A Muralha do Canto

Não ergam muros de concreto e medo,

Onde o pensamento é réu e é crime,

Onde o futuro é um projeto gélido,

E o passado, uma arma contra o vivo.

Vossa bandeira é um só coração,

Um peito nu contra a suja ilusão

De um líder forte, de um punho de aço,

Que tece teias de ódio e de embaraço.

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Sois a muralha que não se constrói,

Sois o vento que a rua percorreu,

Sois a voz que o decreto não calou,

O pão que se repartiu, o grão que brotou.

Sois o sim que se nega a obedecer,

A mão que aprendeu a construir e a tecer

Laços de afeto, de apoio mútuo,

O sorriso livre, o canto que é bruto.

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Eles têm tanques, fardas e temor,

Nós temos a praça, a estrofe, o amor

Feroz daquele que não se vendeu,

E por um mundo sem donos lutou.

Têm a mentira que a história corrói,

Nós a memória dos que não se dobraram,

E em cada esquina, sementes deixaram.

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Não há cercas que prendam o voo do anseio,

Nem grades que calem o grito do desejo.

O fascismo é a noite, pesada e escura,

Mas é de raiva e luz a nossa procura.

E na fresta mais ínfima do dia,

A utopia teima, teima e arderia.

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Que vossa força seja de enxada,

De livro aberto, de fala afiada.

Não seguiremos o passo da corja,

Nossa marcha é diversa e não corrói.

Somos o caos que gera a nova ordem,

Sem senhores, sem deuses, por dentro e por fora,

A antítese viva da vossa teia morta.

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Pois contra o punho, erguemos a mão aberta,

Contra o decreto, a canção que é incerta

E livre como o rio que não pede licença

Para correr, para fertilizar a crença

De que um dia, sem rei e sem patrão,

A liberdade será a única lei e a única nação.

Liberto Herrera*.

*Outubro de 2025.

Lançamento: “Haikais Libertos”, de Liberto Herrera

“Haikais Libertos” é um livreto com 100 haikais, todos de inspiração/conotação anarquista, escrito por Liberto Herrera. Haikai é um estilo de poesia curta, com apenas 3 versos.

Haikais Libertos

R$ 2,00

Formato: A6 (148x105mm)

Número de páginas: 28

Capa: Papel 120g

Encadernação: Dobra e grampo

www.imprimaanarquia.com.br

Amostras:

Sem coroa, o vento—

nas praças, vozes livres

tecem o amanhã.

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Pão compartilhado

no asfalto rachado, brota

a primavera.

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Cadeias quebradas:

o rio não pede licença

para correr livre.

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Nenhum mestre escreve

o verso do malmequer

na terra sem dono.

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Fogueira na rua—

o medo vira cinza,

risos no escuro.

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Bandeira negra voa

onde o Estado não colhe

flores do caos.

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Mãos que não se curvam

plantam jardins no concreto—

revolta em raízes.

*Publicado originalmente em junho de 2025.

Nem Washington nem Pequim: A Ilusão de Trocar de Carcereiro

Em um grupo do qual participo, solicitaram minha opinião sobre o embate entre Estados Unidos x China, questionando se a ascensão do Dragão não seria um golpe fatal no imperialismo ianque e uma aurora de maior liberdade para os povos oprimidos. Minha resposta é um retumbante e claro NÃO. Irmãs e irmãos, não se deixem enganar pela farsa geopolítica! Não passamos de espectadores de uma troca de guardas na mesma prisão. A queda de um carcereiro não significa a libertação dos presos; significa apenas que um novo algoz, talvez mais eficiente e implacável, assume o controle das chaves.

A China não é o antídoto para o veneno estadunidense; é meramente uma dose mais concentrada do mesmo veneno, disfarçada sob a roupagem de “comunismo” e “harmonia”. Seu modelo de capitalismo de vigilância de Estado, combinando exploração hiper-capitalista com um controle social orwelliano, não é uma alternativa ao imperialismo, mas a sua evolução mais perversa. O que vemos não é o fim da dominação, mas a sua modernização: as correntes do novo senhor não são menos pesadas, apenas são digitais, feitas de reconhecimento facial, crédito social e uma teia de dívidas que amarra o Sul Global num novo tipo de colonialismo. Por exemplo, a tal “Nova Rota da Seda” não é pensada para a solidariedade internacional; é a construção de uma nova espinha dorsal para a extração de riqueza, substituindo o FMI pelo Banco de Desenvolvimento da China, mas mantendo intacta a lógica de subjugação.

Portanto, camaradas, não celebrem esta mudança no topo da pirâmide. É uma ilusão perigosa acreditar que um Leviatã é preferível a outro. O imperialismo não é uma característica exclusiva de uma bandeira ou ideologia; é a manifestação lógica e poderosíssima do Estado e do Capital em sua busca infinita por expansão e controle. Trocar um dominador por outro não abala as fundações do cárcere hierárquico em que vivemos. Nossa luta não é para ver quem ocupa o trono, mas para DESTRUIR o trono e todos os que desejam se assentar nele.

Esta conjuntura de tensão, no entanto, não é de todo ruim. É precisamente nas fissuras criadas pelo choque entre estes dois titãs que nós, anarquistas, encontramos nossa oportunidade. Enquanto os Estados se digladiam pelo domínio global, sua atenção é desviada, seu controle sobre os territórios periféricos pode se fragilizar e brechas se abrem. Nossa tarefa é ocupar estas brechas! Devemos transformar a retórica vazia deles em nossa ação direta: organizar sindicatos autônomos nas fábricas, ocupar terras, criar comunidades de apoio mútuo, erguer barricadas contra a repressão de QUALQUER Estado. Nossa agitação deve expor a farsa dos dois lados e mostrar que a única luta válida é a luta pela libertação total, horizontal e federalista.

Dessa forma, não nos importa quem vencer esta batalha de gigantes. Nosso campo é o do povo em luta, contra todos os senhores. Aproveitemos a crise de hegemonia para semear o caos criativo da Anarquia. Enquanto eles disputam o mundo, nós o construiremos nas ruínas do seu poder. Nossa resposta ao embate imperialista não deve ser torcer por um lado, mas intensificar o ataque contra ambos, transformando nosso ideal em movimentos, ações e agitações que preparem o terreno para um mundo verdadeiramente livre, sem mestres nem imperadores. A luta continua, e ela é contra TODOS os Estados!

Liberto Herrera*.

*Texto escrito e publicado em outubro de 2025.

A Lição da Rua: Por Que os Evangélicos Estão na Frente?

Recentemente saí para caminhar, era domingo e chovia levemente. O asfalto reluzia sob a luz tênue das seis horas da manhã, e a cidade, ainda adormecida, pertencia aos desassistidos e aos fervorosos religiosos. Foi quando os avistei: uma pequena banca improvisada onde quatro indivíduos, ensopados e determinados, distribuíam panfletos e literatura evangélica. Aquela cena, aparentemente corriqueira, impactou minha consciência. Enquanto aqueles seguidores de Cristo, munidos apenas de sua fé, ocupavam as ruas em um horário em que a maioria de nós ainda repousa, questionei-me: onde estão os nossos?

Ora, onde estão os anarquistas? Onde estão aqueles que defendem a libertação “mundana”, e não uma salvação ultraterrena? Nós, que deveríamos ser a voz audível nas comunidades periféricas, nos aglomerados subalternos, entre os relegados deste sistema, frequentemente nos confinamos em coletivos restritos, em debates teóricos infindáveis e em redes sociais que ecoam apenas para nosso próprio grupo. Enquanto isso, os evangélicos, com sua mensagem de conformidade e resignação, estão presentes. Eles compreendem o que nós, em nossa arrogância vanguardista, negligenciamos: a transformação social não se efetiva apenas por meio de textos complexos, mas mediante presença constante, contato humano direto e capilaridade efetiva.

Essa capilaridade, camaradas, não é alheia ao anarquismo! Fomos nós que, no suor das fábricas e na privação dos bairros operários, estabelecemos escolas livres, sindicatos de resistência e iniciativas mutualistas. Estivemos ao lado do povo, não como salvadores, mas como companheiros de luta. Nossa ideologia florescia no solo fértil da necessidade concreta. Esse espaço, conquistado com esforço pela classe trabalhadora, foi paulatinamente abandonado por nós e avidamente ocupado por duas forças perniciosas: os fundamentalistas religiosos e a nova direita reacionária.

Os pastores e seus seguidores oferecem um ópio moderno, uma promessa de recompensa pós-morte em troca de submissão na vida presente. Eles colonizam as mentes dos marginalizados, incutindo-lhes a aceitação da fome, da violência e da exploração, sob a alegação de que seu reino não é deste mundo. Paralelamente, os propagandistas da nova direita, com sua retórica anti-sistema espúria e seu nacionalismo tóxico, canalizam a ira legítima do povo para o ódio ao diferente, ao imigrante, ao pobre ainda mais vulnerável. Eles oferecem bodes expiatórios, enquanto nós oferecemos, muitas vezes, apenas discursos digitais?

Trata-se de uma falha histórica! Deixamos o campo aberto para que o adversário doutrine nossos irmãos de classe. Enquanto nos perdemos em disputas doutrinárias e em um purismo ideológico que não dialoga com a linguagem popular, eles distribuem sopa, consolo alienante e um senso de comunidade – ainda que seja uma prisão dourada. Eles fornecem respostas imediatas, ainda que ilusórias, para problemas prementes. Nós, não raro, oferecemos apenas ausência e silêncio.

Basta de lamentações! Aquele grupo na chuva de domingo pela manhã é a lição mais evidente que poderíamos receber. Eles não são mais potentes, são mais dedicados à sua causa – por mais nefasta que seja. A rua convoca-nos. A periferia reclama nossa presença. É hora de abandonarmos o conforto do gueto militante e ir até onde o povo está. Não para pregar, mas para ouvir, para organizar, para apoiar lutas concretas, para reconstruir a confiança erosionada. A ação direta, o mutualismo, a educação popular são nossos instrumentos. Precisamos estar lá, incondicionalmente, não para distribuir panfletos de salvação, mas para edificar, coletivamente, a liberdade aqui e agora. A rua é nossa! Resta-nos, tão somente, reassumi-la.

Liberto Herrra*.

*Texto publicado em setembro de 2025.

A Vida como Trincheira: Laços e Caminhos para um Mundo Novo.

A luta pela libertação não é um evento futuro agendado para uma revolução distante, mas um exercício diário de negação e construção. O capitalismo e o Estado não são monstros que dormem à espera de um único golpe fatal; são hidras que se regeneram todos os dias através da nossa passividade, da nossa obediência e da nossa assimilação. Portanto, a resistência deve ser igualmente cotidiana, um fermento constante que corrói os alicerces podres deste mundo. É nas pequenas recusas e nas microafirmações que preparamos o terreno para a grande transformação. Ignorar o hoje em nome de um amanhã glorioso é cometer o mesmo erro dos que adiam a vida para um paraíso após a morte: é negar a própria possibilidade da mudança real.

Reverenciar o ontem não é um culto mortuário ao passado, mas um ato de reconhecimento e aprendizado. Os mártires de Chicago, os guerrilheiros da Ucrânia livre, as mulheres livres da Espanha, todos aqueles que ousaram desafiar o Leviatã em suas épocas, não nos legaram um roteiro a ser seguido, mas um espírito a ser encarnado. Suas lutas, seus erros e seus acertos são a matéria-prima da nossa própria práxis. Eles nos mostram que a história não é feita por forças invisíveis, mas pela ação corajosa de pessoas comuns. Honramos sua memória não com monumentos de pedra, mas com ações de carne e osso, continuando onde eles pararam, adaptando sua coragem às nossas próprias realidades.

É precisamente nesta resistência do presente, na recusa em pagar ainda mais caro em um ônibus, na ocupação de um terreno ocioso, na greve selvagem, no apoio mútuo durante uma crise, que encontramos os verdadeiros caminhos. A teoria desce das nuvens e ganha materialidade nas ruas. Descobrimos o que funciona e o que não funciona não em manuais dogmáticos, mas na prática coletiva. A rua vira nossa universidade, e a ação direta, nosso método de pesquisa. Cada confronto, cada espaço autogerido, cada estrutura horizontal que erguemos é um laboratório onde testamos e vivemos os princípios da sociedade futura, aqui e agora.

Mais importante ainda: é nessa prática quotidiana que encontramos nossos camaradas. Laços forjados na luta concreta são infinitamente mais sólidos do que aqueles construídos em discussões intermináveis em salas fechadas. A confiança nasce do apoio mútuo em um piquete, da solidariedade em uma manifestação, do trabalho coletivo em uma horta comunitária. Esses laços são o tecido conjuntivo da nova sociedade dentro da velha. São estes vínculos de afeto, confiança e propósito comum que formarão a base resiliente necessária para enfrentar os desafios maiores que virão, impedindo que nossas estruturas reproduzam a hierarquia e o autoritarismo que juramos destruir.

Portanto, a transformação rumo ao fim do capitalismo, do Estado e de todas as formas de dominação não será um evento singular, mas o acúmulo e a generalização dessas práticas quotidianas de resistência e autogestão. O amanhã livre não é um destino ao qual chegaremos, mas um caminho que construímos a cada passo dado hoje. A nova sociedade não será proclamada num dia, mas gestada todos os dias nos espaços que roubamos ao poder, nas relações que libertamos da lógica do mercado e do Estado.

Conclamo, pois, a que não esperemos por um momento messiânico. Que nossa vida seja nossa principal trincheira. Que cada gesto de insubordinação, por menor que pareça, e cada ato de solidariedade, por mais local que seja, seja um tijolo na construção do mundo novo. O amanhã será apenas o eco do hoje que ousamos viver em luta. É na resistência do presente que honramos o passado e forjamos o futuro. Porque a revolução não é um ponto no calendário; é um modo de existir.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em setembro de 2025.

O Século do Aço e Sangue: O Estado Brasileiro e a Ditadura do Massacre (1950-2000)

Se os séculos anteriores ensinaram que o Estado brasileiro é uma máquina de triturar pobres, o período de 1950 a 2000 provou que ele opera com eficiência industrial. Sob a fachada de “desenvolvimento” e “democracia”, a lógica do terror não só persistiu — robotizou-se. Ditaduras e governos “eleitos” compartilharam o mesmo manual: onde houver resistência, enviem tanques, caveirões e esquadrões da morte. Este é apenas um apanhado geral — a lista completa exigiria um livro de lágrimas e balas.

A década de 1950 já sangrava sob a máscara da democracia. Em diversas favelas, que nesta época se expandiam, pobres eram mortos todos os dias e enterrados em cemitérios clandestinos, sob as mãos dos grupos de extermínios. Mas foi em 1955, com o Massacre de Formoso, também conhecido como o Massacre de Trombas e Formoso, que ocorreu na região do norte de Goiás (hoje Tocantins), envolvendo conflitos entre camponeses organizados e fazendeiros apoiados por forças policiais e jagunços, que, entre vários mortos, um aviso foi dado: reforma agrária seria guerra.

Com a ditadura instalada em 1964, o terror virou ciência de Estado. O Massacre do Araguaia (1972-1975) sintetiza a barbárie: mais de 70 camponeses, guerrilheiros e indígenas executados e desaparecidos na selva. Nas cidades, a Operação Condor financiava caçadas transnacionais, enquanto a polícia fazia trabalho sujo. Em 1969, o Massacre da Chácara São Bento (SP): 15 presos políticos executados com tiros na nuca. Em 1973, o Massacre de Quintino (RJ): 7 favelados metralhados por policiais em uma casa.

O ápice da crueldade institucional veio em 2 de outubro de 1992: o Carandiru (SP). 111 presos assassinados pelo Batalhão de Choque — muitos executados a sangue frio, de cócoras, com requintes de crueldade. O Estado não escondia mais: o massacre era espetáculo midiático. Nem mesmo a “redemocratização” freou a engrenagem. Em 17 de abril de 1996, em Eldorado dos Carajás (PA), 21 sem-terra foram executados pela Polícia Militar. Corpos mutilados, crânios estourados por cassetetes. O governo de Fernando Henrique Cardoso chamou de “incidente”.

Este apanhado superficial (1950-2000) escancara, uma vez mais, a mentira da “exceção” ditatorial. Do AI-5 à Constituição de 1988, o terror foi regra. Se em 1700 os bandeirantes matavam por contratos de terra, em 2000 eram jagunços, PMs e juízes que assinavam sentenças de morte. O Estado — democrático ou não — manteve sua função histórica: garantir, pela bala e facão, que os de baixo jamais desafiem a pirâmide de sangue e privilégios. Os nomes mudam (Araguaia, Carandiru, Eldorado), mas a vítima é sempre a mesma: o povo. Quinhentos anos não bastaram. Seguiremos contando os mortos até que a última pedra dessa máquina de moer gente seja reduzida a pó. A memória é nossa trincheira.

Liberto Herrera*.

*Texto escrito e publicado em setembro de 2025.

Sob a Bota da República: O Estado Brasileiro e a continuidade da Ciência do Extermínio (1900-1950)

Se o século XIX terminou com o eco dos canhões em Canudos, o século XX inaugurou-se com o ranger de dentes da República contra seu próprio povo. De 1900 a 1950, a máquina estatal não apenas manteve a lógica do terror — aperfeiçoou-a com a frieza burocrática da modernidade. Sob a máscara do “progresso” e da “ordem pública”, chacinas datadas e documentadas provam: o Estado brasileiro é um carniceiro de fábrica, independente do regime que o vista.

A República Velha já escancarava suas garras. Em 1904, no Rio de Janeiro, o governo transformou a Revolta da Vacina em banho de sangue. Tropas dispararam contra moradores de cortiços que ousaram desafiar a invasão sanitária de suas casas. Centenas caíram nas ruas, sob o argumento cínico de “combater a barbárie”. Dois anos depois, em 1906, o massacre de trabalhadores rurais em São Paulo durante a greve dos colonos do café mostrou o pacto de sangue entre latifúndio e poder: sindicalistas foram metralhados a mando de fazendeiros, com a polícia servindo de escolta ao extermínio.

Nem mesmo a Revolução de 1930 interrompeu a engrenagem. Getúlio Vargas, ao chegar ao poder, logo revelou seu projeto: estatizar a violência. Em 1935, após a “Intentona Comunista”, o Estado desencadeou uma caça às bruxas. Prisões em massa, torturas no DOPS, e o massacre de presos políticos, incluso diversos anarquistas, no Campo de Concentração de Clevelândia (PA) em 1936 — onde dezenas foram executados na floresta — provaram que o “pai dos pobres” estava sedendo em triturar os rebeldes. Mas foi no sertão que a farsa desenvolvimentista mostrou seu rosto mais cruel: entre 1936 e 1937, o Arraial do Caldeirão, comunidade de camponeses cearenses liderada pelo beato José Lourenço, foi varrida do mapa. Aviação militar bombardeou casas de taipa, tanques esmagaram roçados, e 700 homens, mulheres e crianças foram degolados ou queimados vivos sob as ordens do interventor federal.

A Era Vargas aprofundou o terror como política de Estado. Em 1940, a Chacina de Pindaré (MA) executou 100 indígenas Timbiras que resistiam à invasão de seus territórios por madeireiros — uma repetição perversa das “guerras justas” coloniais, agora com certificado do SPI (Serviço de Proteção ao Índio). Até mesmo os trabalhadores urbanos, supostos beneficiários da CLT, sentiram o fio da navalha: em maio de 1945, semanas antes da queda de Vargas, a Chacina de São João do Meriti (RJ) deixou 12 operários têxteis mortos pela polícia durante greve por melhores salários. Sangue como moeda de troca para a “paz social”.

O período fecha com uma sinistra antecipação da ditadura que viria. Em 1950, na Ilha das Flores (RJ), 30 presos foram executados a tiros e facadas por agentes do Estado durante uma “revolta” encenada. O método — eliminação sumária de indesejáveis sob o pretexto da “segurança” — já era um protocolo. Cada década deste meio século teve seu massacre catalogado: 1904, 1906, 1936, 1940, 1945, 1950 (sendo certo que não citamos dezenas de outros…). A sequência não é acidente, é a assinatura do poder.

Esta continuidade histórica (1500-1950) esmaga qualquer ilusão reformista. Do pau-brasil ao aço das metralhadoras, o Estado brasileiro jamais alterou sua função essencial: esmagar corpos para proteger propriedades. Se no século XVI os bandeirantes agiam por alvarás, no XX eram ministros, generais e juízes que assinavam ordens de extermínio. A República, longe de ser ruptura, foi a herdeira direta da senzala e do pelourinho. Enquanto historiadores debatem “transições”, os mortos — de Caldeirão a Canudos, de Pindaré a Palmares — gritam a verdade: o terror é o DNA do Estado brasileiro. Desmantelar essa máquina não é questão política; é imperativo ético para qualquer um que ainda acredite na liberdade. O século XX apenas deu ao monstro colonial novas ferramentas. Cabe a nós, no século XXI, desligar sua fonte de energia.

Liberto Herrera*.

*Publicado em agosto de 2025.

A Máquina de Moer Gente: O Terror de Estado no Brasil Império (1700-1900)

Se o sangue colonial, como citado em nosso artigo anterior, secou como cimento, o Império e a República Nascente fizeram dele tinta para escrever novas leis de extermínio. De 1700 a 1900, o Estado brasileiro — agora travestido de monarquia “civilizada” — não abandonou o terror: refinou-o. Cada massacre datado nesta era é um elo na corrente de um projeto genocida que atravessa reinados, impérios e repúblicas. A violência não é acidente: é o motor da dominação.

Recordamos, por exemplo, o massacre dos Botocudos (1808-1830), que fora ordenado pelo próprio Príncipe Regente D. João VI, o extermínio em Minas Gerais e Espírito Santo usou fome, varíola e fuzis para “limpar” terras para o café. Tribos inteiras viram seus filhos trucidados sob o decreto imperial que pagava por cabeça indígena cortada.

Já em 25 de outubro de 1820 ocorre o massacre do Rodeador: 91 camponeses sebastianistas degolados em Pernambuco por tropas do governo. Seu crime? Sonhar com um reino sem reis.

Em 25 de janeiro de 1835 se dá a sangrenta repressão dos Malês: Após a revolta negra em Salvador, o Estado fuzilou 70 africanos e deportou 500. Corpos foram arrastados por cavalos nas ruas — espetáculo de terror para as senzalas.

O mito da “transição pacífica” da colônia ao império é uma mentira ensopada em sangue. Na Cabanagem (1835-1840), no Pará, 30 mil caboclos, indígenas e negros foram caçados como animais por tropas do Império. Mataram 30% da população regional. Oficiais do governo registravam: “É preciso varrer esta raça“. Não houve independência para os de baixo: só trocaram o chicote de Lisboa pelo do Rio de Janeiro.

E quando a República chegou, em 1889, trouxe consigo o mesmo veneno. O Massacre de Canudos (1893-1897) já fermentava nos campos da Bahia: 25 mil sertanejos exterminados pelo Exército “moderno”. Mas isso é história para outro capítulo — fiquemos com os números até 1900: cada década deste século teve seu genocídio catalogado. A máquina de moer gente não parou; acelerou com novas tecnologias de morte e a mesma velha desculpa: “progresso“, “ordem“, “civilização“.

Este registro histórico (1700-1900) desmonta a farsa da evolução política brasileira. O terror não mudou de dono — mudou de farda. Se no século XVI os bandeirantes agiam por contratos reais, no XIX eram as Forças Armadas do Império que assinavam ordens de extermínio. O Estado no Brasil, seja monárquico ou republicano, mantém a mesma função: patrocinar o massacre para proteger a propriedade, o latifúndio e o poder branco. Enquanto houver um único alicerce erguido sobre ossadas, nossa memória será arma. Aos anarquistas cabe lembrar: só se destrói o monstro conhecendo suas entranhas. E elas continuam expostas, de 1500 a 1900 — e além.

Liberto Herrera*.

*Artigo publicado em agosto de 2025.

Sangue como Cimento: O Terror de Estado na Forja do Brasil Colonial

O Brasil não nasceu — foi esquartejado à força. Desde os primeiros golpes do machado colonizador, o Estado revelou sua verdadeira face: um monstro devorador de povos, erguido sobre ossadas. Os massacres que mancharam este solo, e aqui, nesta primeira parte, nos limitaremos até por volta do ano de 1700, não foram “excessos” da colonização, mas seu método fundamental. Cada chacina foi um ato político: o Estado colonial, braço armado da Coroa e da Igreja, demonstrava aos explorados que a resistência seria afogada em sangue. O terror não era falha do sistema; era o sistema funcionando.

Vejam o genocídio indígena! Os Caetés trucidados em 1556 por “vingar” a morte de um bispo canibal — hipocrisia sagrada! — foram apenas o ensaio. A “guerra justa”, doutrina perversa abençoada por teólogos e reis, transformou o extermínio em política de Estado. Tupinambás, Guaianases, milhares de povos livres: caíam sob o fogo cruzado dos canhões e das cruzes. Entre 1500 e 1700, mais de mil povos foram reduzidos a 260. Isto não é tragédia; é projeto. O Estado, com sua máquina de moer corpos, limpou o terreno, como até hoje o faz, para o saque.

E os negros escravizados? Palmares grita a resposta. Quando Zumbi ergueu a liberdade nas serras, o Estado contratou bandidos — os bandeirantes — para esmagar o quilombo em 1694. O massacre foi meticuloso: crianças, velhos, guerreiros, todos convertidos em “lição” para quem ousasse sonhar com autonomia. Nas senzalas, a violência era rotina: revolta no Engenho Santana? 40 corpos pendurados como bandeiras do terror. O Estado não “combatia o crime”; fabricava o medo para manter a engrenagem da exploração.

Até os colonos pobres sentiram o punho de ferro. Cunhaú e Uruaçu (1645) provam: quando camponeses e indígenas se misturavam sob o mesmo teto de resistência, o Estado agiu com ferocidade calculada. 150 mortos em igrejas — degolados como animais — por suspeita de solidariedade aos holandeses. Não importava a bandeira: importava esmagar qualquer núcleo de autonomia popular. O poder, seja português ou flamengo, sempre escolheu o massacre como pedagogia.

Este pequeno recorte histórico lança luz para desnudar a mentira fundacional do Brasil: o Estado nunca foi “protetor”. Foi e é um carcereiro, um algoz, um incendiário de esperanças. Sua “ordem” nasceu do genocídio indígena, da tortura africana, do terror aplicado como agente de amálgama social. Enquanto os poderosos erguiam igrejas com o ouro roubado, o sangue dos massacres secava no chão como cimento. Reconhecer esta história não é nostalgia — é armar o espírito. A única resposta à violência de Estado, ontem e hoje, é a organização horizontal, a desobediência radical e a luta por um território sem amos, sem massacres, sem o espectro do Leviatã colonial que ainda nos assombra.

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em agosto de 2025.

Honremos Octavio Alberola com Luta e Revolução!

Camaradas, a morte do companheiro Octavio Alberola (1928-2025) não é apenas a partida de um velho militante, mas um chamado à ação para nossa geração. Seu legado nos ensina que o anarquismo não é teoria morta, mas prática incendiária contra o Capital e o Estado. Desde as ruas de San Sebastián até as prisões da França, Alberola mostrou que a ética libertária se constrói na luta direta, sem concessões. Hoje, quando o fascismo ressurge disfarçado de democracia, quando o imperialismo esmaga Gaza, quando o Estado brasileiro massacra favelas e o capital chinês escraviza trabalhadores, só há uma resposta possível: organização, rebeldia e ação. A memória do companheiro não se honra com discursos, mas com fogo revolucionário nas veias!

Alberola nos deixou uma lição clara: o anarquismo que não confronta o poder é traição. Ele não hesitou em atacar Franco, sequestrar fascistas ou desafiar prisões, porque sabia que a liberdade não se negocia. Enquanto reformistas pedem “paciência histórica” e partidos de esquerda burocratizam a revolta, nós, anarquistas, devemos radicalizar as ruas. Seja nas ocupações gregas contra a austeridade, nos levantes populares no Brasil, nas greves selvagens na China ou na resistência palestina, nossa tarefa é desmantelar o Estado onde ele se erguer. Alberola não fugiu da luta — e nós também não podemos!

A história não perdoará os covardes. O capitalismo avança com genocídios, ecocídios e precarização global, e só a ação direta pode detê-lo. Alberola sabia que explosivos simbólicos, greves gerais e solidariedade internacional eram armas mais poderosas que votos ou petições. No Brasil, onde milícias e latifúndio reinam, na Grécia onde a polícia espanca imigrantes, na China onde sindicatos são ilegais e em Gaza onde o sionismo pratica limpeza étnica, a resposta é a mesma: autogestão, apoio mútuo e insurreição. Não há “transição pacífica” possível — só a ruptura!

O reformismo é a morte da revolução. Alberola rejeitou a “Reconciliação Nacional” espanhola porque entendia que pactos com o Estado são derrotas. Hoje, quando falsas esquerdas nos pedem para confiar em governos “progressistas”, devemos lembrar: Lula prende anarquistas, o Syriza entregou a Grécia aos bancos, e na China o PCC esmaga qualquer dissidência. Nossa luta é contra todo poder, sem ilusões. Diversos exemplos históricos mostram o caminho: autodefesa, horizontalidade e internacionalismo. Alberola vive nesses combates!

Camaradas, o século XXI será anarquista ou não será. Octavio Alberola partiu, mas seu espírito incendia cada ocupação, cada barricada, cada gesto de rebeldia. Não o honraremos com velas, mas com pólvora. Não com lamentos, mas com organização popular nos bairros, nas fábricas, nos campos. Do Brasil à Palestina, ergamos a bandeira negra e vermelha da revolução social. Como Alberola gritou até o fim: “Ni Dios, ni Patrón, ni Estado!” A luta continua — e a vitória será nossa!

Liberto Herrera*.

*Texto publicado em agosto de 2025.