
Enquanto o mundo assiste atônito à escalada no Golfo Pérsico, no contexto da guerra do Irã, o presidente estadunidense Donald Trump anuncia, em 24 de março de 2026, que seu governo “negocia ativamente” com o Irã para encerrar o conflito. Simultaneamente, o Pentágono desloca milhares de paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada e duas unidades expedicionárias de fuzileiros navais – tropas especializadas em assaltos anfíbios e tomada de território – para o Oriente Médio. O cenário é conhecido: a mão que se estende para um “acordo” é a mesma que empunha a baioneta; a diplomacia serve de vitrine para a preparação da guerra.
O conteúdo do chamado “plano de paz” foi vazado pelo New York Times e expõe a natureza real da proposta. São quinze exigências que equivalem a uma rendição completa da soberania iraniana:
- Desmantelamento total de qualquer capacidade nuclear, incluindo o encerramento de todas as instalações de enriquecimento de urânio em território iraniano;
- Entrega à AIEA de 450 quilos de urânio já enriquecido a 60%;
- Acesso irrestrito a qualquer instalação, sem direito a recusa de inspeções;
- Abandono de aliados regionais (Hezbollah, Hamas, milícias no Iraque e na Síria);
- Entrega do Estreito de Ormuz como “corredor livre” – ou seja, sob controle da marinha estadunidense;
- Limitação do programa de mísseis a um alcance meramente defensivo, definido unilateralmente pelos EUA.
Em troca, o governo Trump oferece o levantamento de sanções econômicas – as mesmas que já estrangulam a população iraniana há anos – e uma vaga “assistência” para um programa nuclear civil supervisionado por Washington. Como cereja no bolo, propõe-se um cessar-fogo de um mês, tempo mais que suficiente para os EUA concluírem o reposicionamento militar enquanto a imprensa global noticia “esforços de paz”.
O Irã, que já foi bombardeado pelos EUA em duas ocasiões enquanto negociava, nega qualquer negociação direta. Admite apenas contatos indiretos via intermediários. E com razão: como um país pode sentar-se à mesa com um império que já o atacou sob a bandeira da diplomacia, e que agora movimenta 8 mil soldados adicionais – somando mais de 50 mil efetivos na região – com capacidade de tomar a ilha de Kharg, gargalo de 90% das exportações de petróleo iranianas?
A Casa Branca, sem pudor, admite planejar “mais semanas de guerra”. O Pentágono já prepara pedido de 200 bilhões de dólares ao Congresso para custear a escalada. O preço do petróleo dispara, a crise no Estreito de Ormuz afeta mais de mil navios, e os mercados globais oscilam ao sabor das notícias fabricadas sobre “negociações”.
Diante disso, a dúvida que a grande mídia coloca – “o plano é um esforço genuíno de paz ou uma cortina de fumaça para preparar um ataque?” – parte de uma falsa premissa. Pois a verdade é muito mais profunda e incômoda: nem o Estado nem o capitalismo têm qualquer interesse genuíno na paz. A guerra é o oxigênio de ambos.
Para o capitalismo, a guerra significa contratos bilionários para a indústria bélica, controle de rotas de energia, especulação financeira com os preços do petróleo e a abertura de novos mercados para o capital estadunidense. O primeiro semestre deste conflito já consumiu 11 bilhões de dólares – dinheiro que sai dos impostos, alimenta acionistas de armamentos e nunca retorna em forma de saúde, educação ou moradia para os povos.
Para o Estado, a guerra é a justificativa suprema para expandir seus poderes de vigilância, controle social e repressão. É o Estado em sua forma mais nua: imposição de fronteiras pela força, disciplina militar, fabricação de inimigos internos e externos. O mesmo Estado que agora se apresenta como “mediador da paz” é o mesmo que, sistematicamente, impede qualquer movimento popular de construir alternativas horizontais de convivência.
A verdade, meus camaradas, está na simultaneidade dos movimentos: enquanto Trump declara “negociações”, seus generais posicionam tropas anfíbias. Enquanto o New York Times divulga “planos de paz”, o Pentágono planeja tomar ilhas. Não há contradição aqui – há complementaridade. A diplomacia imperial nunca é alternativa à guerra; é apenas a guerra com outra vestimenta, usada para ganhar tempo, dividir o inimigo e apresentar à opinião pública a falsa imagem de que “tudo foi tentado”.
A resposta do Irã – que se recusa a negociar sob a mira de fuzis – é um gesto de dignidade que deveria nos inspirar. Mas não nos enganemos: a resistência de um Estado teocrático contra outro Estado imperial não representa uma saída para os povos. Trocaria apenas de carcereiro.
A lição que tiramos, como militantes antiguerra e antiestado, é clara: nenhuma paz virá de cima. Nem Trump, nem o Pentágono, nem os aiatolás, nem qualquer outra figura de autoridade nos libertarão da guerra, porque a guerra é o modo de existência do poder. Enquanto houver Estados armados, enquanto houver capital acumulado pela exploração, a guerra será sempre o desfecho inevitável das contradições que eles mesmos criam.
A única resposta que vale a pena, diante desse espetáculo de hipocrisia, é a construção de uma solidariedade internacional que recuse tanto o imperialismo estadunidense quanto o autoritarismo iraniano – que coloque no centro a vida das pessoas, a autogestão dos territórios, a recusa em servir a qualquer máquina de guerra. Pois se o Estado e o capital se alimentam da guerra, nós nos alimentamos da esperança de um mundo onde não haja nem uns nem outros.
Enquanto isso, mantenhamos os olhos abertos: quando o Império fala em “paz”, é porque está a ponto de dar o golpe.
Liberto Herrera.
Español:
La “Paz” que Alimenta la Guerra: Los 15 Puntos de la Rendición Iraní y el Espectáculo de la Diplomacia Imperial
Mientras el mundo observa atónito la escalada en el Golfo Pérsico, el presidente estadounidense Donald Trump anuncia, el 24 de marzo, que su gobierno “negocia activamente” con Irán para poner fin al conflicto. Simultáneamente, el Pentágono desplaza miles de paracaidistas de la 82ª División Aerotransportada y dos unidades expedicionarias de infantes de marina –tropas especializadas en asaltos anfibios y toma de territorio– hacia Oriente Medio. El escenario es conocido: la mano que se extiende para un “acuerdo” es la misma que empuña la bayoneta; la diplomacia sirve de vitrina para la preparación de la guerra.
El contenido del llamado “plan de paz” fue filtrado por el New York Times y expone la naturaleza real de la propuesta. Son quince exigencias que equivalen a una rendición completa de la soberanía iraní:
- Desmantelamiento total de cualquier capacidad nuclear, incluyendo el cierre de todas las instalaciones de enriquecimiento de uranio en territorio iraní;
- Entrega al OIEA de 450 kilos de uranio ya enriquecido al 60%;
- Acceso irrestricto a cualquier instalación, sin derecho a rechazar inspecciones;
- Abandono de aliados regionales (Hezbolá, Hamás, milicias en Irak y Siria);
- Entrega del estrecho de Ormuz como “corredor libre” –es decir, bajo control de la marina estadounidense;
- Limitación del programa de misiles a un alcance meramente defensivo, definido unilateralmente por EE.UU.
A cambio, el gobierno Trump ofrece el levantamiento de las sanciones económicas –las mismas que ya llevan años estrangulando a la población iraní– y una vaga “asistencia” para un programa nuclear civil supervisado por Washington. Como cereza del pastel, se propone un alto el fuego de un mes, tiempo más que suficiente para que EE.UU. complete el reposicionamiento militar mientras la prensa global difunde “esfuerzos de paz”.
Irán, que ya fue bombardeado por EE.UU. en dos ocasiones mientras negociaba, niega cualquier negociación directa. Admite solo contactos indirectos a través de intermediarios. Y con razón: ¿cómo puede un país sentarse en la mesa con un imperio que ya lo ha atacado bajo la bandera de la diplomacia, y que ahora moviliza 8 mil soldados adicionales –sumando más de 50 mil efectivos en la región– con capacidad para tomar la isla de Jark, el cuello de botella del 90% de las exportaciones de petróleo iraníes?
La Casa Blanca, sin pudor, admite planear “más semanas de guerra”. El Pentágono ya prepara una solicitud de 200 mil millones de dólares al Congreso para costear la escalada. El precio del petróleo se dispara, la crisis en el estrecho de Ormuz afecta a más de mil barcos, y los mercados globales oscilan al compás de las noticias fabricadas sobre “negociaciones”.
Ante esto, la duda que los grandes medios plantean –“¿el plan es un esfuerzo genuino de paz o una cortina de humo para preparar un ataque?”– parte de una falsa premisa. Porque la verdad es mucho más profunda e incómoda: ni el Estado ni el capitalismo tienen ningún interés genuino en la paz. La guerra es el oxígeno de ambos.
Para el capitalismo, la guerra significa contratos multimillonarios para la industria armamentística, control de rutas energéticas, especulación financiera con los precios del petróleo y la apertura de nuevos mercados para el capital estadounidense. El primer semestre de este conflicto ya consumió 11 mil millones de dólares –dinero que sale de los impuestos, alimenta a los accionistas de armamentos y nunca regresa en forma de salud, educación o vivienda para los pueblos.
Para el Estado, la guerra es la justificación suprema para expandir sus poderes de vigilancia, control social y represión. Es el Estado en su forma más desnuda: imposición de fronteras por la fuerza, disciplina militar, fabricación de enemigos internos y externos. El mismo Estado que ahora se presenta como “mediador de la paz” es el mismo que, sistemáticamente, impide que cualquier movimiento popular construya alternativas horizontales de convivencia.
La verdad, camaradas, está en la simultaneidad de los movimientos: mientras Trump declara “negociaciones”, sus generales posicionan tropas anfibias. Mientras el New York Times difunde “planes de paz”, el Pentágono planea tomar islas. No hay contradicción aquí –hay complementariedad. La diplomacia imperial nunca es alternativa a la guerra; es solo la guerra con otro atuendo, usada para ganar tiempo, dividir al enemigo y presentar a la opinión pública la falsa imagen de que “todo se ha intentado”.
La respuesta de Irán –que se niega a negociar bajo la mira de los fusiles– es un gesto de dignidad que debería inspirarnos. Pero no nos engañemos: la resistencia de un Estado teocrático contra otro Estado imperial no representa una salida para los pueblos. Solo cambiaría de carcelero.
La lección que extraemos, como militantes antiguerra y antiestado, es clara: ninguna paz vendrá desde arriba. Ni Trump, ni el Pentágono, ni los ayatolás, ni ninguna otra figura de autoridad nos liberarán de la guerra, porque la guerra es el modo de existencia del poder. Mientras haya Estados armados, mientras haya capital acumulado por la explotación, la guerra será siempre el desenlace inevitable de las contradicciones que ellos mismos crean.
La única respuesta que vale la pena, ante este espectáculo de hipocresía, es la construcción de una solidaridad internacional que rechace tanto el imperialismo estadounidense como el autoritarismo iraní –que ponga en el centro la vida de las personas, la autogestión de los territorios, la negativa a servir a cualquier máquina de guerra. Porque si el Estado y el capital se alimentan de la guerra, nosotros nos alimentamos de la esperanza de un mundo donde no haya ni unos ni otros.
Mientras tanto, mantengamos los ojos abiertos: cuando el Imperio habla de “paz”, es porque está a punto de dar el golpe.
Liberto Herrera.
English
The “Peace” That Feeds War: The 15 Points of Iranian Surrender and the Spectacle of Imperial Diplomacy
As the world watches the escalation in the Persian Gulf in astonishment, U.S. President Donald Trump announces on March 24 that his government is “actively negotiating” with Iran to end the conflict. Simultaneously, the Pentagon deploys thousands of paratroopers from the 82nd Airborne Division and two Marine expeditionary units—troops specialized in amphibious assaults and territorial seizure—to the Middle East. The scenario is a familiar one: the hand extended for an “agreement” is the same hand that grips the bayonet; diplomacy serves as a storefront for the preparation of war.
The content of the so-called “peace plan” was leaked by the New York Times and lays bare the true nature of the proposal. It consists of fifteen demands that amount to a complete surrender of Iranian sovereignty:
- Total dismantlement of any nuclear capacity, including the shutdown of all uranium enrichment facilities on Iranian soil;
- Delivery to the IAEA of 450 kilograms of uranium already enriched to 60%;
- Unrestricted access to any facility, with no right to refuse inspections;
- Abandonment of regional allies (Hezbollah, Hamas, militias in Iraq and Syria);
- Ceding the Strait of Hormuz as a “free corridor”—in other words, under U.S. naval control;
- Limitation of the missile program to a range deemed merely defensive, defined unilaterally by the U.S.
In exchange, the Trump administration offers the lifting of economic sanctions—the very same sanctions that have been strangling the Iranian population for years—and a vague “assistance” package for a civilian nuclear program supervised by Washington. As a cherry on top, it proposes a one‑month ceasefire, more than enough time for the U.S. to complete its military repositioning while the global press broadcasts “peace efforts.”
Iran, which has already been bombed by the U.S. on two occasions while negotiating, denies any direct talks. It admits only to indirect contacts through intermediaries. And rightly so: how can a country sit at the table with an empire that has already attacked it under the banner of diplomacy, and that is now moving 8,000 additional troops—bringing the total to more than 50,000 in the region—with the capacity to seize Kharg Island, the bottleneck through which 90% of Iran’s oil exports pass?
The White House, without shame, admits it is planning for “more weeks of war.” The Pentagon is already preparing a request for $200 billion from Congress to fund the escalation. Oil prices spike, the crisis in the Strait of Hormuz affects over a thousand ships, and global markets swing to the rhythm of manufactured news about “negotiations.”
Faced with this, the question posed by the mainstream media—“is the plan a genuine peace effort or a smoke screen to prepare an attack?”—rests on a false premise. Because the truth is far deeper and more uncomfortable: neither the State nor capitalism has any genuine interest in peace. War is the oxygen of both.
For capitalism, war means billion‑dollar contracts for the arms industry, control over energy routes, financial speculation on oil prices, and the opening of new markets for U.S. capital. The first half of this conflict has already consumed $11 billion—money that comes from taxes, feeds weapons shareholders, and never returns in the form of health, education, or housing for ordinary people.
For the State, war is the supreme justification for expanding its powers of surveillance, social control, and repression. It is the State in its most naked form: the imposition of borders by force, military discipline, the fabrication of internal and external enemies. The same State that now presents itself as a “mediator for peace” is the same State that systematically prevents any popular movement from building horizontal alternatives for coexistence.
The truth, comrades, lies in the simultaneity of the moves: while Trump declares “negotiations,” his generals position amphibious troops. While the New York Times publicizes “peace plans,” the Pentagon plans to seize islands. There is no contradiction here—there is complementarity. Imperial diplomacy is never an alternative to war; it is simply war in a different costume, used to buy time, divide the enemy, and present the public with the false image that “everything has been tried.”
Iran’s response—its refusal to negotiate at gunpoint—is a gesture of dignity that should inspire us. But let us not be deceived: the resistance of a theocratic State against an imperial State does not represent a way out for ordinary people. It would only change the jailer.
The lesson we draw, as anti‑war and anti‑state militants, is clear: no peace will come from above. Neither Trump, nor the Pentagon, nor the ayatollahs, nor any other figure of authority will free us from war, because war is the mode of existence of power. As long as there are armed States, as long as there is capital accumulated through exploitation, war will always be the inevitable outcome of the contradictions they themselves create.
The only response worth pursuing, in the face of this spectacle of hypocrisy, is the construction of an international solidarity that rejects both U.S. imperialism and Iranian authoritarianism—one that places at its center people’s lives, territorial self‑management, and the refusal to serve any war machine. For if the State and capital feed on war, we feed on the hope of a world in which neither exists.
In the meantime, let us keep our eyes open: when the Empire speaks of “peace,” it is because it is about to strike.
Liberto Herrera.