Nem Washington nem Pequim: A Ilusão de Trocar de Carcereiro

Em um grupo do qual participo, solicitaram minha opinião sobre o embate entre Estados Unidos x China, questionando se a ascensão do Dragão não seria um golpe fatal no imperialismo ianque e uma aurora de maior liberdade para os povos oprimidos. Minha resposta é um retumbante e claro NÃO. Irmãs e irmãos, não se deixem enganar pela farsa geopolítica! Não passamos de espectadores de uma troca de guardas na mesma prisão. A queda de um carcereiro não significa a libertação dos presos; significa apenas que um novo algoz, talvez mais eficiente e implacável, assume o controle das chaves.

A China não é o antídoto para o veneno estadunidense; é meramente uma dose mais concentrada do mesmo veneno, disfarçada sob a roupagem de “comunismo” e “harmonia”. Seu modelo de capitalismo de vigilância de Estado, combinando exploração hiper-capitalista com um controle social orwelliano, não é uma alternativa ao imperialismo, mas a sua evolução mais perversa. O que vemos não é o fim da dominação, mas a sua modernização: as correntes do novo senhor não são menos pesadas, apenas são digitais, feitas de reconhecimento facial, crédito social e uma teia de dívidas que amarra o Sul Global num novo tipo de colonialismo. Por exemplo, a tal “Nova Rota da Seda” não é pensada para a solidariedade internacional; é a construção de uma nova espinha dorsal para a extração de riqueza, substituindo o FMI pelo Banco de Desenvolvimento da China, mas mantendo intacta a lógica de subjugação.

Portanto, camaradas, não celebrem esta mudança no topo da pirâmide. É uma ilusão perigosa acreditar que um Leviatã é preferível a outro. O imperialismo não é uma característica exclusiva de uma bandeira ou ideologia; é a manifestação lógica e poderosíssima do Estado e do Capital em sua busca infinita por expansão e controle. Trocar um dominador por outro não abala as fundações do cárcere hierárquico em que vivemos. Nossa luta não é para ver quem ocupa o trono, mas para DESTRUIR o trono e todos os que desejam se assentar nele.

Esta conjuntura de tensão, no entanto, não é de todo ruim. É precisamente nas fissuras criadas pelo choque entre estes dois titãs que nós, anarquistas, encontramos nossa oportunidade. Enquanto os Estados se digladiam pelo domínio global, sua atenção é desviada, seu controle sobre os territórios periféricos pode se fragilizar e brechas se abrem. Nossa tarefa é ocupar estas brechas! Devemos transformar a retórica vazia deles em nossa ação direta: organizar sindicatos autônomos nas fábricas, ocupar terras, criar comunidades de apoio mútuo, erguer barricadas contra a repressão de QUALQUER Estado. Nossa agitação deve expor a farsa dos dois lados e mostrar que a única luta válida é a luta pela libertação total, horizontal e federalista.

Dessa forma, não nos importa quem vencer esta batalha de gigantes. Nosso campo é o do povo em luta, contra todos os senhores. Aproveitemos a crise de hegemonia para semear o caos criativo da Anarquia. Enquanto eles disputam o mundo, nós o construiremos nas ruínas do seu poder. Nossa resposta ao embate imperialista não deve ser torcer por um lado, mas intensificar o ataque contra ambos, transformando nosso ideal em movimentos, ações e agitações que preparem o terreno para um mundo verdadeiramente livre, sem mestres nem imperadores. A luta continua, e ela é contra TODOS os Estados!

Liberto Herrera*.

*Texto escrito e publicado em outubro de 2025.

A Lição da Rua: Por Que os Evangélicos Estão na Frente?

Recentemente saí para caminhar, era domingo e chovia levemente. O asfalto reluzia sob a luz tênue das seis horas da manhã, e a cidade, ainda adormecida, pertencia aos desassistidos e aos fervorosos religiosos. Foi quando os avistei: uma pequena banca improvisada onde quatro indivíduos, ensopados e determinados, distribuíam panfletos e literatura evangélica. Aquela cena, aparentemente corriqueira, impactou minha consciência. Enquanto aqueles seguidores de Cristo, munidos apenas de sua fé, ocupavam as ruas em um horário em que a maioria de nós ainda repousa, questionei-me: onde estão os nossos?

Ora, onde estão os anarquistas? Onde estão aqueles que defendem a libertação “mundana”, e não uma salvação ultraterrena? Nós, que deveríamos ser a voz audível nas comunidades periféricas, nos aglomerados subalternos, entre os relegados deste sistema, frequentemente nos confinamos em coletivos restritos, em debates teóricos infindáveis e em redes sociais que ecoam apenas para nosso próprio grupo. Enquanto isso, os evangélicos, com sua mensagem de conformidade e resignação, estão presentes. Eles compreendem o que nós, em nossa arrogância vanguardista, negligenciamos: a transformação social não se efetiva apenas por meio de textos complexos, mas mediante presença constante, contato humano direto e capilaridade efetiva.

Essa capilaridade, camaradas, não é alheia ao anarquismo! Fomos nós que, no suor das fábricas e na privação dos bairros operários, estabelecemos escolas livres, sindicatos de resistência e iniciativas mutualistas. Estivemos ao lado do povo, não como salvadores, mas como companheiros de luta. Nossa ideologia florescia no solo fértil da necessidade concreta. Esse espaço, conquistado com esforço pela classe trabalhadora, foi paulatinamente abandonado por nós e avidamente ocupado por duas forças perniciosas: os fundamentalistas religiosos e a nova direita reacionária.

Os pastores e seus seguidores oferecem um ópio moderno, uma promessa de recompensa pós-morte em troca de submissão na vida presente. Eles colonizam as mentes dos marginalizados, incutindo-lhes a aceitação da fome, da violência e da exploração, sob a alegação de que seu reino não é deste mundo. Paralelamente, os propagandistas da nova direita, com sua retórica anti-sistema espúria e seu nacionalismo tóxico, canalizam a ira legítima do povo para o ódio ao diferente, ao imigrante, ao pobre ainda mais vulnerável. Eles oferecem bodes expiatórios, enquanto nós oferecemos, muitas vezes, apenas discursos digitais?

Trata-se de uma falha histórica! Deixamos o campo aberto para que o adversário doutrine nossos irmãos de classe. Enquanto nos perdemos em disputas doutrinárias e em um purismo ideológico que não dialoga com a linguagem popular, eles distribuem sopa, consolo alienante e um senso de comunidade – ainda que seja uma prisão dourada. Eles fornecem respostas imediatas, ainda que ilusórias, para problemas prementes. Nós, não raro, oferecemos apenas ausência e silêncio.

Basta de lamentações! Aquele grupo na chuva de domingo pela manhã é a lição mais evidente que poderíamos receber. Eles não são mais potentes, são mais dedicados à sua causa – por mais nefasta que seja. A rua convoca-nos. A periferia reclama nossa presença. É hora de abandonarmos o conforto do gueto militante e ir até onde o povo está. Não para pregar, mas para ouvir, para organizar, para apoiar lutas concretas, para reconstruir a confiança erosionada. A ação direta, o mutualismo, a educação popular são nossos instrumentos. Precisamos estar lá, incondicionalmente, não para distribuir panfletos de salvação, mas para edificar, coletivamente, a liberdade aqui e agora. A rua é nossa! Resta-nos, tão somente, reassumi-la.

Liberto Herrra*.

*Texto publicado em setembro de 2025.