Poesia Contra o Cárcere

Este poemário nasce sem donos. Não manejamos dinheiro, rechaçamos por preço à raiva. Se circular dinheiro, invistam-no em panelas comuns, bibliotecas, fianças, resistência. Quem leva este material se compromete a entregar cada peso sem intermediários nem fundações, mão a mão. Pedimos ao Movimento Anticarcerário Internacional: difundir, recitar, multiplicar sem medo, até quebrar as celas, até que caia o desdém.

Baixe e divulguehttps://periodicoelsolacrata.wordpress.com/wp-content/uploads/2025/07/pclc.pdf

Contra as Gaiolas do Esquecimento

.

Entre muros de concreto e sonhos aprisionados,

almas rebeldes tecem versos iluminados.

Cada grade é um verso que o poder forjou,

mas na noite escura, nosso punho se ergueu, lutou.

.

As correntes do Estado, frias como a ausência,

prendem corpos, mas não a chama da resistência.

Em cada brecha do sistema, um coração pulsado,

a fúria que constrói o que nunca foi calado.

.

Do Chile à Grécia, das ruas até as matas,

a solidariedade é um rugido que não se mata.

Nenhum muro deterá a semente que brota,

a utopia rebelde que em cada peito se nota.

.

Rosas negras florescem onde o poder planta dor,

em cada grade quebrada, se unem voz e clamor.

A poesia é uma arma, a palavra, direção,

derruba fortalezas, apaga a divisão.

.

Não há cerca que apague a luz dos clamores,

nem guarda que silencie os gritos dos sofredores.

Somos pássaros de névoa, trilhas no proibido,

tecendo redes de fogo contra o mundo corrompido.

.

Contra as jaulas do capital, a raiva organizada,

cada verso é um passo rumo à alvorada.

Na pele dos presos, a luta é marcada,

e em nosso canto pulsa a esperança libertada.

.

Liberto Herrera*.

*Difundido em outubro de 2025.

Lançamento: “Haikais Libertos”, de Liberto Herrera

“Haikais Libertos” é um livreto com 100 haikais, todos de inspiração/conotação anarquista, escrito por Liberto Herrera. Haikai é um estilo de poesia curta, com apenas 3 versos.

Haikais Libertos

R$ 2,00

Formato: A6 (148x105mm)

Número de páginas: 28

Capa: Papel 120g

Encadernação: Dobra e grampo

www.imprimaanarquia.com.br

Amostras:

Sem coroa, o vento—

nas praças, vozes livres

tecem o amanhã.

.

Pão compartilhado

no asfalto rachado, brota

a primavera.

.

Cadeias quebradas:

o rio não pede licença

para correr livre.

.

Nenhum mestre escreve

o verso do malmequer

na terra sem dono.

.

Fogueira na rua—

o medo vira cinza,

risos no escuro.

.

Bandeira negra voa

onde o Estado não colhe

flores do caos.

.

Mãos que não se curvam

plantam jardins no concreto—

revolta em raízes.

*Publicado originalmente em junho de 2025.

A Lição da Rua: Por Que os Evangélicos Estão na Frente?

Recentemente saí para caminhar, era domingo e chovia levemente. O asfalto reluzia sob a luz tênue das seis horas da manhã, e a cidade, ainda adormecida, pertencia aos desassistidos e aos fervorosos religiosos. Foi quando os avistei: uma pequena banca improvisada onde quatro indivíduos, ensopados e determinados, distribuíam panfletos e literatura evangélica. Aquela cena, aparentemente corriqueira, impactou minha consciência. Enquanto aqueles seguidores de Cristo, munidos apenas de sua fé, ocupavam as ruas em um horário em que a maioria de nós ainda repousa, questionei-me: onde estão os nossos?

Ora, onde estão os anarquistas? Onde estão aqueles que defendem a libertação “mundana”, e não uma salvação ultraterrena? Nós, que deveríamos ser a voz audível nas comunidades periféricas, nos aglomerados subalternos, entre os relegados deste sistema, frequentemente nos confinamos em coletivos restritos, em debates teóricos infindáveis e em redes sociais que ecoam apenas para nosso próprio grupo. Enquanto isso, os evangélicos, com sua mensagem de conformidade e resignação, estão presentes. Eles compreendem o que nós, em nossa arrogância vanguardista, negligenciamos: a transformação social não se efetiva apenas por meio de textos complexos, mas mediante presença constante, contato humano direto e capilaridade efetiva.

Essa capilaridade, camaradas, não é alheia ao anarquismo! Fomos nós que, no suor das fábricas e na privação dos bairros operários, estabelecemos escolas livres, sindicatos de resistência e iniciativas mutualistas. Estivemos ao lado do povo, não como salvadores, mas como companheiros de luta. Nossa ideologia florescia no solo fértil da necessidade concreta. Esse espaço, conquistado com esforço pela classe trabalhadora, foi paulatinamente abandonado por nós e avidamente ocupado por duas forças perniciosas: os fundamentalistas religiosos e a nova direita reacionária.

Os pastores e seus seguidores oferecem um ópio moderno, uma promessa de recompensa pós-morte em troca de submissão na vida presente. Eles colonizam as mentes dos marginalizados, incutindo-lhes a aceitação da fome, da violência e da exploração, sob a alegação de que seu reino não é deste mundo. Paralelamente, os propagandistas da nova direita, com sua retórica anti-sistema espúria e seu nacionalismo tóxico, canalizam a ira legítima do povo para o ódio ao diferente, ao imigrante, ao pobre ainda mais vulnerável. Eles oferecem bodes expiatórios, enquanto nós oferecemos, muitas vezes, apenas discursos digitais?

Trata-se de uma falha histórica! Deixamos o campo aberto para que o adversário doutrine nossos irmãos de classe. Enquanto nos perdemos em disputas doutrinárias e em um purismo ideológico que não dialoga com a linguagem popular, eles distribuem sopa, consolo alienante e um senso de comunidade – ainda que seja uma prisão dourada. Eles fornecem respostas imediatas, ainda que ilusórias, para problemas prementes. Nós, não raro, oferecemos apenas ausência e silêncio.

Basta de lamentações! Aquele grupo na chuva de domingo pela manhã é a lição mais evidente que poderíamos receber. Eles não são mais potentes, são mais dedicados à sua causa – por mais nefasta que seja. A rua convoca-nos. A periferia reclama nossa presença. É hora de abandonarmos o conforto do gueto militante e ir até onde o povo está. Não para pregar, mas para ouvir, para organizar, para apoiar lutas concretas, para reconstruir a confiança erosionada. A ação direta, o mutualismo, a educação popular são nossos instrumentos. Precisamos estar lá, incondicionalmente, não para distribuir panfletos de salvação, mas para edificar, coletivamente, a liberdade aqui e agora. A rua é nossa! Resta-nos, tão somente, reassumi-la.

Liberto Herrra*.

*Texto publicado em setembro de 2025.

A Vida como Trincheira: Laços e Caminhos para um Mundo Novo.

A luta pela libertação não é um evento futuro agendado para uma revolução distante, mas um exercício diário de negação e construção. O capitalismo e o Estado não são monstros que dormem à espera de um único golpe fatal; são hidras que se regeneram todos os dias através da nossa passividade, da nossa obediência e da nossa assimilação. Portanto, a resistência deve ser igualmente cotidiana, um fermento constante que corrói os alicerces podres deste mundo. É nas pequenas recusas e nas microafirmações que preparamos o terreno para a grande transformação. Ignorar o hoje em nome de um amanhã glorioso é cometer o mesmo erro dos que adiam a vida para um paraíso após a morte: é negar a própria possibilidade da mudança real.

Reverenciar o ontem não é um culto mortuário ao passado, mas um ato de reconhecimento e aprendizado. Os mártires de Chicago, os guerrilheiros da Ucrânia livre, as mulheres livres da Espanha, todos aqueles que ousaram desafiar o Leviatã em suas épocas, não nos legaram um roteiro a ser seguido, mas um espírito a ser encarnado. Suas lutas, seus erros e seus acertos são a matéria-prima da nossa própria práxis. Eles nos mostram que a história não é feita por forças invisíveis, mas pela ação corajosa de pessoas comuns. Honramos sua memória não com monumentos de pedra, mas com ações de carne e osso, continuando onde eles pararam, adaptando sua coragem às nossas próprias realidades.

É precisamente nesta resistência do presente, na recusa em pagar ainda mais caro em um ônibus, na ocupação de um terreno ocioso, na greve selvagem, no apoio mútuo durante uma crise, que encontramos os verdadeiros caminhos. A teoria desce das nuvens e ganha materialidade nas ruas. Descobrimos o que funciona e o que não funciona não em manuais dogmáticos, mas na prática coletiva. A rua vira nossa universidade, e a ação direta, nosso método de pesquisa. Cada confronto, cada espaço autogerido, cada estrutura horizontal que erguemos é um laboratório onde testamos e vivemos os princípios da sociedade futura, aqui e agora.

Mais importante ainda: é nessa prática quotidiana que encontramos nossos camaradas. Laços forjados na luta concreta são infinitamente mais sólidos do que aqueles construídos em discussões intermináveis em salas fechadas. A confiança nasce do apoio mútuo em um piquete, da solidariedade em uma manifestação, do trabalho coletivo em uma horta comunitária. Esses laços são o tecido conjuntivo da nova sociedade dentro da velha. São estes vínculos de afeto, confiança e propósito comum que formarão a base resiliente necessária para enfrentar os desafios maiores que virão, impedindo que nossas estruturas reproduzam a hierarquia e o autoritarismo que juramos destruir.

Portanto, a transformação rumo ao fim do capitalismo, do Estado e de todas as formas de dominação não será um evento singular, mas o acúmulo e a generalização dessas práticas quotidianas de resistência e autogestão. O amanhã livre não é um destino ao qual chegaremos, mas um caminho que construímos a cada passo dado hoje. A nova sociedade não será proclamada num dia, mas gestada todos os dias nos espaços que roubamos ao poder, nas relações que libertamos da lógica do mercado e do Estado.

Conclamo, pois, a que não esperemos por um momento messiânico. Que nossa vida seja nossa principal trincheira. Que cada gesto de insubordinação, por menor que pareça, e cada ato de solidariedade, por mais local que seja, seja um tijolo na construção do mundo novo. O amanhã será apenas o eco do hoje que ousamos viver em luta. É na resistência do presente que honramos o passado e forjamos o futuro. Porque a revolução não é um ponto no calendário; é um modo de existir.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em setembro de 2025.

A Máquina de Moer Gente: O Terror de Estado no Brasil Império (1700-1900)

Se o sangue colonial, como citado em nosso artigo anterior, secou como cimento, o Império e a República Nascente fizeram dele tinta para escrever novas leis de extermínio. De 1700 a 1900, o Estado brasileiro — agora travestido de monarquia “civilizada” — não abandonou o terror: refinou-o. Cada massacre datado nesta era é um elo na corrente de um projeto genocida que atravessa reinados, impérios e repúblicas. A violência não é acidente: é o motor da dominação.

Recordamos, por exemplo, o massacre dos Botocudos (1808-1830), que fora ordenado pelo próprio Príncipe Regente D. João VI, o extermínio em Minas Gerais e Espírito Santo usou fome, varíola e fuzis para “limpar” terras para o café. Tribos inteiras viram seus filhos trucidados sob o decreto imperial que pagava por cabeça indígena cortada.

Já em 25 de outubro de 1820 ocorre o massacre do Rodeador: 91 camponeses sebastianistas degolados em Pernambuco por tropas do governo. Seu crime? Sonhar com um reino sem reis.

Em 25 de janeiro de 1835 se dá a sangrenta repressão dos Malês: Após a revolta negra em Salvador, o Estado fuzilou 70 africanos e deportou 500. Corpos foram arrastados por cavalos nas ruas — espetáculo de terror para as senzalas.

O mito da “transição pacífica” da colônia ao império é uma mentira ensopada em sangue. Na Cabanagem (1835-1840), no Pará, 30 mil caboclos, indígenas e negros foram caçados como animais por tropas do Império. Mataram 30% da população regional. Oficiais do governo registravam: “É preciso varrer esta raça“. Não houve independência para os de baixo: só trocaram o chicote de Lisboa pelo do Rio de Janeiro.

E quando a República chegou, em 1889, trouxe consigo o mesmo veneno. O Massacre de Canudos (1893-1897) já fermentava nos campos da Bahia: 25 mil sertanejos exterminados pelo Exército “moderno”. Mas isso é história para outro capítulo — fiquemos com os números até 1900: cada década deste século teve seu genocídio catalogado. A máquina de moer gente não parou; acelerou com novas tecnologias de morte e a mesma velha desculpa: “progresso“, “ordem“, “civilização“.

Este registro histórico (1700-1900) desmonta a farsa da evolução política brasileira. O terror não mudou de dono — mudou de farda. Se no século XVI os bandeirantes agiam por contratos reais, no XIX eram as Forças Armadas do Império que assinavam ordens de extermínio. O Estado no Brasil, seja monárquico ou republicano, mantém a mesma função: patrocinar o massacre para proteger a propriedade, o latifúndio e o poder branco. Enquanto houver um único alicerce erguido sobre ossadas, nossa memória será arma. Aos anarquistas cabe lembrar: só se destrói o monstro conhecendo suas entranhas. E elas continuam expostas, de 1500 a 1900 — e além.

Liberto Herrera*.

*Artigo publicado em agosto de 2025.

Moloch de Papel e Ferro

Vossos postos fronteiriços, vossas grades erguidas,

são fantasmas de um medo que nós mesmos fundamos.

Vossas leis não são raízes, são cordas podres,

que estrangulam o caule novo que já brota no asfalto.

Vossos soldados marcham com passos de autômatos,

temendo mais a fuga do que nossa fúria.

O Estado é a sombra de um gigante decrépito,

e nós somos a luz que não mais se deixa projetar.

Cada documento de identidade é um epitáfio

para um ser selvagem que ainda lateja em nossas veias.

Queimar os arquivos não é terror, é higiene:

limpar o nome do horizonte para enfim habitá-lo.

Liberto Herrera.

Camarada, nenhuma igreja irá te salvar — e nem quer.

Desde que o primeiro padre ergueu um altar, a religião tem sido o braço espiritual da opressão. Igrejas, mesquitas, sinagogas — todas são máquinas de controle, vestidas de virtude, que vendem promessas de paraíso em troca da tua submissão aqui e agora. Enquanto você espera ou reza por um milagre, os mesmos líderes que te cobram dízimos abraçam políticos, abençoam exércitos e lucram com a miséria alheia. A cruz, a estrela, o crescente: símbolos que unem tronos e altares há séculos. Salvação? Só existe na luta coletiva contra esses parasitas de batina.

Irmão, você acha mesmo que um deus que permite fome, guerras e exploração vai te dar justiça? A teologia é a cortina de fumaça perfeita para manter o pobre de joelhos, esperando uma recompensa pós-morte enquanto o patrão rouba seu salário agora. Os mesmos que condenam o pecado do homem pobre são cúmplices do pecado maior: a propriedade privada, a desigualdade, a dominação. Nenhum sermão apaga o sangue nas mãos da Igreja (seja ela qual for!) — da Inquisição às ditaduras.

Todavia, veja: anticlericalismo não é ódio à fé, é ódio à hierarquia. Padres, pastores, gurus — todos se intitulam intermediários do divino, mas só intermediaram mesmo é o teu medo. Transformam tua revolta em culpa, tua fome em resignação, teu corpo em pecado. Enquanto isso, abusam, acumulam riquezas e ditam moralidades convenientes aos poderosos. Quer espiritualidade? Olha para o fogo da solidariedade, não para a cinza dos rituais.

A libertação não vem de um deus que castiga, mas da multidão que se organiza. Queima os confessionários, ocupa os templos, transforma a caridade em ação direta! Nossa “salvação” está nas ruas, nas greves, nas redes de apoio mútuo que construímos sem patrões, sem polícia e sem padres. A verdadeira fé é acreditar no poder do povo — e nenhum milagre é maior que uma revolução.

Camarada, para de olhar pro céu. O inferno já é aqui — e só nós podemos extingui-lo. Nem deus, nem mestre: luta! 

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente em 2025.

Pierre-Joseph Proudhon: ontem e hoje

Pierre-Joseph Proudhon nasceu em 15 de janeiro de 1809 (sim, já se passaram 216 anos!), em Besançon, França. Essa data marca o início da trajetória de um dos pensadores mais influentes do anarquismo e da teoria social moderna. Filho de uma família humilde, Proudhon viveu em um contexto de transformações profundas na Europa pós-Revolução Francesa, o que influenciou sua visão crítica sobre o poder, a propriedade e as desigualdades estruturais. Seu trabalho seminal, “O Que é a Propriedade?”, publicado em 1840, trouxe a célebre frase “A propriedade é um roubo”, desafiando os fundamentos do sistema capitalista e propondo reflexões que ressoam até hoje.

Considerado por muitos como o pai do anarquismo moderno, Proudhon foi pioneiro ao articular uma filosofia política que rejeitava tanto a tirania do Estado quanto as explorações do capitalismo. Sua abordagem buscava um equilíbrio entre a liberdade individual e a solidariedade coletiva, defendendo a autogestão, o federalismo e a criação de associações livres de trabalhadores como alternativa ao modelo estatal. Essas ideias foram fundamentais para os movimentos anarquistas do século XIX e continuam a inspirar debates sobre formas mais justas e horizontais de organização social no século XXI.

No contexto atual, marcado por crises econômicas, desigualdades crescentes e desconfiança nas instituições tradicionais, o pensamento de Proudhon ganha nova relevância, valendo a pena nos dias atuais a leitura de suas obras. Suas críticas à concentração de poder e riqueza oferecem uma lente para analisar os desafios contemporâneos, como a precarização do trabalho, a crise ambiental e as tensões entre globalização e soberania local. Além disso, suas propostas de descentralização e autogestão encontram ecos nas práticas modernas de cooperativismo, economia solidária e movimentos sociais que buscam autonomia e justiça social.

Portanto, Proudhon não é apenas uma figura histórica, mas uma referência viva para aqueles que procuram compreender e transformar o mundo. Sua capacidade de combinar teoria e prática, somada à sua visão crítica e inovadora, faz dele um pensador ainda essencial para os debates do século XXI. Celebrar sua contribuição é não apenas reconhecer seu papel na história do anarquismo, mas também explorar suas ideias como ferramentas para construir sociedades mais livres, igualitárias e sustentáveis.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito no ano de 2025.

Para Além das Datas Simbólicas

Sabemos, ou deveríamos saber, que o anarquismo não se resume apenas a bandeiras erguidas em datas históricas ou discursos inflamados em praças públicas.

A essência anarquista está na ruptura diária com as estruturas de opressão, na construção de relações horizontais que subvertam a lógica do capital e do Estado. Por mais que o Primeiro de Maio simbolize a resistência operária, reduzir a luta libertária a manifestações pontuais é perpetuar uma armadilha: a de confinar a revolução a gestos simbólicos, enquanto o sistema segue intacto em sua capacidade de reproduzir injustiças. Se queremos que o anarquismo volte a ser uma força transformadora, é preciso transbordar os círculos militantes e enraizar práticas libertárias no cotidiano, atingindo quem vive sob o peso alienante do “trabalho-morto” e da vida controlada.

A potência do anarquismo sempre esteve em sua capacidade de questionar não apenas o Estado ou o patrão, mas a própria organização da vida. Isso exige ir além dos palanques eventuais e ocupar os espaços invisíveis do dia a dia: os lares, os bairros, os locais de trabalho. Quando uma vizinhança se organiza para criar uma horta comunitária, quando trabalhadores improvisam redes de apoio mútuo para enfrentar demissões, ou quando mulheres compartilham saberes sobre autocuidado e autonomia corporal, ali está o germe da anarquia. São gestos que desmontam a dependência do poder hierárquico e revelam que outra sociabilidade é possível — uma que não depende de datas no calendário para existir.

O desafio, dessa forma, é romper a bolha militante. Muitas vezes, o discurso anarquista torna-se hermético, restrito a quem já domina suas bandeiras e jargões. Para dialogar com o “indivíduo médio”, é preciso traduzir a crítica anticapitalista em linguagens acessíveis, vinculadas às urgências concretas. Como convencer alguém sobre a necessidade de autogestão se não mostrarmos como ela pode resolver problemas imediatos, como a falta de creches ou o preço abusivo do aluguel? A propaganda pela ação, tão cara ao anarquismo clássico, só ganha sentido quando as pessoas veem na prática que a solidariedade direta é mais eficaz que a espera por políticas estatais.

Não se trata de abandonar as grandes mobilizações, mas de compreender que a revolução é um processo contínuo, alimentado por microações cotidianas. O Estado e o capital mantêm seu domínio não apenas pela repressão, mas pela naturalização de relações autoritárias em todos os âmbitos — da família ao local de trabalho. Combater isso demanda que o anarquismo infiltre-se nas brechas do ordinário: nas conversas de bar, nas assembleias de condomínio, nas redes sociais. É nos pequenos atos — como organizar um mutirão para consertar um posto de saúde abandonado ou questionar o machismo em um churrasco de família — que se mina a legitimidade das estruturas de poder.

Se o anarquismo deseja ser ameaçador, precisa deixar de ser visto como uma utopia distante e tornar-se uma prática palpável. Isso exige coragem para ocupar espaços considerados “apolíticos” e transformá-los em trincheiras de luta. Enquanto nos limitarmos a atos simbólicos, o sistema seguirá nos tolerando como folclore rebelde. Mas se transbordarmos para o cotidiano, mostrando que a autogestão, o apoio mútuo e a ação direta resolvem problemas reais, seremos perigosos. Afinal, nenhum poder sobrevive quando o povo descobre que não precisa dele para viver — e viver com dignidade.

Liberto Herrera

A Ilusão da Divisão: Esquerda e Direita no Capitalismo Brasileiro

A dicotomia esquerda versus direita, tão presente no debate político burguês brasileiro, frequentemente mascara uma realidade mais complexa e interligada. A afirmação de que, no atual sistema capitalista “democrático” brasileiro, ambos os espectros ideológicos acabam no fim por convergir, especialmente na hora de apoiar determinados candidatos, encontra respaldo em diversos fatores. Vejamos alguns:

Nas eleições ocorridas neste ano de 2024, dos 85 candidatos no país que tinham no seu palanque tanto o PT (Partido dos Trabalhadores), do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quanto o PL (Partido Liberal), do ex-presidente Jair Bolsonaro, 58 conseguiram se eleger prefeitos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Somente este fato aponta que as supostas divergências entre ambos os espectros políticos não são tão grandes assim quando o tema é a disputa pelo poder do Estado. Apesar de PARECEREM inimigos, Lula e Bolsonaro formam alianças sem qualquer pudor para alcançar dividendos políticos mútuos.

Registre-se que o sistema político brasileiro, marcado por uma forte personalização da política e por um sistema partidário fragmentado, favorece a formação de alianças pragmáticas, nas quais as ideologias de fundo sempre são secundárias em relação aos interesses imediatos. Essa dinâmica permite que tanto partidos de “esquerda” quanto de direita se unam em torno de candidaturas que prometam benefícios concretos a seus partidos, independentemente da orientação ideológica declarada.

Ademais, a própria dinâmica do capitalismo, com sua busca incessante por acumulação de capital e sua tendência a concentrar riqueza, exerce pressão sobre os partidos políticos, independentemente de sua posição no espectro ideológico. A necessidade de atrair investimentos e garantir a estabilidade econômica muitas vezes leva tanto a “esquerda” quanto a direita a adotarem políticas econômicas convergentes, com ênfase na redução de gastos públicos e na flexibilização das leis trabalhistas. Assim, no contexto brasileiro, onde o oportunismo político é regra suprema, as fronteiras entre esses espectros ideológicos se tornam ainda mais fluidas, permitindo que partidos e candidatos se apropriem de discursos e propostas que transcendem as divisões tradicionais entre esquerda e direita.

Os fatos acima citados deixam claro para nós, explorados e oprimidos, que o caminho para a liberdade e justiça não passa pela disputa do poder do Estado, braço simbiótico do Capital. Ao contrário, entender que todos os partidos políticos, no discurso e/ou na prática cotidiana, são defensores do Estado e do Capitalismo e que, portanto, devem ser enfrentados, combatidos e repelidos do tecido social é um grande passo na longa jornada da emancipação humana.

Liberto Herrera*.

*Texto produzido originalmente em novembro de 2024.