando sua maquiagem a cada pleito para preservar seus privilégios. A “Nova República” não passou de um pacto de elites para manter o povo sob jugo, agora com métodos mais “sofisticados” de repressão.

Portanto, a resposta é clara: a ditadura nunca acabou, apenas se recombinou. Ela agora é civil, militar, jurídica e midiática. Mas nossa resistência também se reinventa. Não depositaremos fé em salvadores da pátria ou nas instituições podres desse Estado genocida. Nossa luta é pelo fim da polícia, dos exércitos, pelo fim do sistema prisional, pelo fim da justiça de classe e por uma verdadeira desagregação desse Estado assassino (e de seu irmão, o Capital). A memória dos torturados e assassinados nos grita: não passarão! Pela liberdade de todos e pelo fim de TODAS as ditaduras, ação direta e luta nas ruas!

Pela anarquia.

Liberto Herrera*.

*Publicado em novembro de 2025.

Para Além do Estado e do Capital: A Urgência dos Sonhos por Inteiro!

Camaradas, nós, anarquistas, erguemos nossa voz contra a tirania de todos os senhores e contra a mediocridade de todas as revoluções parciais. Rejeitamos com todo o nosso ímpeto a vã promessa dos marxistas, leninistas, estatistas, capitalistas, etc, que nos oferecem meras migalhas de emancipação em troca de nossa submissão a um novo mestre: o Estado. Seja na versão burocrática da “ditadura do proletariado”, seja na falácia reformista do capitalismo regulado, todos eles pregam a mesma heresia: a de que a liberdade pode ser administrada, parcelada e distribuída por um poder central. Nós rasgamos esse contrato de escravidão! Não queremos os sonhos parcelados desses traficantes de ilusões. QUEREMOS SONHOS POR INTEIRO!

Esses “sonhos parcelados” são uma armadilha perversa. Os marxistas-leninistas prometem um futuro comunista, mas seu método é a conquista do aparelho estatal, a criação de uma nova classe de burocratas e a perpetuação da lógica do poder. Eles trocam o patrão privado pelo patrão estatal, a exploração capitalista pela exploração estatal. O seu sonho é um pesadelo autoritário, onde a liberdade individual é esmagada em nome de um coletivo forjado pela coerção. O Estado, em qualquer forma que se apresente, é inimigo da autogestão e da livre associação. É a negação da revolução social, pois substitui a iniciativa direta do povo pelo decreto de uma minoria que se julga iluminada.

Da mesma forma, o capitalismo, em sua fase mais selvagem ou em sua máscara social-democrata, só nos oferece o sonho parcelado do consumidor. Ele nos vende a ilusão de liberdade através da posse de mercadorias, enquanto nos rouba a autonomia real sobre nossas vidas e nosso trabalho. O seu “sonho” é um pesadelo de alienação, onde nos tornamos apêndices da máquina de produção e consumidores de nossa própria miséria. O capital e o Estado são as duas faces da mesma moeda opressora; um não pode existir sem o outro. O Estado garante a propriedade privada dos meios de produção e a hierarquia social, enquanto o capital sustenta o poder econômico que alimenta o aparato estatal.

Portanto, nossa luta não é por um Estado “melhor” ou por um capitalismo “mais justo”. Nossa luta é pela abolição pura e simples de ambos! QUEREMOS SONHOS POR INTEIRO: sonhos de uma sociedade onde a autogestão seja o princípio organizador de baixo para cima; onde as comunidades livres federem-se voluntariamente; onde o trabalho seja uma atividade criativa e não uma condenação; e onde a solidariedade substitua a competição. Queremos a materialização de um mundo novo, onde cada indivíduo seja senhor de seu próprio destino, cooperando livremente com seus iguais, sem a sombra opressora de governos, polícia, exércitos ou patrões.

O caminho para este mundo não passa pelas urnas do Estado ou pela tomada de seu palácio. Passa pela ação direta, pela organização horizontal, pelo apoio mútuo e pela construção aqui e agora, nas entranhas da velha sociedade, dos embriões do mundo novo. É na greve selvagem, na comuna autônoma, no coletivo de produção, na ocupação e em toda forma de resistência que negamos o poder e afirmamos a vida. Não pedimos permissão para ser livres. Tomamos nossa liberdade com nossas próprias mãos. A nós, anarquistas, cabe a tarefa gloriosa de sonhar o impossível para conquistar o real: um mundo sem Estado e sem capital. À ação, pois! Pela revolução social e pela liberdade total

Liberto Herrera*.

*Publicação de novembro de 2025.

Poesia como Ação Direta: Versos que Desobedecem e Desmantelam

A poesia, em sua essência mais pura, é um ato de liberdade radical. Ela nasce da recusa em aceitar a linguagem domesticada pelo Poder, transformando-a em um campo de batalha onde as palavras se rebelam contra seus significados impostos. Enquanto o Estado e o Capital dependem de um discurso rígido, técnico e desumanizante para perpetuar sua lógica, o poema desorganiza a gramática do opressor, criando novas sintaxes de existência. Ele é, portanto, um território liberto, um espaço autônomo onde a única lei é a imaginação do indivíduo, tornando-se um refúgio e uma trincheira contra a pasteurização do pensamento.

Num sistema capitalista que reduz todas as relações ao valor de troca, a poesia ergue-se como um monumento à gratuidade subversiva. Ela é inútil para a lógica da acumulação; não pode ser totalmente mercantilizada sem perder sua alma. O seu valor não é de mercado, mas de combustão interna. Ao celebrar o que não tem preço — o efêmero, o sublime, a raiva, a dor, a beleza inútil — a poesia desvela a pobreza espiritual de um mundo reduzido a mercadoria. Ela é um escândalo para a produtividade, um desperdício magnificente de tempo e energia que sabota, em seu microcosmos, o princípio de rendimento que rege as nossas vidas.

Para a máquina estatal, que exige obediência e ordem, a poesia é uma arma de desestabilização por excelência. Sua natureza é ambígua, polissêmica e insubmissa. Não aceita uma única interpretação, assim como o anarquismo não aceita um único dono. Através da metáfora, do ritmo e do nonsense, o poema desprograma a mente do condicionamento, ensinando-a a desconfiar da linguagem clara e linear do decreto e da propaganda. Ele é, em si, uma prática de desobediência civil linguística, um exercício constante de questionamento da autoridade das narrativas oficiais.

Mais do que um protesto individual, a poesia pode ser uma experiência coletiva de construção de mundos. Ela não apenas denuncia a jaula, mas oferece visões tangíveis de liberdade. Ao compartilhar uma percepção do mundo fora dos eixos, o poeta semeia a solidariedade entre os que também anseiam por um horizonte diferente. A poesia, assim, torna-se um veículo para a “propaganda pelo fato” cultural, um meio de agitação que, ao tocar a sensibilidade, é capaz de mobilizar de forma mais profunda e duradoura do que um panfleto. Ela forja uma comunidade afetiva de resistência.

Portanto, defender a poesia não é um gesto meramente cultural, mas um ato político revolucionário. Nas mãos do anarquismo, ela não é um ornamento, mas uma ferramenta de desmantelamento. Cada verso que rompe com a lógica estabelecida é um golpe contra os alicerces do controle. Cada imagem que evoca um mundo sem amos é um projeto de futuro. A poesia é a arma que carregamos na ponta da língua, capaz de, através do puro poder de criação, corroer as certezas do capital e do Estado e abrir frestas por onde respira — e finalmente irrompe — a liberdade.

Liberto Herrera*.

*Publicado em outubro de 2025.

Poesia Contra o Cárcere

Este poemário nasce sem donos. Não manejamos dinheiro, rechaçamos por preço à raiva. Se circular dinheiro, invistam-no em panelas comuns, bibliotecas, fianças, resistência. Quem leva este material se compromete a entregar cada peso sem intermediários nem fundações, mão a mão. Pedimos ao Movimento Anticarcerário Internacional: difundir, recitar, multiplicar sem medo, até quebrar as celas, até que caia o desdém.

Baixe e divulguehttps://periodicoelsolacrata.wordpress.com/wp-content/uploads/2025/07/pclc.pdf

Contra as Gaiolas do Esquecimento

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Entre muros de concreto e sonhos aprisionados,

almas rebeldes tecem versos iluminados.

Cada grade é um verso que o poder forjou,

mas na noite escura, nosso punho se ergueu, lutou.

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As correntes do Estado, frias como a ausência,

prendem corpos, mas não a chama da resistência.

Em cada brecha do sistema, um coração pulsado,

a fúria que constrói o que nunca foi calado.

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Do Chile à Grécia, das ruas até as matas,

a solidariedade é um rugido que não se mata.

Nenhum muro deterá a semente que brota,

a utopia rebelde que em cada peito se nota.

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Rosas negras florescem onde o poder planta dor,

em cada grade quebrada, se unem voz e clamor.

A poesia é uma arma, a palavra, direção,

derruba fortalezas, apaga a divisão.

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Não há cerca que apague a luz dos clamores,

nem guarda que silencie os gritos dos sofredores.

Somos pássaros de névoa, trilhas no proibido,

tecendo redes de fogo contra o mundo corrompido.

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Contra as jaulas do capital, a raiva organizada,

cada verso é um passo rumo à alvorada.

Na pele dos presos, a luta é marcada,

e em nosso canto pulsa a esperança libertada.

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Liberto Herrera*.

*Difundido em outubro de 2025.