A Justiça Burguesa e a Farsa do Combate ao Fascismo: O Caso Carla Zambelli

A recente fuga de Carla Zambelli para a Europa, após sua condenação pelo STF por crimes como invasão ao CNJ e perseguição armada a um homem, expõe a fragilidade da justiça burguesa diante do fascismo. Enquanto o Estado se gaba de punições exemplares, a deputada bolsonarista escapa impune, protegida por sua cidadania italiana e pela estrutura de poder transnacional que sempre acolheu reacionários. A justiça capitalista, burocrática e seletiva, não passa de um teatro para legitimar a ordem vigente, incapaz de tocar nos verdadeiros pilares do fascismo/capitalismo: a propriedade privada, o autoritarismo estatal e a violência institucionalizada.

O caso Zambelli revela a cumplicidade histórica entre Estado e fascismo. Apesar de condenada, ela operou livremente dentro das instituições, usando seu mandato para ataques ao Judiciário e à democracia burguesa, até que a pressão popular a tornou inconveniente. O STF, que agora a persegue, é o mesmo que tolerou seu projeto autoritário enquanto servia aos interesses da elite. A justiça burguesa só age quando o fascismo ameaça desequilibrar seu próprio jogo de poder, nunca quando oprime os de baixo. A prisão de Zambelli seria, no máximo, um acerto de contas entre facções dominantes, não um freio ao avanço reacionário.

A falência do sistema penal fica ainda mais clara ao vermos a deputada se declarar “intocável” na Itália, onde promete articular a extrema-direita europeia. Enquanto o Estado brasileiro se perderá em pedidos de extradição e burocracias da Interpol, o fascismo se reorganiza em escala global, aproveitando-se das mesmas fronteiras e acordos que o capitalismo criou para proteger seus interesses. As leis, feitas para manter a dominação de classe, são inúteis contra quem as usa como arma. Zambelli não é uma exceção, mas a regra: o fascismo sempre encontra brechas no sistema que supostamente o condena.

Portanto, a solução não está em confiar nas instituições, mas em destruí-las. A história mostra que o fascismo só é derrotado pela ação direta dos oprimidos, não por decretos presidenciais ou decisões judiciais. Movimentos anarquistas, como os que combateram Mussolini na Itália ou Franco na Espanha, entenderam que o Estado jamais será aliado nessa luta. Zambelli fugiu, mas sua ameaça permanece porque o fascismo é estrutural — e só cairá quando o povo, organizado ocupar ruas, fábricas e terras, desmontando o aparato que alimenta a reação.

Enquanto a esquerda institucional pede mais leis e mais STF, nós, anarquistas, lembramos: o fascismo é filhote do capital e do Estado. Zambelli é só mais um sintoma. A verdadeira resistência virá de baixo, sem partidos, sem polícia, sem hierarquias. Que sua fuga seja o último aviso: a justiça dos ricos nunca nos salvará. Só a revolução social, horizontal e libertária, erradicará o fascismo da Terra.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito em 2025, por ocasião a hoje ex-deputada federal Carla Zambelli.

Do Irã ao Brasil: Nem Bombas, Nem Tanques! Pela Desmilitarização e Autogestão!

Como anarquista, é impossível não ecoar e fortalecer o grito dos diversos coletivos iranianos neste momento: a guerra e o militarismo são ferramentas de dominação que esmagam os povos em benefício de Estados e capitalistas.

O recente aumento dos gastos militares do Brasil — que superou R$ 142 bilhões em 2025, enquanto serviços públicos definham — expõe a hipocrisia de um governo que prioriza tanques em vez de pão, fuzis em vez de escolas. Essa lógica perversa, igual à denunciada pelos camaradas no Irã, sacrifica vidas trabalhadoras no altar do lucro e do controle estatal.

Assim como os ataques israelenses ao Irã, o complexo industrial-militar brasileiro serve aos interesses imperialistas globais. Nosso governo financia a indústria da morte ao comprar armas dos EUA e Europa, enquanto apoia tacitamente genocídios como o de Gaza. Cada avião de caça comprado com nosso suor poderia alimentar milhões, curar enfermos ou libertar terras indígenas. A “segurança nacional” que propagandeiam é, na verdade, segurança da burguesia contra o povo explorado.

A classe trabalhadora brasileira, tal como a iraniana, é duplamente vitimizada: pela repressão interna e pela cumplicidade de nosso Estado com guerras externas. Enquanto o orçamento militar cresce, assistimos à criminalização de movimentos sociais, à violência policial nas periferias e ao desmonte da previdência social. Os R$ 20 bilhões destinados a novos blindados em 2025 são um roubo descarado — poderiam erradicar a fome que atinge 33 milhões de brasileiros.

Rejeitamos a ilusão de que governos ou instituições internacionais trarão paz. A ONU acoberta massacres, e o Estado brasileiro, seja sob qual bandeira for, mantém uma máquina de opressão. Nossa luta é pela autogestão popular, pela solidariedade direta entre explorados, como nas ocupações de terra e nas greves selvagens. O exemplo das mobilizações “Mulher, Vida, Liberdade” no Irã nos inspira: só a ação direta desarma os poderosos.

Exigimos o fim imediato dos investimentos bélicos e a redistribuição desses recursos às comunidades. Que os quartéis virem cooperativas; as fábricas de armas, escolas livres. Nossa paz não virá de generais ou diplomatas, mas da organização horizontal, do apoio mútuo e da insurreição permanente contra este sistema que nos mata por lucro. Nem Irã, nem Israel, nem Brasil: nenhuma pátria vale um só trabalhador morto!

Pela desmilitarização do mundo!
Pela revolução social!

Liberto Herrera.

Moloch de Papel e Ferro

Vossos postos fronteiriços, vossas grades erguidas,

são fantasmas de um medo que nós mesmos fundamos.

Vossas leis não são raízes, são cordas podres,

que estrangulam o caule novo que já brota no asfalto.

Vossos soldados marcham com passos de autômatos,

temendo mais a fuga do que nossa fúria.

O Estado é a sombra de um gigante decrépito,

e nós somos a luz que não mais se deixa projetar.

Cada documento de identidade é um epitáfio

para um ser selvagem que ainda lateja em nossas veias.

Queimar os arquivos não é terror, é higiene:

limpar o nome do horizonte para enfim habitá-lo.

Liberto Herrera.

Camarada, nenhuma igreja irá te salvar — e nem quer.

Desde que o primeiro padre ergueu um altar, a religião tem sido o braço espiritual da opressão. Igrejas, mesquitas, sinagogas — todas são máquinas de controle, vestidas de virtude, que vendem promessas de paraíso em troca da tua submissão aqui e agora. Enquanto você espera ou reza por um milagre, os mesmos líderes que te cobram dízimos abraçam políticos, abençoam exércitos e lucram com a miséria alheia. A cruz, a estrela, o crescente: símbolos que unem tronos e altares há séculos. Salvação? Só existe na luta coletiva contra esses parasitas de batina.

Irmão, você acha mesmo que um deus que permite fome, guerras e exploração vai te dar justiça? A teologia é a cortina de fumaça perfeita para manter o pobre de joelhos, esperando uma recompensa pós-morte enquanto o patrão rouba seu salário agora. Os mesmos que condenam o pecado do homem pobre são cúmplices do pecado maior: a propriedade privada, a desigualdade, a dominação. Nenhum sermão apaga o sangue nas mãos da Igreja (seja ela qual for!) — da Inquisição às ditaduras.

Todavia, veja: anticlericalismo não é ódio à fé, é ódio à hierarquia. Padres, pastores, gurus — todos se intitulam intermediários do divino, mas só intermediaram mesmo é o teu medo. Transformam tua revolta em culpa, tua fome em resignação, teu corpo em pecado. Enquanto isso, abusam, acumulam riquezas e ditam moralidades convenientes aos poderosos. Quer espiritualidade? Olha para o fogo da solidariedade, não para a cinza dos rituais.

A libertação não vem de um deus que castiga, mas da multidão que se organiza. Queima os confessionários, ocupa os templos, transforma a caridade em ação direta! Nossa “salvação” está nas ruas, nas greves, nas redes de apoio mútuo que construímos sem patrões, sem polícia e sem padres. A verdadeira fé é acreditar no poder do povo — e nenhum milagre é maior que uma revolução.

Camarada, para de olhar pro céu. O inferno já é aqui — e só nós podemos extingui-lo. Nem deus, nem mestre: luta! 

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente em 2025.

Pierre-Joseph Proudhon: ontem e hoje

Pierre-Joseph Proudhon nasceu em 15 de janeiro de 1809 (sim, já se passaram 216 anos!), em Besançon, França. Essa data marca o início da trajetória de um dos pensadores mais influentes do anarquismo e da teoria social moderna. Filho de uma família humilde, Proudhon viveu em um contexto de transformações profundas na Europa pós-Revolução Francesa, o que influenciou sua visão crítica sobre o poder, a propriedade e as desigualdades estruturais. Seu trabalho seminal, “O Que é a Propriedade?”, publicado em 1840, trouxe a célebre frase “A propriedade é um roubo”, desafiando os fundamentos do sistema capitalista e propondo reflexões que ressoam até hoje.

Considerado por muitos como o pai do anarquismo moderno, Proudhon foi pioneiro ao articular uma filosofia política que rejeitava tanto a tirania do Estado quanto as explorações do capitalismo. Sua abordagem buscava um equilíbrio entre a liberdade individual e a solidariedade coletiva, defendendo a autogestão, o federalismo e a criação de associações livres de trabalhadores como alternativa ao modelo estatal. Essas ideias foram fundamentais para os movimentos anarquistas do século XIX e continuam a inspirar debates sobre formas mais justas e horizontais de organização social no século XXI.

No contexto atual, marcado por crises econômicas, desigualdades crescentes e desconfiança nas instituições tradicionais, o pensamento de Proudhon ganha nova relevância, valendo a pena nos dias atuais a leitura de suas obras. Suas críticas à concentração de poder e riqueza oferecem uma lente para analisar os desafios contemporâneos, como a precarização do trabalho, a crise ambiental e as tensões entre globalização e soberania local. Além disso, suas propostas de descentralização e autogestão encontram ecos nas práticas modernas de cooperativismo, economia solidária e movimentos sociais que buscam autonomia e justiça social.

Portanto, Proudhon não é apenas uma figura histórica, mas uma referência viva para aqueles que procuram compreender e transformar o mundo. Sua capacidade de combinar teoria e prática, somada à sua visão crítica e inovadora, faz dele um pensador ainda essencial para os debates do século XXI. Celebrar sua contribuição é não apenas reconhecer seu papel na história do anarquismo, mas também explorar suas ideias como ferramentas para construir sociedades mais livres, igualitárias e sustentáveis.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito no ano de 2025.

Para Além das Datas Simbólicas

Sabemos, ou deveríamos saber, que o anarquismo não se resume apenas a bandeiras erguidas em datas históricas ou discursos inflamados em praças públicas.

A essência anarquista está na ruptura diária com as estruturas de opressão, na construção de relações horizontais que subvertam a lógica do capital e do Estado. Por mais que o Primeiro de Maio simbolize a resistência operária, reduzir a luta libertária a manifestações pontuais é perpetuar uma armadilha: a de confinar a revolução a gestos simbólicos, enquanto o sistema segue intacto em sua capacidade de reproduzir injustiças. Se queremos que o anarquismo volte a ser uma força transformadora, é preciso transbordar os círculos militantes e enraizar práticas libertárias no cotidiano, atingindo quem vive sob o peso alienante do “trabalho-morto” e da vida controlada.

A potência do anarquismo sempre esteve em sua capacidade de questionar não apenas o Estado ou o patrão, mas a própria organização da vida. Isso exige ir além dos palanques eventuais e ocupar os espaços invisíveis do dia a dia: os lares, os bairros, os locais de trabalho. Quando uma vizinhança se organiza para criar uma horta comunitária, quando trabalhadores improvisam redes de apoio mútuo para enfrentar demissões, ou quando mulheres compartilham saberes sobre autocuidado e autonomia corporal, ali está o germe da anarquia. São gestos que desmontam a dependência do poder hierárquico e revelam que outra sociabilidade é possível — uma que não depende de datas no calendário para existir.

O desafio, dessa forma, é romper a bolha militante. Muitas vezes, o discurso anarquista torna-se hermético, restrito a quem já domina suas bandeiras e jargões. Para dialogar com o “indivíduo médio”, é preciso traduzir a crítica anticapitalista em linguagens acessíveis, vinculadas às urgências concretas. Como convencer alguém sobre a necessidade de autogestão se não mostrarmos como ela pode resolver problemas imediatos, como a falta de creches ou o preço abusivo do aluguel? A propaganda pela ação, tão cara ao anarquismo clássico, só ganha sentido quando as pessoas veem na prática que a solidariedade direta é mais eficaz que a espera por políticas estatais.

Não se trata de abandonar as grandes mobilizações, mas de compreender que a revolução é um processo contínuo, alimentado por microações cotidianas. O Estado e o capital mantêm seu domínio não apenas pela repressão, mas pela naturalização de relações autoritárias em todos os âmbitos — da família ao local de trabalho. Combater isso demanda que o anarquismo infiltre-se nas brechas do ordinário: nas conversas de bar, nas assembleias de condomínio, nas redes sociais. É nos pequenos atos — como organizar um mutirão para consertar um posto de saúde abandonado ou questionar o machismo em um churrasco de família — que se mina a legitimidade das estruturas de poder.

Se o anarquismo deseja ser ameaçador, precisa deixar de ser visto como uma utopia distante e tornar-se uma prática palpável. Isso exige coragem para ocupar espaços considerados “apolíticos” e transformá-los em trincheiras de luta. Enquanto nos limitarmos a atos simbólicos, o sistema seguirá nos tolerando como folclore rebelde. Mas se transbordarmos para o cotidiano, mostrando que a autogestão, o apoio mútuo e a ação direta resolvem problemas reais, seremos perigosos. Afinal, nenhum poder sobrevive quando o povo descobre que não precisa dele para viver — e viver com dignidade.

Liberto Herrera

Crime e Estado: amigos íntimos

A notícia divulgada pela mídia burguesa brasileira de que policiais estão sendo investigados por envolvimento com o PCC (Primeiro Comando da Capital) evidencia uma verdade frequentemente mascarada: o vínculo profundo e estrutural entre o Estado, o crime organizado e o capitalismo.

A polícia, que oficialmente deveria servir à “segurança pública”, na prática, atua como um braço armado de proteção aos interesses das elites, enquanto reproduz as dinâmicas de violência e corrupção que caracterizam o sistema capitalista. A relação promíscua entre agentes do Estado e organizações criminosas não é uma aberração ou exceção; é, sim, uma manifestação do funcionamento sistêmico de um modelo econômico e político que legitima e se alimenta do crime.

No capitalismo, a linha entre a “lei” e o “crime” é constantemente borrada. O mesmo sistema que criminaliza a pobreza e marginaliza trabalhadores precarizados, principalmente os pretos, sustenta estruturas que permitem a lavagem de dinheiro, a corrupção e a exploração violenta, seja por meio de organizações criminosas como o PCC, seja por corporações que exploram mão de obra de forma análoga à escravidão. A polícia, longe de ser uma entidade neutra, funciona como agente desse ciclo, seja pela repressão aos pobres, seja pela aliança com as máfias para lucrar com o controle territorial e econômico. Assim, o crime não é um desvio, mas um elemento intrínseco do próprio sistema que se organiza para concentrar poder e riquezas.

O Estado, enquanto sustentáculo do capitalismo, também é cúmplice nesse cenário. A legalidade estatal é utilizada para proteger privilégios e interesses corporativos, enquanto a ilegalidade, frequentemente atribuída ao crime organizado, opera como uma extensão das mesmas dinâmicas de exploração. Não é por acaso que esquemas de corrupção, como os relatados na operação contra policiais suspeitos de envolvimento com o PCC, envolvam diretamente aqueles que deveriam “combater” o crime. O Estado e as máfias são, de fato, duas faces de uma mesma moeda, promovendo e perpetuando a desigualdade e a violência de maneiras complementares.

A denúncia dessa ligação estrutural entre o Estado, o crime e o capitalismo é essencial para entender que a repressão e as operações policiais não têm como objetivo eliminar o crime, mas reorganizar suas hierarquias e fluxos de poder. Qualquer solução que busque superar essas contradições não virá do próprio aparato estatal, mas da construção de alternativas coletivas e anticapitalistas, baseadas na autogestão, na solidariedade e na luta contra todas as formas de opressão. Sem romper com o capitalismo e seu braço armado, o Estado, continuaremos reféns de um sistema que normaliza o crime como parte de sua lógica interna.

Liberto Herrera.

A Ilusão da Divisão: Esquerda e Direita no Capitalismo Brasileiro

A dicotomia esquerda versus direita, tão presente no debate político burguês brasileiro, frequentemente mascara uma realidade mais complexa e interligada. A afirmação de que, no atual sistema capitalista “democrático” brasileiro, ambos os espectros ideológicos acabam no fim por convergir, especialmente na hora de apoiar determinados candidatos, encontra respaldo em diversos fatores. Vejamos alguns:

Nas eleições ocorridas neste ano de 2024, dos 85 candidatos no país que tinham no seu palanque tanto o PT (Partido dos Trabalhadores), do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quanto o PL (Partido Liberal), do ex-presidente Jair Bolsonaro, 58 conseguiram se eleger prefeitos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Somente este fato aponta que as supostas divergências entre ambos os espectros políticos não são tão grandes assim quando o tema é a disputa pelo poder do Estado. Apesar de PARECEREM inimigos, Lula e Bolsonaro formam alianças sem qualquer pudor para alcançar dividendos políticos mútuos.

Registre-se que o sistema político brasileiro, marcado por uma forte personalização da política e por um sistema partidário fragmentado, favorece a formação de alianças pragmáticas, nas quais as ideologias de fundo sempre são secundárias em relação aos interesses imediatos. Essa dinâmica permite que tanto partidos de “esquerda” quanto de direita se unam em torno de candidaturas que prometam benefícios concretos a seus partidos, independentemente da orientação ideológica declarada.

Ademais, a própria dinâmica do capitalismo, com sua busca incessante por acumulação de capital e sua tendência a concentrar riqueza, exerce pressão sobre os partidos políticos, independentemente de sua posição no espectro ideológico. A necessidade de atrair investimentos e garantir a estabilidade econômica muitas vezes leva tanto a “esquerda” quanto a direita a adotarem políticas econômicas convergentes, com ênfase na redução de gastos públicos e na flexibilização das leis trabalhistas. Assim, no contexto brasileiro, onde o oportunismo político é regra suprema, as fronteiras entre esses espectros ideológicos se tornam ainda mais fluidas, permitindo que partidos e candidatos se apropriem de discursos e propostas que transcendem as divisões tradicionais entre esquerda e direita.

Os fatos acima citados deixam claro para nós, explorados e oprimidos, que o caminho para a liberdade e justiça não passa pela disputa do poder do Estado, braço simbiótico do Capital. Ao contrário, entender que todos os partidos políticos, no discurso e/ou na prática cotidiana, são defensores do Estado e do Capitalismo e que, portanto, devem ser enfrentados, combatidos e repelidos do tecido social é um grande passo na longa jornada da emancipação humana.

Liberto Herrera*.

*Texto produzido originalmente em novembro de 2024.

Alienação e a Decadência sob a Lente das Apostas: Um Reflexo da Sociedade Brasileira

A revelação de que beneficiários do Bolsa Família direcionaram bilhões de reais para casas de apostas (as famigeradas Bets) em um único mês expõe um sintoma profundo da sociedade capitalista brasileira: a alienação e a decadência. Esse dado alarmante, longe de ser um mero detalhe estatístico, revela um quadro mais amplo de uma população marginalizada, presa a um sistema que a mantém em um ciclo de precariedade, ilusão e dependência.

A aposta, enquanto prática, representa uma tentativa desesperada de escapar da realidade, uma busca ilusória por uma mudança de status social instantânea. No contexto do Bolsa Família, programa brasileiro destinado a mitigar a fome e a pobreza, essa prática revela uma profunda desconfiança no sistema e na possibilidade de uma mobilidade social real. Os beneficiários, pessoas em situação de pobreza, ao invés de utilizarem os recursos para investir em educação, saúde ou compra de alimentos básicos, veem nas apostas uma falsa promessa de enriquecimento rápido, perpetuando assim um ciclo de dependência e vulnerabilidade.

Essa realidade é um reflexo da lógica do capitalismo neoliberal, que incentiva o individualismo exacerbado, a competição desenfreada e a busca incessante por prazeres imediatos. A propaganda massiva das casas de apostas, que prometem a vida dos sonhos com um simples clique, encontra um terreno fértil em uma sociedade marcada pelas desigualdades e pela falta de perspectivas de futuro.

A alienação, nesse contexto, não é uma escolha individual, mas sim um produto de um sistema que molda as consciências e as necessidades. Os trabalhadores em situação de extrema pobreza, ao invés de ser visto como sujeitos de direitos e protagonista de suas próprias histórias, são transformados em alvo de um mercado que lucra com suas dificuldades.

É urgente, a partir de nosso espectro anarquista, que promovamos debates e reflexões sobre as causas profundas desse problema, que vão além da mera regulamentação estatal das casas de apostas. É preciso trabalharmos para reconstruir a consciência de classe entre os explorados e oprimidos, para que possam entender e, depois, combater esse ciclo vicioso de alienação, construindo uma sociedade mais justa e igualitária – que por consequência há de ser erigida sobre os escombros do Capital e do Estado.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente em dezembro de 2024.

Sangue nos Campos, Ouro nos Bancos: A Guerra como Negócio do Capital

Enquanto a Ucrânia explode pilares submersos da ponte da Crimeia com 1.100 kg de TNT e a Rússia responde com foguetes em Sumy, matando civis, o verdadeiro motor dessa carnificina não está nos discursos de Zelensky ou Putin, mas nos balanços trimestrais das petroleiras e no complexo industrial-militar. Desde o início da guerra, empresas como a BP lucraram US$ 15,8 bilhões — 158 vezes mais do que investiram em mitigação climática. Os Estados, longe de serem meros atores políticos, são sócios dessas corporações: a Rússia exige “cessar-fogo” apenas para consolidar ganhos territoriais, enquanto a OTAN vende “solidariedade” a Kiev em forma de contratos bilionários de armas. Não sejamos tolos: a guerra não é um conflito entre nações, mas um leasing de sangue assinado por elites.

A ponte da Crimeia, atacada pela terceira vez, é um símbolo perfeito dessa engrenagem. Construída por US$ 3,7 bilhões sob ordens de Putin, sua destruição não fere o Kremlin — que já a reconstruiu duas vezes —, mas alimenta a indústria de “reparos de guerra”, controlada por oligarcas russos e empreiteiras europeias. Cada explosão é um estímulo à economia bélica: os mesmos Estados que condenam a invasão lucram com o gás russo vendido a preços inflacionados e com os drones ucranianos de R$ 3 mil que causam prejuízos de US$ 7 bilhões à Rússia. A contradição é óbvia: o capitalismo não tem pátria, só acionistas.

O memorando russo para cessar-fogo, recentemente divulgado, é uma farsa que revela o jogo. Moscou exige a “neutralidade” da Ucrânia — isto é, sua submissão a um status quo que garanta o fluxo de recursos para as multinacionais. Enquanto isso, a BP anuncia “voluntariado climático” após lucrar com a crise energética, como se fossem filantropos, não pirómanos. Os Estados, sejam “agressores” ou “libertadores”, operam como gerentes desses interesses, na medida em que a guerra é terceirizada aos pobres (ucranianos, russos, africanos famintos por trigo bloqueado), enquanto os dividendos são privatizados.

Recordamos que a posição anarquista não está em escolher um lado nesse jogo de xadrez sangrento, mas em sabotar o tabuleiro! Quando o drone ucraniano mina pilares de concreto, mostra mais eficácia que a ONU — mas ainda age como braço de um Estado capitalista. A verdadeira resistência seria a greve geral dos trabalhadores das petroleiras, o bloqueio aos portos que exportam armas, a recusa coletiva em pagar impostos que financiam tanques, entre tantas outras possibilidades que as conjunturas apresentam. Histórias como a Comuna de Paris ou os conselhos operários na Ucrânia de 1917 lembram que só a ação direta desarma os senhores da guerra.

Enquanto a esquerda institucional pede “paz negociada”, nós, anarquistas, advertimos: toda negociação entre Estados é um acerto de contas entre criminosos. A paz real virá quando os de baixo deixarem de ser carne de canhão e virarem o canhão contra os palácios. Que a próxima explosão seja das bolsas de valores.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado originalmente no segundo semestre de 2024.