Sangue nos Campos, Ouro nos Bancos: A Guerra como Negócio do Capital

Enquanto a Ucrânia explode pilares submersos da ponte da Crimeia com 1.100 kg de TNT e a Rússia responde com foguetes em Sumy, matando civis, o verdadeiro motor dessa carnificina não está nos discursos de Zelensky ou Putin, mas nos balanços trimestrais das petroleiras e no complexo industrial-militar. Desde o início da guerra, empresas como a BP lucraram US$ 15,8 bilhões — 158 vezes mais do que investiram em mitigação climática. Os Estados, longe de serem meros atores políticos, são sócios dessas corporações: a Rússia exige “cessar-fogo” apenas para consolidar ganhos territoriais, enquanto a OTAN vende “solidariedade” a Kiev em forma de contratos bilionários de armas. Não sejamos tolos: a guerra não é um conflito entre nações, mas um leasing de sangue assinado por elites.

A ponte da Crimeia, atacada pela terceira vez, é um símbolo perfeito dessa engrenagem. Construída por US$ 3,7 bilhões sob ordens de Putin, sua destruição não fere o Kremlin — que já a reconstruiu duas vezes —, mas alimenta a indústria de “reparos de guerra”, controlada por oligarcas russos e empreiteiras europeias. Cada explosão é um estímulo à economia bélica: os mesmos Estados que condenam a invasão lucram com o gás russo vendido a preços inflacionados e com os drones ucranianos de R$ 3 mil que causam prejuízos de US$ 7 bilhões à Rússia. A contradição é óbvia: o capitalismo não tem pátria, só acionistas.

O memorando russo para cessar-fogo, recentemente divulgado, é uma farsa que revela o jogo. Moscou exige a “neutralidade” da Ucrânia — isto é, sua submissão a um status quo que garanta o fluxo de recursos para as multinacionais. Enquanto isso, a BP anuncia “voluntariado climático” após lucrar com a crise energética, como se fossem filantropos, não pirómanos. Os Estados, sejam “agressores” ou “libertadores”, operam como gerentes desses interesses, na medida em que a guerra é terceirizada aos pobres (ucranianos, russos, africanos famintos por trigo bloqueado), enquanto os dividendos são privatizados.

Recordamos que a posição anarquista não está em escolher um lado nesse jogo de xadrez sangrento, mas em sabotar o tabuleiro! Quando o drone ucraniano mina pilares de concreto, mostra mais eficácia que a ONU — mas ainda age como braço de um Estado capitalista. A verdadeira resistência seria a greve geral dos trabalhadores das petroleiras, o bloqueio aos portos que exportam armas, a recusa coletiva em pagar impostos que financiam tanques, entre tantas outras possibilidades que as conjunturas apresentam. Histórias como a Comuna de Paris ou os conselhos operários na Ucrânia de 1917 lembram que só a ação direta desarma os senhores da guerra.

Enquanto a esquerda institucional pede “paz negociada”, nós, anarquistas, advertimos: toda negociação entre Estados é um acerto de contas entre criminosos. A paz real virá quando os de baixo deixarem de ser carne de canhão e virarem o canhão contra os palácios. Que a próxima explosão seja das bolsas de valores.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente no segundo semestre de 2024.

Nascer livre num mundo de cercas – este é o Liberto

É com uma mistura de entusiasmo e rebeldia que dou as boas-vindas a quem chega. O blog Liberto Herrera nasce hoje, não como um manifesto definitivo, mas como um caderno aberto – um lugar onde poderei registrar, questionar e compartilhar minhas opiniões e visões sobre o anarquismo e o mundo em que vivemos.

Por que Liberto? Porque acredito que a liberdade não é um ponto de chegada distante, mas uma prática cotidiana. É um verbo que se conjuga no plural, na luta contra as cercas – sejam elas do Estado, do capital, ou daquelas que carregamos na cabeça sem perceber. Este blog será, acima de tudo, um exercício de autonomia: pensar por conta própria, sem medo de desagradar, e sempre em busca de horizontes mais justos e horizontais.

O que você vai encontrar por aqui?

  • Notícias – mas não qualquer notícia. Vou garimpar acontecimentos do Brasil e do mundo que revelem as engrenagens do poder e, principalmente, as brechas por onde a autonomia floresce. Greves, ocupações, experiências de autogestão, insurreições, resistências indígenas, quilombolas, LGBTQIA+ e de tantos outros corpos que insistem em existir para além da lógica dominante.
  • Reflexões – ensaios, opiniões e divagações sobre o anarquismo moderno. O que significa ser anarquista hoje? Como dialogar com as lutas climáticas, a tecnologia, o feminismo, o antirracismo? Que ferramentas teóricas podemos usar para desmontar os discursos de ódio e as novas roupagens do autoritarismo?
  • Visões pessoais – sim, este é um espaço assumidamente subjetivo. Não tenho a pretensão de falar em nome de ninguém, muito menos de oferecer verdades absolutas. Aqui, vou expor minhas inquietações, meus aprendizados, minhas contradições inclusive. Porque acredito que o anarquismo também se faz na honestidade radical com nós mesmos.

A ideia é que o blog seja um canteiro de ideias em germinação. Um lugar para quem sente na pele que “outro mundo é possível” e quer não só sonhar com ele, mas discutir os caminhos para construí-lo – aqui e agora, com as mãos e a mente.

Fique à vontade para discordar, questionar, sugerir. Liberdade também é isso: diálogo sem donos.

Que venham os próximos passos. Que venham as palavras que nos libertam.

Com afeto e rebeldia,

Liberto Herrera.